domingo, julho 31, 2016

Hannah Gill, 18 anos

Hannah Gill tem 18 anos, é da Carolina do Norte, mudou-se para Nova Iorque e formou uma banda com o seu colaborador Brad Hammonds — Hannah Gill and The Hours. O seu EP de estreia, The Water, é um pequeno prodígio de genuíno rock, contaminado por influências que ela própria identifica: jazz e Nina Simone, blues, B. B. King e Otis Redding [entrevista em 'The Rookie']. Eis o lyric video de Change in Blue e o teledisco de Austin — coisa séria.



Elogio de Jean-Claude Van Damme

Nascido na Bélgica, protagonista de muitos e muito medíocres filmes de "acção" (Street Fighter, Kickboxer, etc.), Jean-Claude Van Damme não será exactamente um paradigma dos valores cinéfilos. Dito isto, como aconteceria em relação a qualquer outro profissional, importa colocarmo-nos do seu lado quando o descobrimos sujeito à vulgaridade mais ou menos agressiva de alguns clichés televisivos.
Aconteceu quando Van Damme deu uma entrevista ao programa Sunrise, de um canal televisivo (Seven Network) da Austrália. A conversa servia de antecipação a uma visita do actor àquele país e Van Damme, por uma vez, não quis pactuar com a vulgaridade das mesmas perguntas (os treinos, contracenar com Kylie Minogue, etc., etc.) que lhe fazem há mais de 25 anos — resultado: abandonou o estúdio.
A locutora, em típica cegueira mediática tingida de moralismo, atreve-se a resumir o evento considerando que Van Damme teve "um dia mau" — vale a pena ver as imagens e avaliar o dia que teve aquele canal de televisão.

A IMAGEM: Rick McKee, 2016

RICK McKEE / The Augusta Chronicle
'Meat the press'
1 Junho 2016

sábado, julho 30, 2016

A herança dos Viola Beach

O primeiro álbum da banda britânica Viola Beach será também, tragicamente, o último: os seus quatro membros — Kris Leonard, River Reeves, Tomas Lowe e Jack Dakin — faleceram no passado mês de Fevereiro, na Suécia, num acidente que também vitimou o seu manager, Craig Tarry. As gravações do álbum (homónimo) ficaram, assim, como a herança de um grupo que se vinham afirmando pela transparência do seu som, num registo que não podemos deixar de associar a algumas ambiências inscritas na tradição plural do british rock [notícia e evocação: The Guardian].
Eis dois testemunhos da sua alegria: primeiro, Get to Dancing, numa sessão da BBC para novas bandas; depois, o teledisco de Boys that Sing.



Os Beatles para crianças

Eddie Veder, Pink e Robbie Williams são alguns dos intérpretes de canções dos Beatles na série de animação Beat Bugs, criada por Josh Wakely [artigo em The Wall Street Journal]. É um exclusivo Netflix, disponível a partir de 3 de Agosto — o trailer promete uma bela reinvenção de alguns temas emblemáticos dos quatro de Liverpool.

O Papa em Auschwitz

FOTO: Kacper Pempel/Reuters (DN)
Um homem atravessa o portão do campo de concentração de Auschwitz, com a frase da ignomínia nazi, proclamando que "o trabalho liberta". Que esse homem seja o Papa Francisco, eis o que não é indiferente e justifica a evidência com que encontramos o evento noticiado em meios de comunicação de todo o mundo [O Globo +  Le Figaro + NPR].
Para além da obstinada defesa da memória, num gesto que transcende diferenças de sensibilidade religiosa ou comunitária, a visita do líder da Igreja Católica distinguiu-se por um elemento muito particular, hoje em dia raro no espaço mediático — o silêncio da sua deambulação [video: Le Monde]. Não que possamos ou devamos calar as palavras sobre o Holocausto, por certo fundamentais noutros momentos já vividos ou ainda por acontecer. Mas por vezes é importante resistir ao burburinho circundante, nem sempre adequado ao labor do pensamento, deixando que o silêncio possa expor o seu próprio simbolismo — porque o silêncio pode ser também um tempo incontornável no relançamento das palavras. 

A traição de Trump [citação]

>>> As implicações da eleição de Trump seriam verdadeiramente assustadoras. O problema não seria apenas a sua vulgaridade, sexismo, racismo e atrevida ignorância. Seria a sua possível infidelidade à própria América. O partido de Eisenhower e Reagan tem sido comandado por um demagogo que atraiçoa não apenas os ideias do seu país, mas também o seu fundamental interesse nacional.
Vertigem americana. Desastre global.

BERNARD-HENRI LÉVY
28 Julho 2016

sexta-feira, julho 29, 2016

Jason Bourne ou o telemóvel à deriva

A saga de Jason Bourne parece ter chegado ao seu limite cinematográfico — esta nota foi publicada no Diário de Notícias (28 Julho), com o título 'Matt Damon a copiar Matt Damon'.

Como já foi dito por figuras emblemáticas do cinema americano (Spielberg, Lucas, Soderbergh), a rotina das “franchises” vai minando a energia criativa de importantes sectores de Hollywood. Aí está o exemplo dos filmes centrados em Jason Bourne, agente letal da CIA, treinado para matar através de um processo de manipulação identitária. Desde 2002, Matt Damon tinha protagonizado os três primeiros, estando ausente do quarto, O Legado de Bourne (2012), com Jeremy Renner.
Agora, com Jason Bourne, de Paul Greengrass, Damon está de volta para tentar acertar as contas com os traumas do seu passado... Em boa verdade, o novo argumento é de um minimalismo patético, parecendo servir apenas para “justificar” a colagem interminável de cenas em que a câmara é usada como um telemóvel à deriva, na prática impedindo-nos de ver o que quer que seja (tudo sustentando por um tema musical em interminável “loop”). Passa por aqui a herança dos grandes “thrillers” políticos que Alan J. Pakula ou Sydney Pollack assinaram nos anos 70? Sem dúvida. Vale a pena regressar aos originais e sentir a diferença.

