sexta-feira, setembro 04, 2015

No centenário de Ingrid Bergman

INTERMEZZO
1939
O centenário do nascimento de Ingrid Bergman ocorreu no passado dia 29 de Agosto — este texto evocativo foi publicado no Diário de Notícias (no próprio dia), com o título 'Ingrid Bergman ou a arte das emoções'. 

Ingrid Bergman nasceu em Estocolmo no dia 29 de Agosto de 1915 — faz hoje 100 anos. Morreu no dia do seu 67º aniversário, a 29 de Agosto de 1982. Talvez esta sobreposição de datas possa condensar algo de essencial na biografia da actriz sueca que triunfou em Hollywood. A saber: uma transparência simbólica, tecida de vulnerabilidade, em que a beleza da dimensão humana se pode renovar até na contemplação silenciosa do trabalho da morte.
Há um riso tocante em tudo isto. Testemunha-o um sugestivo episódio registado na autobiografia de Bergman, My Story, publicada em 1980. Diz respeito à sua relação com Alfred Hitchcock, que a dirigiu em três filmes admiráveis: A Casa Encantada (1945), Difamação (1946) e Sob o Signo de Capricórnio (1949). Aliás, no dia 7 de Março de 1979, na homenagem prestada pelo American Film Institute a Hitchcock, ela evocou esse mesmo episódio, a propósito do facto de o mestre do “suspense” nem sempre mostrar grande disponibilidade para discutir a lógica interna de cada filme — “está no argumento”, dizia ele. Pois bem, na rodagem de A Casa Encantada, Bergman atreveu-se a comentar a definição da sua personagem, uma psicanalista apostada em desvendar as memórias traumáticas que assombram o homem que ama (Gregory Peck). E disse ao realizador: “Não sinto nada daquilo... Acho que não sou capaz de lhe dar aquele tipo de emoção.” Ao que Hitchcock, não muito bem disposto, respondeu: “Ingrid... finge!”
São peripécias preciosas para compreendermos o sistema “hitchcockiano”. Mas envolvem também a energia mais íntima do labor de Bergman. É certo que, como ela sublinhou, a observação a auxiliou em muitas situações, sobretudo quando alguns realizadores a massacraram com “instruções impossíveis” e “muitas coisas difícieis de fazer”. Ao mesmo tempo, tal não exclui a procura dessa verdade visceral que um actor ou uma actriz podem representar em frente de uma câmara de filmar — privilegiar as emoções, eis a questão.
Na prática, tudo poderia ter corrido de maneira bem diversa, inscrevendo Bergman na história como um detalhe mais ou menos fotogénico de uma época em que, sob a impulsão do som e a consolidação da película a cores, Hollywood refazia todos os seus modelos de produção. Afinal de contas, a actriz foi para os EUA para, de alguma maneira, encontrar o seu lugar nesse sistema.
Quem a convidou a rumar à América foi o produtor David O. Selznick, na altura uma das personalidades mais poderosas e influentes em toda a dinâmica de Hollywood. Descobrira-a em Intermezzo (1936), melodrama sueco dirigido por Gusav Molander, em que Bergman interpretava uma professora de piano que se apaixona por um violinista de fama mundial, pai de uma criança sua aluna; seduzido pela presença radiosa da actriz, Selznick imediatamente concebeu o projecto de uma versão americana de Intermezzo, que viria a concretizar-se em 1939, com Leslie Howard no papel do violinista e Gregory Ratoff a assinar a realização.
Intermezzo constituiu um momento importante de revelação, mas não passou de um sucesso mediano. De facto, naquele ano podia dizer-se que Selznick concorria contra si próprio, uma vez que lançara também a mais espectacular produção de 1939, E Tudo o Vento Levou, vencedor dos Oscars e líder absoluto das bilheteiras. Seguiu-se uma prova de fogo para Bergman, contracenando com Spencer Tracy na versão de O Médico e o Monstro (1941), de Victor Fleming (ironicamente, o realizador que assinara E Tudo o Vento Levou). Em qualquer caso, a definitiva passagem para o domínio da mitologia só aconteceria com Casablanca (1942), de Michael Curtiz — Rick e Ilsa, quer dizer, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman inscreveram-se definitivamente na galeria dos mais puros pares românticos de toda a história do cinema.
O primeiro dos três Oscars de Bergman, obtido com Meia Luz (1944), de George Cukor, confirmou o reconhecimento da actriz como figura de excelsa maturidade. É bem verdade que, na altura, não havia nenhuma crise de personagens femininas densas e consistentes (como aconteceu em anos recentes, desencadeando mesmo protestos de alguém como Meryl Streep). Ainda assim, não deixa de ser curioso observar que Bergman representava uma pose inequivocamente adulta que contrastava com algumas das grandes vedetas femininas do mesmo ano: Elizabeth Taylor, por exemplo, tinha 12 anos quando foi protagonista (com Mickey Rooney) de A Nobreza Corre nas Veias, 12º título mais rentável de 1944 (Meia Luz foi 13º no top das receitas).
Se ainda hoje hesitamos em classificar a carreira de Bergman como um capítulo do star system, isso deve-se menos à aura das suas interpretações — sendo o já citado Sob o Signo de Capricórnio, de Hitchcock, talvez o exemplo mais sublime e mais esquecido — e mais ao facto de, a certa altura, a história da sua carreira se confundir com as convulsões da sua história privada e, em particular, com o “escândalo” do casamento com Roberto Rossellini.
Dito de outro modo: a partir do momento em que surgiu no emblemático Stromboli (1950), primeiro dos títulos sob a direcção de Rossellini, Bergman voltou a ser “apenas” uma actriz europeia. Não porque tenha deixado de participar em produções de raiz americana; antes porque, definitivamente, adquiriu o estatuto “apátrida” de alguém que, em última instância, passara a simbolizar a mais bela das abstracções. A saber: uma ideia eminentemente clássica de talento, mistério e “glamour”.
Com alguma ironia, foi a sua derradeira interpretação cinematográfica que, num certo sentido, a devolveu à Suécia, filmando Sonata de Outono (1978) sob a direcção de Ingmar Bergman (nenhuma relação familiar). De acordo com as memórias do realizador, não terá sido a mais feliz das rodagens, desde logo porque ele estava exilado devido a problemas com o fisco sueco (as filmagens decorreram na Noruega, com financiamentos alemães e britânicos). Além do mais, a relação pouco pacífica de Bergman-realizador e Bergman-actriz deixou-os insatisfeitos com os resultados — enganaram-se ambos, o que nos ajuda a tolerar as humanas imperfeições daqueles que mais admiramos.

