segunda-feira, agosto 31, 2009

Disney compra Marvel

Qual é a relação entre o rato Mickey e o Capitão América? É simples: são vizinhos. Isto porque a Walt Disney Company adquiriu a Marvel Entertainment por um valor que, incluindo acções e dinheiro, envolve 4 mil milhões de dólares (cerca de 2800 milhões de euros). Na prática, isto significa que as aventuras (e adaptações cinematográficas, hélas!) do Capitão América, Homem-Aranha ou X-Men passam a ser geridas pelos estúdios Disney — em boa verdade, são cerca de 5 mil as personagens da Marvel cujos direitos pertencem, a partir de agora, à casa de Mickey e Donald. Se dúvidas ainda houvesse sobre a importância crescente da BD nas estratégias contemporâneas do entertainment, eis que ficam devidamente esclarecidas.

>>> Comunicado oficial da Walt Disney Co.

Taratino segundo o IMDb

Escusado será lembrar que o IMDb é um site muito consultado e, por vezes, muito útil (mesmo se, de um modo geral, a informação sobre a produção europeia é francamente mais limitada do que a referente à indústria americana). O certo é que, não poucas vezes, o IMDb, nem que seja por demissão, é também um promotor dos mais primários clichés sobre um pouco de tudo, incluindo o trabalho dos críticos.
Repare-se no texto que, actualmente, abre a zona de comentários de Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino. Proveniente de um visitante de Toronto, o comentário reage contra algumas leituras críticas (serão, em particular, provenientes dos EUA), muito negativas em relação ao filme. Não que eu concorde com tais leituras (o filme parece-me mesmo um dos mais espantosos objectos de cinema do momento; aliás, impressionou-me imenso desde a sua descoberta em Cannes). Não é uma questão de "pró" ou "contra" que está em causa — é, isso sim, o facto de tal servir de pretexto para "arrebanhar" os críticos como uma colecção de patetas que, em última instância, se entediam com o cinema. Aliás, o visitante nem sequer formula a simples e humana hipótese de podermos discordar de outro sem o considerar um atrasado mental... O título do comentário é, nesse aspecto, esclarecedor: "Not for critics, but people who love a good movie" (à letra: "Não para críticos, mas para pessoas que gostam de um bom filme").
Em última instância, o que aqui se discute não é nenhum ponto de vista sobre Inglourious Basterds (como não seria se alguém escrevesse "não para espectadores, mas para pessoas que gostam de um bom filme"). O que aqui se discute é a chocante "neutralidade" com que o IMDb — que ostenta a orgulhosa divisa: visitado mensalmente por mais de 57 milhões de amantes do cinema e da TV — promove este tipo de infantilismo cinéfilo. Em boa verdade, é abusiva qualquer confusão entre os insultos deste estilo conflituoso e a cinefilia.

Richard Gere: 30 x 2

Há cerca de 30 anos, no filme de Paul Schrader American Gigolo (1980), Richard Gere revelava-se — e as conotações sagradas do verbo não serão de desprezar — como símbolo de um imaginário do prazer em que, de facto, de forma mais ou menos dolorosa, todas as certezas tradicionais vacilavam. É um filme admiravelmente moderno, de exuberante e paradoxal conservadorismo, que mantém intacta a sua capacidade de discutir os pressupostos de uma cultura "lúdica" (cada vez mais televisiva) baseada num profundo alheamento dos enigmas da sexualidade.
Vêm estas memórias a propósito de um facto singular: momentaneamente, podemos dizer que American Gigolo constitui um ponto de equilíbrio intermédio da própria existência do seu actor — isto porque Richard nasceu a 31 de Agosto de 1949 e celebra hoje 60 anos. Parabéns!

Quando o 'cricket' se faz... canção

Depois de algumas semanas a evocar canções para uma banda sonora de verão, retomamos hoje o regime habitual, essencialmente centrado na actualidade. E espreitamos assim o novo disco de Neil Hannon (Divine Comedy), numa colaboração com Thomas Walsh (da banda irlandesa Pugwash) sobre… cricket… O disco acaba de ser editado no Reino Unido sob a designação de Duckworth Lewis Method. E inclui este Meet Mr. Miandad.

Rufus ao vivo (take 2)

Tem por título Milwaukee At Last!!! e data de lançamento agendada para 7 de Setembro. É o segundo álbum ao vivo de Rufus Wainwright, na verdade o primeiro essencialmente feito de música sua, uma vez que o anterior corresponde ao concerto centrado nas canções de Judy Garland. Gravado em Agosto de 2007 no Pabst Theatre em Milwaukee (Wisconsin), o disco é uma edição dupla em áudio e vídeo. O CD inclui dez canções, entre as quais uma versão de If Love Were All, de Noel Coward. O DVD apresenta a totalidade do concerto, no qual se juntam ainda versões de A Foggy Day In London Town (Gershwin) ou Complainte de la Bute(Parys/Renoir).