MTV descobre o seu classicismo

Falta coragem à MTV para se libertar dos horrores da reality TV que, em boa verdade, nos últimos anos, têm manchado a sua vocação plural e humanista. Em todo o caso, digamos que nem tudo está perdido...
A boa notícia é que a "Televisão-da-Música" descobriu que, nisto de pop, rock e afins, a história não é palavra vã — assim, vai nascer a MTV Classic, em substituição do canal VH1 Classic (VH1 e MTV são marcas que pertencem à Viacom). Que é como quem diz: há memórias que importa preservar e, mais do que isso, partilhar — não é saudosismo nem museologia, apenas uma via essencial para, através do passado, conhecermos o nosso presente.
A MTV Classic começará a emitir no dia 1 de Agosto, data em que se comemoram 35 anos do nascimento da MTV [Rolling Stone] — eis a promoção do novo canal.

quinta-feira, julho 28, 2016

Kubrick — à luz das velas

É um acontecimento central no mercado de Verão: a reposição de Barry Lyndon permite-nos (re)descobrir o génio de Stanley Kubrick e, em particular, a sua obsessiva criação de imagens — este texto foi publicado no Diário de Notícias (25 Julho), com o título 'O séc. XVIII filmado com lentes da NASA'.

Ao lançar-se no projecto de Barry Lyndon, Stanley Kubrick quis que o seu século XVIII fosse tão realista quanto possível. Tal desejo criativo não tinha nada de óbvio — afinal, numa adaptação do romance picaresco de William Makepeace Thackeray, de que realismo cinematográfico se poderia tratar?
O realizador estabeleceu duas regras de trabalho com o director de fotografia John Alcott (1931-1986): por um lado, recriar modos de composição e iluminação da pintura da época, em particular de William Hogarth (profundamente admirado por Thackeray); por outro lado, forçar até ao limite a não utilização de luz artificial para “compensar” os problemas decorrentes dos espaços menos iluminados.
Alcott conhecia bem o grau de exigência de Kubrick, tendo trabalhado na qualidade de operador em 2001: Odisseia no Espaço (1968), fotografado pelo mestre britânico Geoffrey Unsworth (1914-1978), e assinando depois a fotografia de Laranja Mecânica (1971); a sua derradeira colaboração ocorreria em Shining (1980). Em qualquer caso, a rodagem de Barry Lyndon envolveu um dos desafios mais extremos (para não dizer extremistas) com que Alcott alguma vez deparou. Assim, nas cenas de interiores, em particular os jogos de cartas, Kubrick insistiu em filmar apenas com a luz das velas, evitando a iluminação global e uniformizante das tradicionais “reconstituições” de época.
A solução encontrada entrou para a história da fotografia em cinema — e é bem reveladora da atenção com que o realizador sempre acompanhou a evolução das técnicas de imagem. Kubrick sabia que a companhia alemã Zeiss tinha desenvolvido lentes especiais para a NASA, visando as condições específicas em que os astronautas iriam fotografar a Lua: a sua grande abertura de diafragma permitia obter uma excelente definição sem perda de profundidade de campo. Graças a algumas adaptações, tais lentes foram decisivas para o inconfundível look de Barry Lyndon (valendo a Alcott o Oscar de melhor fotografia referente a 1975).
Não será exagerado considerar que, de uma maneira ou de outra, os filmes de Kubrick envolveram sempre singulares desafios fotográficos, desde o retrato a preto e branco dos combates da Primeira Guerra Mundial em Paths of Glory (1957), até à reconstrução de algumas ruas de Nova Iorque nos estúdios de Pinewood, nos arredores de Londres, para o filme final De Olhos Bem Fechados (1999). Se é verdade que, como sugeria Hitchcock, o cinema é a arte de construir uma visão do mundo, poucos foram tão radicais como Kubrick na concretização dessa tarefa.

Fuck Donald Trump — o rap de Obama

A energia verbal do rap + a dramática eleição presidencial americana + a decomposição da linguagem política clássica...
Provavelmente, daqui a umas décadas, os analistas e filósofos esforçar-se-ão por evocar a conjugação de tais factores para compreender tão bizarra peripécia. A saber: um rap, intitulado Fuck Donald Trump, interpretado por Barack Obama.
Como?
Tem tudo a ver com o trabalho paródico desenvolvido pelo canal do YouTube 'Baracksdubs'. Através de um paciente trabalho de colagem de palavras e expressões, por vezes fragmentos monossilábicos e minimalistas, retirados dos discursos de Obama, surgem variações tão insólitas como divertidas sobre canções mais ou menos conhecidas — há de tudo um pouco, incluindo Thriller (Michael Jackson), Shake It Off (Taylor Swift) e SexyBack (Justin Timberlake), sem esquecer o tema da série de animação Pokémon.
Agora, neste delirante karaoke virtual, deparamos com a recriação de FDT (leia-se: Fuck Donald Trump), de Nipsey Hussle, rapper de Los Angeles. Tendo em conta que o Presidente não se exprime assim em público, o título exacto será Fuck Donald Trump — um breve e delicioso número do nosso circo mediático [aqui em baixo] que, além do mais, vale a pena confrontar com o original [segundo video].



As fábulas de Steven Spielberg

Ruby Barnhill e Steven Spielberg
— rodagem de O Amigo Gigante
O discreto impacto de O Amigo Gigante, de Steven Spielberg, será, talvez, corrigido com o passar dos anos; afinal de contas, ele está apenas a ser fiel aos mais genuínos valores da fábula — este texto está publicado na edição nº 40 da revista Metropolis, com o título 'Spielberg, autor de fábulas'.

