quinta-feira, dezembro 14, 2017

A Fox nas mãos da Disney

[ ROB DOBI / Variety ]
Vale a pena explicitar os elementos deste cartoon que está nas páginas do Variety: o herói de Deadpool, Homer Simpson e uma personagem de Avatar são agarrados por uma mão poderosa... Pormenor essencial: é a mão do Rato Mickey. Ou ainda: a Walt Disney Company comprou a 20th Century Fox por 52,4 mil milhões de dólares (44,5 mil milhões de euros).
Aliás, não nos precipitemos. Nada é simples, muito menos linear, numa manobra desta dimensão — e a imprensa especializada dos EUA, em particular o Variety e The Hollywood Reporter chamam a atenção para o tempo que as entidades reguladoras necessariamente levarão (talvez uns 18 meses) para avaliar até que ponto estarão ou não a ser cumpridas as leis que regulam a concorrência, nomeadamente no controle das chamadas plataformas de difusão.
Aliás, o que a Disney assim passa a controlar está longe de ser "apenas" os lendários estúdios da 20th Century Fox, a casa de estrelas clássicas como Henry Fonda, Gene Tierney ou Shirley Temple, e também de sucessos recentes como Sozinho em Casa (1990), Titanic (1997) ou Avatar (2009). Isto porque o que realmente foi comprado pela Disney é a maior parte das empresas do grupo 21st Century Fox, fundado por Rupert Murdoch em 2013, no qual encontramos, precisamente, os estúdios da 20th Century Fox e Blue Sky (animação), e ainda, por exemplo, a FX Networks, a National Geographic e mais de 300 canais internacionais — sem esquecer a plataforma Hulu, de video-on-demand (de que Murdoch detinha 30%), e a rede europeia de satélites Sky (39% do total — incluindo, a 100%, a Sky de Reino Unido, Alemanha e Itália).

* * * * *

Recorde-se que, para além dos estúdios de animação Pixar, a Disney controla também, por exemplo, grande parte da produção cinematográfica com chancela Marvel e ainda a saga Star Wars (desde a aquisição da Lucasfilm, em 2012). Digamos, para simplificar, que estão em jogo dois espaços fulcrais da produção audio-visual planetária:
1 — o sistema de estúdios de Hollywood (com um desses estúdios a integrar, pela primeira vez, um outro).
2 — uma parte muito significativa da rede global de distribuição dos produtos audiovisuais (incluindo canais televisivos e de streaming).
Objectivos? Em primeiríssimo lugar: desafiar o crescimento exponencial (difusão & promoção) da Netflix (mais de 100 milhões de assinantes em todo o mundo...). Depois: controlar uma parte (ainda) mais significativa dos calendários de produção e difusão de filmes com lançamentos planetários.
Efeito perverso? Levar o consumidor a perguntar quem comanda a mão com que, em casa, gere o comando do seu ecrã... 

>>> Notícia da possível aquisição da 21st Century Fox pela Disney na CNN (6 Dezembro). 


>>> Notícia do negócio consumado: Fox Business + ABC News (hoje).



O tempo segundo Richard Linklater

Bryan Cranston + Steve Carell + Laurence Fishburne
No novo filme de Richard Linklater, Derradeira Viagem, os traumas da guerra do Vietname cruzam-se com as memórias próximas da guerra do Iraque — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Dezembro), com o título 'Richard Linklater encena drama vivido por três veteranos do Vietname'.

É pena que os espectadores de cinema, sobretudo os mais jovens, tenham sido (des)educados por uma visão tecnicista e fútil do cinema americano e, em particular, de Hollywood. Lembremos, por isso, o mais rudimentar: quando citamos Hollywood, estamos a falar de uma das mais ricas, e também mais complexas, paisagens criativas de toda a história do cinema, regularmente prolongada e, de alguma maneira, reinventada pelos cineastas do presente. Richard Linklater é um desses cineastas e o seu novo filme, Derradeira Viagem, poderá servir de símbolo modelar do misto de fascínio e complexidade com que, ao longo das décadas, a América se tem contemplado, pensado e criticado através de muitos produtos de Hollywood.
Quem viu Boyhood: Momentos de uma Vida (2014), recordar-se-á do gosto de Linklater pela metódica observação das marcas do tempo nos seres humanos, nos seus corpos e pensamentos. Narrando a existência de uma personagem desde a infância até ao fim da adolescência, Boyhood consumava mesmo a aposta extrema de sobrepor o tempo da história ao tempo da produção: o filme foi rodado ao longo de 12 anos, registando as transformações dos seus actores, com natural destaque para o principal, o jovem Ellar Coltrane.
A saga do tempo inscreve-se também em Derradeira Viagem (título original: Last Flag Flying), ligando as memórias da guerra do Vietname com o envolvimento militar dos EUA no Iraque. A acção decorre em 2003, quando um veterano do Vietname (Steve Carell, confirmando as suas admiráveis qualidades muito para além do registo cómico) solicita a dois companheiros de armas, que já não vê há muitos anos (Bryan Cranston e Laurence Fishburne), que o acompanhem numa penosa tarefa: organizar o funeral do seu filho, morto em combate no Iraque.
Estamos muito longe de qualquer maniqueísmo de esquerda, demonizando tudo o que venha das multifacetadas expressões culturais do outro lado do oceano, ou de direita, celebrando os EUA como “polícias do planeta”. Derradeira Viagem é um filme de uma sociedade atravessada por muitas diferenças e contradições, sabendo expor os silêncios, cumplicidades e tensões com que se cruzam os valores colectivos e as expressões singulares de cada individualidade.
Linklater filma tudo isso aplicando as leis da mais depurada narrativa clássica, ainda e sempre conferindo ao trabalho dos actores uma função essencial (e não será uma surpresa se, pelo menos, Steve Carell conseguir chegar às nomeações para os Oscars). Baseado num romance de Darryl Ponicsan, Derradeira Viagem prolonga a história das três personagens que o escritor apresentara em The Last Detail, também adaptado ao cinema, por Hal Ashby em 1973, com Jack Nicholson no papel central (entre nós intitulado O Último Dever). Que é como quem diz: escrever a história é também reescrevê-la.

quarta-feira, dezembro 13, 2017

As imagens e o actual clima sexual

BALTHUS
Thérèse Dreaming (1938)
De que falamos quando falamos da percepção pública das imagens? Ou ainda: quando é que a vida pública das imagens bloqueia a vontade de conhecer? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Dezembro), com o título 'O actual clima sexual'.