'Manafon' a 14 de Setembro

A editar a 14 de Setembro, Manafon é o novo álbum de David Sylvian. Apesar dos vários discos e colaborações que foi apresentando nos últimos seis anos, este é verdadeiramente o sucessor do belíssimo Blemish, que lançou através da sua própria editora em 2003. Nesse disco Sylvian aventurava-se por terrenos onde a improvisação de revelava ferramenta de base no trabalho da composição de novas canções (retomando assim um modelo que em tempos usara juntamente com os ex-Japan Steve Jansen, Richard Barbieri e Mick Karn quando em 1990 se juntaram em disco como Rain Tree Crow). O álbum apresenta entre os seus colaboradores os nomes de Christian Fennesz, Evan Parker e John Tilbury e procura, como explicou em entrevista à mais recente edição da Wire, levar este desafio mais adiante. O disco surgirá no mercado em duas versões, uma delas com um DVD como extra, incluindo o filme Amplified Gesture.

Charlotte + Beck = 'IRM'

Beck é figura com protagonismo claro no próximo álbum de Charlotte Gainsbourg, a editar em inícios de 2010. Com o título provisório IRM, o álbum contou com Beck como autor das canções, produtor e ainda responsável pela mistura. O disco anterior da cantora (e também actriz), 5:55, de 2006, contava entre os colaboradores com as presenças de Neil Hannon, Jarvis Cocker e o produtor Nigel Godrich.

Veneza 2009: a selecção oficial

A 66ª edição do Festival de Veneza arranca dia 2. Antecipamos hoje os títulos dos filmes na competição oficial para o Leão de Ouro. Um lote onde são poucos os nomes de primeira linha e, assim sendo, quem sabe se guardando espaço à supresa de alguma revelação. O júri é presidido por Ang Lee, que já venceu por duas vezes o festival. A imagem que ilustra o post é do novo filme de Wener Herzog, que integra a competição oficial. Aqui ficam os filmes em competição:

‘Soul Kitchen’, de Fatih Akin (Alemanha)
‘La Doppia Ora’, de Giuseppe Capotondi (Itália)
‘Yi Ngoi’, de Pou-Soi Cheang (Hong Kong, China)
‘Persécution’, de Patrice Chereau (França)
‘Lo Spazio Bianco’, de Francesca Comencini (Itália)
‘White Material’, de Claire Denis (França)
‘Mr Nobody’, de Jaco Van Dormael (França)
‘A Single Man’, de Tom Ford (EUA)
‘Lourdes’, De Jessica Hausner (Áustria)
‘Bad Lieutenant – Port Of Call New Orleans’, de Werner Herzog (EUA)

"Avatar"... e os outros?

É claro que Avatar, de James Cameron, é um dos grandes acontecimentos do final deste ano cinematográfico. Mas será isso uma boa razão para secundarizar tudo o resto? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (29 de Agosto), com o título 'À espera de "Avatar"'.

O novo filme de James Cameron, o cineasta de Titanic, chama-se Avatar e está a ter uma fortíssima promocão (estreia em Dezembro): trata-se de uma superprodução que aposta em consolidar nos mercados o cinema a três dimensões. Devo dizer que participo por inteiro da expectativa: a ambição de espectáculo de Cameron seduz-me, como me seduz (e desconcerta) a possibilidade de o 3D se tornar uma nova e decisiva componente criativa.
Mas que dizer da facilidade com que os meios de comunicação, em especial a televisão, privilegiam a informação sobre Avatar? De facto, até ao fim do ano, vão estrear títulos como Estado de Guerra (de Kathryn Bigelow, sobre a guerra do Iraque), Séraphine (César de melhor filme francês), Away We Go (o novo de Sam Mendes), Antichrist (com que Lars von Trier esteve em Cannes) ou Ne Change Rien (espantoso exercício de intimidade musical com assinatura de Pedro Costa). Ora, nenhum desses filmes consegue um décimo da visibilidade mediática que é concedida a Avatar. Não será que informar é também procurar para além da linha da frente do marketing?

Ted Kennedy evocado por Barack Obama

Nas cerimónias fúnebres de Ted Kennedy, o Presidente dos EUA fez o elogio do senador do Massachusetts, considerando-o "o maior legislador do nosso tempo". Combinando o retrato público com os detalhes privados, o discurso de Barack Obama (29 Agosto) é um exemplo cristalino de uma cultura criativa face à morte — resistindo à paralisia do tempo, projectando o passado em todos os desejos de futuro.

domingo, agosto 30, 2009

Chiara Mastroianni por Christophe Honoré

Chiara Mastroianni é a figura central do novo filme de Christophe Honoré, um drama familiar ironicamente intitulado Non Ma Fille, Tu N'Iras pas Danser. Desta vez, ao que parece, Honoré não põe as suas personagens a cantar — como em As Canções de Amor (2007) —, mesmo se a música tem assinatura de Alex Beaupain (precisamente o compositor das Canções). Marina Foïs, Marie-Christine Barrault e Jean-Marc Barr figuram no elenco. A estreia francesa está marcada para 2 de Setembro — temos, para já, o trailer.

