segunda-feira, dezembro 05, 2016

Kristen Stewart ao som dos Stones

Anunciado em Outubro, com o tema Just Your Fool, aí está o prometido álbum dos Rolling Stones, revisitando a herança musical e mitológica do blues — o título é todo um programa: Blue & Lonesome.
Digamos, para simplificar, que se redesenha aqui uma ponte com os tempos heróicos de Exile on Main St (1972), mostrando que a permanência dos Stones se faz de uma fidelidade às raízes, fidelidade que, através do seu carácter genuíno, não cede a nenhum cliché revivalista. Da ficha de Exile, permanecem três nomes, Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts, agora na companhia de Ronnie Wood; já distantes desta história ficaram Mick Taylor e Bill Wyman. Entretanto, entre os convidados do novo álbum, em dois temas, está Eric Clapton.
Uma das pérolas de Blue & Lonesome chama-se Ride 'Em On Down e foi gravada em 1955 por Eddie Taylor. Na verdade, trata-se de um blues composto em 1937 por Bukka White, com o título original Shake 'Em On Down, gravado ao longo dos anos por diversos artistas, em versões com maiores ou menores transformações — uma versão dos Led Zeppelin, datada de 1970, intitula-se Hats Off to (Roy) Harper. Agora, Ride 'Em On Down surge abrilhantado pela presença de Kristen Stewart, em cenários de Los Angeles, numa deambulação exuberante, nostálgica q. b., a que não falta a geométrica elegância um Ford Mustang, modelo dos anos 60.

5 filmes de Visconti (2/2)

SENSO (1954)
Grande acontecimento na área do DVD: a edição das suas cinco primeiras longas-metragens de Luchino Visconti — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Novembro), com o título 'O drama e o melodrama segundo Luchino Visconti'.

[ 1 ]

De melodrama, justamente, é preciso falar a propósito de Belíssima, um dos momentos mais lendários na carreira de Anna Magnani (1908-1973). Na altura, ela era já uma figura nuclear do imaginário cinéfilo italiano, em especial através de Roma, Cidade Aberta. Senhora de uma energia plena de contrastes emocionais, dir-se-ia uma diva da ópera, exuberante e excessiva, mas sempre fiel à verdade mais íntima das personagens do povo.
Em Belíssima, Magnani interpreta uma mulher empenhada em lançar a filha no mundo dos filmes, para tal levando-a aos estúdios da Cinecittà para fazer um teste. Para além da ironia crítica face à produção italiana da época, o filme mantém uma perturbante actualidade pelo modo como expõe a contaminação do espectáculo pelas ilusões da fama e riqueza.
O filme seguinte, Sentimento, tendo por pano de fundo a unificação da Itália (e, em particular, a guerra com a Áustria, em 1866), ilustra uma certa “imagem de marca” de Visconti. A saber: a capacidade de combinar o fresco histórico com as subtilezas melodramáticas ligadas à constituição de um par — neste caso, os míticos Alida Valli e Farley Granger.
O quinto título desta edição, Noites Brancas, menos divulgado, pode constituir uma revelação para muitos espectadores. Com Maria Schell e Marcello Mastroianni, trata-se da adaptação de um conto de Dostoievski (que estaria também na base de Quatro Noites de um Sonhador, realizado pelo francês Robert Bresson em 1971). Acima de tudo, ilustra uma visão do ser humano, por certo marcado pela história colectiva, mas sempre em confronto com uma solidão radical, porventura sem solução. Nessa perspectiva, talvez se possa dizer que Visconti foi um céptico em que a sofisticação formal coabita com o desencanto moral.

domingo, dezembro 04, 2016

A IMAGEM: Patrick Chappatte, 2016

PATRICK CHAPPATTE
'O paraíso comunista'
2016

Saturday Night Live: os "tweets" de Trump

No programa Saturday Night Live (NBC), a caricatura de Donald Trump por Alec Baldwin tornou-se um acontecimento regular e, em boa verdade, nacional — uma espécie de salutar virose made in USA. Eis o exemplo mais recente, centrado na utilização obsessiva do Twitter pelo presidente eleito dos EUA.