Nestes tempos em que tudo se “globaliza”, sentimo-nos perturbados pelo que, estando longe de nós, afinal parece imiscuir-se no nosso quotidiano, baralhando evidências e certezas. Por exemplo, que está em jogo quando, dos EUA, surge uma petição contra a exposição de um quadro de Balthus (Thérèse Dreaming, 1938) nos salões do Metropolitan Museum of Art (MET)?
Sabemos que os protestos se “fundamentam” no facto de o quadro figurar uma jovem numa pose que contribui para uma visão “romântica” do voyeurismo, reduzindo as crianças a “objectos”. Os assinantes da petição (perto de 12 mil) argumentam que tal não se justifica tendo em conta “o actual clima em torno das agressões sexuais”.
REMBRANDT
Auto-retrato (1652)
Escusado será dizer que o episódio possui algum valor sintomático. E não apenas por causa do “actual clima” (refira-se que o MET recusou satisfazer a petição). Sobretudo porque as suas componentes são reveladoras de uma percepção muito frequente, porventura dominante, das imagens e da sua existência pública: em muitos circuitos de (des)informação, deixou de ter qualquer relevo o facto de haver uma história humana das imagens, das grutas de Lascaux às piscinas de David Hockney, passando pelos auto-retratos de Rembrandt — as imagens apenas existem em função dos efeitos “perniciosos” que alguém lhes possa atribuir.
Há em tudo isso uma renúncia existencial infinitamente mais perturbante que qualquer imagem. Porquê? Porque o que está em causa nada tem a ver com os jogos florais de “pureza” ou “impureza” que adquirem imediata visibilidade mediática. O que está em causa implica uma metódica desqualificação de qualquer gesto artístico, negando todas as componentes fantasmáticas da natureza humana, como se Shakespeare, Goya, Dostoyevski, Freud e Buñuel nunca tivessem existido — ou devessem ser interditos à nossa humaníssima vontade de conhecer.
Este é, afinal, o mesmo mundo em que o Big Brother e seus derivados televisivos todos os dias promovem uma visão grosseira, mecanicista e performativa da sexualidade (feminina e masculina), sem que se assista a grandes indignações da parte da classe política ou dos vigilantes dos bons costumes. No limite, podemos vir a ser forçados a renegar determinadas obras por causa das “associações” daquela mentalidade liofilizada. Alexandre Nevsky (1938), por exemplo — tendo em conta que o filme foi encomendado pelo líder comunista Josef Staline, responsável pelo genocídio de milhões de pessoas, devemos evitar qualquer contacto com a obra-prima de Sergei Eisenstein?
EISENSTEIN
Alexandre Nevsky (1938)

terça-feira, dezembro 12, 2017

"O VIH ainda anda por aí" — uma campanha

A mais recente campanha dos preservativos Masculan segue o lema "O VIH ainda anda por aí. Use preservativos para apoiar a luta global". Provém da Alemanha e foi concebida pela agência Mayd, de Hamburgo — didactismo, sofisticação, imagem e pensamento sobre a imagem.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

O Natal de Paddington

* PADDINGTON 2, de Paul King
[DN, 07-12-17]

Adaptado dos livros do inglês Michael Bond (1926-2017), o filme Paddington, lançado em 2014, era um brilhante exemplo de cinema de fábula, inteligentemente ligado ao imaginário dos “animais que falam”, além do mais testemunhando a sofisticação técnica de que os estúdios britânicos são capazes. O menos que se pode dizer da sequela é que mantém todos esses padrões, sabendo prolongar a história do ursinho Paddington, agora já perfeitamente integrado na família Brown que o acolheu e, mais do que isso, no respectivo bairro. Ben Whishaw volta a dar voz a Paddington, regressando também Sally Hawkins, Hugh Bonneville e Julie Walters. De qualquer modo, o destaque vai para o misto de exuberância e auto-ironia com que Hugh Grant interpreta o “mau da fita”, emprestando novos significados ao cor-de-rosa...

The Gift em câmara lenta

Niv Novak é um fotógrafo e artista videográfico de Melbourne que, através do projecto "Extension", se tem dedicado ao registo de imagens de alta definição, em câmara hiper-lenta, de performances de bailarinos de The Australian Ballet. Algumas dessas imagens servem de matéria ao novo e deslumbrante teledisco de The Gift, para a canção You Will Be Queen, do álbum Altar. Resultado: a certeza de que a lentidão é o mais veloz dos instrumentos criativos — nas imagens e também na música.

A aventura virtual de Spielberg

Sabíamos que Steven Spielberg tem um novo filme, The Post, que iremos encontrar, por certo, na corrida aos Oscars (4 Março 2018). Sabíamos também que esse filme surgiu no "intervalo" da longa produção de um outro, apresentado no Comic Con, em San Diego: Ready Player One, inspirado no romance de Ernest Cline. Na altura, foi divulgado o chamado "teaser trailer"; agora, surge o primeiro trailer oficial, convocando-nos para uma aventura decididamente virtual — 30 de Março nos EUA (um dia antes na maior parte dos países europeus, incluindo Portugal).

domingo, dezembro 10, 2017

Conflito [citação]

>>> Quando o Facebook finalmente admitiu que houve anúncios pagos por agentes russos em 2016, foi dito que o seu conteúdo envolvia sobretudo "mensagens sociais e políticas divisionistas". Funcionavam como amplificadores de contestação, gasolina deitada para os fogos em torno de Deus, armas, raça, direitos LGBT, imigração. E os anúncios visavam ambos os lados: o objectivo não era tanto a conversão como a promoção do conflito como um fim em si mesmo.

