sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Lana Del Rey encontra Debussy

O novo teledisco de Lana Del Rey é um exercício tão heterodoxo quanto saboroso: fiel à sua letra (Baby, if you wanna leave / Come to California / Be a freak like me, too), Freak surge encenado como uma trip romântica, lenta, indecifrável e envolvente — Father John Misty participa e, quando a canção acaba, ainda vai tudo a meio, já que a segunda metade do teledisco tem a bênção do Clair de Lune, de Claude Debussy. Pop mais pop não há.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

"Horas Decisivas": o melodrama ignorado

Chris Pine e Holliday Grainger — "Horas Decisivas"
Por vezes, o marketing ignora as características específicas dos próprios filmes que tenta vender: é o caso de Horas Decisivas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Fevereiro), com o título 'O marketing contra o cinema'.

A promoção do cinema atingiu dimensões espectaculares. Vivemos um tempo em que, todos os dias, somos bombardeados por uma avalancha de imagens e mensagens trabalhadas para suscitar o nosso interesse por alguns filmes (há-os também que, paradoxalmente, chegam às salas quase sem promoção, mas não é essa a questão destas linhas). Resta saber se as formas dominantes de marketing resultam de um genuíno entendimento das características de cada filme ou se, pelo contrário, decorrem de meros automatismos que, em última instância, ignoram aquilo que os filmes são, quais as suas narrativas, que matrizes espectaculares exploram.
O exemplo de Horas Decisivas, de Craig Gillespie, é revelador dos equívocos que tais estratégias (ou a falta delas) podem envolver. E tanto mais quanto esta produção dos estúdios Disney foi objecto de um lançamento global com meios muito significativos (a semana passada nos EUA, há poucos dias em Portugal e em muitos outros mercados europeus e asiáticos), exibindo o 3D e as salas IMAX como trunfos fundamentais.
O filme evoca o caso verídico, ocorrido em 1952, do salvamento da tripulação de um petroleiro ao largo da costa nordeste dos EUA, com o jovem Bernard Webber, membro de uma patrulha da Guarda Costeira, a revelar-se o inesperado herói dessa odisseia — embora pouco experiente, Webber soube enfrentar as violentas condições atmosféricas, acabando por comandar as operações e garantindo a sobrevivência de quase todos os tripulantes.
Será que estes elementos condensam o essencial do filme? Do ponto de vista do marketing, sim. Todos os trailers e cartazes privilegiam o navio em perigo e o mar agitado, destacando ainda a figura de Chris Pine, intérprete de Webber (recorde-se que Pine ganhou alguma evidência como intérprete do Capitão Kirk nos títulos mais recentes da saga Star Trek).
O problema é que tal imagem promocional acaba por ser estranha à dramaturgia do próprio filme. Acontece que o motor da história não é o naufrágio, mas sim a relação amorosa de Webber e Miriam — no início do filme, o seu casamento está mesmo dependente da “autorização” que Webber irá solicitar ao seu comandante, assim cumprindo um tradicional ritual simbólico.
Promovido como mais um “filme-catástrofe”, Horas Decisivas é, na verdade, um melodrama que, sem preconceitos e com surpreendente equilíbrio narrativo, recupera matrizes muito clássicas de Hollywood (em particular dos melodramas produzidos na época em que decorre a acção). Holliday Grainger, talentosa intérprete de Miriam, é mesmo o centro emocional do filme, mas o seu nome nem sequer tem direito a figurar ao lado dos quatro actores destacados nos cartazes (Chris Pine, Casey Affleck, Ben Foster e Eric Bana). Nos EUA, o filme está a ser um desastre de bilheteira: haverá diversas razões para explicar tal falhanço, mas a inadequação entre os seus valores dramáticos e o marketing não será a menor delas.