"Lord Let It Rain on Me" [canções]

SPIRITUALIZED
Lord Let It Rain on Me
Amazing Grace (2003)


Laura Marling, sempre feminina

FOTO: Hollie Fernando
A inglesa Laura Marling vai lançar o seu sexto álbum de estúdio, Semper Femina, em Março de 2017. Pela primeira amostra, mantendo um tom de intimidade conjugado no feminino, como o título sublinha, aberto a todos os circuitos, ambiguidades e revelações de todos os desejos: assim é o primeiro single, Soothing, e o respectivo teledisco — para Marling, é também a sua estreia na realização.

sábado, dezembro 03, 2016

Zemeckis + Pitt + Cotillard (1/2)

Marion Cotillard, Brad Pitt e Robert Zemeckis
Subitamente, com assinatura de Robert Zemeckis, um grande retorno aos valores do melodrama de guerra — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 Novembro), com o título 'Melodrama de guerra renasce com Brad Pitt e Marion Cotillard'.

Será que neste nosso admirável mundo global até mesmo um filme como Casablanca, realizado por Michael Curtiz em 1942, já começou a ser desconhecido da maior parte dos espectadores? A pergunta não é banalmente nostálgica, mas visceralmente cultural. A saber: será que até mesmo a nobreza clássica de Hollywood está a ser esmagada por uma noção de cinema popular que se esgota em Harry Potter e seus companheiros mais ou menos monstruosos? Vem isto a propósito de alguém, Robert Zemeckis, que arrisca, precisamente, fazer um filme como Aliados [Allied], evocando e invocando a grande tradição do melodrama de guerra de que Casablanca continua a ser, apesar de tudo, o símbolo mais universal.
Para evitar confusões, Zemeckis situa mesmo a primeira parte do seu filme em... Casablanca! Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não passam de uma memória inacessível, mas o seu simbolismo romântico surge revisitado por um novo par, Brad Pitt e Marion Cotillard, vivendo também uma aventura em que a frieza dos jogos de espionagem se combina com as intensidades do impulso amoroso.
Digamos, para simplificar, que se trata da história de um par assombrado. Max Vatan (Pitt) é um oficial canadiano que recebe a missão de assassinar o embaixador alemão em Casablanca, para tal contando com a colaboração de Marianne Beauséjour (Cotillard), das fileiras da Resistência francesa. Missão cumprida, apaixonam-se e vão viver para Londres até que, um dia, já casados e com uma filha, ainda sem se vislumbrar o fim da guerra, Max é informado pelos serviços britânicos de que há suspeitas de Marianne ser uma espia alemã...
No seu esquematismo, este resumo limita-se a corresponder à imagem promocional de Aliados (as peripécias referidas coincidem com as que estão no respectivo trailer). Como qualquer sinopse do género, pouco ou nada nos diz sobre a riqueza dramática do filme. Convém referir, a esse propósito, que Zemeckis contou com a colaboração essencial de um argumentista tão talentoso como o inglês Steven Knight que escreveu, por exemplo, Estranhos de Passagem (Stephen Frears, 2002) ou Promessas Perigosas (David Cronenberg, 2007), tendo também realizado o magnífico Locke (2013), em que Tom Hardy interpretava uma personagem solitária, ao telefone, a conduzir o seu automóvel [entrevista: 1 + 2].
Aliados pode definir-se como uma odisseia sobre as formas de coexistência de verdade e mentira, do desejo e das suas máscaras. Isso é particularmente importante logo no capítulo inicial, em Casablanca, com Max e Marianne a encenarem a relação romântica das suas personagens fictícias (observem-se as cenas no terraço, à noite, em que sabem que a vizinhança espreita os seus beijos e abraços). Tal encenação confunde-se já com a sua própria história de amor, ilustrando essa íntima crueldade que alguém definiu dizendo que “o amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”.