NANCY GIBBS
in 'How America became so divided'
in Time, 28-11-17

"O Quadrado" domina
Prémios Europeus de Cinema

Com distinções em seis categorias, incluindo melhor filme e melhor comédia de 2017, O Quadrado, de Ruben Östlund, foi o principal vencedor da 30ª edição dos prémios da Academia Europeia de Cinema — recorde-se que o filme já arrebatara a Palma de Ouro de Cannes, sendo também o candidato sueco a uma nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

FILME
O Quadrado, de Ruben Östlund (Suécia)

COMÉDIA
O Quadrado, de Ruben Östlund

REVELAÇÃO (Prémio FIPRESCI)
Lady Macbeth, de William Oldroyd (Reino Unido)

DOCUMENTÁRIO
Communion, de Anna Zamecka (Polónia)

FILME DE ANIMAÇÃO
A Paixão de Van Gogh, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman (Polónia/Reino Unido)

CURTA-METRAGEM
Timecode, de Juanjo Giménez (Espanha)

REALIZAÇÃO
Ruben Östlund, por O Quadrado

ACTRIZ
Alexandra Borbély, em Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi (Hungria)

ACTOR
Claes Bang, em O Quadrado

FOTOGRAFIA (Prémio Carlo Di Palma)
Michail Krichman, por Loveless, de Andrey Zvyagintsev (Rússia)

MONTAGEM
Robin Campillo, por 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo (França)

CENOGRAFIA
Josefin Åsberg, por O Quadrado

GUARDA-ROUPA
Katarzyna Lewińska, por Spoor, de Agnieska Holland e Kasia Adamik (Polónia)

CARACTERIZAÇÃO
Leendert van Nimwegen, por Brimstone - Castigo, de Martin Koolhoven (Holanda)

MÚSICA
Evgueni e Sacha Galperine, por Loveless

SOM
Oriol Tarragó, por Sete Minutos Depois da Meia-Noite, de J. A. Bayona (Espanha)

PRÉMIO DE CARREIRA
Aleksandr Sokurov (Rússia)

FIGURA INTERNACIONAL
Julie Delpy (França)

CO-PRODUÇÃO (Prémio Eurimages)
Cedomir Kolar (França)

PRÉMIO DO PÚBLICO/filme europeu do ano
"Stefan Zweig: Adeus, Europa", de Maria Schrader (Alemanha)

Son Lux — do lado do sonho

Son Lux, alter-ego artístico do músico Ryan Lott (Denver, Colorado) vai lançar um novo álbum, quinto da sua discografia: chama-se Brighter Wounds e estará nas lojas a 9 de Fevereiro de 2018. Entretanto, somos presenteados com um primeiro single, Dream State, extraordinário exercício de montagem e remontagem sonora, num universo de superfícies ásperas, paradoxalmente capazes de acolher a transparência da voz — como o lyric video confirma, esta é uma canção em que as memórias são tanto mais verdadeiras quanto estão do lado do sonho.

"Sociologia" e cinema português

Dois filmes portugueses encenam histórias de juventude, lutando por se colarem a algo de concreto do seu/nosso tempo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (3 Dezembro), com o título 'Filmes e espectadores portugueses'.

Para além das suas diferenças internas, o cinema português sempre suscitou uma curiosa pergunta “sociológica”: até que ponto os filmes reflectem temas e problemas do próprio tempo em que foram gerados? Com a estreia simultânea de O Fim da Inocência, de Joaquim Leitão, e Verão Danado, de Pedro Cabeleira, o mínimo que se pode dizer é que somos mobilizados para uma mesma evidência, absolutamente contemporânea: o consumo de drogas pela juventude.
Claro que a própria formulação temática é discutível: que realidade recobrimos, ou julgamos definir, através dessa generalização simplista que é a palavra “juventude”? Acima de tudo, importa não exigir aos filmes que se definam como um daqueles debates televisivos, mais ou menos gritados, em que não se sai de abstracções pueris, irremediavelmente equívocas. Infelizmente, o programa narrativo de qualquer um dos novos filmes não propõe nada de muito consistente.
O imaginário simbólico de O Fim da Inocência provém mesmo das matrizes correntes de alguma ficção televisiva, de natureza “novelesca” (integrando, aliás, alguns dos seus rostos mais típicos). Estamos perante uma ficção de estereótipos, em que, desde a classe social ao perfil psicológico, cada personagem é quase sempre um “tipo”, não uma pessoa.
Verão Danado tenta contrariar esse modelo através da injecção de alguma pulsação de “reportagem”, como se a acumulação redundante de cenas idênticas correspondesse a algum tipo de intensificação dramática. Dir-se-ia que se confunde a repetição “documental” de situações com a criação de uma consistente estrutura narrativa — problema tanto maior quanto o trabalho específico dos actores parece procurar apenas uma esquemática sensação de “improviso”.
Escusado será dizer que estamos perante dois filmes que importa ver e pensar. Muito para além de qualquer dicotomia fácil (“bom/mau”), os filmes existem como acontecimentos do presente que com eles partilhamos: de forma reflectida ou reflexiva, vêm inscrever-se numa dinâmica social e cultural a que todos pertencemos (Verão Danado está mesmo a conseguir um significativo impacto internacional, tendo recebido uma menção especial na secção “Cineastas do presente” do Festival de Locarno).
Dir-se-ia que O Fim da Inocência e Verão Danado existem no cruzamento de uma vontade e um bloqueio: vontade de olhar o mundo (português) à sua volta, bloqueio de projectos a que falta um conceito sólido de narrativa. No fundo, enfrentam a mesma questão: como estabelecer alguma relação com os espectadores?

sábado, dezembro 09, 2017

"Desespero global" [citação]

[FOTO: Jake Walters]
>>> O seu novo álbum chama-se Low in High School. Está preocupado com os jovens de hoje?
Sim. Com líderes mundiais como Problema Trump e Theresa May, devemos perguntar-nos se, de facto, a geração universitária tem cabeça. Este desespero global só pode esmagar os jovens... e talvez seja essa a intenção?

MORRISSEY
Entrevista a Rob Sheffield
in Rolling Stone, 08-12-17

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Björk: "a utopia é aqui"

Animal ou alien? Depois de The Gate e Blissing Me, Björk continua a convocar-nos para paisagens utópicas, translúcidas e enigmáticas, de um primitivismo que se quer também futurista. Como é sabido, o novíssimo álbum (nono da discografia) chama-se Utopia — eis é a canção-título, em teledisco assinado por Warren Du Preez e Nick Thornton Jones. Mensagem linear: "a utopia é aqui". 

Bird species never seen or heard before
The first flute carved from the first fauna

Utopia
It’s not elsewhere
Let's purify

You assigned me to protect our lantern
To be intentional about the light

Utopia
It isn't elsewhere
It’s here

My instinct has been shouting at me for years
Saying, "Let’s get out of here!"
Huge toxic tumour bulging underneath the ground here
Purify, purify, purify, purify toxicity

Abel Ferrara, um americano na Europa (2/3)

Abel Ferrara em Piazza Vittorio
Abel Ferrara regressou a Portugal para, no LEFFEST, apresentar os seus dois filmes mais recentes: Alive in France e Piazza Vittorio — esta entrevista foi publicada no Diário de Notícias (27 Novembro), com o título '“Na Europa encontro compaixão e um sentido da cultura"'.