Ciclicamente, o nome de Steven Spielberg suscita controvérsias mais ou menos agitadas (e mais ou menos interessantes...). Assim, há aqueles que o preferem enquanto herdeiro dos valores clássicos da aventura, revistos e relançados através da saga de Indiana Jones. Como contraponto, outros celebram, antes de tudo o mais, a gravidade dos temas que desemboca na notável abordagem do Holocausto, em A Lista de Schindler (1993). Outros ainda, consideram que o Spielberg mais “puro” é aquele que está no mais universal dos seus filmes. A saber: E.T., o Extraterrestre (1982).
Walt Disney
Esta última vertente da sua filmografia será mesmo, muito provavelmente, a mais citada a propósito do novo filme, O Amigo Gigante, baseado no conto clássico de Roald Dahl, The BFG, e estreado no Festival de Cannes do passado mês de Maio. E não há dúvida que o paralelismo se justifica. Desde Hook (1991), uma revisão algo esquecida da história de Peter Pan, que não apostava num registo tão próximo do imaginário infantil — sem esquecer, a esse propósito, que importa não escamotear o lugar fundamental do maravilhoso Império do Sol (1987), retrato da guerra filtrado pelos olhos de uma criança que, salvo melhor opinião, continua a ser um dos filmes mais pessoais de Spielberg.
Nesta perspectiva, é interessante referir o paradoxo, porventura a contradição, em que descobrimos O Amigo Gigante. Assim, por um lado, este será o trabalho em que Spielberg mais claramente se aproximou (e quis aproximar) de um conceito de maravilhoso cujo símbolo mais forte, no interior da história de Hollywood, é Walt Disney (1901-1966). Ao mesmo tempo, por outro lado, numa espécie de reconhecimento e chancela, O Amigo Gigante é o primeiro filme de Spielberg produzido pelos estúdios Disney... mesmo se a respectiva distribuição fora dos EUA não é da sua responsabilidade.
O Amigo Gigante produz uma espécie de efeito retroactivo, de alguma maneira ajudando-nos a (re)ver a carreira de Spielberg sob o seu efeito simbólico. Podemos até arriscar dizer que, mesmo quando apostou em abordagens marcadamente realistas — para além de A Lista de Schindler, lembremos as histórias mais “políticas” de Munique (2005) ou do recente A Ponte dos Espiões (2015) —, ele nunca foi um cineasta estranho à energia muito peculiar da fábula. A saber: ao modo como as acções humanas, enraizadas na história colectiva ou no mais puro artifício espectacular, envolvem sempre um confronto entre a evidência do Mal e a possibilidade do Bem. Alguns dirão que não é fácil definir o problema desse modo porque nem sempre são nítidas as fronteiras entre uma coisa e outra... Justamente: os filmes são também sobre essa dificuldade.
Será preciso acrescentar que, mais do que nunca, a caracterização de Spielberg como “mago dos efeitos especiais” se revela totalmente inadequada? Não que ele seja estranho às convulsões tecnológicas das últimas décadas e aos seus tão peculiares efeitos na arquitectura industrial e comercial do cinema — veja-se, por exemplo, a integração da chamada “performance capture” (com a criação de personagens digitais a partir do trabalho dos actores), essencial em As Aventuras de Tintin: O Segredo Licorne (2011) e, agora, em O Amigo Gigante. Seja como for, nunca Spielberg escolheu os “efeitos especiais” como um fim em si mesmo. Muito simplesmente, ele é um autor que se mantém fiel à sua condição de contador de histórias — condição primitiva, apetece dizer, de tal modo a sua postura o mantém numa intensa relação criativa com o riquíssimo património de Hollywood.

quarta-feira, julho 27, 2016

Guia para The Dead Weather [6]

[ 1: Hang You from the Heavens + Are 'Friends' Electric? ]
[ 2: Treat Me Like Your Mother + You Just Can't Win ]
[ 3: Will There Be Enough Water? ]

[ 4: I Cut Like a Buffalo + A Child of a Few Hours Is Burning to Death ]
[ 5: Bone House + Will There be Enough Water? ]

Sea of Cowards, o segundo álbum, foi lançado a 11 de Maio de 2010, precedido de uma apresentação ao vivo, nas instalações da Third Man Records, de Jack White. Talvez por isso, e também pela rapidez do seu registo (cerca de três meses para 15 canções — o alinhamento final inclui apenas 11), há nele uma vivacidade capaz de devolver ao blues rock o seu feeling mais depurado e primtivo. Aqui ficam dois registos: Blue Blood Blues, precisamente da citada apresentação, e o teledisco de Die By the Drop, com direcção de Floria Sigismondi.




>>> Site oficial de The Dead Weather.

O romance segundo Jenny Hval

Depois de Female Vampire, a norueguesa Jenny Hval dá a conhecer um segundo tema do seu quarto álbum de estúdio, Blood Bitch (a lançar em Setembro) — a mesma precisão poética ao serviço da criação de uma ambiência tão física quanto surreal.

Michelle Obama: "quem vai o ter o poder"

"(...) não se enganem: este mês de Novembro, quando formos votar, é isso que vamos decidir — não pelos Democratas ou Republicanos, não pela esquerda ou pela direita. Não, esta eleição, e todas as eleições, é sobre quem vai ter o poder para moldar as nossas crianças nos próximos quatro ou oito anos das suas vidas."
São palavras de Michelle Obama no seu discurso de apoio a Hillary Clinton, em Filaldéfia, na Convenção do Partido Democrata [video: discurso integral]. Eis uma exemplar lição de pedagogia política, enunciando um sistema de valores enraizados na vida comum e nas relações geracionais, não na mera descrição negativa de qualquer opositor (que, aliás, nem sequer foi nomeado). Este é o discurso de uma mulher que pode dizer: "(...) acordo todos os dias numa Casa que foi construída por escravos".

terça-feira, julho 26, 2016

Como representamos a violência?

2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968)
Os recentes acontecimentos marcados por diversas formas de violência permitiram perceber que a reflexão das televisões sobre as suas próprias linguagens continua a ser profundamente deficitária — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Julho).

Primeiro, julguei que era um delírio meu face à vertigem de muitas imagens recentes. A pouco e pouco, verifiquei que era uma coincidência. Mais do que isso, um padrão de comportamento: nas mais variadas cadeias televisivas de todo o mundo, alguns comentadores de acontecimentos horríveis (o ataque terrorista em Nice, os tiroteios na Turquia, etc.) vão pontuando as suas intervenções com analogias mais ou menos simbólicas, derivações mais ou menos irónicas, por vezes com risinhos mais ou menos sarcásticos.
Ainda e sempre surge a pergunta que quase ninguém quer formular: como representamos a violência? E digo “quase ninguém” porque, de facto, não estou a discutir a profilaxia ingénua da bolinha vermelha no canto superior direito do ecrã. Num tempo em que ninguém diz nada sobre o horror moral e quotidiano do Big Brother e seus derivados (veja-se Love on Top), triunfou o recalcamento de qualquer análise das imagens que nos chegam, instantaneamente, de todos os recantos do planeta.
Por exemplo: que acontece quando, num só dia, somos confrontados centenas de vezes com os breves segundos de imagens mais ou menos turbulentas, registadas no telemóvel de um qualquer cidadão anónimo? Ou ainda, e sobretudo: porque é que tais imagens adquiriram o estatuto de matéria, prova e caução de trabalho jornalístico?
Infelizmente, o possível espaço de reflexão sobre tão delicadas questões tende a ser bloqueado por uma reacção corporativa que não ajuda ninguém. A sua pergunta mais frequente, implícita ou explícita, é esta: “... mas então as televisões são culpadas pelos actos de violência?”.
Escusado será dizer que seguir por esse caminho só pode minimizar a inteligência de todos os envolvidos. Enquanto nos perdemos nos labirintos da “culpa”, evitamos lidar com a questão central. A saber: a responsabilidade de produzir e difundir imagens.
O tema é tanto mais actual quanto passámos a viver num mundo saturado de hipóteses de acesso a qualquer imagem, em qualquer momento, em qualquer lugar. Há muito que o ecrã de cinema deixou de ser o lugar sagrado de acesso à pluralidade imensa das imagens (que não se podiam ver em nenhum outro contexto). Em boa verdade, passámos a viver num universo audiovisual em que, para o melhor e para o pior, a proliferação de ecrãs é a regra, não a excepção (dos computadores aos sistemas de segurança, passando, claro, pelos telemóveis).
Lembro-me de 2001: Odisseia no Espaço, o filme de Stanley Kubrick lançado em 1968. Na viagem dos seus astronautas, na sua relação com o inquietante computador Hal 9000, estava já figurada essa perversa transfiguração da realidade através dos ecrãs. E não deixa de ser desconcertante que o génio premonitório de alguns filmes pese cada vez menos no pensamento sobre os nossos modos de vida. Entre outras conclusões, isso obriga-nos a reconhecer a solidão contemporânea do trabalho crítico sobre os filmes.

