segunda-feira, dezembro 18, 2017

O infinito segundo Vagabon

Nascida nos Camarões, em 1992, Laetitia Tamko trabalha em Nova Iorque e distingue-se por uma criatividade multi-instrumental, organizada num universo de austera versatilidade — minimalista e galáctico, tal como o seu nome artístico: Vagabon. Do álbum de estreia, Infinite Worlds, eis um belíssimo teledisco para o tema Cold Apartment, com assinatura de Faye Orlove.

domingo, dezembro 17, 2017

"Star Wars" sem George Lucas

1977: George Lucas e Carrie Fisher
A estreia de Star Wars: Os Últimos Jedi renova uma certeza: a imaginação de George Lucas deu lugar ao imaginário da Disney — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Dezembro), com o título 'O império de Lucas que se transformou em empório da Disney'.

Quando começa o novo Star Wars: Os Últimos Jedi, o logotipo da Lucasfilm envolve, de imediato, uma promessa de espectáculo com a chancela lendária de George Lucas. Goste-se muito ou goste-se pouco dos resultados, o certo é que aquelas letras brilhantes e elegantes definem um universo criativo com regras e temas muito próprios.
Seja como for, há uma distância considerável entre tal imagem de marca e as condições de produção em que Star Wars passou a existir. Podemos medi-la através de um número muito concreto: 4,06 mil milhões de dólares (perto de 3,5 mil milhões de euros), precisamente o valor que a Walt Disney Company pagou, em 2012, para adquirir a Lucasfilm.
Não vale a pena sermos demasiado moralistas mas, de facto, algo mudou. Desde logo, a proliferação de sequelas e derivações, com a Disney a estabelecer um verdadeiro plano quinquenal pós-Lucas para gerir o universo Star Wars: um primeiro filme em 2015 (episódio VII), outro em 2017 (episódio VIII, este que agora se estreia) e a conclusão em 2019 (episódio XIX); pelo meio, dois títulos autónomos: Rogue One: Uma História de Star Wars (2016) e Solo: A Star Wars Story (agendado para 2018).
O mais desconcertante é que podemos também considerar o lançamento do primeiro Star Wars, em 1977 como uma ruptura de George Lucas com... George Lucas (numa altura em que não havia preconceitos contra o português, tendo-lhe sido dado o título A Guerra das Estrelas). Na verdade, o homem que viria a criar um dos maiores impérios de produção da história do cinema começou por ser um típico, e muito talentoso, autor da geração dos “movie brats” (Coppola, Scorsese, Spielberg, etc.), apostado em fazer filmes eminentemente pessoais e intimistas.
Estreou-se com uma história de ficção científica de austero orçamento, THX 1138 (1971), num registo bem diferente, visceralmente trágico, daquele que aplicaria na sua saga inter-galáctica [trailer]. Depois, dirigiu American Graffiti (1973), uma deambulação romanesca em torno das vivências da sua própria adolescência, à descoberta de um novo entendimento do amor e da sexualidade pontuado por canções de Chuck Berry, The Platters ou The Beach Boys.
Dir-se-ia que Lucas desistiu de ser um criador confinado ao estatuto de realizador, apostando na consolidação e desenvolvimento da próprio tecnologia que os seus filmes ajudaram a experimentar. As empresas Skywalker Sound (estúdios de som) ou Industrial Light & Magic (efeitos especiais), inicialmente integradas na Lucasfilm, ajudam hoje a definir o empório da Disney como uma das mais poderosas máquinas de produção de Hollywood.
Pelo meio, Lucas envolveu-se em projectos com o seu amigo Spielberg, com destaque para Os Salteadores da Arca Perdida (1981), baseado numa história que escrevera com Philip Kaufman, tendo estado também ligado à produção de títulos como Kagemusha (Akira Kurosawa, 1980) ou Tucker (Francis Ford Coppola, 1988). Se quisermos ser românticos, podemos perguntar que cineasta ele seria se tivesse continuado a fazer filmes de pequeno orçamento.

sábado, dezembro 16, 2017

A verdade de Cuca Roseta (1/2)

[ FOTO: Orlando Almeida / DN ]
Com o seu novo álbum, Luz, Cuca Roseta propõe diversos registos, incluindo algumas variações pop: em qualquer caso, é o fado que continua a definir a sua verdade artística — esta entrevista foi publicada no Diário de Notícias (12 Dezembro), com o título '"O fado é uma forma de procurarmos a nossa verdade"'.