[ 1 ]

[Elsinor]

Há cada vez mais filmes que as pessoas vêem “streaming”.
Absolutamente.

Será que se está a perder algo da relação clássica com o cinema?
Tenho sentimentos contraditórios. Não creio que seja uma questão de perda. E é verdade que, mesmo na Internet, se pode obter uma boa qualidade de imagem. No fundo, a questão é saber como é que o trabalho artístico pode continuar — como é que os fulanos que fazem filmes podem... continuar a fazer filmes. Porque, por vezes, as pessoas andam a roubar esses filmes que custaram dinheiro. E, no entanto, a Internet podia ser um grande elo ligação dos artistas com os espectadores, numa partilha planetária.

No seu caso, como é que vê filmes?
Quando venho a festivais, tento ver filmes. Vejo-os também no meu computador e, como dou aulas, vejo muitos filmes com os meus alunos — aproveito todas as oportunidades.

Recentemente, fez algumas boas descobertas?
Sim, sem dúvida. Serão, sobretudo, filmes que pouca gente viu, coisas como uma curta de 10 minutos feita por um miúdo de 19 anos que passou, algures, num festival... E tenho alunos que são mesmo muito bons. Além do mais, não vejo televisão, pelo que não estou a seguir todas essas séries que agora se fazem. Na verdade, o que faço mais é ler — faça-me perguntas sobre livros.

O que é que anda a ler?
Solzhenitsyn. Svetlana Alexievich — o livro dela sobre Chernobyl é qualquer coisa de poderoso.

E o seu novo filme, Piazza Vittorio, como é que o apresentaria?
É um documentário sobre a zona de Roma em que vivo: a Piazza Vittorio, perto de Santa Maria Maggiore, onde, em 1948, Vittorio De Sica filmou Ladrões de Bicicletas. É uma zona multi-étnica, um pouco à maneira de Nova Iorque, com muitos emigrantes, especialmente agora, vindos de África e da Europa de Leste, muitos deles vítimas de guerras terríveis. Digamos que tento fazer um pouco aquilo que faz Svetlana Alexievich: dar a palavra às pessoas, deixá-las falar.

[Vittorio De Sica]
Quer isso dizer também que decidiu viver na Europa?
Vim cá fazer um filme, encontrei Christina, tivemos um bebé (tenho uma menina com dois anos e meio) — a minha escolha é a Europa. Não compreendo o que está a acontecer nos EUA, especialmente em Nova Iorque, a “cidade que nunca dorme”, etc. Talvez tenha chegado ao meu limite, talvez precisasse de alguma mudança. É certo que ainda o mês passado estive lá a filmar... O ar tornou-se insuportável, a comida é péssima, os preços estão completamente fora de controle, a cidade foi entregue aos ricos, é uma espécie de recreio para os que querem roubar dinheiro ao mundo todo — está tudo bem se se tiver uma carrada de dinheiro, mas não é essa a minha cena.

Será que a “sua” Nova Iorque já não existe?
Nova Iorque muda todos os dias. Além do mais, eu sou do Bronx, que é outra Nova Iorque...

E o que é que encontra de tão especial na Europa?
Encontro compaixão, um sentido da cultura... As coisas aqui têm dois ou três mil anos; o meu país tem uma história de 300 ou 400 anos, está ainda a descobrir o que é ou pode ser. Aqui, não é a procura do lucro que comanda: encontro respeito pela vida, pelos lugares, de umas pessoas pelas outras. Em última instância, tem a ver com o modo como se coloca luz numa sala — quem iluminou esta sala fê-lo respeitando as pessoas que se vão aqui sentar.

quinta-feira, dezembro 07, 2017

Que está a acontecer aos U2?

Subitamente, Bono aparece de megafone no Saturday Night Live [video], liderando os U2 em American Soul, uma das novas canções da banda — e tudo aquilo parece, não apenas musicalmente débil, mas inapelavelmente falso... Que está a acontecer aos U2? Porque é que toda a expectativa positiva em relação ao novo álbum, Songs of Experience, se desfaz perante a académica "revisão da matéria dada" que nos é proposta?
Dir-se-ia que cada uma das canções do álbum, da balada à celebração épica, não consegue aguentar a comparação com outros temas que, ao longo das décadas, os U2 assinaram. Na sua ambição de hino de estádio (“You! Are! Rock’n’roll!”) não é America Soul uma triste variação da energia musical de Where the Streets Have No Name, além do mais com uma imaginação poética claramente menor? E a singeleza de Summer of Love não está a anos-luz da vibração interior de digressões intimistas como One ou The Fly?
É bem verdade que Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. não podem andar toda a vida a tentar refazer Achtung Baby (1991). Aliás, não é esse o problema e ninguém irá proclamar que, de repente, o colectivo perdeu talento e know how. O problema é que, depois da longa e insólita gestação que se seguiu a Songs of Innocence (2014), Songs of Experience parece esgotar-se num grito de desespero: "Reparem que ainda somos os U2..." Não era preciso avisarem-nos — só esperamos que o sejam mesmo, em vez de imitarem aquilo que o marketing definiu como a sua imagem de marca.


>>> Site oficial dos U2.