Ver + ouvir: Porches, "Car"



Chamam-se Porches e são um projeto que serve uma das várias experiências do seu mentor, o nova-iorquino Aaron Maine. Acabam de lançar Pool, um belo álbum que serve de banda sonora a um fim de tarde de verão. Este é um dos telediscos criados para um dos singles já extraídos do alinhamento do disco. As imagens mostram uma ideia na melhor descendência daquela ideia clássica que diz: "strike a pose"...

E as nossas salas ignoraram
um belo filme de Jeff Nichols...


E se, depois de histórias enraizadas entre comportamentos de personagens da América profunda, ao quarto filme Jeff Nichols olhasse para outros horizontes e experimentasse, pela primeira vez, uma narrativa numa dimensão diametralmente oposta à das realidades, medos e assombrações de figuras reais com que até aqui estava a construir uma das mais sólidas obras do cinema americano contemporâneo? Foi o que fez em Midnight Special, filme que tem a alma das memórias sci-fi spielberguianas de uns Encontros Imediatos de Terceiro Grau e E.T. - O Extraterrestre, junta uma evidente contaminação X-Files, mas não perde as marcas de identidade do seu cinema. Midnight Special é tudo isto. E é também um belíssimo filme. Pena que, entra a dinâmica bizarra de um mercado de distribuição nacional que muitas vezes não parece ter explicação, tenha ficado de fora do circuito das salas e surja agora, diretamemente, no circuito de home vídeo (em suportes de DVD e Blu-ray e via VOD).

A primeira qualidade de Midnight Special é a forma como Jeff Nichols - autor de Histórias de Caçadeira (2007), Procurem Abrigo (2011) e Fuga (2012) - não cede à vontade do espectador em querer logo saber o que se passa no ecrã. E durante largos minutos somos confrontados com ações e personagens, sem saber bem o que representam face ao jovem protagonista alegadamente raptado. Sabe-se que é o seu pai natural quem o tem em mãos e que, pelos vistos, o rapaz é dotado de raros e estranhos poderes, tanto que para o seu conforto (ou será defesa de quem o tem a seu lado? – não faço spoiler), ele está obrigado a andar de olhos vedados por uns óculos de natação e dorme com grandes auscultadores nos ouvidos. E, nota adicional, parece que só sai de casa durante a noite (ou, pelo menos, parece ter de evitar a luz do dia). No meio de tudo isto há uma estranha seita religiosa que parece ter lançado o aviso sobre o alegado rapto. E em cena entra ainda o FBI e a NSA, porque valores de segurança de dados secretos surgiram entre os sermões dessa seita. Confusos? Sim, também fiquei. Assim como dei por mim agarrado ao ecrã. Num livro seria um verdadeiro page turner...

Jeff Nichols convoca ecos de uma relação com o desconhecido que têm paradigma nos filmes clássicos de ficção científica que Spielberg realizou precisamente em 1977 e 1982. E junta através da personagem interpretada por Adam Driver uma dimensão à la Mulder e Scully, num domínio da investigação oficial que vive duplamente entre a necessidade de apurar factos e uma curiosidade pessoal sobre aqueles que tem na mira do seu estudo. O que faz de Midnight Special um caso “autoral” no universo do cinema de ficção científica atual é a forma como Jeff Nichols ali colocas as suas marcas pessoais. Que passam pelo reencontro do seu cinema com Michael Shannon (o pai do jovem que está no centro da trama), a forma de projetar (uma vez mais) toda a narrativa na América rural do nosso tempo e a estranheza com que caracteriza a seita que desempenha um papel importante no estabelecimento das muitas dúvidas com que o espectador é confrontado no lançamento da narrativa. O resto? Nada como ver o filme. E ter boas surpresas.

Para ler: Heaven 17 contam
a história de "Temptation"

No momento em que é editada uma caixa que evoca os cinco primeiros álbuns dos Heaven 17 - originalmente lançados nos anos 80 - o The Guardian recordou, com os músicos, a história de Temptation, a sua canção de maior sucesso.

Podem ler aqui.

Hinds, "made in Spain"

Carlotta Cosials (voz, guitarra), Ana Perrote (voz, guitarra), Ade Martin (baixo) e Amber Grimbergen (bateria) são espanholas e fazem uma música muito anglo-saxónica, aliás, universal — chamam-se Hinds e estrearam-se com o álbum Leave Me Alone. O seu som alternativo não descura a integração da mais primitiva simplicidade pop, numa dinâmica poética que levanta voo (literalmente...) com o belo teledisco de Warts — a realização é de Pedro Martín-Calero.

segunda-feira, julho 25, 2016

Cristiano Ronaldo
ou o jornalismo de coisa nenhuma

1. Não, não é um momento de uma qualquer performance abstracta e digital... É a imagem com que um jornal desportivo [A Bola] noticia o encontro de Cristiano Ronaldo com Jennifer Lopez — para dar a conhecer os ridículos e indecifráveis 7 segundos do video reproduzido aqui em baixo. O assunto foi, aliás, citado por outros órgãos de comunicação [por exemplo: Record], sempre através de imagens cuja qualidade técnica envergonharia qualquer foto-jornalista ou operador de televisão.

2. Há outra maneira de dizer isto: faz-se jornalismo (?) a partir de coisa nenhuma, muitas vezes tentando transformar em evento transcendental as peripécias mais anódinas da existência dos "famosos".