>>> Este é um depoimento de Isabella Rossellini, filha de Ingrid Bergman, programado para o dia 5 de Setembro pelo canal francês TCM Cinéma, e previamente divulgado pelo jornal Libération.


>>> Site do livro Ingrid Bergman — A Life in Pictures (2013), editado por Isabella Rossellini e Lothar Schirmer.

Dean Jones (1931 - 2015)

Actor muito activo nas décadas de 60/70, Dean Jones ficou célebre pela sua participação na série de filmes The Love Bug: há alguns anos atingido pela doença de Parkinson, faleceu no dia 1 de Setembro, em Los Angeles — contava 84 anos.
Foi presença regular em cinema e televisão, e também no palco (estreou-se na Broadway, em 1960, na peça There Was a Little Girl contracenando com Jane Fonda). A sua popularidade deve-se, em grande parte, a The Love Bug (1968), a primeira de uma série de produções dos estúdios Disney [trailer] centradas na personagem de Herbie, um Volkswagen "carocha" com vontade própria — entre nós, o filme foi lançado com o título Se o Meu Carro Falasse. Manteve-se como figura emblemática das comédias Disney, tendo, em qualquer caso, surgido em filmes de ambiente bem diferente, como Larry, o Liquidador (1991), de Norman Jewison, ou Perigo Imediato (1994), de Philip Noyce. A sua devoção de cristão renascido levou-o a escrever o livro autobiográfico Under Running Laughter (1982).