A "democracia" do IMDb



A "democracia" do IMDb é um contínuo método de apagamento da memória. Em nome da "abertura" que transforma qualquer cidadão em "historiador" do cinema (aliás, repetindo o método — ou a falta de método — que marca muitos espaços informativos online), milhões de cidadãos são todos os instantes confrontados com uma hierarquização numérica dos filmes que ignora tudo o que possa ser contexto, linguagem ou narrativa.
Exemplo com que deparei recentemente: enquanto muitos "blockbusters" recentes são consagrados com médias (?) acima dos 7,5 pontos, há preciosidades esmagadas por classificações abaixo, por vezes muito abaixo, de tal valor — Homem de Ferro (2008) segue alegremente com 7,9, enquanto o clássico Cheyenne Autumn/O Grande Combate (1964), de John Ford, fica pelos 6,8...
Se recordarmos que Cheyenne Autumn é, não apenas um título nuclear na vaga de "westerns" críticos da década de 60, mas uma obra indispensável para compreender as convulsões que marcam o fim do período clássico de Hollywood, corremos o risco de ofender as "maiorias" que o IMDb promove — a não ser que o conhecimento tenha passado a ser uma mera questão de acumulação aritmética.
Dir-se-á: Homem de Ferro recebeu votos de 763.694 visitantes do IMDb, enquanto o filme de Ford só interessou 4117 espectadores... et pour cause.

quarta-feira, dezembro 06, 2017

Johnny Hallyday (1943 - 2017)

Pioneiro entre os pioneiros, é a figura mítica, por excelência, do rock'n'roll francês: Johnny Hallyday morreu no dia 6 de Dezembro, na sua casa de Marnes-la-Coquette, vítima de cancro — contava 74 anos.
Há uma ironia amarga no facto de Johnny Hallyday ser muitas vezes referido como o “Elvis Presley francês”. Não que o rótulo lhe assente mal. Bem pelo contrário. Afinal de contas, para além do carácter genuíno das suas canções, os números da sua carreira são impressionantes: uma discografia com meia centena de álbuns, vendas globais de 110 milhões de discos, 40 discos de ouro... O certo é que ele foi sempre mais francês que universal, com um reconhecimento simbólico que nunca se traduziu numa presença forte na maior parte dos mercados estrangeiros.
Salut les Copains!
De seu nome verdadeiro Jean-Philippe Smet, viria a ser um dos emblemas da geração a que também pertencem Jacques Dutronc et Eddy Mitchell — os três, aliás, evocaram a partir de 2014 o seu passado comum, apresentando-se em palco como Les Vieilles Canailles. Escolheu o apelido Halliday, de um familiar americano, Lee Halliday, que sempre encarou como o seu “pai” artístico — na edição do seu primeiro 45 rotações, em Janeiro de 1960, um erro fez com que surgisse identificado como “Hallyday”, nome artístico que acabou por adoptar.
Na década de 60, consolidou uma imensa popularidade através de singles como Viens Danser le Twist ou Retiens la Nuit e diversos álbuns, incluindo Salut les Copains! (1962) e Johnny Hallyday Olympia 64 (1964). O fulgor das performances ao vivo cedo se tornou uma das suas imagens de marca, além do mais revelando uma crescente abertura a variantes country, soul ou R&B que viriam a marcar as décadas seguintes da sua carreira.
As exuberantes encenações em grandes palcos, pavilhões e estádios, são elementos fulcrais dos anos de maturidade, reflectindo-se em álbuns como Johnny Hallyday Story - Palais des Sports (1976), Johnny Hallyday au Zénith (1984) ou Stade de France 98 Johnny Allume le Feu (1998). O seu derradeiro álbum, ainda referente a uma digressão, Rester Vivant Tour, surgiu em 2016. Recentemente, tinha patrocinado On A Tous Quelque Chose de Johnny, antologia de alguns dos seus grandes sucessos por outros intérpretes.
Sobretudo nos anos 60, foi também uma vedeta do cinema, através de títulos como Donde Vens Tu, Johnny? (Noël Howard, 1963) ou À Procura de um Ídolo (Michel Boisrond, 1964), que reflectiam a sua condição de estrela rock. De qualquer modo, a grande referência da sua filmografia é Détective (1985), de Jean-Luc Godard, homenagem amarga e poética aos velhos filmes “noir” em que contracenava com a então sua companheira, Nathalie Baye (nunca estreado entre nós, foi editado em DVD como Mafia em Paris). Em 1996, o Presidente Jacques Chirac atribuiu-lhe o grau de Cavaleiro da Legião de Honra da República Francesa.

>>> Notícia da morte de Johnny Hallyday no canal France 24.


>>> Estreia televisiva de Johnny Hallyday, no programa 'École des Vedettes' (18 Abril 1960).


>>> Com Michel Polnareff, ensaio no Palais des Sports (Paris), em 1971.


>>> Quelque Chose de Tennessee, canção do álbum Rock'n'Roll Attitude (1985).


>>> Cadillac, tema-título do álbum de 1989.


>>> Video promocional de On A Tous Quelque Chose de Johnny.


>>> Trailer de Détective.


>>> Obituário: Le Monde + New York Times + Les Inrockuptibles.
>>> Biografia de Johnny Hallyday na Radio France Internationale.
>>> Página de Johnny Hallyday no AllMusic.

Jean d'Ormesson (1925 - 2017)

[FOTO: Le Monde]
Escritor e filósofo, analista da actualidade política, o francês Jean d'Ormesson faleceu no dia 5 de Dezembro, em Neuilly-sur-Seine — contava 92 anos.
Nascido numa família ligada à diplomacia francesa — o pai, André Lefèvre, foi embaixador no Brasil —, foi professor, funcionário da UNESCO (Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas), criador, com Roger Caillois, da revista de ciências humanas Diogène, director do jornal Le Figaro (1974-77). A sua vasta obra literária, ao mesmo tempo analítica e romanesca, sempre com importantes componentes auto-biográficas, iniciou-se com L'Amour Est un Plaisir (1956), prolongando-se através de mais de duas dezenas de volumes até Un Jour Je m'en Irai sans en Avoir tout Dit (2013) e Dieu, les Affaires et Nous (2015). Como sugere um dos seus títulos mais célebres, Presque Rien sur Presque Tout (1995), nunca desistiu de cultivar uma visão multifacetada dos comportamentos humanos, resistindo a encerrar-se num qualquer rótulo de "direita" ou "esquerda". Definindo-se como alguém que não era "de modo algum" feminista, desempenhou um papel fundamental na entrada de Marguerite Yourcenar na Academia Francesa. Nunca abdicando dos valores primordiais da palavra e da escrita, disse um dia que "enquanto houver livros, pessoas para os escrever e pessoas para os ler, nem tudo estará perdido neste mundo que, apesar das suas tristezas e horrores, tanto amámos".

>>> Jean d'Ormesson falando da condição feminina [video Le Monde] + breve resenha biográfica [video Le Point].




>>> Obituário no jornal Le Figaro.