Spielberg regressa a Crichton

A notícia não é ainda segura, mas é muito possível que, depois de Parque Jurássico (1993) e Parque Jurássico: O Mundo Perdido (1997), Steven Spielberg volte a dirigir uma adaptação de Michael Crichton. De facto, a DreamWorks, estúdio liderado por Spielberg, acaba de adquirir os direitos de adaptação de Pirate Latitudes, romance póstumo de Crichton a ser editado no próximo mês de Novembro. Seja como for, David Koepp, que já assinara os argumentos daqueles dois títulos, irá escrever a respectiva adaptação cinematográfica.
Vale a pena sublinhar que este é o primeiro anúncio oficial da DreamWorks depois do consumada a sua ligação financeira com a Reliance (da Índia), sem dúvida um dos negócios marcantes para o futuro de Hollywood. Entretanto, Spielberg tem em fase de pós-produção a primeira parte de uma trilogia de Tintin, The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn, a estrear em 2011; ainda antes disso, deverá filmar um remake de Harvey que poderá estar nas salas no final de 2010.

"The Truman Show" ao contrário?...

Jim Carrey
The Truman Show (1998)

Hoje em dia, em televisão, o alarmismo deixou de ser um limite; impôs-se como um "estilo". As abordagens da recente tragédia na praia Maria Luísa, no Algarve, permitem perceber isso mesmo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 de Agosto), com o título 'A televisão que gosta de catástrofes'.

Tenho visto, ao longo dos últimos dias, as imagens televisivas da praia Maria Luísa, no Algarve, e há algo que transcende a tragédia e o sofrimento das pessoas. Tem a ver com um incómodo subtexto que as palavras arrastam e que já tinha pressentido quando ouvi as primeiras notícias na rádio (o que prova que se trata de qualquer coisa que passa muito pelo que se diz e, sobretudo, pelo modo de o dizer). Poderemos chamar-lhe: atracção pela catástrofe.
Não se trata, entenda-se, de sugerir que, individualmente, os jornalistas televisivos são insensíveis ou sádicos. Trata-se, isso sim, de observar que o dispositivo informativo da televisão integrou o consumo do desastre e da dor. Com um complemento eminentemente político: a procura automática de “culpados” para qualquer acidente. Desta vez, até podemos recordar que não há nenhum determinismo maniqueísta nas formas da natureza. No DN de domingo, dia 23 [primeira página aqui ao lado], surgiam estas linhas de rudimentar sensatez: “O próprio presidente do Instituto da Água, Orlando Borges, admitiu ontem que os processos de avaliação das arribas do litoral “são de enorme complexidade” e acidentes como o registado ontem na praia Maria Luísa, em Albufeira, são “fenómenos de imprevisibilidade”.” Seja como for, em alguns casos, o modo como se mostra, as descrições que se fazem e as insinuações que se favorecem empurram-nos para uma lógica de “tribunal popular”. Como quem pergunta: “Não será que o Governo é culpado de tudo isto?”
Bem sei que sugerir tal coisa pode atrair outro tipo de insinuação: a de que alguma informação televisiva estaria a promover a difamação do actual Governo. De facto, o que estou a tentar compreender não tem nada a ver com isso, quanto mais não seja porque outros governantes, de outras cores políticas (recordo o caso de Pedro Santana Lopes, como primeiro-ministro), já foram sujeitos ao mesmo processo de desgaste mediático. O que se passa é que há modos de fazer televisão que parecem apostados em promover um caos ridiculamente pueril: quando algo de negativo acontece, não só é preciso encontrar de imediato “culpados”, como a “culpa” só pode ser de quem governa (seja quem for!).
Repare-se: este está longe de ser um método que tenha a cena política como alvo único. O permanente alarmismo tornou-se uma verdadeira forma de histeria mediática que tende a contaminar muitas zonas da vida social. Basta ver o que, continuamente, acontece na abordagem do futebol. Num país assolado por uma complexa crise económica, ninguém lança um debate sobre o projecto (absurdo, a meu ver) de envolver Portugal na organização do Mundial de Futebol de 2018. Em todo o caso, todas as semanas, promovem-se discussões delirantes sobre os cartões que o árbitro X ou Y mostrou e não mostrou...
Dir-se-ia que nos querem condenar a viver numa espécie de pesadelo simétrico ao da personagem de Jim Carrey no filme The Truman Show/A Vida em Directo (1998), de Peter Weir [cartaz do filme]. Aí, a televisão colocava-o num cenário artificioso e idílico, fabricado para ser confundido com uma realidade espontânea, não manipulada. Agora, massacram-nos com uma realidade que é sempre feia, suja, degradada e catastrófica. Depois, fazem concursos para nos lembrarem que somos muito felizes.