3. Triunfa, assim, uma (des)educação dos olhares em que qualquer valor específico da imagem — seja ele de composição formal ou apenas de competência técnica — é apoteoticamente menosprezado. Numa sociedade em que semelhantes banalidades são promovidas à condição de notícia, a arte de olhar é, inevitavelmente, um conceito frágil.

Freud — pequenos almoços e pintura

Eis um livro biográfico que escapa aos modelos mais tradicionais da biografia. Primeiro como jornalista, depois como personagem de um círculo muito restrito de relações, Geordie Greig conviveu com Lucian Freud (1922-2011) ao longo de cerca de duas décadas. O seu livro chama-se Breakfast with Lucian porque, de facto, grande parte dessa convivência aconteceu em pequenos almoços que correspondiam a um ritual privado, mais ou menos improvisado, embora não excluindo uma espécie de sofisticada pesquisa existencial.
Falava-se de pintura, claro — Freud nunca deixou de afirmar a sua fidelidade à figuração, contrariando o efeito estético, e também a lógica de mercado, que abalou sobretudo os anos 60 (aliás, valendo-lhe o epíteto de artista irremediavelmente datado). E falava-se também das atribulações de uma vida de muitas convulsões afectivas, familiares e sexuais (não necessariamente por esta ordem). Acima de tudo, Greig consegue reunir memórias de Freud — desde a herança simbólica do avô Sigmund até às dificuldades de relação com os seus 14 filhos — que nunca se enredam no pitoresco mais ou menos "voyeurístico". Em última instância, este é um livro para acedermos à pintura de Freud e ao esplendor paradoxal do seu realismo cru.

Naked Child Laughing
1963

Marni Nixon (1930 - 2016)

Soprano de grande talento, ficou célebre como "cantora-fantasma" de várias estrelas de Hollywood: a americana Marni Nixon faleceu no dia 24 de Julho, em Nova Iorque, vítima de cancro da mama — contava 86 anos.
Os seus estudos de canto e ópera permitiram-lhe manter uma carreira de muitas décadas, interpretando obras de autores tão diversos como Arnold Schoenberg, Igor Stravinsky, Anton Webern, Aaron Copland e George Gershwin. Chamada pelos estúdios de Hollywood, cedo começou a dar voz a diversos momentos musicais em que, de facto, não aparecia — desde o coro dos anjos em Joana D'Arc (1948), de Victor Fleming, com Ingrid Bergman, até às notas mais altas de Diamonds Are a Girl's Best Friend, canção interpretada por Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Louras (1953), de Howard Hawks.
O seu primeiro trabalho de fundo ocorreu em O Rei e Eu (1956), de Walter Lang, dobrando Deborah Kerr; foi ela também a voz de Natalie Wood em West Side Story (1961), de Jerome Robbins e Robert Wise, e Audrey Hepburn em My Fair Lady (1964), de George Cukor. Surgiu pela primeira vez no grande ecrã na personagem de uma das freiras de Música no Coração (1965), de Robert Wise. Uma das suas derradeiras interpretações foi a personagem da 'Avó Fa', na animação Mulan (1998), dos estúdios Disney.

>>> Duas interpretações de Marni Nixon: primeiro, a canção Getting to Know You, dobrando Deborah Kerr em O Rei e Eu (1956); depois, em 1984, no tema Vivaldi, do musical Taking My Turn, de Gary William Friedman.




>>> Obituário: New York Times + NPR + Playbill.

A IMAGEM: Eva Sereny, 1972

EVA SERENY
Romy Schneider
1972

Cinema, natureza & ecologia

Fenómeno de culto em França, Amanhã é um documentário apostado em discutir os modos de contrariar as alterações climatéricas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 Julho), com o título 'As notícias da morte da Terra são francamente exageradas'.

Quem tenha acompanhado os filmes de “super-heróis” dos últimos anos (e convenhamos que é preciso alguma resistência para o fazer, de tal modo os seus lugares-comuns dramáticos e simbólicos se vão repetindo até à exaustão...), estará longe de encarar de forma ligeira o futuro do nosso planeta. Na verdade, a imaginação (?) dos respectivos argumentistas tem confluído num mesmo aviso: os seres humanos estão à beira da extinção.
Será por isso que o documentário francês Amanhã se tornou um quase fenómeno de culto no seu país de origem? É verdade que, também neste caso, somos informados de que o futuro da raça humana está ameaçado. O certo é que, ao mesmo tempo, ficamos a saber que as notícias da morte do planeta Terra são francamente exageradas...
Lembremos que Amanhã parte de elementos cuja gravidade e seriedade nos compelem, pelo menos, a escutar e reflectir. Assim, de acordo com um artigo da autoria de Elizabeth Hadly (bióloga da Universidade de Stanford) e Anthony Barnosky (palentólogo de Berkeley), publicado na revista Nature, o comportamento dos humanos face ao planeta que habitam já não se pode medir apenas pelos inquietantes índices de poluição e pelas evidentes e perturbantes alterações climatéricas. No limite, é a nossa sobrevivência que está em discussão — Barknovsky considera mesmo que, se não se tomarem medidas muito sérias ao longo dos próximos 20 anos, a decomposição do nosso sistema de vida será irreversível e, numa palavra, fatal.
Ao mesmo tempo, a realização de Cyril Dion e Mélanie Laurent (ele com uma carreira marcada pelo documentarismo televisivo, ela uma actriz que também já dirigiu alguns filmes, incluindo o belíssimo Respira, lançado em 2014) nunca se afasta de uma lógica narrativa que obedece, ponto por ponto, à mais vulgar rotina televisiva: colocar um microfone à frente de “especialistas” e ligar tudo com um comentário off, didáctico e pomposo, que nunca abdica de uma lógica de sermão “ideológico”.
Por várias vezes, a equipa de Dion e Laurent filma-se mesmo como um grupo de saltimbancos mais ou menos coloridos (com canções de “mensagem” na banda sonora). Por certo sem darem conta disso, parecem imitar os clichés iconográficos dos “hippies” da década de 60, sempre à escuta de uma revelação transcendental que ninguém parece saber definir.
Seja como for, em defesa do filme, importa sublinhar que Amanhã contraria o catastrofismo dominante, celebrando as experiências que, nos mais diversos domínios (agricultura, energia, gestão financeira, etc.) e também em contextos muito distintos (EUA, Dinamarca, Índia, etc.), mostram que é possível pensar — e, sobretudo, agir — para além dos padrões decorrentes dos interesses das mais poderosas forças económicas. É, pelo menos, uma maneira de contrariar o niilismo dos “super-heróis” que só garantem a nossa sobrevivência depois de, à custa de efeitos especiais cada vez mais vulgares, destruírem uma série de grandes metrópoles... Neste caso, prevalece o elogio das energias vitais.

domingo, julho 24, 2016

3 x "Dream Baby Dream" [Savages]

Com a morte de Alan Vega, que integrava o duo Suicide (com Martin Rev), desapareceu um nome vital da história do rock e, em particular, das convulsões que conduziram ao punk — Dream Baby Dream, single de 1979, é uma referência incontornável do seu património, tendo suscitado algumas brilhantes recriações.

