Daft Punk
“Random AcCess Memories”
Columbia / Sony Music
4 / 5
Se o álbum que este ano nos devolveu a presença de David Bowie cativou atenções pela surpresa, o disco que agora assinala o regresso dos
Daft Punk conseguiu também gerar um ambiente de expectativa invulgarmente elevado. E agora, que está editado (e escutado) é, ao contrário da quase unanimidade que acolheu
The Next Day, de Bowie, um daqueles discos que gera a divisão entre prós e contras. Sem entrar num patamar de rendição total ou de expressão de uma qualquer devoção, deixem que me coloque desde já num dos lados da “barreira”. Sou dos a favor... Mas vamos por partes. Nos anos 90, quando ninguém perdia muito tempo a escutar o que vinha de França (e convenhamos que houve ali farta colheita no departamento
hip hop na primeira metade dos noventas), os Daft Punk foram os primeiros a dar o sinal de “alto e pára o baile”. E, um depois do promissor
Boulevard do projeto St. Germain de Ludovic Navarre, o álbum de estreia dos Daft Punk mostrava que havia novamente em solo europeu uma entusiasmante expressão de uma ideia feita com eletrónicas e, ao mesmo tempo, capaz de traduzir heranças escutadas entre tradições da música de dança
made in USA (do disco à cultura
house, sem esquecer o
funk e outras paragens). Pouco depois entrariam em cena os Air, od Cassius, Smadj, Bang Bang, Dimitri From Paris, Etienne de Crécy... A nova França eletrónica estava no mapa e nos Daft Punk (e nos Air) encontrava novos paradigmas. Seguiram-se outros discos entre os quais
Discovery, de 2001, onde assimilam memórias da pop eletrónica dos oitentas, o menos marcante
Human After All (de 2005 onde, todavia, incluíam o irresistível
Technologic) e a banda sonora da sequela de
Tron (filme que tinha na música o seu melhor ingrediente).
Agora, depois de terem ajudado a imaginar um presente com sabor a coisa do futuro, apresentam, em
Random Access Memories um verdadeiro passeio entre memórias e referências que assimilam e integram na sua linguagem. A presença de convidados como Nile Rodgers, Paul Williams ou Giorgio Moroder sublinha o gosto em assinalar um respeito pela memória que, assim sendo, conduz todo o alinhamento. Já nomes como os de Julian Casablancas, Panda Bear ou Pharrell Williams vincam laços de entendimento entre pares seus contemporâneos. E entre frisos orquestrais, evocações de memórias escutadas nas escolas do
disco, do
funk ou do
electro, e um interesse na construção de acontecimentos musicais longos e elaborados (que se fossem cinema seriam complexos planos sequência) nasce um disco que, sem repetir as visões de
Homework ou
Discovery mostra como pode uma banda na área da eletrónica e da música de dança dar novos e consequentes passos talhados entre as referências que a motivam e a definitiva constatação de uma linguagem já firmada. Com fôlego de álbum (apesar da força de alguns momentos, nomeadamente
Doin' It Right, com Panda Bear),
Random Access Memories não será nunca a obra-prima dos Daft Punk. Mas é importante peça numa carreira que soube não ficar em modo "repeat". E isso já satisfaz. E muito. Ou queremos revoluções a cada novo disco?