>>> Obituário no New York Times.

Juventude [citação]

>>> Acontece muitas vezes que o prestígio de uma palavra supera a sua verdadeira significação. É o caso de juventude. Tal como não basta ter setenta anos para ser um sábio pleno de firmeza na alma, não basta ter vinte anos para ser um revoltado que desafia a força das coisas. A senilidade não espera pelo número dos anos e, por vezes, perguntamo-nos se a duvidosa virtude da prudência, que resultaria da sabedoria do tempo, não é mais atraente para o jovem estúpido do que para o velho.

RÉGIS DEBRAY
Flammarion, Paris, 2013

O risco segundo Cristina Ferreira

A. A propósito da capa do nº 7 da revista Cristina, com Joana Amaral Dias, ficamos a saber que a sua criadora, Cristina Ferreira, para além de esforçada princesa da felicidade televisiva, é também autora de uma elaborada filosofia sobre as fronteiras da expressão individual. Escreve ela: "Como é que os pares de Joana Amaral Dias reagirão ao facto de uma política surgir nua, grávida, na capa de uma revista? Em Portugal, esta situação é inédita. E, por isso mesmo, um risco."

B. Não é muito provável que os "pares de Joana Amaral Dias" tenham muito a dizer sobre o assunto, a não ser que alguém lhes coloque um microfone ameaçador à frente (método que, em qualquer caso, ninguém pratica nas televisões portuguesas). Seja como for, a acreditar no ineditismo da situação, Cristina Ferreira evoca várias importantes componentes identitárias — trabalhar em política, ser fotografada sem roupas, estar grávida e aparecer na capa de uma revista — para concluir que a soma de tudo isso é um "risco".
Infelizmente, tão fina argumentação peca por defeito, já que não esclarece qual o factor decisivo, capaz de justificar o reconhecimento da situação a que chama arriscada (não parecendo, em qualquer caso, que o risco conceptual provenha da circunstância de a pessoa fotografada surgir acompanhada por uma figura masculina). Será que o risco decorre apenas do facto de alguém estar na política como, aparentemente, acontece com milhares de outras pessoas? Ou o problema envolve a figuração da nudez, acontecimento raríssimo na história da humanidade e, como toda a gente sabe, desconhecido na idade da Internet? Estará em causa essa coisa bizarra que consiste em gerar um ser humano no ventre, fenómeno que a nossa memória colectiva tinha rasurado, maravilhados que estamos com as proezas da gestação in vitro? Ou será que Cristina Ferreira, evitando os equívocos da falsa modéstia, está apenas a querer dizer-nos que é um risco aparecer, não na capa de uma revista qualquer, mas na capa da sua revista? — eis um tema fracturante da sociedade portuguesa que, por certo, merecerá a devida avaliação por parte do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, et pour cause.

C. Em boa verdade, podemos supor que Cristina Ferreira está apenas, humildemente, a celebrar o seu esplendoroso projecto estético e ético, tão pedagogicamente apostado na inventariação dos riscos do seu tempo. Se a conjugação dos astros assim o permitir, talvez tudo possa vir a acontecer um pouco como na aventura temporal deste quadro de Pierre-Auguste Renoir, datado de 1883. Quase um século e meio depois, a senhora retratada ficou reduzida a uma comovente designação abstracta: Rapariga Sentada. O certo é que, fracos como somos, todos citamos religiosamente o referido Renoir, reconhecendo-o como membro de um panteão artístico que, num dos próximos séculos, integrará também o nome de Cristina Ferreira — quando já não for arriscado.

quinta-feira, setembro 03, 2015

Refugiados — a criança morta na praia

1. O jornal Le Monde chama-lhe "uma foto para abrir os olhos". E fá-lo pelas mais básicas razões humanitárias: nos seus indefesos 3 ou 4 anos de idade, o pequeno Aylan Kurdi é uma das vítimas mais expostas, porventura mais tragicamente simbólicas, do drama dos refugiados que está a assolar a Europa [actualizações na BBC]. Aliás, o respectivo editorial demarca-se mesmo de qualquer deriva gratuita: "Le Monde já publicou fotos de crianças mortas, nomeadamente quando do ataque químico contra um bairro de Damasco pela soldadesca de Bachar Al-Assad, em 2013. Não há, aqui, nenhum voyeurismo, nenhum sensacionalismo. Apenas a vontade de captar uma parte da realidade do momento"."