O seu novo álbum, Luz, apresenta contrastes que vão de um velho fado de Amália, Triste Sina (de Nóbrega e Sousa/Jerónimo Bragança) à ligeireza de Balelas (com assinatura sua e de Pedro Silva Martins). Esses extremos reflectem as escolhas artísticas deste trabalho?
Sim, são mesmo as duas músicas mais distantes entre si. Gosto do Balelas, mas é como se fosse a música que está mais “fora” do disco — a editora gostou muito, como se costuma dizer é muito “orelhudo”, e acabou por ficar. Apesar de me sentir fadista — é o fado que me toca de forma mais profunda —, também preciso deste tipo de composições, sobretudo em concerto: há uma seriedade e uma entrega num fado como Triste Sina que necessita do contraste de Balelas. No fundo, creio que é um disco muito eclético. É verdade que depois do Riû (2015) pensei fazer um disco só de fado e estabeleci mesmo um alinhamento. O certo é que começaram a aparecer temas de compositores que admiro muito, como o Pedro da Silva Martins que fez, por exemplo, o Luzinha (que abre o disco) ligados a este conceito de “luz” que atravessa todo o álbum — é uma luz espiritual, interior.

>>> Balelas + Triste Sina [audio].




Há mesmo três temas com os títulos Luzinha, Luz Materna e Luz do Mundo. Aceita que se diga que há uma dimensão religiosa no álbum?
Sim, sou religiosa, sou católica. Há em mim, desde criança, uma dimensão espiritual: gosto da solidão, do contacto com o divino, de rezar, meditar. Este Luz é o meu disco em que a expressão de tudo isso é mais forte. Aliás, tal como acontece agora com Luz do Mundo, todos os meus discos terminam com um tema católico.

No mundo em que vivemos, nomeadamente no consumo da música, as atitudes dominantes serão mais ligeiras, pouco ou nada ligadas a essa dimensão espiritual.
É verdade. Quando dei a ouvir o disco a familiares e amigos, quase todos me disseram que é demais, não faz muito sentido mostrar este lado espiritual. Não concordo, claro, até porque não é esse o tom de todo o disco. Além disso, o fado é uma forma de procurarmos a nossa verdade — vamos buscar os temas e poemas que, num certo sentido, contam a nossa história. É dessa maneira, acredito, que conseguimos chegar aos outros.

Será que pode haver uma verdade do canto, na solidão do estúdio, que não existe nas performances ao vivo?
É bem possível, pelo menos para mim. Em estúdio, sozinhos, por vezes entregamo-nos mais porque, na verdade, ninguém nos vê. No palco, não somos só a alma, somos também o corpo — há uma faceta de “entertainment” que não precisa de existir em estúdio.

A coexistência do fado com temas de outras origens, em particular com a música brasileira, tem suscitado interessantes debates sobre o futuro do fado e até a possibilidade de, desse modo, se apagar a sua especificidade — como encara essa situação?
Não creio que isso vá acontecer. Aliás, a carreira plural de Amália mostra-nos que não há perigo do fado se corromper ou acabar. No meu caso, sempre gostei muito de ouvir o fado tradicional, mesmo não sendo uma fadista tradicional. Canto fado, sem dúvida, mas também canto pop. E este não é um disco inteiramente de fado — por exemplo, Quero (segundo tema do álbum) é pop, mas quando canto Triste Sina não vou deixar que se use um qualquer instrumento que contrarie a essência do tema.

>>> Quero [audio].