Bowie... no espaço

A dupla neo-zelandesa Flight Of The Conchords tem mostrado uma forma muito particular de fazer humor através da assimilação de marcas da cultura pop(ular). Aqui os vemos numa hilariante paródioa a David Bowie, numa Bowie Song que cruza ecos dos dias de Space Oddity, Hunky Dory e Ziggy Stardust

A marca amarela

Este texto foi originalmente publicado no suplemento DN Gente de 22 de Agosto, com o título 'O Triunfo da Marca Amarela'.

A cartela amarela, com o logotipo no centro, é uma das mais fortes imagens de marca na história da música. O actual logotipo não nasceu com a editora, que este ano soma 111 anos de actividade. Mas desde finais dos anos 40 a "marca amarela" é etiqueta respeitada e bem sucedida, representando um percurso que acompanhou as sucessivas revoluções tecnológicas e um catálogo que, ao longo das décadas, acolheu a participação de alguns dos maiores maestros, intérpretes, orquestras e compositores que o mundo conheceu desde que a música deixou de ser um exclusivo das salas de espectáculos para, gravada, passar a entrar pelas casas de todos nós.
De Enrico Caruso a Leonard Bernstein, de Herbert von Karajan a Anne-Sophie Mutter, de Willhelm Kempff a Anne Sofie von Otter, de Wilhelm Furtwangler a Karlheinz Stock- hausen, de Pierre Boulez a Maria João Pires, a "família" de nomes que ao longo de mais de um século gravou pela Deutsche Grammophon (DG) fez do seu catálogo um verdadeiro arquivo de algumas das mais importantes e bem sucedidas gravações da história da música gravada. A companhia nasceu em 1898 em Hannover (Alemanha), juntamente com a primeira fábrica de discos e gramofones. À sua frente estava Emile Berliner (nada mais que o inventor do disco).

Dois anos depois o disco de Berliner venceu a primeira batalha de formatos, suplantando o cilindro de Thomas Edison, criando então um novo paradigma para a venda de música gravada. Para a vitória neste confronto contribuiu a presença de nomes de primeiro plano no catálogo, entre os quais se destacava então a presença de Enrico Caruso ou Francesco Tamagno (este último o primeiro 'Otello' de Verdi). A primeira década do século XX é tempo de estreias em série. Data de então a primeira gravação de uma orquestra, ao som de um andamento do Concerto para Piano de Grieg, com Wilhelm Back- haus como solista. Três anos depois, a 5.ª Sinfonia de Beethoven torna-se a primeira obra a ser gravada na sua extensão total. Arthur Nikisch dirige aí a Filarmónica de Berlim, num registo que ocupa quatro discos de duas faces. Em 1904, o estatuto conquistado pela companhia vale-lhe o "sim" de Nellie Melba, a maior estrela de ópera do seu tempo. Fred Gaisberg, um dos colaboradores directos de Berliner, desloca-se também por essa altura a um castelo em Gales para gravar Adelina Patti, outra das grandes vozes da época.
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Nellie Melba e Enrico Caruso