2. Justamente: não se trata de lançar qualquer sugestão de acusação contra quem mantém esta disponibilidade para reflectir sobre as questões deontológicas e sociais relacionadas com as imagens, sua produção e difusão. Multiplicaram-se, aliás, as chamadas de atenção para a dificuldade de estabelecer um padrão universal para a complexidade dos problemas que se colocam [no El Pais, por exemplo, faz-se mesmo um elucidativo balanço, titulando: "A foto da criança morta na praia divide a imprensa internacional"].

3. O que desconcerta é o facto de, com pendular regularidade, certas imagens serem convocadas para esta avaliação, com muitos argumentos (cuja seriedade não está em causa) a explicar "porque decidimos publicar" a foto em questão. Aliás, a reflexão parece resultar tanto da própria foto como do facto de todos os intervenientes saberem, ou pressentirem, que ela vai ser infinitamente reproduzida (tornando-se "viral", como diz a gíria cega da Internet).


4. Acontece que todos os dias coabitamos com práticas jornalísticas como a que podemos observar nesta edição de The Sun (Janeiro 2008, sobre a dependência de drogas de Amy Winehouse). Sublinho: todos os dias há por esse mundo fora uma imprensa que desqualifica a própria imprensa, alheando-se de qualquer centelha de humanismo — e não parece existir (aliás: não existe) a mais discreta reflexão sobre o efeito de tais práticas no mundo dos jornais, jornalistas e leitores, e também na dinâmica e nos valores do tecido social.

5. Subitamente, sentimos que Aylan Kurdi foi compulsivamente promovido à condição de protagonista de uma saga em que, no limite, apenas se discute o incómodo interior do próprio jornalismo que o elegeu como símbolo. Símbolo de quê? Não apenas da tragédia dos refugiados, mas dos próprios fantasmas conceptuais e éticos do trabalho jornalístico. Podemos, aliás, perguntar: porque é que não se discutem os mesmos temas de "legitimidade" figurativa a propósito de imagens como estas?


6. Serão tais imagens menos importantes, porventura dispensáveis porque de menor valor informativo? Pertencem a um admirável trabalho jornalístico de Paolo Pellegrin (fotos e videos) e Scott Anderson (texto), no New York Times, com o título 'Desperate Crossing'. Será que o horror do destino de Aylan Kurdi torna as fotografias de Pellegrin fracas? Ou descartáveis? Ou menos exigentes em relação à reflexão que, sobre elas, ou a partir delas, possamos desenvolver?

7. Entre os efeitos da agitação discursiva, especialmente televisiva, em torno da fotografia do cadáver de Aylan Kurdi, o mais desconcertante será: tudo se passa como se, pelo menos durante 24 horas, só existisse — ou só pudesse existir — uma única e solitária imagem no nosso mundo de imagens. Mais do que isso: conscientemente ou não, dir-se-ia que, hoje em dia, no espaço mediático-jornalístico, existe a vontade totalizante de colocar o mundo inteiro a ver o mesmo ao mesmo tempo. Lição das coisas: a maximização dos circuitos de difusão promove a minimização dos olhares.

quarta-feira, setembro 02, 2015

Andra Day por Spike Lee

Por vezes, há requebros na voz de Andra Day que fazem lembrar Amy Winehouse... Chega a ser assustador. Mas importa superar essa sensação, quando mais não seja porque seria injusto não reconhecer a Day a especificidade, intensidade e vibração de um genuíno talento. Estamos, de facto, perante a afirmação de uma personalidade de excepção no mundo da soul, intérprete e compositora — o seu álbum de estreia, Cheers to the Fall, define um universo muito próprio que, com admirável elegância, sabe transfigurar influências que vão desde a depuração emocional de uma Billie Holiday até à herança de certos ritmos da etiqueta Motown. Além do mais, o cartão de visita do disco é um brilhante teledisco, Forever Mine, pequena novela anti-romântica com assinatura de Spike Lee.