O quadro de Nuno Espírito Santo

FOTO: Fábio Poço / DN
A. Há qualquer coisa de comovente vulnerabilidade na postura mediática do treinador do F. C. Porto. Por duas vezes, primeiro na sequência da vitória sobre o Arouca, depois antecipando o jogo com o Sp. Braga, Nuno Espírito Santo achou por bem recorrer a um já célebre quadro para explicar os seus conceitos de jogo. Da última vez, começou mesmo por dizer: "Eu sei que isto vai ser motivo de brincadeira, crítica e análise..."

B. Não tenhamos dúvidas que, como Nuno Espírito Santo refere, se trata, para ele, de uma "coisa séria". Mais do que isso: que ele o faz por cristalina convicção. Acontece que as leis figurativas do ecrã televisivo nem sempre são muito simpáticas com as convicções... O que desconcerta é o facto de ele não se aperceber que está a entrar em terreno mediaticamente pantanoso — entenda-se: automaticamente sujeito a um processo de caricatura televisiva.

C. Porquê? Desde logo porque Nuno Espírito Santo não preparou aquilo que faz no seu quadro: falta aos seus gatafunhos o mais básico valor da transparência informativa. Mas também porque o espaço televisivo há muito formatou as intervenções a que atribuiu valor professoral, a começar pelos discursos dos comentadores do futebol. Podem esses comentadores gastar horas infinitas a insultarem-se de modo absolutamente degradante — os sistemas de linguagem televisiva não reagem, não interrogam, não se questionam sobre a pertinência social e ética daquilo que transmitem. Pelo contrário, um treinador de futebol a rabiscar um quadro está condenado a ser, malgré lui, um incauto "apanhado".

"A Fine Romance" [canções]

SAMMY DAVIS, JR. & CARMEN McRAE
A Fine Romance
Boy Meets Girl (1957)


sexta-feira, dezembro 02, 2016

A IMAGEM: Irving Penn, 1950

IRVING PENN
Lisa Fonssagrives
Vogue, 1950

O Natal de Irina Shayk

1. No começo do mês de Dezembro do ano da graça de 2016, a cerca de três semanas do Natal, esta é, seguramente, a imagem mais presente no nosso quotidiano.

2. Eventualmente, o espectador de rua (que todos somos) poderá ser impelido a ler ou reler A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica, de Walter Benjamin, tentando compreender como a questão da repetição potencialmente infinita das imagens transcendeu o espaço tradicional daquilo a que aprendemos a chamar “arte” — a ocupação selvagem do quotidiano, no limite, por uma única imagem, passou a ser a primeira e decisiva arma bélica da publicidade e dessa sua derivação corporativa que é o marketing.

3. Outra hipótese, por certo menos exigente, e incomparavelmente mais deprimente, será procurar a explicação do que está a acontecer na tristeza jornalística da imprensa “cor-de-rosa” — corremos o risco de ficar a saber que a protagonista do anúncio “esbanja ousadia”.

4. Claro que não é simples pensar tudo isto. Quando a “ousadia” se mede pelos centímetros de pele nua (seja de quem for, mas é quase sempre uma mulher), o mínimo que se pode dizer é que a cultura dominante instrumentalizou a singularidade do corpo, reduzindo-o a “gadget” de uma visão do mundo em que a nudez foi estupidamente eleita como signo máximo (porventura único) de “ousadia”, “sensualidade” e, last but not least, de uma compulsiva identidade feminina.

5. Uma coisa é certa: para a população portuguesa em geral, o Pai Natal de 2016 confunde-se com a pose incauta, ma non troppo, de Irina Shayk — sendo a condição de "ex-namorada de Cristiano Ronaldo" uma espécie de título honoris causa que, para alguns discursos jornalísticos do nosso tempo, envolve a pertença a uma incontestada e incontestável aristocracia mediática.