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Tommy Kelly (1925 - 2016)

Actor-criança de Hollywood, célebre pela interpretação da personagem de Tom Sawyer, o americano Tommy Kelly faleceu no dia 26 de Janeiro, em Greensboro, Carolina do Norte — contava 90 anos.
Kelly foi um daqueles casos de carreira efémera, mas mitologia duradoura. Ainda hoje é celebrado como o mais carismático intérprete de todas as versões cinematográficas ou televisivas de As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain — o filme, produzido por David O. Selznick em 1938, com realização de Norman Taurog, ficou também como um dos marcos na evolução do Technicolor, no ano seguinte consagrado por E Tudo o Vento Levou, outra produção Selznick.
Kelly participou, aliás, em E Tudo o Vento Levou, embora num papel secundaríssimo. Em boa verdade, nunca voltou a adquirir a notoriedade que a personagem de Sawyer lhe trouxe, cumprindo uma carreira discreta em títulos como a comédia Uma Aventura no Circo (Edward F. Cline, 1938) ou o drama Academia Militar (D. Ross Lederman, 1940). Retirou-se de Hollywood no começo dos anos 50, seguindo uma carreira que o fez passar pela organização Peace Corps e também alguns cargos políticos ligados ao departamento agrícola do governo dos EUA.
>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

Uma nova era para o 70 mm?

Graças a Quentin Tarantino, o formato de 70 mm volta a ser assunto da indústria cinematográfica e da cinefilia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (1 Fevereiro), com o título 'Como Quentin Tarantino está a relançar a grandiosidade dos filmes em 70 mm'.

Quando, há cerca de dois anos, Quentin Tarantino anunciou que o seu novo filme, o “western” intitulado The Hateful Eight (lançado nas salas portuguesas como Os Oito Odiados), ia ser rodado em película de 70 mm, a comunidade cinematográfica mostrou-se dividida. Mesmo os mais entusiasmados com o regresso a esse formato tão ligado à mitologia do grande espectáculo, não puderam deixar de se questionar sobre as respectivas possibilidades de difusão: afinal, com a passagem das salas à projecção digital, onde seria possível ver o filme?
Na prática, em todo o mundo, só foi possível recuperar ou voltar a equipar com projectores de 70 mm cerca de uma centena de salas, em 44 países. Na maior parte dos mercados, incluindo Portugal, The Hateful Eight é difundido apenas nas normais cópias digitais; mesmo num mercado tão importante como o britânico, o filme foi lançado numa única sala com 70 mm (Odeon Leicester Square, em Londres).
Seja como for, a opção técnica de Tarantino e do seu talentoso “cinematographer”, Robert Richardson (nomeado para o Oscar de melhor fotografia), conseguiu desencadear efeitos práticos e simbólicos que estão longe de ser banais. Desde logo, porque a recuperação do formato — Tarantino e Richardson contaram com a colaboração dos laboratórios Panavision que puseram à sua disposição as lentes originais do 70 mm — parece estar a gerar um inusitado revivalismo: Batman v. Super-Homem: o Despertar da Justiça, a estrear em Março, vai também ser lançado com um número significativo de cópias em 70 mm; isto sem esquecermos que o formato já tinha sido utilizado por Christopher Nolan na rodagem de algumas sequências de O Cavaleiro das Trevas Renasce (2012) e Interstellar (2014). Ao mesmo tempo, reabre-se a hipótese de uma revalorização (cultural e comercial) das superproduções que, há cerca de meio século, consagraram o 70 mm.
Clássicos como West Side Story (1961), de Jerome Robbins e Robert Wise, Lawrence da Arábia (1962), de David Lean, ou My Fair Lady (1964), de George Cukor, marcaram um tempo em que a grandiosidade das salas e, consequentemente, o gigantismo dos ecrãs — lembremos o desaparecido, e glorioso, cinema Monumental em Lisboa — eram factores essenciais na mobilização dos espectadores. Sem esquecer, claro, que a película de 70 mm (cujos fotogramas, como a designação sugere, correspondem a cerca do dobro do tradicional 35 mm) reproduz os mais discretos detalhes de corpos, objectos e cenários com uma precisão inigualável (que, em qualquer caso, a evolução do digital já consegue integrar com apurado grau de fidelidade).
Ironicamente, a idade de ouro do 70 mm — que podemos situar entre Ben-Hur (1959) e 2001: Odisseia no Espaço (1968) — está longe de se explicar apenas por factores especificamente cinematográficos. Podemos mesmo considerar que teve um prólogo no aparecimento, em meados da década de 50, dos chamados formatos anamórficos, com destaque para o CinemaScope (com uma largura de imagem cerca de 2,5 vezes maior que a altura). A grandeza das imagens de filmes como A Túnica (Henry Koster, 1953), Alexandre, o Grande (Robert Rossen, 1956) ou A Ponte do Rio Kwai (David Lean, 1957) apostava em atrair os muitos espectadores que começavam a ficar em casa para ver... televisão!
Agora, a tendência relançada por Tarantino poderá ser também um factor de atracção para os espectadores que perderam o hábito de frequentar as salas escuras. Uma coisa é certa: a qualidade visual de um filme rodado em 70 mm não cabe, literalmente, no espaço do ecrã do nosso computador.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