A conturbada Europa política dos anos 10 a 40 afecta seriamente a história musical (e empresarial) da Deutsche Grammophon. A Primeira Guerra Mundial leva à separação das operações inglesa e alemã da companhia. E com a separação chega ao fim a utilização da marca 'His Master 'sVoice' (e da imagem de Napier, o cão que olhava de perto para um gramofone, nas etiquetas dos seus discos editados até aí). Mas no plano técnico e artístico, a história segue o seu caminho.
Em 1925, com a chegada de um novo sistema de gravação electroacústica é lançada uma primeira integral sinfónica de Beethoven por Oskar Fried (e outros). No ano seguinte, Wilhelm Furtwängler grava a 5.ª de Beethoven e o Freischütz de Weber... E quando o fundador Berliner morre, em 1928, a produção da companhia que abrira as portas 30 anos antes já tinha atingido os dez milhões de discos, empregando a fábrica de Hanôver 600 pessoas.
A Grande Depressão gera a primeira quebra mundial de vendas de discos. Tempos difíceis que se prolongam durante o III Reich, sob o qual se aplicam restrições editoriais. Data desse período a chegada ao catálogo do maestro Herbert von Karajan, que se estreia em disco em 1938. Outras dificuldades surgem sob novo cenário de guerra mundial, nomeadamente a escassez de matérias-primas.
Alguns projectos editoriais especiais mesmo assim chegam a bom porto. Um deles é uma gravação completa da Paixão segundo São Mateus, de Bach, por Bruno Kittel em 1942, cujas matrizes são levadas por submarino até ao Japão, onde havia 17 mil encomendas feitas. A fábrica em Hanôver é destruída na sequência de um bombardeamento e, depois da guerra, a produção é retomada numa pequena oficina em Berlim.
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Com o fim da guerra novos mercados e desafios abrem-se ao mercado da música gravada. A Deutsche Grammophon é, em 1946, a primeira companhia a fazer todas as gravações usando fita magnética. No mesmo ano é criado o selo Archiv, especialmente dedicado à música antiga. E na recta final da década, depois da venda dos direitos da marca His Master's Voice à EMI, surge finalmente a etiqueta amarela ornada com tulipas azuis que desde então é imagem de marca da editora.
As revoluções tecnológicas estão na base de alguns dos grandes acontecimentos na história da DG na segunda metade do século XX. E o aparecimento do LP em vinil e, mais tarde, o advento da gravação em estéreo, foram conquistas rapidamente assimiladas, colocadas ao serviço de gravações de nomes como David Oistrakh, Sviatoslav Richter, Georg Solti, Elisabeth Schwarzkopf, Karl Böhm, Rafael Kubelik, Lorin Maazel ou Claudio Abbado, que então chegam à editora.
A partir dos anos 50, a música electrónica ganha ali visibilidade através de obras editadas em disco por Karlheinz Stockhausen. Em 1962 cabe a Karajan, à frente da Filarmónica de Berlim, a primeira gravação das nove sinfonias de Beethoven em estéreo, numa edição que apresenta ao público o primeiro pacote por assinatura.
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Com os anos 80 chega ao catálogo uma nova geração de artistas, revelando globalmente, entre outros, os nomes de Anne Sofie von Otter, Bryn Terfel ou Maria João Pires. E entra em cena o CD, que tem no maestro Karajan um dos seus maiores entusiastas.
Tal como no passado, a entrada em cena de novos formatos foi rapidamente assimilada pela Deutsche Grammophon, que hoje tem activa uma loja online que propõe, além dos títulos apresentados para o mercado "físico", uma série de lançamentos exclusivos para venda por download.
Porém, e como no passado, a adaptação da companhia a novos tempos não se limitou a mudanças tecnológicas, tendo os últimos anos assistido a uma série de novas contratações, que hoje dão já considerável protagonismo a uma nova geração de artistas.
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O mais recente "fenómeno" que a editora viu nascer chama-se Gustavo Dudamel. A primeira "estrela" nascida do sistema de orquestras juvenis venezuelano ganhou sobretudo visibilidade com o lançamento de Fiesta!, álbum de 2008 no qual a Orquestra Simón Bolívar interpretou uma série de peças de compositores contemporâneos latino-americanos.
Dudamel não é contudo a única nova estrela entre a geração de artistas que têm assinado alguns dos títulos mais aclamados da editora na presente década. Uma série de vozes representam parte da linha da frente dos protagonistas do catálogo, entre eles Thomas Quasthoff, Rolando Villazón, Magdalena Kozéná, Elina Garanca ou Anna Netrebko, estas duas últimas tendo partilhado este ano a gravação da ópera I Capuleti e i Montecchi, de Bellini.
O pianista chinês Lang Lang é outro dos casos sérios de sucesso no catálogo actual da DG. Há um ano lançou uma autobiografia. Para o Outono anuncia uma gravação de obras de Rachmaninov e Tchaikovsky. Um panorama da nova geração DG não pode ignorar a violinista norte-americana Hillary Hahn ou o maestro finlandês Esa-Pekka Salonen, que a acompanhou num disco com gravações de obras de Sibelius e Schoenberg que lhes valeu um Grammy.
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A DG sempre contou com compositores em catálogo. E nesta década, aquele que mais se destacou terá sido o argentino Osvaldo Golijov, que deverá editar ainda este ano uma nova gravação da sua Passion Según San Marcos. Entre os projectos em carteira tem uma segunda ópera, encomendada pelo Met, de Nova Iorque.

Minimalismo, a solo (e ao piano)

Tem 40 anos e uma carreira que evolui em três frentes: como pianista, como compositor e ainda como promotor de concertos. O holandês Jeronen Van Veen começou cedo a estudar piano.Em 1992 estreou-se em disco, em conjunto com o seu irmão, formando o Pianoduo van Veen. A obra dos minimalistas morou desde cedo entre os seus interesses, chegando ele mesmo a seguir as suas linguagens na música que compõe. Minimal Piano Collection (edição da Brilliant Classics) é uma caixa de nove discos nos quais o pianista interpreta uma vasta série de peças para piano solo de uma série de compositores minimalistas. Originalmente compostas para piano solo ou fruto de transcrições para piano, as obras que aqui se juntam ajudam a arrumar algumas etapas importantes na história da música minimalista. Philip Glass é o evidente protagonista, ocupando a sua música três 3 CDs, entre os quais encontramos obras para piano que originalmente gravou em Solo Piano e Glassworks, transcrições para piano da música de As Horas e outras peças como Modern Love Waltz, How Now ou a Trilogy Sonata. De nomes igualmente centrais à construção deste espaço contam-se peças como China Gates de John Adams, Für Alina de Arvo Pärt ou In C, de Terry Riley. Estão ainda representados Michael Myman, Wim Mertens, Yan Tiersenn e uma série de compositores menos divulgados, entre os quais o próprio Jeronen Van Veen. A caixa inclui ainda peças que, mesmo anteriores ao minimalismo, reflectem noções que esta música depois explorou. Aqui em concreto evocam-se compositores como John Cage ou Erik Satie.