6. Como falar desta conjuntura escapando à ditadura comunicacional segundo a qual a nudez existe como revelador de uma transcendência que, em última instância, visa a anulação simbólica de qualquer discurso que tente pensar a pluralidade dos seus contextos? Ou ainda: como combater a ignorância histórica e estética segundo a qual o nu é uma forma de representação sempre igual, sempre "ousada", condenando-nos a uma "sensualidade" unilateral e unívoca?

7. Escusado será dizer que importa resistir ao moralismo reinante segundo o qual é obrigatório distinguir os nus “puros” dos nus “impuros”. Neste caso, optando pelo mais prudente minimalismo filosófico, trata-se, isso sim, de reconhecer que todos aqueles que exaltarem a pureza bíblica da quadra — em particular tentando transmitir os respectivos valores às suas crianças — depararão com um problema suplementar, patrocinado pelos intelectuais do marketing. A saber: como enquadrar a exuberância visual da lingerie nos valores ancestrais do nosso comovente espírito natalício?

5 filmes de Visconti (1/2)

OBSESSÃO (1943)
Grande acontecimento na área do DVD: a edição das suas cinco primeiras longas-metragens de Luchino Visconti — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Novembro), com o título 'O drama e o melodrama segundo Luchino Visconti'.

O mínimo que se pode dizer da herança cinematográfica de Luchino Visconti (1906-1976) é que não é possível fazer a história da modernidade no cinema europeu sem passar pela sua obra. Daí o significado e a importância do regresso de alguns dos seus títulos fundamentais ao mercado do DVD. Trata-se, em boa verdade, do capítulo fundador da sua obra, mais exactamente das suas primeiras cinco longas-metragens: Obsessão (1943), A Terra Treme (1948), Belíssima (1951), Sentimento (1954) e Noites Brancas (1957).
Ver ou rever tão invulgar e sedutor quinteto de filmes envolve uma importante reafirmação da paradoxal importância histórica do seu trabalho. A saber: Visconti foi, obviamente, um nome indissociável das glórias do neo-realismo italiano, a par de Roberto Rossellini (1906-1977) ou Vittorio De Sica (1901-1974); afinal de contas, ao assinar A Terra Treme, saga de uma família de pescadores numa pequena povoação da Sicília, a sua visão não pode ser separada dos valores temáticos e estéticos que conduziram os neo-realistas a construir um corpo de ficções, sempre tocadas por componentes documentais, sobre o sofrimento do povo italiano. Ao mesmo tempo, porém, tal experiência narrativa constitui, não a regra, mas a excepção na trajectória criativa de Visconti.
O ziguezague inicial da sua filmografia é revelador. Assim, é óbvio que A Terra Treme mantém uma relação de cumplicidade com títulos emblemáticos do neo-realismo como Roma, Cidade Aberta (Rossellini, 1945) ou Ladrões de Bicicletas (De Sica, 1948). O certo é que Visconti começara antes, com Obsessão, nada mais nada menos que uma adaptação do romance O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, de James M. Cain, que viria a ser filmado nos EUA, em 1946, por Tay Garnett, com Lana Turner e John Garfield nos papéis principais (a primeira adaptação do romance ocorrera em França, em 1939, numa realização de Pierre Chenal, com o título Le Dernier Tournant).
Esta “antecipação” romanesca de Visconti sempre gerou uma paradoxal contextualização histórica. Assim, é verdade que Obsessão surge muitas vezes citado como um título fundador do neo-realismo, em especial pela sua austeridade visual e dramática, sublinhada pela delicadeza emocional do par central — Clara Calamai e Massimo Girotti —, muito distante de qualquer conceito clássico de glamour. Mas não é menos verdade que o olhar de Visconti está longe de se satisfazer com a frieza dessa dimensão, procurando antes uma vibração melodramática que, afinal, irá pontuar alguns dos momentos fulcrais da sua evolução.

quarta-feira, novembro 30, 2016

Violência doméstica — um filme da Grécia

Miss Violence retrata de forma contundente uma situação de violência doméstica — esta nota foi publicada no Diário de Notícias (24 Novembro).