Elogio de T. S. Spivet (2/2)

Apesar de chegar às salas portuguesas quase dois anos passados sobre o seu lançamento em França, O Jovem Prodígio T. S. Spivet é um dos grandes acontecimentos do Verão cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Agosto), com o título 'A herança de Méliès'.

[ 1 ]

Numa persistente demonstração de ignorância, algum jornalismo cinematográfico (?) passou a classificar as aventuras de super-heróis, com mais ou menos objectos voadores, como filmes “de efeitos especiais”... Assim se rasura mais de um século de história das técnicas e narrativas cinematográficas — na verdade, em filmes rodados nos anos finais do séc. XIX, Georges Méliès (1861-1938) já sabia muito bem como desafiar as ilusões naturalistas da imagem em nome da fantasia e do maravilhoso.
Goste-se mais ou goste-se menos do trabalho de Jean-Pierre Jeunet (n. 1953), creio que faz sentido considerar que há nele uma disponibilidade para contrariar a pacatez do naturalismo que, a meu ver, ficou expressa com especial felicidade em títulos como Alien: O Regresso (1997) e O Fabuloso Destino de Amélie (2001). O caso de O Jovem Prodígio T. S. Spivet, porventura o seu filme mais belo, é tanto mais fascinante quanto a exaltação do imaginário infantil se apresenta, aqui, indissociável de uma sofisticação técnica capaz de se demarcar das convenções que têm alimentado muitos produtos típicos do mercado de Verão.
As atribulações da sua difusão (no caso português, estamos a descobri-lo quase dois anos após a estreia francesa) acabam por ser sintomáticas de um problema global dos mercados (e dos mercados globais). Assim, para além das suas muitas maravilhas, a aceleração digital desses mercados contribui, por vezes, para um estreitamento da oferta, vitimizando objectos admiráveis como O Jovem Prodígio T. S. Spivet, alheios à formatação que tem contaminado muito cinema “juvenil”. Dir-se-ia que as angústias vividas pelo pequeno T. S. Spivet passaram para o filme de Jeunet, reforçando a moral da história. A saber: é sempre perigoso usar a inteligência.

Ver + ouvir:
Ezra Furman, Lousy Connection



É uma das grandes surpresas do ano. Chama-se Ezra Furman e tem já vários discos lançados. Será que é com este Perpetual Motion People que o mundo dará por ele? Merecia.

Top 10: as melhores séries
clássicas de ficção-científica



Diferentes das produções mais recentes, muitas delas dominadas por efeitos gerados digitalmente e pensadas sob outras lógicas narrativas, a ficção científica pensada para o pequeno ecrã antes da viragem do milénio viveu relacionamentos mais próximos com as visões de escritores do género e herdou entusiasmos lançados por fenómenos nas salas de cinema. Muitas vezes as audiências não eram impressionantes, em muitos casos os fenómenos de culto tendo emergido mais tarde, até mesmo quando os episódios começaram a surgir em horários votados a repetições. Não se conta todavia a história da ficção científica no século XX sem a contribuição que algumas séries deram ao género. E são dez dessas séries que vamos aqui evocar. Todas elas produzidas e estreadas antes das datas míticas lançadas quer pelo 2001 de Kubrick ou aquele 13 de setembro de 1999 no qual, como mostrava a série criada por Gerry Anderson, a Lua era projetada para fora da órbita da Terra. Entremos, assim, nos domínios clássicos da ficção científica televisiva.

Acompanhe aqui, na Máquina de Escrever, a apresentação dos 10 títulos escolhidos.