sábado, agosto 29, 2009

Madonna, cineasta

Filth and Wisdom, primeira realização cinematográfica de Madonna, é um "velho" assunto aqui no SOUND+VISION — o Nuno esteve na sua estreia mundial, no Festival de Berlim de 2008, perguntando num post de 17 de Fevereiro: "Resta agora saber quando, onde e como poderemos ver este filme em Portugal." Pois bem, a resposta demorou, mas aí está: Filth and Wisdom — entre nós, Sujidade e Sabedoria — chegará às salas portuguesas do dia 10 de Setembro.
O mínimo que se pode dizer é que o filme contraria todas as insinuações que nele queriam ver (mesmo antes de ver) a ilustração de uma banal "imagem de marca" de Madonna (como se, mesmo nisso, ela alguma vez tivesse sido banal...). Não se trata, nem de longe nem de perto, de um objecto gerado por uma qualquer lógica de marketing. É mesmo um filme que, através da sua teia de personagens em estado de orfandade simbólica ou social, nos convoca para uma reflexão centrada na dicotomia sugerida pelo título — curiosamente traduzida pelos franceses por "Obscenidade e virtude". Para já, sublinhemos que o principal mensageiro desse estado de coisas é o exuberante Eugene Hutz [foto], vocalista dos Gogol Bordello, um caso raro de energia física e subtileza dramática.

Televisão, arte e emoção

"Arte e emoção" poderá ser uma expressão para falar, por exemplo, de ci-nema. Mas na televisão portuguesa serve de nome a um programa sobre... tauromaquia! — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 de Agosto), com o título 'Arte e emoção'.

1. A existência de um magazine sobre tauromaquia (RTP2) é um facto que colide com a minha sensibilidade. Problema meu, dirão alguns. Talvez não, acrescento eu, na certeza de que não estou só na indignação de saber que há animais martirizados em nome da “festa”. Em todo o caso, mesmo passando ao lado dessa questão, como é possível que se faça um programa desses com o título Arte & Emoção? Será por ingenuidade, ou puro desplante, que são apropriadas (e associadas) duas palavras que não podem, nem sequer em nome de qualquer lógica meramente descritiva, ser exclusivo de nenhum domínio da actividade humana? Imaginem que alguém fazia um magazine sobre cinema e lhe chamava Arte & Emoção?

2. A série Californication (RTP1) não é exactamente uma novidade, uma vez que já tinha sido possível acompanhá-la num dos canais do cabo. Ainda assim, vale a pena lem-brar que, na mais recente produção americana, é uma das mais subtis no modo como se apropria de um cliché (a equação “Cali-fórnia=sexo fácil”), transfigurando-o numa cáustica reflexão sobre as fronteiras de um certo hedonismo contemporâneo. Criada por Tom Kapinos, a série consegue também contrariar a própria imagem de marca do seu protagonista, David Duchovny: da frieza romântica do agente Fox Mulder (Ficheiros Secretos), ele renasce aqui como Hank Moody, um escritor bloqueado na escrita e nas relações, dando provas de uma capacidade de representação muito para além de qualquer estereótipo psicológico ou social.

3. Está a passar no canal Hollywood uma bela cópia de Um Lugar ao Sol (1951), o clássico de George Stevens, adaptação do romance Uma Tragédia Americana, de Theodore Dreiser. Face à sua relegação para um canal “es-pecializado”, é inevitável observar como os canais generalistas passaram a dispensar maravilhas como esta, preferindo massacrar os espectadores com a retórica das novelas. Com alguma ironia, podemos recordar que Um Lugar ao Sol tem quase tudo o que uma novela tem: um amor contrariado, as confrontações de classes, perversão e crime... Com algumas diferenças. Que diferenças? Arte e emoção. E Elizabeth Taylor. E Montgomery Clift.