É bem verdade que o calendário do mercado cinematográfico português continua marcado por muitos desequilíbrios: o filme grego Miss Violence, por exemplo, tem data de 2013 e só agora chega às nossas salas. Em todo o caso, seria errado diminuir a sua importância temática e também as qualidades da realização de Alexandros Navras — foi, aliás, distinguido em Veneza/2013 com o prémio de realização, tendo o protagonista Themis Panou arrebatado um prémio de interpretação.
Trata-se de construir um olhar sobre a violência doméstica, não a partir de abstracções “sociológicas” mais ou menos “simbólicas”, mas sim de dar conta da paisagem íntima de uma família cujo pai (interpretado por Themis Panou, precisamente) mantém as mulheres de sua casa num regime de repressão e abuso sexual verdadeiramente dantesco — tudo através de um exacerbado culto das aparências. Contando com um leque de excelentes actores, Navras trabalha num registo de intenso realismo de que está ausente qualquer especulação gratuita ou sensacionalista.

terça-feira, novembro 29, 2016

"Northern Star" [canções]

HOLE
Northern Star
Celebrity Skin (1998)


Herzog, a Net e o nosso futuro

Werner Herzog faz o inventário da Internet, passado, presente e futuro — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Novembro), com o título 'Herzog interroga o mundo da Internet'.

Esta semana, no panorama das estreias, deparamos com uma opção sugestiva e feliz: a actividade da nova empresa Cinema Bold (ligada à distribuidora Alambique) arranca com o lançamento do filme de Werner Herzog, Eis o Admirável Mundo em Rede. O projecto de difundir filmes “não alinhados” (o rótulo de “independentes” talvez já não seja suficiente) que nos convoquem de forma original para os temas mais diversos, e também mais actuais, fica bem ilustrado por este documentário que nos faz ver que talvez ainda não tenhamos prestado a devida atenção ao novelo de temas, problemas e perplexidades que o mundo virtual contém ou suscita.
Afinal de contas, é bem verdade que a evolução fulgurante da Internet continua a atrair uma beatitude pueril, não poucas vezes sancionada pela retórica mediática. Por exemplo, como podemos descrever a muito badalada Web Summit para além dos entediantes lugares-comuns que a envolveram? Foi um grande acontecimento pelas ideias que atraiu, produziu e divulgou, ou apenas porque a linha verde do Metro duplicou o número de carruagens?...
Werner Herzog
Com a sua contagiante ironia, Herzog é o primeiro a reconhecer que a evolução das novas tecnologias envolve debates muito sérios e também fenómenos mais ou menos caricaturais. Um dos seus entrevistados é mesmo um criador de robots que jogam futebol, crente de que a sua equipa, um dia, reduzirá Cristiano Ronaldo a uma personagem banal... Porque não? O que importa reter é a evidência, também ela irónica, por vezes trágica, de que nada do que é humano está a escapar às convulsões deste admirável mundo em rede (ou do “mundo conectado”, traduzindo à letra a expressão que está no título original).
Em boa verdade, o documentário de Herzog segue uma lógica mais ou menos tradicional, combinando entrevistas com diversas personalidades (professores, investigadores, investidores) e uma voz off (do próprio realizador) que, com salutar distanciamento jornalístico, nos vai lembrando que o fascínio imediato dos factos da Internet pode e deve ser temperado pela interrogação mais extrema: através do mundo em rede, estamos a diversificar as conexões dos seres humanos ou, no limite, a transfigurar (e destruir) as mais ancestrais noções de humanidade e humanismo?
Escusado será sublinhar que estamos perante um filme de sedutora actualidade, confirmando a energia do olhar documental do veterano cineasta alemão (nascido em Munique, em 1942). E não deixa de ser irónico, também, que a sua obra se tenha afirmado através de títulos tão peculiares como Aguirre, a Cólera de Deus (1972) ou Nosferatu, o Fantasma da Noite (1979), em que a utopia, o sonho e o pesadelo funcionavam como caminhos de superação dos limites de qualquer existência normal. Dir-se-ia que Herzog redescobriu as delícias do fantástico através do didactismo do género documental.