Para ler: uma reflexão
sobre os novos Marretas

Ao que parece a nova namorada de Cocas, o sapo, é mais jovem e mais magra que Miss Piggy... E chama-se Denise. Aqui ficam umas palavras publicadas no Guardian sobre o tema.

Podem ler aqui

Claude Lanzmann — entre o ver e o dizer

A edição em DVD de O Último dos Injustos, de Claude Lanzmann, é um bom pretexto para repensarmos as relações entre o olhar e as palavras, o ver e o dizer — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 Agosto), com o título 'Como falamos daquilo que vemos?'.

Na vida cultural portuguesa, está instalado um peculiar discurso de apologia e defesa da memória. Ora, mesmo sem pormos em causa essa defesa (essencial na definição de qualquer identidade histórica), vale a pena perguntar que apologia se está a sustentar.
Dois universos contêm sinais reveladores. A política, antes do mais, em que a defesa da memória tende a reduzir-se, não poucas vezes, à preservação do património arquitectónico (cuja importância, entenda-se, não está minimamente em causa). E a televisão, confundindo o trabalho da memória com a multiplicação de imagens “simbólicas”, repetidas e repetitivas — pergunta-se, a propósito: que consolidação da memória do 25 de Abril resultou da repetição anual, ao longo de décadas, das mesmas imagens dos soldados e da multidão no Largo do Carmo, sempre com a mesma marcha militar em fundo sonoro?
Reencontro tais dúvidas a pretexto de O Último dos Injustos, o filme de Claude Lanzmann sobre Benjamin Murmelstein, derradeiro presidente do Conselho Judeu do gueto de Theresienstadt, o único que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial (estreado por ocasião dos 70 anos do fim do conflito, chegou agora ao mercado do DVD). O Último dos Injustos organiza-se, aliás, como um duplo exercício de memória: primeiro, com o registo de uma conversa de Lanzmann com Murmelstein, em 1975, recordando, em particular, o seu trabalho para preservar a vida de muitos judeus (entrevista registada no âmbito da rodagem do monumental Shoah, lançado em 1985); depois, através do retorno do realizador, em 2012, aos lugares que envolvem memórias das atrocidades nazis.
Sabemos que a visão de Lanzmann continua a ser muito discutida por causa da sua opção central de não integrar imagens de arquivo. E mesmo considerando (como eu considero) que Lanzmann é um dos mais importantes retratistas da Solução Final, importa dizer que alguns argumentos contra essa opção merecem ser devidamente avaliados. Em qualquer caso, importa também revalorizar o cerne do seu cinema. Assim, Shoah e O Último dos Injustos — tal como Sobibor, 14 de Outubro 1943, 16 Horas (2001), sobre a única revolta bem sucedida num campo de extermínio nazi — são objectos de cinema edificados, não através da crença pueril na “transparência” das imagens, antes a partir do valor primordial da palavra.
Como falamos daquilo que vemos? Eis a interrogação fulcral de Lanzmann, tendo como ponto de partida o mais difícil de ver: as imagens do Holocausto. É uma interrogação tanto mais actual e urgente quanto, por vezes, o espaço social se apresenta ocupado por avaliações anedóticas do exercício da fala. Observe-se, por exemplo, a agitação das forças políticas em torno dos elencos dos debates televisivos sobre as próximas eleições. Como sempre, não se discutem as formas de pensar/dizer a política, mas uma banal questão de quorum no espaço televisivo — são sintomas cruéis da indiferença dos nossos políticos em relação às linguagens do audiovisual.

terça-feira, setembro 01, 2015

As imagens 4K

Imagens em 4K? Bem sabemos que a designação técnica envolve uma promessa de qualidade que, em qualquer caso, não é ainda a regra dominante no espaço do consumo televisivo ou cinematográfico (lembremos, por exemplo, que a apresentação de uma cópia 4K de Taxi Driver constituiu um acontecimento de importantes ressonâncias simbólicas no Festival de Berlim de 2011). Agora, para promover os seus novos televisores 4K, a LG apresenta uma curiosa campanha apostada em sugerir-nos que, afinal, nunca vimos os filmes na verdade mais visceral das suas imagens: a frase promocional diz mesmo que "a maneira como vemos filmes está ultrapassada".
É um trabalho da agência brasileira Y&R, aqui recordado através das evocações de Shining (1980), E. T. (1982) e O Padrinho (1972) — acrescentam-se as imagens dos próprios filmes para sublinhar este jogo sarcástico de reconhecimento & surpresa.