[ Neneh Cherry ]

Por estes dias, punk no feminino dá pelo nome de Savages. São de Londres e estrearam-se com o magnífico Silence Yourself, seguindo-se Adore Life. Pelo meio, entre outras coisas, lançaram o single Fuckers, dois temas ao vivo, incluindo uma original abordagem de Dream Baby Dream. O resultado tinha tanto de performance sónica como de ritual teatral — eis um registo esclarecedor, no Hard Club do Porto (21-02-2014), com assinatura de Miguel Neves (Campainha Eléctrica).

Trump [citação]

>>> Eis como as coisas tendem a funcionar: Trump diz qualquer coisa de provocatório e factualmente dúbio; o mundo reage, por vezes recuando; Trump não pede desculpa — realmente não — mas lenta e esporadicamente altera as suas observações, desse modo deixando tudo numa espécie de nevoeiro. Numa campanha, este vício do caos é uma coisa; na Casa Branca, seria algo completamente diferente.

JON MEACHAM
in 'What a President needs to know'
Time, 25 Julho 2016

Fotografias do atentado de Nice

FOTO: Eric Gaillard/Reuters
A aceleração televisiva tornou-se presente e omnipresente, confrontando-nos com uma questão simultaneamente jornalística e ética (ou de ética jornalística): não é por vermos as coisas muito "depressa" que vemos melhor; por vezes, a "velocidade" é mesmo uma maneira de não vermos nada, experimentando um clímax tão efémero quanto pueril. Nice, por exemplo — importa olhar para as imagens do atentado de 14 de Julho com outro tempo, libertando a nossa visão da compulsão de passar à frente, essa compulsão que, no limite, anula a intensidade específica de cada imagem.
Daí o valor de um portfolio como aquele que foi organizado pelo blog fotográfico 'The Big Picture', do jornal The Boston Globe — são 39 fotografias reunidas sob o título 'Terror em Nice'.

FOTO: François Mori/AP
FOTO: Olivier Anrigo/EPA

Televisões em Nice — o vício da "análise"

Vendo as imagens televisivas de Nice, o mais importante parecia ser a "análise"... de coisa nenhuma — esta crónica de televisão foi publicada no Diário de Notícias (22 Julho), com o título 'As imagens de Nice'.

Na noite de 14 para 15 de Julho, tomei conhecimento do ataque terrorista em Nice através da televisão. Fixei-me na France 24 (na sua vertente em língua francesa), fazendo um “zapping” mais ou menos regular para a BBC e a CNN. Com o passar dos minutos e a evidência do horror, fui-me apercebendo da lógica de um padrão que, ao longo dos anos, foi sendo “formatado” por canais informativos como estes, exemplos óbvios e incontornáveis da “globalização” em que vivemos (ou dizemos viver).
Que padrão é esse? Pois bem, aquele que privilegia a “análise” para além dos factos — no limite mais bizarro, contra os próprios factos. Falo de quê? Da ânsia pueril de colocar em emissão, em estúdio ou por telefone, alguém que, em nome de uma qualquer “especialização” (política, policial, etc.), emitisse uma opinião tão acelerada quanto possível. Na prática, isto fez com que, logo perante alguns breves e angustiantes fragmentos de imagens de telemóveis, já surgissem pessoas a “comentar” este mundo e o outro.
Repare-se: não estou a levantar qualquer dúvida sobre a seriedade e competências de tais pessoas. O que, creio, importa discutir é esta dicotomia perversa: por um lado, um qualquer sinal de perturbação é automaticamente invadido por uma avalanche de “opiniões” que nem sequer concede à televisão (logo, aos espectadores) a hipótese de apreender um pouco da estranheza dos factos; por outro lado, a informação “satisfaz-se” com o sonambulismo de imagens incessantemente repetidas em que o circunstancialismo individual (a começar pelo telemóvel) ganha estatuto de instrumento mágico de jornalismo.
Na prática, a singularidade de qualquer facto tende a diluir-se num delírio cognitivo que remete a própria realidade noticiada para um plano puramente imaginário — como se não soubéssemos o que estamos a ver, mas acreditássemos na redenção pela “análise”.

sábado, julho 23, 2016

Greatful Dead em 4m 40s

É um dos mais recentes "retratos anotados" propostos pelo site Pitchfork: uma história condensada (são apenas 4m 40s...), mas muito directa e sugestiva, dos Grateful Dead, a lendária banda de Jerry Garcia (1942-1995).


* * * * *

Entretanto, aqui fica um registo épico (neste caso, com uma duração de 3 horas...) de um concerto dos Grateful Dead há 40 anos — foi no Capitol Theatre (Passaic, New Jersey), no dia 19 de Junho de 1976.

À esquerda de Trump

* "Cem dias para o parar" — escreve o jornal Libération na sua edição de fim de semana.

* Claro que, em última análise, o que está em causa não é uma missão jornalística mas, obviamente, a tarefa da candidatura do Partido Democrático: "Agora, só Hillary Clinton pode pará-lo na sua corrida à Casa Branca."

* De qualquer modo, este alarmismo securitário é muito típico de uma certa informação conotada com o imaginário da chamada esquerda — e que, evitemos o simplismo maniqueísta, contamina também muitos discursos ligados a sensibilidades que se definem à direita.

* Durante meses e meses, tal informação tratou Donald Trump como uma figura caricata e risível, susceptível de ser reduzida a manchetes mais ou menos divertidas. Agora, ficamos a saber que é preciso "pará-lo".

* Na prática, isto significa que predomina uma atitude irónica e pueril face à simples possibilidade de travar qualquer debate genuinamente ideológico — mesmo quando, desde o primeiro instante, estavam lá as componentes demagógicas e a lógica populista do discurso de Trump (em boa verdade, desde 1988, quando Trump, questionado por Oprah Winfrey, admitiu a possibilidade de se candidatar à Presidência dos EUA).