segunda-feira, novembro 28, 2016

"Girlshapedlovedrug" [canções]

GOMEZ
Girlshapedlovedrug
How We Operate (2006)


Mike Watt — a solo e bem acompanhado

Nascido em Portsmouth, Virginia, em 1957, Mike Watt é um dos mais activos, influentes e talentosos dinossauros do rock. Ligado à história de diversas bandas alternativas, com destaque para Minutemen e Firehose, iniciou uma carreira a solo, em 1995, com o álbum Ball-Hog or Tugboat?, em que contou com a colaboração de notáveis como Dave Grohl, Eddie Vedder, Evan Dando, Thurston Moore ou Pat Smear (que interpreta uma espantosa e muito crua versão de Secret Garden, de Madonna). Vários deles integraram, então, a digressão de apresentação do álbum cujos registos surgem, agora, editados sob a designação "Ring Spiel" Tour '95 — são momentos emblemáticos de um post-punk temperado de grunge em que, por assim dizer, podemos escutar a síntese de muitas correntes em tudo e por tudo estranhas às lógicas dominantes do marketing musical.
Aqui ficam duas performances dessa época, magníficos exemplos da dinâmica agregadora de Watt, com Vedder, Grohl e Smear em evidência: primeiro, um registo de Habit, em palco; depois, o tema Big Train, interpretado em The Jon Stewart Show.



O sr. Zuckerberg e o sr. Trump

FOTO: Under30CEO
Afinal, algumas televisões que proclamavam o Facebook como um imaculado milagre de civilização, estão preocupadas com a possibilidade de os circuitos de Mark Zuckerberg não terem sido exactamente neutros na eleição de Donald Trump... A sério? — este crónica de televisão foi publicada no Diário de Notícias (25 Novembro), com o título 'Quem tem medo do Facebook?'

Subitamente, o Facebook tornou-se assunto de debate em muitas televisões, com resultados que envolvem um misto de perturbação e ridículo. Não quero cair em generalizações fáceis, quanto mais não seja porque a abundância de canais torna impossível qualquer avaliação definitiva. Em todo o caso, registo: dos dois lados do Atlântico, canais de diferentes conteúdos e sensibilidades parecem estar genuinamente preocupados com o facto de as notícias falsas publicadas no Facebook em torno do candidato Donald Trump (p. ex.: o apoio que teria recebido do Papa Francisco) terem contribuído decisivamente para a sua eleição para a Casa Branca.
O assunto é grave. E exige formas de reflexão muito sérias, em particular porque o Sr. Mark Zuckerberg proclamou (numa célebre carta aos investidores do Facebook, em 2012) que as redes sociais podem trazer “mais responsabilização aos executivos e melhores soluções para alguns dos maiores problemas do nosso tempo”. Como recorda um recente editorial de The New York Times (19 Novembro), “nada disso irá acontecer se ele continuar a deixar mentirosos e vigaristas tomar conta da sua plataforma.”
O que é que isto tem a ver com as televisões? Tem tudo a ver. Muitos discursos televisivos, combinando indiferença e futilidade, gostam de celebrar as redes sociais — com destaque para o Facebook — como um oráculo divertido e juvenil, dispensado de qualquer forma de responsabilidade e responsabilização. Em muitos canais, a atitude dominante face ao Facebook sempre foi de lamentável ligeireza, não poucas vezes citando os seus conteúdos como fonte inquestionável de informação. Que, agora, esses mesmos canais convoquem especialistas, estatísticas e apresentadores de olhar inquieto para nos dizerem que vem aí o lobo... eis uma farsa que dá que pensar: andavam apenas distraídos ou estão a gozar com os espectadores?