terça-feira, novembro 20, 2012

Um conto de verão


Falando ainda dos melhores filmes que vi nesta edição 2012 do Lisbon & Estoril Film Festival. Este texto foi originalmente publicado na edição online do DN com o título ‘Um Silencioso Conto de Verão’.

Segundo filme de Roberto Minervini, Low Tide é um olhar de poucas palavras construído em volta do dia a dia de um rapaz de 12 anos, algures numa pequena cidade americana (pela cena final, imaginamos que seja no litoral), durante os meses de Verão. Nas primeiras imagens vemo-lo a andar de bicicleta, dela saindo para apanhar uma cobra que vira entrar numa fissura no solo. Nos minutos seguintes transporta e arruma gelo, faz uma máquina de roupa... E só passado um quarto de hora uma voz rompe o silêncio de palavras. É a mãe, que no seu jeito indolente, lhe pede uma cerveja.

Ao longo dos cerca de 90 minutos do filme pouco mais vemos do que o quotidiano do rapaz e o mundo de contrastes da mãe (que de dia trabalha num lar de idosos, contando com a ajuda do filho que por ali almoça, e vive noites ruidosas de festa entre amigos). Mais de gestos de palavras, Low Tide é também mais feito de olhares que propriamente de uma trama. A câmara de Roberto Minervini aproxima-se por isso de um registo documental, procurando observar sem interferir, estudando o espaço, reparando nas rotinas, sugerindo que, além delas, pouco mais há naquelas vidas. E o aparente espaço de liberdade total que parece existir na vida do pequeno protagonista é, afinal, pouco mais que um terreno em potência onde parece que nada de novo ele próprio já espera que aconteça.

Destacando-se pelo cruzamento de uma linguagem documental com uma ideia minimalista de ficção, Low Tide tem como potenciais focos de interesse a espantosa interpretação do protagonista (Daniel Blanchard ) e uma demanda que parte da sugestão de uma muito ténue linha narrativa que vive sobretudo do tempo que passa, daquele lugar e suas personagens. E tal como o realizador ali não procurou mais (nem sequer o nome da mãe e do filho), não queiramos nós encontrar aqui o que aqui não está.