O "look" na política portuguesa

Algo nos impele a aplicar aquele velho chavão sobre a iconografia do nosso mundo. A saber: eis duas imagens que falam por si...
Mas é apenas um chavão. Ou seja: pode reconfortar-nos na ilusão de uma linguagem comum quando, na verdade, as imagens, quaisquer imagens, acabam sempre por dividir as nossas falas.
Pedro Santana Lopes e Marcelo Rebelo de Sousa nas capas das revistas Cristina e GQ, respectivamente, são a expressão de um novo look da política portuguesa que, de facto, se tornou dominante.
Que aconteceu, então? Uma deslocação metódica, porventura distraída no início, mas cada vez mais sistemática e assumida, do teatro político para novos palcos mediáticos. Que palcos? Pois bem, os que decorrem de valores de muitos talk-shows populistas (caso óbvio de Cristina) ou são a expressão de um "liberalismo" masculino mais ou menos consumista (a GQ define-se mesmo como revista "para homens a sério").
Os resultados são vistosos. Literalmente: arrastam uma visão do mundo. Que visão? Aquela em que a prática da pose passou a ocupar o lugar do próprio discurso político, tendencialmente remetido para a condição instrumental de apêndice ideológico (?) mais ou menos dispensável.
E não deixa de ser irónico que, nos seus idênticos sobretudos escuros, Pedro Santana Lopes e Marcelo Rebelo de Sousa protagonizem uma espécie de reivindicação nostálgica de um look típico dos anos 50, em particular eternizado nas fotografias de James Dean em Times Square, por Dennis Stock — a nostalgia transformada em kitsch é, muito provavelmente, a derradeira utopia dos políticos que temos.
DENNIS STOCK
James Dean em Times Square
1955

Com a bênção dos Weezer

Com o Papa rodeado por entusiastas figuras femininas, a capa do single Thank God for Girls, dos Weezer, remete-nos para os êxtases da comunhão religiosa — o respectivo teledisco, muda o protagonista e o cenário, apresentando-nos o líder de uma seita, particularmente apaixonado pelos jogos de casino, numa versão burlesca da convivência com o sagrado.

domingo, fevereiro 07, 2016

Beyoncé: nova canção + teledisco

Desde Novembro de 2014 que Beyoncé não lançava uma nova canção. Valeu a pena esperar: Formation é um pequeno prodígio de invenção e elegância, desenvolvendo uma estrutura em que cabem fragmentos das memórias afro-americanas, tanto quanto imagens do furacão Katrina, passando por sugestivas especulações sobre a democratização da riqueza: You just might be a black Bill Gates in the making, cause I slay / I just might be a black Bill Gates in the making [letra, tal como divulgada pelo site JustJared].
Teledisco a condizer — fulgurante e subtil, com realização de Melina Matsoukas.


[Intro: Messy Mya]
What happened at the New Wil’ins?
Bitch, I'm back by popular demand

[Refrain: Beyonce]
Y'all haters corny with that illuminati mess
Paparazzi, catch my fly, and my cocky fresh
I'm so reckless when I rock my Givenchy dress (stylin')
I'm so possessive so I rock his Roc necklaces
My daddy Alabama, Momma Louisiana
You mix that negro with that Creole make a Texas bamma
I like my baby hair, with baby hair and afros
I like my negro nose with Jackson Five nostrils
Earned all this money but they never take the country out me
I got a hot sauce in my bag, swag

[Interlude: Messy Mya + Big Freedia]
Oh yeah baby, oh yeah I, ohhhhh, oh yes I like that
I did not come to play with you hoes, haha
I came to slay, bitch
I like cornbreads and collard greens, bitch
Oh yes, you besta believe it

[Refrain: Beyonce]
Y'all haters corny with that illuminati mess
...