As experimentações do fado, em geral, têm aberto novos espaços de divulgação, em particular no estrangeiro?
Creio que sim — e, mais uma vez, o exemplo da Amália é revelador. Nós, fadistas, vamos muito ao estrangeiro e, entre nós, há muitas vezes a ideia de que só cantamos para as comunidades. Ora, já não é bem assim: eu gosto muito de cantar para as comunidades, mas vou mais aos festivais de músicas do mundo — é bom, é positivo sermos embaixadores de Portugal.

O realismo segundo Clint Eastwood

O novo filme de Clint Eastwood, The 15:17 to Paris, baseia-se na história verídica de Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos, três jovens soldados americanos que, a 21 de Agosto de 2015, impediram a consumação de um ataque terrorista no comboio em que viajavam, de Amsterdão para Paris. Uma história realista, por certo, que Eastwood terá querido encenar através do mais peculiar efeito de verdade. Assim, o filme não só se baseia no livro que Stone, Sadler e Skarlatos escreveram (com a colaboração de Jeffrey E. Stern), como apresenta os três soldados a interpretarem os seus próprios papéis.
A estreia americana está marcada para 9 de Fevereiro (dia 15 em Portugal, com o título 15:17 Destino Paris) — eis o trailer.

Twin Peaks & David Lynch
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]

A nova série Twin Peaks veio relançar um clássico da televisão, reabrindo caminhos para percorrermos o mundo fascinante de David Lynch — no próximo SOUND + VISION Magazine, na FNAC, propomos uma viagem, com imagens e música, pelos seus temas, personagens e enigmas.

* FNAC: Chiado, hoje, 16 Dezembro (18h30)

Os rituais de Avishai Cohen

Depois de Into the Silence (2016), Cross My Palm With Silver é o segundo álbum do trompetista israelita Avishai Cohen com chancela ECM; acompanham-no Yonathan Avishai (piano), Barak Mori (contrabaixo) e Nasheet Waits (bateria) numa viagem por heranças detectáveis (Miles Davis é a referência incontornável), embora produzindo genuínas sonoridades, de secretas deambulações, por vezes suscitando uma ambiência de contemplação ritual. Este é o tema de abertura do álbum: "Will I Die, Miss? Will I Die?".

sexta-feira, dezembro 15, 2017

O "escândalo" de Deadpool

Em cima, podemos ver uma imagem promocional da sequela do filme Deadpool (2016), de novo com Ryan Reynolds, agendado para o Verão de 2018. Em baixo, 'A criação de Adão', porventura o mais célebre fragmento do tecto da Capela Sistina, no Vaticano, pintado por Miguel Ângelo no período 1508-12.
Para além do delicioso jogo simbólico com os elementos de uma obra que é património da humanidade, as atribulações destes tempos de promoção da "ordem" e da "pureza" levam-nos a supor que não faltará muito para algum colectivo de cidadãos organizar uma petição para que a campanha do filme seja retirada de circulação... Especulação? Bem pelo contrário: recorde-se o que aconteceu com um quadro de Balthus — registemos, por isso, a imagem de Deadpool antes que os ventos da história a queiram rasurar do campo da nossa visão.
Em boa verdade, não estamos livres de haver algum colectivo de profissionais do "escândalo" que comece a sugerir que o liberalismo do Papa Francisco tem limites — não terá chegado o momento de ocultar os excessos de Miguel Ângelo?...

O desaparecimento de "Star Wars"

Que está a acontecer com os primeiros filmes da saga "Star Wars", em particular o título fundador, lançado em 1977? Pois bem, num certo sentido, estão a desaparecer: as sucessivas intervenções digitais, apagando ou acrescentando elementos das imagens (e da banda sonora), modificaram muitas cenas das primeiras três longas-metragens (episódios IV, V e VI):
De tal modo que há fãs da saga que, em nome da preservação das características dos originais, se empenham em reconstituir as versões com que os filmes foram lançados nas salas (antes das modificações "impostas" pelas edições em DVD e Blu-ray). O assunto é tanto mais interessante quanto reflecte as perplexidades inerentes a qualquer processo de preservação e restauro do património cinematográfico — neste caso, aliás, com a contribuição contraditória do próprio George Lucas que autorizou tais intervenções depois de, nos anos 80, ter condenado com veemência a "colorização" de clássicos de Hollywood.
O jornal Le Monde fez um esclarecedor ponto da situação — eis o respectivo video, sob o mote: "Porque já não é possível ver a primeira trilogia na sua versão original".