* Triunfa, assim, um jornalismo do niilismo permanente, promovendo a angústia da impotência contra o simples gosto de pensar — com as gratificações próprias da boa consciência de esquerda.

A IMAGEM: Julia Noni, 2016

JULIA NONI
'Get your beach body fast'
Harper's Bazaar, Maio 2016

sexta-feira, julho 22, 2016

Cinema, futebol e populismo

Eis um filme sobre Pelé que, desgraçadamente, nem sequer construir uma perspectiva formalmente consistente sobre o próprio futebol — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Julho), com o título 'Futebol e populismo'.

Por certo motivada pelas recentes convulsões do Euro de futebol, a estreia do filme Pelé: o Nascimento de uma Lenda, realizado por Jeff e Michael Zimbalist (irmãos americanos com uma carreira sobretudo na área do documentarismo televisivo) traz à memória um outro filme — Fuga para a Vitória (1981), de John Huston — em que o próprio Pelé participou como actor, contracenando com Michael Caine e Sylvester Stallone; nele se narrava a odisseia de um grupo de prisioneiros num campo alemão, durante a Segunda Guerra Mundial, que utilizavam um jogo de futebol (contra os próprios alemães) para montar uma fuga espectacular.
Há uma estranha componente a unir os dois filmes: ambos encenam de forma superficial, involuntariamente anedótica, os lances do futebol. No primeiro caso, por certo um dos momentos menos felizes da notável filmografia de Huston, o jogo reduz-se a uma acumulação de piruetas físicas que, na melhor das hipóteses, podem fazer lembrar alguns movimentos do futebol americano; agora, o futebol surge como uma curiosidade mais ou menos pitoresca, afogada no miserabilismo populista com que é encenada a juventude do protagonista.
Eis um paradoxo que dá que pensar: por um lado, somos todos os dias visados por uma informação televisiva que transformou o futebol em instrumento de medida da actividade humana (“a equipa trabalhou muito bem”), celebrando-o como padrão único e asfixiante do conceito de patriotismo; por outro lado, o cinema revela uma patética incapacidade para lidar com a especificidade do jogo, como se só o pudéssemos apreciar através da mitificação simplista dos seus intérpretes. No final de Pelé: o Nascimento de uma Lenda, as imagens de arquivo têm mais intensidade e transportam mais emoção que qualquer momento do próprio filme.

SOUND + VISION Magazine / FNAC
— hoje, especial SPIELBERG

Rodagem de E.T., o Extraterrestre (1982)
— com Drew Barrymore
Das aventuras épicas de Tubarão (1975) às aventuras mágicas de O Amigo Gigante (2016), Steven Spielberg está na linha da frente da história artística, técnica e industrial do cinema das últimas quatro décadas. A sua obra será o tema central da próxima edição do nosso magazine — hoje, dia 22, às 18h30, na FNAC/Chiado.

O movimento segundo Sollers

Tempos difíceis. Tempos de angustiado humor. Philippe Sollers continua a escrever livros magníficos sobre a sua/nossa sociedade submetida ao "império dos simulacros" (é assim que ele designa a televisão), feita de muitas relações de indivíduos que já não vêem o movimento — e que, desse modo, perderam a singularidade que, justamente, os individualizava.

>>> Pascal, matemático místico, escreveu coisas deste género:
"Quero mostrar-vos uma coisa infinita e indivisível: é um ponto que se move por todo o lado a uma velocidade infinita, porque está em todos os lugares e está, por inteiro, em cada lugar."
Será que o leitor vê este movimento? Não? tanto pior.
[pág. 41]

Mouvement (ed. Gallimard, 2016) é esse romance construído sob o signo de Hegel (La vérité est le mouvement d'elle-même en elle-même — eis a citação de abertura) em que a observação mais íntima convive com aqueles que arriscaram pensar os limites, todos os limites. Tudo assombrado (o assombramento é, aqui, uma coisa feliz) pela presença imensa, incansável e sem cansaço, silenciosa e convulsiva, desses objectos de todos os futuros que são os livros.

>>> (...) os verdadeiros livros, radicalmente acordados, dormem de punhos cerrados, é a sua força. Estes blocos de sono são de uma lucidez incrível. Sei onde encontrá-los e como lhes falar.
[pág. 59]

Os livros de Sollers dos últimos anos (no limite, talvez toda a sua obra) podem ser percorridos como capítulos abertos, mas formalmente delimitados, de uma intransigência de viver e escrever que envolve sempre a defesa da irredutibilidade da própria escrita. Ele vive, afinal, essa memória magoada de um tempo em que escrever era uma arte de viver, não uma mensagem cifrada de telemóvel — vale a pena referir que, na gíria adoptada na língua francesa, um SMS é um texto [têxtô]. Em causa está a administração literária da solidão, esse admirável mecanismo de reconhecimento do outro.

>>> Ela não dorme se não recebeu o seu texto. Bruscamente, inventa um encontro profissional importante: texto. Dir-se-ia que é o seu ADN que a convoca, está pronta a sacrificar tudo por um virtuoso do texto. Já não lê mais nada a não ser as suas mensagens, os livros são demasiado longos e demasiado difíceis, baralham-se perante os seus olhos. A televisão, a rádio, o telefone vocal são desertos de aborrecimento. Tão convincente como a cocaína: o texto flash.
[pág. 138]  

quinta-feira, julho 21, 2016

Kirsten Dunst adapta Sylvia Plath

SYLVIA PLATH
(1932-1963)
Digamos que a actriz Kirsten Dunst não hesita perante as dificuldades: a sua estreia na realização será, nada mais nada menos, com a adaptação de The Belle Jar, romance semi-autobiográfico de Sylvia Plath, publicado em 1963: Dakota Fanning assumirá o papel central, estando o arranque das filmagens previsto para o primeiro trimestre de 2017 — a notícia foi divulgada em primeira mão pelo site Deadline.

quarta-feira, julho 20, 2016

Garry Marshall (1934 - 2016)

Veterano da comédia televisiva e cinematográfica, o americano Garry Marshall faleceu no dia 19 de Julho, em Burbank, California, vítima de pneumonia — contava 81 anos.
O nome de Marshall ficou definitivamente consagrado graças a Pretty Woman (1990), comédia romântica de enorme sucesso, com Julia Roberts e Richard Gere — é também um dos melhores exemplos das suas qualidades como director de actores. Em qualquer caso, na altura, ele era já um reconhecido realizador, sobretudo através das séries televisivas The Odd Couple (1970-1975) e Happy Days (1974-1984), esta de sua autoria, em 2009 transformada em espectáculo musical. The Odd Couple foi também decisiva para a afirmação de sua irmã, Penny Marshall (n. 1943), mais tarde também realizadora.
Entre os seus trabalhos em cinema, destacam-se ainda Frankie e Johnny (1991), com Michelle Pfeiffer e Al Pacino, Noiva em Fuga (1999), de novo com o par de Pretty Woman, e O Diário da Princesa (2001), com Julie Andrews e Anne Hathaway; a sua derradeira realização foi Um Dia de Mãe, estreado entre nós no passado mês de Abril. Publicou os livros de memórias Wake Me When It's Funny: How to Break into Show Business and Stay There (1995) e My Happy Days in Hollywood (2012).
Este é um registo do programa televisivo Today (NBC), assinalando os 25 anos de Pretty Woman, com Marshall e os principais nomes do elenco.