[Chorus: Beyonce]
I see it, I want it
I stunt, yeah, yellow bone it
I dream it, I work hard
I grind 'til I own it
I twirl on them haters
Albino alligators
El Camino with the seat low
Sippin' Cuervo with no chaser
Sometimes I go off, I go off
I go hard, I go hard
Get what's mine, take what's mine
I'm a star, I'm a star
Cause I slay, slay
I slay, hey, I slay, okay
I slay, okay, all day, okay
I slay, okay, I slay okay
We gon' slay, slay
Gon' slay, okay
We slay, okay
I slay, okay
I slay, okay
Okay, okay, I slay, okay
Okay, okay, okay, okay
Okay, okay, ladies, now let's get in formation, cause I slay
Okay ladies, now let's get in formation, cause I slay
Prove to me you got some coordination, cause I slay
Slay trick, or you get eliminated

[Verse 1: Beyonce]
When he fuck me good I take his ass to Red Lobster, cause I slay
When he fuck me good I take his ass to Red Lobster, cause I slay
If he hit it right, I might take him on a flight on my chopper, cause I slay
Drop him off at the mall, let him buy some J's, let him shop up, cause I slay
I might get your song played on the radio station, cause I slay
I might get your song played on the radio station, cause I slay
You just might be a black Bill Gates in the making, cause I slay
I just might be a black Bill Gates in the making

[Chorus: Beyonce]
I see it, I want it
...

[Bridge: Beyonce]
Okay ladies, now let's get in formation, I slay
Okay ladies, now let's get in formation
You know you that bitch when you cause all this conversation
Always stay gracious, best revenge is your paper

[Outro]
Girl I hear some thunder
Golly this is that water boy, oh lord

sábado, fevereiro 06, 2016

Rivette — cinema & teatro (2/2)

A BELA IMPERTINENTE (1991)
A obra de Jacques Rivette convoca-nos para contínuas e fascinantes releituras — este obituário foi publicado no Diário de Notícias (30 Janeiro), com o título 'O cinema morreu, mas o teatro irá salvar-nos'.

[ 1 ]

No Twitter, a Cinemateca Francesa recordou uma frase emblemática do cineasta: “Gosto que um filme seja uma aventura para aqueles que o fazem e, depois, para aqueles que o vêem.” Essa lógica de risco gerou especiais relações com os actores, desafiados a ignorar as fronteiras habituais de construção de uma personagem, assumindo-se “apenas” como seres humanos transfigurados e enriquecidos pelo artifício da representação. Em tempos de pessimismo cinematográfico (a “morte do cinema” é mesmo um tema simbólico herdado da Nova Vaga), Rivette encarou o trabalho teatral como uma cristalina salvação.
Bulle Ogier terá sido a sua musa mais fiel, desde O Amor Louco (1969) a Não Toquem no Machado (2007), passando por títulos como Céline et Julie Vont en Bateau (1974), Le Pont du Nord (1981), em cujo argumento participaram Ogier e a filha, Pascale Ogier, ou O Bando das Quatro (1989), filme em que Inês de Medeiros também integrava o elenco.
Uma das marcas mais insólitas do seu cinema foi a exploração de longuíssimas durações. Por exemplo, A Bela Impertinente (1991), centrado nas relações entre um pintor (Michel Piccoli) e o seu modelo (Emmanuelle Béart), dura quatro horas — foi o único filme que valeu a Rivette uma distinção no Festival de Cannes (Grande Prémio), no ano em que a Palma de Ouro foi para Barton Fink, dos irmãos Coen. Em qualquer caso, o exemplo mais extremo é Out 1: Noli me Tangere (1971), espantosa deambulação pelas ruínas geracionais e simbólicas de Maio 68 cuja duração é de 12 horas e 30 minutos — foi visto entre nós na Fundação Gulbenkian, programado por João Bénard da Costa.
Por vezes, interessou-se por aquilo a que, na gíria, se dá o nome de “reconstituições” históricas. Assim, assinou Hurlevent (1985), inspirado nos primeiros capítulos de O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, transferindo a acção para a década de 1930, em França, e o épico em duas partes Joana d’Arc, a Donzela (1994), com Sandrine Bonnaire. Mais do que a memória dos compêndios, Rivette procurava as experiências limite de personagens que, destacando-se das normas do seu tempo, corporizam uma sensibilidade tão delicada quanto selvagem que, no limite, se confunde com o poder encantatório do próprio cinema.
Num célebre artigo sobre Kenji Mizoguchi (Cahiers du Cinéma, nº 81, Março 1958), definiu a arte do mestre japonês a partir do trabalho da câmara, “colocada sempre no ponto exacto em que o mais pequeno movimento altera todas as linhas do espaço, revelando a face oculta do mundo e dos seus deuses.” O legado de Rivette envolve o mesmo rigor e a mesma energia libertadora.