Abel Ferrara, um americano na Europa (3/3)

Madonna / DANGEROUS GAME (1993)
Abel Ferrara regressou a Portugal para, no LEFFEST, apresentar os seus dois filmes mais recentes: Alive in France e Piazza Vittorio — este texto acompanhava a entrevista publicada no Diário de Notícias (27 Novembro), com o título 'Jogos Perigosos'.

[ 1 ]  [ 2 ]

A certa altura da conversa com Abel Ferrara, houve um pequeno desvio motivado pela importância que a música, em particular as canções, sempre têm nos seus filmes. Falámos de Dangerous Game (1993), em que, apesar de ter o principal papel feminino, Madonna não canta. E perguntei-lhe se era verdade a informação que tinha circulado sobre a desilusão de Madonna e do próprio Ferrara face aos resultados do filme: “Não, pelo contrário, fiquei muito contente com o filme, ela é que não — na altura, pelo menos; não sei o que pensa agora.”
[ Programa japonês, 1993 ]
Em boa verdade, talvez seja a mais extraordinária performance de Madonna no cinema. Seja como for, o caso é sintomático de várias formas de banalização das convulsões internas da história dos filmes e do cinema. Madonna, precisamente, continua a ser excluída dessa história, apesar de ter participado num dos símbolos mais puros do cinema independente da década de 80 (Desesperadamente Procurando Susana, 1985, de Susan Seidelman), num momento decisivo da evolução estilística e técnica dos “blockbusters” (Dick Tracy, 1990, de Warren Beatty), ou ainda num dos mais elaborados “desvios” da história do musical (Evita, 1996, de Alan Parker) — isto sem esquecer o prodigioso e quase sempre omitido Sombras e Nevoeiro (1991), de Woody Allen.
Ferrara, por sua vez, consegue em Dangerous Game uma rara exposição dos meandros de uma rodagem cinematográfica, em particular através do confronto, de uma só vez mental e anímico, entre um cineasta (Harvey Keitel) e a sua actriz principal (Madonna). Jogo perigoso, sem dúvida, como sugere o título. Para a história pitoresca que estas coisas sempre envolvem, registe-se que Dangerous Game nunca teve exibição comercial em Portugal, tendo sido lançado em DVD com o título Linha de Separação. Como?

quinta-feira, dezembro 14, 2017

A Fox nas mãos da Disney

[ ROB DOBI / Variety ]
Vale a pena explicitar os elementos deste cartoon que está nas páginas do Variety: o herói de Deadpool, Homer Simpson e uma personagem de Avatar são agarrados por uma mão poderosa... Pormenor essencial: é a mão do Rato Mickey. Ou ainda: a Walt Disney Company comprou a 20th Century Fox por 52,4 mil milhões de dólares (44,5 mil milhões de euros).
Aliás, não nos precipitemos. Nada é simples, muito menos linear, numa manobra desta dimensão — e a imprensa especializada dos EUA, em particular o Variety e The Hollywood Reporter chamam a atenção para o tempo que as entidades reguladoras necessariamente levarão (talvez uns 18 meses) para avaliar até que ponto estarão ou não a ser cumpridas as leis que regulam a concorrência, nomeadamente no controle das chamadas plataformas de difusão.
Aliás, o que a Disney assim passa a controlar está longe de ser "apenas" os lendários estúdios da 20th Century Fox, a casa de estrelas clássicas como Henry Fonda, Gene Tierney ou Shirley Temple, e também de sucessos recentes como Sozinho em Casa (1990), Titanic (1997) ou Avatar (2009). Isto porque o que realmente foi comprado pela Disney é a maior parte das empresas do grupo 21st Century Fox, fundado por Rupert Murdoch em 2013, no qual encontramos, precisamente, os estúdios da 20th Century Fox e Blue Sky (animação), e ainda, por exemplo, a FX Networks, a National Geographic e mais de 300 canais internacionais — sem esquecer a plataforma Hulu, de video-on-demand (de que Murdoch detinha 30%), e a rede europeia de satélites Sky (39% do total — incluindo, a 100%, a Sky de Reino Unido, Alemanha e Itália).