David Sylvian, 1984

A poucas semanas da edição de um novo álbum, David Sylvian é nome (e obra) a evocar ao longo dos próximos tempos no Sound + Vision. Começamos por evocar hoje o single que assinalou o definitivo arranque da sua carreira a solo. Na verdade já tinha editado dois singles em colaboração com Ryuichi Sakamoto ainda os Japan estavam no activo. Mas em 1984, Red Guitar anunciava (já com o grupo separado) a edição de Brilliant Trees, um soberbo álbum de estreia a solo no qual contava, entre outros com as colaborações de Ryuichi Sakamoto, Holger Czukay, Jon Hassell e os ex-Japan Steve Jansen e Richard Barbieri. Aqui fica Red Guitar, num teledisco assinado por Anton Corbijn.



David Sylvian
'Red Guitar' (1984)

Dylan numa cave londrina

Desde Maio, a pequena sala junto à livraria na cave da National Portrait Gallery, em Londres, acolhe um conjunto de fotografias de Bob Dylan que recordam a sua histórica digressão de 1966. Assinadas por Barry Feistein, e recentemente incluídas no seu livro Real Moments, estas 14 imagens traduzem o desafio que lhe foi colocado na altura, permitindo-lhe livre acesso a todos os lugares e horas, com Dylan como protagonista. O entendimento entre fotógrafo e músico é evidente... Esta exposição é de entrada gratuita.

Londres, Agosto 2009 (5)



Mais um conjunto de olhares por Londres, hoje em tons de verde. As três imagens que vemos neste post ilustram pormenores de lugares no topo de Shadftsbury Avenue e, não muito longe, em Neal Street. A caminho de Covent Garden, portanto.

sexta-feira, agosto 28, 2009

Imagens e palavras de Tarantino

Com Brad Bitt, Mélanie Laurent [foto] e Christoph Waltz (prémio de melhor actor em Cannes), Inglourious Basterds/Sacanas sem Lei é um filme em que Quentin Tarantino põe à prova as fronteiras da história e da dramaturgia clássica — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 de Agosto), com o título 'Picasso, heterodoxia e antinazismo'.

Dos EUA chegam-nos ecos de algumas polémicas sobre o grau de “verdade” dos factos encenados por Quentin Tarantino em Sacanas sem Lei. Parece-me uma discussão pueril, enredada nas exigências desse “verismo” de telejornal que nos quer reduzir a crianças inertes, para sempre amarradas aos bancos da escola. É mesmo uma discussão que nos faz recuar ao ponto de começarmos a pôr em causa a Guernica de Picasso porque os cavalos não estão muito “parecidos”... Será preciso lembrar que a questão da “aparência” figurativa ou factual não basta para entender o que aconteceu nas artes dos últimos 150 anos?
Sim, é verdade que Quentin Tarantino introduz delirantes derivações na sua “reconstituição” da Segunda Guerra Mundial, nomeadamente no tratamento de uma viagem de Adolf Hitler a Paris. Acontece que ele não está a fazer um tradicional filme de guerra. É mesmo duvidoso que Sacanas sem Lei se possa classificar, apenas, como filme de guerra (quanto mais não seja porque a expressão remete para um género altamente codificado da produção cinematográfica dos anos 40/50). Tal como em Pulp Fiction (1994) ou Jackie Brown (1997), a convocação de mil e uma referências cinéfilas desemboca numa mesma questão, central e obsessiva: o poder devastador das palavras. É verdade: Sacanas sem Lei é, no essencial, um filme de longos e elaboradíssimos diálogos através dos quais compreendemos que a identidade de cada um se está constantemente a decidir através da maior ou menor coincidência do seu corpo com a sua voz. Ou, se preferirem: da sua imagem com as suas palavras. Será preciso acrescentar que, em tempos de banalização digital, estamos perante uma complexa e exuberante celebração da dimensão mais carnal do cinema? Acredito que os mais inquietos se mostrem perturbados com a heterodoxia dos artistas e perguntem: e a ideologia? Essa é fácil: é antinazi.

Ainda sem data de estreia por cá...

Estreou em Londres há algumas semanas, sob aclamação da crítica. Agora anuncia-se a edição em DVD, igualmente no Reino Unido, para Novembro… Mas sobre uma eventual passagem pelos ecrãs nacionais, até agora,… nicles. Fala-se de Moon, a estreia no grande ecrã de Duncan Jones e, sem exagero, o melhor filme de ficção científica desde Gattaca e Dark City. Uma ficção científica que vive da narrativa e não dos efeitos especiais, plena de referências a filmes-chave do género como Silent Running, de Douglas Trumbull, 2001: Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick ou Outland: Atmosfera Zero, de Peter Hyams. Nenhum distribuidor nacional avança?... Ou a coisa só ganha apetite depois de adaptação a graphic novel?...

Mais informação sobre este filme aqui.

O regresso dos Gus Gus

Os islandeses Gus Gus, que antes da entrada em cena dos Sigur Rós, Amina e outras descobertas recentes, partilhavam com Björk (e a memória dos Sugarcubes) o protagonismo pop de exportação local, estão de volta. Anunciaram, para 14 de Setembro, a edição de 24/7, álbum que assinala a sua estreia no catálogo da Kompact Records. O disco inclui uma colaboração com Jimi Tenor.