"Metropolis", nº 55

A edição nº 55 da revista Metropolis já está disponível online. A nova produção da Pixar, Coco, é tema de capa, a par da abordagem de outros lançamentos recentes como Liga da Justiça e A Montanha entre Nós.
Destaque para dois novos filmes portugueses, O Fim da Inocência, de Joaquim Leitão, e Verão Danado, de Pedro Cabeleira, incluindo entrevistas com os realizadores; nos temas televisivos, surge a nova produção de Steven Soderbergh, Godless, a par de uma evocação da filmografia do realizador. Jessica Chastain é também um dos nomes em evidência através da abordagem de Molly's Game, título de estreia na realização de Aaron Sorkin.

>>> Site da Metropolis.

Shashi Kapoor (1938 - 2017)

[The Hindustan Times]
Com uma carreira de mais de uma centena e meia de títulos, foi uma das grandes estrelas do cinema indiano: Shashi Kapoor faleceu no dia 4 de Dezembro, em Mumbai, na sequência de uma prolongada cirrose hepática — contava 79 anos.
Pertencia a uma lendária família do espectáculo e do cinema de Bollywood. As suas primeiras experiências de representação ocorreram nas digressões da companhia teatral do seu pai, Prithviraj Kapoor (1906-1972), pioneiro do cinema hindi. O filme Dharmputra (1961), de Yash Chopra, seria um momento decisivo de lançamento de uma carreira cinematográfica repartida por diversos géneros, do drama histórico ao musical. Os pares que formou com actrizes como Raakhee Gulzar, Sharmila Tagore e Zeenat Aman foram especialmente populares nos anos 60, 70 e 80, transformando-o num dos mais bem pagos intérpretes da produção hindi. O seu sucesso criou-lhe oportunidades no cinema de língua inglesa, tendo surgido em vários títulos da dupla Ismail Merchant/James Ivory (produtor e realizador, respectivamente), entre os quais Shakespeare-Wallah (1965) e Heat and Dust/Verão Indiano (1983). Na sua longa lista de distinções, inclui-se o Dadasaheb Phalke Award, o mais importante prémio honorário do cinema na Índia, atribuído em 2015.

>>> Uma canção do filme Aa Gale Lag Jaa (1973), de Manmohan Desai, com Shashi Kapoor e Sharmila Tagore + trailer de Verão Indiano.




>>> Obituário na BBC.

terça-feira, dezembro 05, 2017

A caminho dos OSCARS
— críticos de Los Angeles
consagram "Call Me By Your Name"


Os críticos da costa Oeste do EUA, mais precisamente a Los Angeles Film Critics Association (LAFCA), também já escolheram, a 3 de Dezembro, os melhores de 2017, consagrando Call Me By Your Name como filme do ano e Guillermo del Toro, por The Shape of Water, como melhor realizador. Eis os principais vencedores:

* Filme — CALL ME BY YOUR NAME, de Luca Guadagnino
* Realizador — Guillermo del Toro, por THE SHAPE OF WATER [trailer]
* Actor — Timothée Chalamet, CALL ME BY YOUR NAME
* Actriz — Sally Hawkins, THE SHAPE OF WATER
* Filme de animação — THE BREADWINNER , de Nora Twomey
* Documentário — VISAGES, VILLAGES, de Agnès Varda
* Filme estrangeiro (ex-aequo) — 120 BATIMENTOS POR MINUTO, de Robin Campillo, e LOVELESS, de Andrey Zvyagintsev

>>> Lista completa de vencedores (incluindo segundos classificados) no site da LAFCA.

segunda-feira, dezembro 04, 2017

Mundo Jurássico, 2018

Que define, hoje em dia, um "blockbuster"? Uma avassaladora e instantânea ocupação do mercado das salas. E antes disso? Pois bem, uma campanha agressiva e (muito) antecipada.
Observe-se a actualidade: Jurassic World: Fallen Kingdom tem estreia americana agendada para 22 de Junho de 2018 e a sua novidade mais recente é, ou melhor, será o primeiro trailer. Quando? Quinta-feira, dia 7 — antes, o chamado teaser aí está com os seus metódicos e sugestivos 15 segundos pensados pelos especialistas do marketing.


Em Portugal, como na maior parte dos mercados europeus, a estreia ocorrerá cerca de duas semanas antes, a 7 de Junho. Por cá, o título será Mundo Jurássico: Reino Caído. Irremediável ironia: por vezes, os autores de títulos parecem esforçar-se por se afastar o mais possível dos originais... Desta vez, a expressão "fallen kingdom" suscitava alguma prudência, mas não, optou-se pela facilidade literal: Reino Caído??? Não valeria a pena arriscar alguma agilidade, eventualmente usando qualquer coisa como "A Queda de um Reino"? Mesmo não invocando a herança de Camilo.

A IMAGEM: Lucrezia Ganazzoli, 2017

LUCREZIA GANAZZOLI
Ling Chen
IO Donna, Nov. 2017

Twin Peaks & David Lynch
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [16 Dez.]

A nova série Twin Peaks veio relançar um clássico da televisão, reabrindo caminhos para percorrermos o mundo fascinante de David Lynch — no próximo SOUND + VISION Magazine, na FNAC, propomos uma viagem, com imagens e música, pelos seus temas, personagens e enigmas.

* FNAC: Chiado, 16 Dezembro (18h30)

domingo, dezembro 03, 2017

Kate Winslet + Idris Elba

O palestiniano Hany Abu-Assad foi aos EUA fazer um filme com Kate Winslet e Idris Elba — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 Novembro), com o título 'Kate Winslet e Idris Elba protagonizam drama “fora de moda"'.