* * * * *

Recorde-se que, para além dos estúdios de animação Pixar, a Disney controla também, por exemplo, grande parte da produção cinematográfica com chancela Marvel e ainda a saga Star Wars (desde a aquisição da Lucasfilm, em 2012). Digamos, para simplificar, que estão em jogo dois espaços fulcrais da produção audio-visual planetária:
1 — o sistema de estúdios de Hollywood (com um desses estúdios a integrar, pela primeira vez, um outro).
2 — uma parte muito significativa da rede global de distribuição dos produtos audiovisuais (incluindo canais televisivos e de streaming).
Objectivos? Em primeiríssimo lugar: desafiar o crescimento exponencial (difusão & promoção) da Netflix (mais de 100 milhões de assinantes em todo o mundo...). Depois: controlar uma parte (ainda) mais significativa dos calendários de produção e difusão de filmes com lançamentos planetários.
Efeito perverso? Levar o consumidor a perguntar quem comanda a mão com que, em casa, gere o comando do seu ecrã... 

>>> Notícia da possível aquisição da 21st Century Fox pela Disney na CNN (6 Dezembro). 


>>> Notícia do negócio consumado: Fox Business + ABC News (hoje).



O tempo segundo Richard Linklater

Bryan Cranston + Steve Carell + Laurence Fishburne
No novo filme de Richard Linklater, Derradeira Viagem, os traumas da guerra do Vietname cruzam-se com as memórias próximas da guerra do Iraque — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Dezembro), com o título 'Richard Linklater encena drama vivido por três veteranos do Vietname'.

É pena que os espectadores de cinema, sobretudo os mais jovens, tenham sido (des)educados por uma visão tecnicista e fútil do cinema americano e, em particular, de Hollywood. Lembremos, por isso, o mais rudimentar: quando citamos Hollywood, estamos a falar de uma das mais ricas, e também mais complexas, paisagens criativas de toda a história do cinema, regularmente prolongada e, de alguma maneira, reinventada pelos cineastas do presente. Richard Linklater é um desses cineastas e o seu novo filme, Derradeira Viagem, poderá servir de símbolo modelar do misto de fascínio e complexidade com que, ao longo das décadas, a América se tem contemplado, pensado e criticado através de muitos produtos de Hollywood.
Quem viu Boyhood: Momentos de uma Vida (2014), recordar-se-á do gosto de Linklater pela metódica observação das marcas do tempo nos seres humanos, nos seus corpos e pensamentos. Narrando a existência de uma personagem desde a infância até ao fim da adolescência, Boyhood consumava mesmo a aposta extrema de sobrepor o tempo da história ao tempo da produção: o filme foi rodado ao longo de 12 anos, registando as transformações dos seus actores, com natural destaque para o principal, o jovem Ellar Coltrane.
A saga do tempo inscreve-se também em Derradeira Viagem (título original: Last Flag Flying), ligando as memórias da guerra do Vietname com o envolvimento militar dos EUA no Iraque. A acção decorre em 2003, quando um veterano do Vietname (Steve Carell, confirmando as suas admiráveis qualidades muito para além do registo cómico) solicita a dois companheiros de armas, que já não vê há muitos anos (Bryan Cranston e Laurence Fishburne), que o acompanhem numa penosa tarefa: organizar o funeral do seu filho, morto em combate no Iraque.
Estamos muito longe de qualquer maniqueísmo de esquerda, demonizando tudo o que venha das multifacetadas expressões culturais do outro lado do oceano, ou de direita, celebrando os EUA como “polícias do planeta”. Derradeira Viagem é um filme de uma sociedade atravessada por muitas diferenças e contradições, sabendo expor os silêncios, cumplicidades e tensões com que se cruzam os valores colectivos e as expressões singulares de cada individualidade.
Linklater filma tudo isso aplicando as leis da mais depurada narrativa clássica, ainda e sempre conferindo ao trabalho dos actores uma função essencial (e não será uma surpresa se, pelo menos, Steve Carell conseguir chegar às nomeações para os Oscars). Baseado num romance de Darryl Ponicsan, Derradeira Viagem prolonga a história das três personagens que o escritor apresentara em The Last Detail, também adaptado ao cinema, por Hal Ashby em 1973, com Jack Nicholson no papel central (entre nós intitulado O Último Dever). Que é como quem diz: escrever a história é também reescrevê-la.