Bode expiatório [citação]

>>> Que alguém ousasse descer das ideias puras aos tortuosos caminhos da humana conduta, e logo o medo, mais ainda que o orgulho, se tornava o primeiro motor das execrações. O atrevimento do filósofo que preconiza a livre acção dos sentidos e trata, sem desprezo, dos prazeres carnais, enraivecia a multidão, sujeita, neste campo, a muitas superstições e ainda mais à hipocrisia. Pouco importava que quem a tanto se arriscava fosse ou não mais austero, e por vezes mais casto, que os seus encarniçados detractores: conviera-se que fogo nenhum, em nenhum suplício havia no mundo capaz de expiar tão atroz ousadia, e isso, precisamente, por a audácia do espírito parecer agravar a do simples corpo. A indiferença do sábio, para quem qualquer país é pátria, e qualquer culto válido, à sua maneira, exasperava, igualmente, essa multidão de prisioneiros; se aquele filósofo renegado, que, aliás, nunca renegara nenhuma das suas verdadeiras crenças, era para eles um bode expiatório, é porque cada qual, secretamente, ou mesmo, às vezes, sem querer, desejara um dia sair daquele círculo onde, fechado, iria morrer.

MARGUERITE YOURCENAR
Dom Quixote, 2002

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Guia para The Dead Weather [4]

[ 1: Hang You from the Heavens + Are 'Friends' Electric? ]
[ 2: Treat Me Like Your Mother + You Just Can't Win ]
[ 3: Will There Be Enough Water? ]


Mais uma vez, a preocupação de combinar o novo trabalho de composição com a evocação de raízes mais ou menos primitivas ficou patente no single de I Cut Like a Buffalo. Assim, o sarcasmo existencial da canção — You know I look like a woman / but I cut like a buffalo — surgia acompnhado por uma versão de um velho e obscuro clássico do psicadelismo dos anos 60: A Child of a Few Hours Is Burning to Death, de The West Coast Pop Art Experimental Band — eis o teledisco do primeiro tema e uma performance ao vivo do segundo.




>>> Site oficial de The Dead Weather.

O "western" revisto por Tarantino


O "western" outra vez? Sim, mas com a marca transfiguradora de Quentin Tarantino — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 Fevereiro), com o título 'O teatro segundo Tarantino'.

De facto, The Hateful Eight não são Os Oito Odiados. O título original era, obviamente, ingrato para qualquer tradução, quanto mais não seja porque não parece possível preservar a rima sonora do inglês. Em qualquer caso, as oito personagens de Tarantino são seres “odiosos” e “detestáveis” — não há sequer quem os possa odiar porque, em boa verdade, quase não existem outras personagens. Isto para dizer que, retomando as obsessões que vêm da sua primeira longa-metragem (Cães Danados, 1992), Tarantino nos oferece uma admirável arquitectura narrativa em tudo e por tudo visceralmente teatral: primeiro, porque o espaço é tão fechado quanto claustrofóbico; depois, porque a matéria primeira de todas as trocas, cumplicidades e traições é a palavra. Em cena está um confronto tenso, potencialmente sangrento, em paisagens clássicas do “western”, pontuadas pela partitura de Ennio Morricone — Tarantino consegue, finalmente, trabalhar com o seu compositor de eleição, recuperando a energia trágica dos “westerns” (de Sergio Leone) que ele musicou.