Na sua objectividade, eis uma descoberta cinematográfica que envolve uma inesperada ironia. Assim, Hany Abu-Assad é um cineasta palestiniano (n. 1961) que assinou alguns títulos magníficos sobre a complexidade das relações entre palestinianos e israelitas, com destaque para Paradise Now (2005), título que entrou na história como o primeiro representante da Palestina a obter uma nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Agora, encontramo-lo a dirigir A Montanha entre Nós, objecto tanto mais desconcertante quanto se trata de uma produção tipicamente americana, com chancela de distribuição de um grande estúdio (20th Century Fox).
Dir-se-ia um daqueles filmes de realismo ambíguo, ambiguamente romântico, típico da produção de Hollywood nas décadas de 1930/40, centrado na energia de um par mais ou menos insólito — por exemplo, Claudette Colbert e Clark Gable. Agora, Kate Winslet e Idris Elba interpretam dois desconhecidos que se cruzam na agitação de um aeroporto, enfrentando a mesma urgência: face ao adiamento do seu voo, decidem alugar uma pequena avioneta para chegarem a tempo ao seu destino; têm um acidente e ficam isolados numa zona de altas montanhas cobertas de neve...
Repare-se: referir estas peripécias não contraria o princípio básico segundo o qual um texto deste teor não deve revelar demasiadas peripécias do filme, garantindo ao leitor/espectador a possibilidade de ser ele a descobri-las. De facto, todas estas informações estão no trailer de A Montanha entre Nós, sinal de que o filme opta por se concentrar na dramática experiência de sobrevivência dos protagonistas.
Nesta perspectiva, a imponência da paisagem, muito para além de qualquer efeito banalmente “decorativo”, surge como fundamental elemento dramático — destaca-se, aliás, o magnífico trabalho de imagem de Mandy Walker, directora de fotografia australiana que já trabalhou, por exemplo, com Baz Luhrmann, em Austrália (2008), ou Catherine Hardwicke, em A Rapariga do Capuz Vermelho (2011).
Hany Abu-Assad sabe manter o seu filme num tom de aventura contraditória — o cenário é imponente, quase místico, mas as necessidades imediatas das personagens são as mais básicas — que não abdica de jogar todos os trunfos emocionais deste modelo de narrativa, aliás devidamente sustentados pela competência de Kate Winslet e Idris Elba. O resultado é um filme serenamente atípico, “fora de moda”, escolhendo as leis de uma dramaturgia capaz de dispensar as facilidades dos efeitos especiais, mantendo-se fiel ao misto de grandiosidade e irrisão que pode definir a dimensão humana.

A caminho dos OSCARS
— "Lady Bird" é o melhor filme do ano
para críticos de Nova Iorque

[Governor Awards]  [Gotham Awards]

A associação de críticos de cinema de Nova Iorque, New York Film Critics Circle (NYFCC), atribuíu os seus prémios anuais no dia 30 de Novembro, consagrando Lady Bird, de Greta Gerwig, e a sua actriz principal Saoirse Ronan. Eis alguns dos premiados:

* Filme — LADY BIRD, de Greta Gerwig
* Realizador — Sean Baker, THE FLORIDA PROJECT [trailer]
* Actor — Timothée Chalamet, CALL ME BY YOUR NAME
* Actriz — Saoirse Ronan, LADY BIRD
* Primeiro filme — GET OUT, de Jordan Peele
* Filme de animação — COCO, de Lee Unkrich e Adrian Molina
* Documentário — VISAGES, VILLAGES, de Agnès Varda
* Filme estrangeiro — 120 BATIMENTOS POR MINUTO, de Robin Campillo

>>> Lista completa de vencedores no site do NYFCC.

Harry Dean Stanton — a despedida

* LUCKY, de John Carroll Lynch
[DN, 30-11-17]

Falecido em Setembro deste ano, contava 91 anos, Harry Dean Stanton deixou-nos esta bela despedida em forma de filme. Não é, de modo algum, um objecto auto-biográfico, antes uma narrativa em que John Carroll Lynch (também um actor) se estreia na realização para filmar o seu amigo como uma espécie de mensageiro solitário de um mundo de ideias e sentimentos em que o cinema não se distinguia pela acumulação de efeitos especiais, antes pela tocante vibração humana. Harry Dean Stanton interpreta um velho habitante de uma cidadezinha esquecida dos EUA, deambulando pelos lugares, alegrias e medos que definem o seu envelhecimento. Nesta metódica celebração dos gestos e das palavras, atenção à participação de David Lynch como intérprete, dir-se-ia reproduzindo a instabilidade entre real e surreal de que ele é mestre.

sábado, dezembro 02, 2017

Gainsbourg — Charlotte na casa de Serge

Reminiscências, sonhos e medos. Corpos e fantasmas. Ecrãs. Charlotte Gainsbourg apresenta mais um teledisco do seu álbum Rest. O tom é mais pessoal do que nunca, e não apenas porque ela própria assume a realização: também porque se trata de explorar os espaços da casa do pai, Serge Gainsbourg (1928-1991), preservada praticamente como quando ele a habitou — íntimo e pudico.

J'ai touché un visage de cire
Qui certainement t'a fait fuir
Tu jambe nue sortait du drap
Sans pudeur et le sang froid
Au coin de la bouche, une trainée
Tu n'aurais pas aimé
J'étais allongée contre toi
J'ai pris ce droit, sans foi

My feet are hovering above ground
Ready to follow
My mouth is whispering in raptures
Celebrating you

Laisse-moi donc imaginer
Que j'étais seule à t'aimer
D'un amour pur de fille chérie
Pauvre pantin transie
Où est parti mon baiser
Quand le coffre s'est fermé
J'entends toujours battre les clous
Toi perdu, moi éperdue

My feet are hovering above ground
Ready to follow
My mouth is whispering in raptures
Celebrating you
Shall we dream happy ever after?
Pretend we do
Playing a game of never after
Lying with you

Anthony Harvey (1930 - 2017)

Anthony Harvey dirige Katharine Hepburn
— rodagem de O Leão no Inverno
Profissional da indústria cinematográfica britânica, distinguiu-se como montador antes de assumir as tarefas de realização: Anthony Harvey faleceu no dia 23 de Novembro, em Nova Iorque — contava 87 anos.
Centrado nos dramas da sucessão de Henrique II, O Leão no Inverno (1968) é o seu título mais famoso, tendo-lhe valido a sua única nomeação para o Oscar de realização — o filme seria distinguido com três estatuetas douradas, incluindo a de melhor actriz para Katharine Hepburn, num caso raro de ex-aequo, com Barbra Streisand, em Funny Girl.
Começou na montagem, com Private's Progress (1956), abordagem cómica de um episódio da Segunda Guerra Mundial com direcção de John Boulting. Nessa área, os seus trabalhos mais importantes ocorreram em dois títulos de Stanley Kubrick, Lolita (1962) e Doutor Estranhoamor (1964), e ainda em O Espião Que Saiu do Frio (1965), de Martin Ritt; foi também o montador de Dutchman (1966), drama com Shirley Knight e Al Freeman Jr. que seria a sua estreia na realização. Grace Quigley/Assassino à Força (1984), comédia policial com Katharine Hepburn e Nick Nolte, seria o seu derradeiro filme para cinema; dirigiu ainda Será Isto o Amor? (1994), telefilme com Anthony Quinn e, de novo, Hepburn.