quarta-feira, dezembro 13, 2017

As imagens e o actual clima sexual

BALTHUS
Thérèse Dreaming (1938)
De que falamos quando falamos da percepção pública das imagens? Ou ainda: quando é que a vida pública das imagens bloqueia a vontade de conhecer? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (10 Dezembro), com o título 'O actual clima sexual'.

Nestes tempos em que tudo se “globaliza”, sentimo-nos perturbados pelo que, estando longe de nós, afinal parece imiscuir-se no nosso quotidiano, baralhando evidências e certezas. Por exemplo, que está em jogo quando, dos EUA, surge uma petição contra a exposição de um quadro de Balthus (Thérèse Dreaming, 1938) nos salões do Metropolitan Museum of Art (MET)?
Sabemos que os protestos se “fundamentam” no facto de o quadro figurar uma jovem numa pose que contribui para uma visão “romântica” do voyeurismo, reduzindo as crianças a “objectos”. Os assinantes da petição (perto de 12 mil) argumentam que tal não se justifica tendo em conta “o actual clima em torno das agressões sexuais”.
REMBRANDT
Auto-retrato (1652)
Escusado será dizer que o episódio possui algum valor sintomático. E não apenas por causa do “actual clima” (refira-se que o MET recusou satisfazer a petição). Sobretudo porque as suas componentes são reveladoras de uma percepção muito frequente, porventura dominante, das imagens e da sua existência pública: em muitos circuitos de (des)informação, deixou de ter qualquer relevo o facto de haver uma história humana das imagens, das grutas de Lascaux às piscinas de David Hockney, passando pelos auto-retratos de Rembrandt — as imagens apenas existem em função dos efeitos “perniciosos” que alguém lhes possa atribuir.
Há em tudo isso uma renúncia existencial infinitamente mais perturbante que qualquer imagem. Porquê? Porque o que está em causa nada tem a ver com os jogos florais de “pureza” ou “impureza” que adquirem imediata visibilidade mediática. O que está em causa implica uma metódica desqualificação de qualquer gesto artístico, negando todas as componentes fantasmáticas da natureza humana, como se Shakespeare, Goya, Dostoyevski, Freud e Buñuel nunca tivessem existido — ou devessem ser interditos à nossa humaníssima vontade de conhecer.
Este é, afinal, o mesmo mundo em que o Big Brother e seus derivados televisivos todos os dias promovem uma visão grosseira, mecanicista e performativa da sexualidade (feminina e masculina), sem que se assista a grandes indignações da parte da classe política ou dos vigilantes dos bons costumes. No limite, podemos vir a ser forçados a renegar determinadas obras por causa das “associações” daquela mentalidade liofilizada. Alexandre Nevsky (1938), por exemplo — tendo em conta que o filme foi encomendado pelo líder comunista Josef Staline, responsável pelo genocídio de milhões de pessoas, devemos evitar qualquer contacto com a obra-prima de Sergei Eisenstein?
EISENSTEIN
Alexandre Nevsky (1938)

terça-feira, dezembro 12, 2017

"O VIH ainda anda por aí" — uma campanha

A mais recente campanha dos preservativos Masculan segue o lema "O VIH ainda anda por aí. Use preservativos para apoiar a luta global". Provém da Alemanha e foi concebida pela agência Mayd, de Hamburgo — didactismo, sofisticação, imagem e pensamento sobre a imagem.