Grande ampliação

Esta é já candidata a ser uma das imagens do ano. Trata-se de uma molécula. Sim… Uma molécula. Em concreto, o Pentaceno, numa imagem agora revelada por uma equipa de investigadores da IBM em Zurique e divulgada pela Science. Usando grandes ampliações já se havia identificado visualmente moléculas, mas nunca até hoje se tinha observado as ligações que unem os átomos que as constituem e que nesta imagem são bem visíveis.

Futurismo na Tate Modern

A Tate Modern é ponto de passagem sempre recomendada em visita a Londres. Não apenas pelas exposições que propõe, mas também pela livraria no piso inferior, com boa oferta de títulos em diversas frentes da criação artística. Duas grandes exposições chamam neste momento as atenções à Tate Modern. Uma delas revela uma selecção de pinturas da obra de Per Kirkeby, patente até 6 de Setembro. Até 20 de Setembro, no piso superior, recomenda-se Futurism. Trata-se de um olhar transversal sobre o importante movimento lançado pelo manifesto do italiano Tommaso Marinetti em 1909, permitindo reconhecer na pintura e escultura europeias de então os reflexos imediatos dessa nova forma de encarar a criação artística, ciente da entrada em cena de novos ritmos de vida e realidades de uma sociedade em mutação. Estão representados, entre muitos nomes, figuras como Giacomo Balla, Umberto Bocciono, Picasso, Malevich, Braque e Duchamp. A loja da exposição propõe, além dos catálogos e merchandise, uma série de livros sobre a arte europeia nos anos dez e alguns discos com a música que se associa a este movimento.
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The Revolt, de Luigi Russolo (quadro de 1911) é uma entre as muitas obras expostas na Tate Modern.

Londres, Agosto 2009 (4)



Continuando a passear pelas ruas de Londres, hoje propondo alguns olhares… com amarelo. De um sinal nas imediações na Tate Modern a um pormenor de uma construção no lado adjacente a St Paul’s, passando pelo Southbank…

quinta-feira, agosto 27, 2009

Ted Kennedy: uma vida americana

Ted Kennedy, Michael Jackson e Shirley MacLaine
26 de Agosto de 1977
FOTO Ron Galella / WireImage / Life

Com a morte do senador Ted Kennedy — no dia 25 de Agosto, contava 77 anos —, desapareceu uma figura emblemática, não apenas da cena política americana, mas também de todo um imaginário social e familiar inerente à identidade histórica e mitológica dos EUA. Podemos compreender um pouco do seu papel no interior desse universo através de uma magnífica evocação preparada pela revista Life: são fotografias que vão desde a infância até momentos recentes, nomeadamente com Barack Obama, a par de outras que evocam as apoteoses e tragédias da família Kennedy.

Tarantino ou a traição das imagens

Em cima, o célebre quadro — de uma série pintada em 1928-29, intitulada "A Traição das Imagens" — em que René Magritte nos apresenta um cachimbo e a sua negação escrita ("isto não é um cachimbo"). Logo a seguir, uma imagem da cena do jogo de cartas no filme de Quentin Tarantino, Inglourious Basterds/Sacanas sem Lei: cada participante exibe uma carta com uma identidade que desconhece e, através de perguntas que vai fazendo aos outros, tenta adivinhar o que lá está escrito.
Que aconteceu nas oito décadas que ligam e separam as duas imagens? Uma história em que a arte — todas as formas de arte — tem coabitado, de forma mais ou menos calculada, com a noção de simulacro. Não a simulação que é, no fundo, um mero logro "imitativo". Mas o simulacro. Ou seja: a possibilidade de a imagem conter, não apenas o imediato da simulação, mas também a ansiedade de uma verdade que se aproxima do concreto da matéria.
Daí que ambas as imagens suscitem a mesma pergunta: em que pensamos quando pensamos em imagens? E, desde logo, emerge uma resposta: pensamos em palavras. Ou ainda: o pensamento por imagens nunca é estranho às mil e uma formas de labor da escrita.
Claro que vivemos no interior de uma cultura mediática enredada no "espectáculo" como obscenidade quotidiana, cultura que tende a beatificar as imagens, para melhor nos dominar pelas palavras, ao mesmo tempo que nos afasta da especificidade da escrita. Em todo o caso, Tarantino, herdeiro de Magritte, é um dos que nos volta a convocar para a íntima articulação do visual e do escrito — para o visual como forma de escrita. Sacanas sem Lei é um filme dessa celebração ambígua em que o simulacro nos repõe face à perturbante verdade que nunca abandona os corpos — é, por isso, à sua maneira, um filme contra a normalização pornográfica das relações e da história.