>>> Obituário no New York Times.

A IMAGEM: Cindy Sherman, 1977

CINDY SHERMAN
Untitled Film Still # 7
1977

Redescobrindo Steve Zaillian

Digamos, para simplificar, que a série The Night of (TVCine) — com um elenco que inclui, entre outros, John Turturro [cartaz], Riz Ahmed e Bill Camp — é um dos grandes acontecimentos televisivos da actualidade. Além do mais, através dela reencontramos um nome fundamental da história recente do cinema americano: Steve Zaillian — este texto está publicado na edição nº 40 da revista Metropolis, com o título 'Zaillian: argumentista/realizador'.

A série televisiva The Night of envolve vários nomes de grande prestígio na história das últimas décadas do cinema americano, incluindo Richard Price e Steve Zaillian. O caso de Zaillian justifica um breve sublinhado, quanto mais não seja porque ele pode ser considerado como uma das brilhantes encarnações modernas de um estatuto que, no período clássico, adquiriu configurações muito especiais (lembremos o exemplo emblemático de Joseph L. Mankiewicz) — dito de outro modo: Zaillian é um brilhante argumentista/realizador.
Steve Zaillian
Na história de Hollywood, Zaillian ocupa um lugar de honra, decorrente do Oscar ganho com o seu trabalho de argumento (adaptado) para A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg. Foi a sua segunda nomeação, três anos depois de Despertares, de Penny Marshall, com Robert De Niro, filme baseado nos escritos de Oliver Sacks. Depois disso, foi nomeado mais duas vezes, por argumentos partilhados com outros autores: primeiro, por Gangs de Nova Iorque (2002), de Martin Scorsese; depois, com Moneyball (2012), de Bennett Miller.
A estreia de Zaillain ocorreu em 1985, como argumentista de O Jogo do Falcão, de John Schlesinger, inspirada num caso verídico de espionagem. Em 1993, escreveu e dirigiu um filme belíssimo, daqueles que nunca estrearam nas salas portuguesas (embora tenha sido editado em cassete): chama-se Searching for Bobby Fischer (título português: Jogada Inocente) e segue a odisseia de uma criança, pequeno génio do xadrez, que acredita poder vir a assumir um estatuto idêntico ao campeão Bobby Fischer.
Zaillian realizou mais dois filmes: A Qualquer Custo (1998), um drama de tribunal, e O Caminho do Poder (2006), sobre os bastidores políticos de uma comunidade do Sul dos EUA. Como argumentista, a sua assinatura surgiu ligada a títulos tão significativos como Missão Impossível (1996), de Brian De Palma, Hannibal (2001), de Ridley Scott, e Millenium 1: Os Homens que Odeiam as Mulheres (2011), de David Fincher. Ultimamente, o seu nome tem sido associado a um possível projecto de Spielberg, Montezuma, concebido a partir de um argumento escrito, e nunca filmado, por Dalton Trumbo.

terça-feira, julho 19, 2016

No coração de Elton John

Lançado no passado mês de Fevereiro, o álbum Wonderful Crazy Night permitiu-nos reencontrar um Elton John fiel ao seu rock em tom intimista, piano q.b.; agora, podemos revê-lo também como personagem de um dos seus telediscos (o que já não acontecia há cerca de uma década) — com direcção de Daniel Kragh-Jacobsen, A Good Heart é mesmo feito com o coração.

Sokurov filma o Louvre

Nem documentário, nem ficção: Francofonia é mais uma proposta admirável de Aleksandr Sokurov — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Julho), com o título 'O museu do mundo todo'.

Decididamente, para Aleksandr Sokurov, um museu não é um armazém. Nem uma colecção de cromos. Em A Arca Russa (2002), a sua câmara percorria o Hermitage, em São Petersburgo, numa vertigem de continuidade (era um filme feito num único plano, convém recordar) que se ia tornando paradoxalmente descontínua, expondo as memórias, deslumbradas e magoadas, de uma Rússia ainda desconhecedora das convulsões do comunismo. Agora, em Francofonia, Sokurov vem-nos dizer o que já sabíamos — o Louvre como imensa galáxia de história e histórias —, embora levando-nos a discutir muitas certezas correntes sobre a conservação do património artístico.
Aleksandr Sokurov
Será, por isso, irrelevante encaixar Francofonia em qualquer modelo de “documentário” ou “ficção”. Este é o filme em que o próprio Sokurov se coloca em cena, perante o ecrã do seu computador, inquirindo sobre as inusitadas atribulações a que os humanos sujeitam os objectos artísticos. Mais do que isso: a frieza jornalística dos factos evocados não impede que Napoleão “saia” das telas, vagueando pelas salas do Louvre, apontando os quadros e proclamando, com compreensível orgulho, “sou eu”.
Em qualquer caso, o cerne da questão está na relação que, durante a ocupação alemã, se estabeleceu entre o director do museu e o oficial nazi encarregado de administrar a “cultura” (interpretados, respectivamente, por Louis-Do de Lencquesaing e Benjamin Utzerath). Nessa relação, Sokurov descortina uma cumplicidade tão discreta quanto tácita que, por abençoada perversidade, conseguiu conter o desejo de “exportação” de muitas obras-primas do Louvre, alimentado, em Berlim, por Hitler e Goebbels. São memórias multifacetadas da Segunda Guerra Mundial que, além do mais, conduzem o cineasta a evocar as feridas da sua pátria e, em particular, a resistência trágica de Leninegrado (aliás, São Petersburgo).
Daí a luminosa moral de Francofonia: um museu não é exactamente um lugar para contemplar a arte do mundo, mas mais uma paisagem viva que, no limite, nos permite ver o mundo todo.