>>> Genérico de Dr. Estranhoamor + entrega dos Oscars, ex-aequo, a Katharine Hepburn (O Leão no Inverno) e Barbra Streisand (Funny Girl), com Anthony Harvey em representação da primeira.




>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

O sorriso do Zé Pedro


Desde que trabalho como jornalista não foram poucas as vezes em que, na hora de despedidas, a escrita obrigou a um esforço de ordenamento da razão em momentos em que a emoção nos comanda. E quanto mais próximos de nós são aqueles de quem nos despedimos, mais essa tarefa se torna difícil. A notícia, ontem, da morte do Zé Pedro (o “do” é mesmo “do” e não o mais formal “de”, porque com ele era assim mesmo) confrontou certamente com esse mesmo choque os muitos que, nos jornais, na rádio, na televisão e plataformas online, lidaram de perto com um homem sempre generoso, atencioso e de sorriso invariavelmente desenhado no rosto, que cruzou quase quatro décadas das nossas vidas. 

Pensei umas quantas vezes antes de lançar os dedos sobre este teclado. Escrevo? Não escrevo? Tal como o António Sérgio, seria um esforço de convocar muitas memórias demasiado próximas.

Não faltarão certamente hoje, e nos próximos dias, bons textos que evoquem devidamente o trabalho do músico nos Xutos & Pontapés ou em outros projetos e colaborações e aquela figura que se tornou num ícone maior do rock feito entre nós. Não era o nosso-qualquer-coisa lá de fora. Era o Zé Pedro. Único.

Lembro por isso, além dessa obra que ouvimos em disco e vimos nos palcos, o homem que gostava de falar de outros músicos. Porque não havia ocasião em que me tivesse cruzado com o Zé Pedro em que não acabássemos a falar ou de discos bem recentes ou de memórias de canções e vivências com música (sempre) pelo meio. Com ele (tal como com o António Sérgio), escutando-o, viajei inúmeras vezes ao berço então pouco visível da agitação punk na Lisboa de finais dos setentas. E escutei histórias do remar, remar… De uma vontade em abrir alas para movimentações que, nos oitentas, deram finalmente visibilidade definitiva a uma cultura jovem em Portugal. E aí os Xutos & Pontapés (e a presença sempre bem evidente do Zé Pedro) tiveram uma voz determinante, lançando sólidas bases para uma vida longa que fez do grupo um raro caso de transversalidade e familiaridade entre nós, criando um corpo de canções que nos habita.

O Zé Pedro não sabia dizer que não. Se havia uma sessão de cinema para apresentar, um debate para conversar, um programa de rádio ou discos sobre os quais falar, lá estava. Sempre pronto a partilhar com os outros o entusiasmo que tinha pela música. E gostar de música é isso mesmo. A partilha. A identificação com os outros pela mais universal das linguagens. Ficam as memórias das canções de que falávamos. E aquele sorriso e gargalhadas que eram únicos. Até sempre, amigo.

Abel Ferrara, um americano na Europa (1/3)

[FOTO: Nuno Pinto Fernandes / DN]
Abel Ferrara regressou a Portugal para, no LEFFEST, apresentar os seus dois filmes mais recentes: Alive in France e Piazza Vittorio — esta entrevista foi publicada no Diário de Notícias (27 Novembro), com o título '“Na Europa encontro compaixão e um sentido da cultura"'.

Em Alive in France, surge com a sua banda de rock’n’roll — como é a sensação de estar frente à câmara?
É uma óptima sensação. Queria interpretar aquelas canções e reunir-me em palco com toda aquela malta, em especial o Joe Delia que há muito tempo compõe música para os meus filmes — são velhos amigos.

Na sua filmografia, há um título de ficção científica, Body Snatchers (1993), que se destaca pela sua produção. Que memórias guarda dessa experiência?
É verdade: era um filme de estúdio, da Warner Bros., e com um grande orçamento. Foi filmado em CinemaScope, numa rodagem longa, em Selma, Alabama, um lugar complicado. Fizemo-lo à maneira clássica, até porque tínhamos na história original de Jack Finney um excelente ponto de partida. Aliás, na altura já existiam duas versões da história, uma de Don Siegel (1956), uma verdadeira obra-prima, outra de Philip Kaufman (1978). Tentámos preservar uma certa estilização que vinha de Siegel — não foi fácil, mas o filme que existe corresponde àquilo que queríamos fazer.

Quando se trabalha com os grandes estúdios a liberdade criativa é menor?
Mais dinheiro pode implicar menos liberdade. Quando se trabalha com um grande estúdio, não se fala de “autores”. Apesar de tudo, convém lembrar que a Warner era o estúdio a que estava ligado Clint Eastwood. A margem de liberdade era grande, maior do que noutros estúdios e muito maior do que agora. Foi por essa altura que, também na Warner, Oliver Stone fez JFK e Spike Lee Malcolm X. Mas agora parece-me que não estão interessados em fazer mais filmes com realizadores de Nova Iorque...

Como definiria a situação actual?
Não posso abdicar da minha visão: trabalha-se em grupo e a visão tem de ser a do realizador — ponto final. Não vale a pena envolver ninguém que não reconheça essa base de trabalho: é uma comunidade e as ideias de todos são bem-vindas, mas o realizador tem direito à última palavra. Aliás, tem direito à primeira palavra e à última palavra.

E o que é que muda, ou não, quando faz filmes a partir de pessoas verdadeiras como Pasolini (2014) ou Welcome to New York (2014), inspirados em Pier Paolo Pasolini e Dominique Strauss-Kahn?
Quando estamos a fazer um filme, a única coisa que existe é o mundo de faz-de-conta que estamos a criar. O que quer que seja, ou foi, a realidade... Podemos filmar nos mesmos cenários, usar as mesmas roupas, mas o momento é outro. Não se trata de invocar o fantasma de Pier Paolo, ou seja de quem for...

Welcome to New York acabou por ser pouco visto, não tendo sido lançado em muitos países, incluindo Portugal. Terá tido influência a contemporaneidade da própria personagem?
Talvez. Mas há sempre outras questões, desde os problemas de distribuição até ao facto de haver muita gente que deixou de ir regularmente ao cinema. Há filmes que encontram logo a sua audiência, outros que demoram 50 anos a consegui-lo... Mas os filmes existem, estão aí — e quem quiser realmente vê-los, acaba por encontrá-los.

[continua]