Wes Craven (1939 - 2015)

Figura de culto do género de terror, argumentista, produtor e realizador, o americano Wes Craven faleceu no dia 30 de Agosto, em Los Angeles, vitimado por um tumor no cérebro — contava 76 anos.
Os Olhos da Montanha (1977) foi o título que o projectou como um novo experimentador do terror. Explorando um universo em que qualquer fronteira entre a vida vivida e a vida sonhada é sempre instável, para não dizer inexistente, o seu trabalho ficou marcado por duas séries: Pesadelo em Elm Street, cujo primeiro título, de 1984, lançou a carreira de Johnny Depp, e Scream/Gritos, iniciada em 1996; a primeira série impôs a figura de Freddy Krueger (Robert Englund), o assassino de dedos com lâminas que persegue as suas vítimas nos sonhos, acabando por tornar-se uma das mais conhecidas personagens do terror das últimas décadas. Num registo bem diferente, Craven assinou Melodia do Coração (1999), sobre uma professora de violino numa escola do Harlem, interpretada por Meryl Streep. Em 2012, o Festival de Cinema de Terror de Nova Iorque distinguiu-o com um prémio de carreira.

>>> Trailer do primeiro Pesadelo em Elm Street e extracto de uma entrevista em que Wes Craven dá o seu conselho aos jovens cineastas.




>>> Obituário no New York Times.
>>> Site oficial de Wes Craven.

segunda-feira, agosto 31, 2015

Oliver Sacks (1933 - 2015)

Neurologista inglês, famoso pelos livros em que abordou histórias dos seus pacientes, Oliver Sacks faleceu em Nova Iorque, a 30 de Agosto, vítima de melanoma — contava 82 anos.
O facto de ter transformado muitos casos que acompanhou em obras literárias conferiu-lhe uma dimensão, e também uma popularidade, muito para além do seu domínio de especialização. O cinema constitui um eco fundamental do seu trabalho, nomeadamente através da adaptação do livro Awakenings (1973), transformado em filme em 1990, com Robert De Niro e Robin Williams sob a direcção de Penny Marshall — foi lançado entre nós como Despertares. Já em 2015, editara a autobiografia On the Move - A Life.

>>> A intervenção de Oliver Sacks nas TED Talks.


>>> Obituário no New York Times.

O futebol contra a língua portuguesa

REMBRANDT
Auto-retrato
1630
As agressões contra a língua portuguesa continuam a proliferar no espaço tele-futebolístico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (28 Agosto), com o título 'Contra a língua portuguesa'.

1. A violência contra a língua portuguesa vinda da área televisiva do futebol é cada vez mais chocante. Escusado será repetir que não se trata de penalizar os erros de construção ou concordância que se cometem naturalmente, em especial na tensão dos directos. Não é esse o problema. O problema é a normalização de lamentáveis atentados à riqueza do nosso falar.

2. Como é possível que, em debates sobre futebol ou transmissões de jogos, haja cada vez mais vozes que aplicam o infinito dos verbos como se fosse uma matriz gramatical para todas as situações? “Dizer que a equipa vai começar o jogo em 4x3x3...” Como é possível que tal monstruosidade tenha ganho estatuto de norma? “Lembrar que se disputa outro jogo importante...” Dentro das televisões, já ninguém escuta? Pior um pouco: já ninguém se escuta?

3. E que dizer do ridículo anglicismo que leva a generalizar a tradução do “you” inglês por “tu”?... “Se jogas com três defesas, tens de organizar o resto da equipa...” Mais do que isso: em nome de quê se anda a traduzir a palavra espanhola “ilusión” por “ilusão”? “Temos a ilusão de poder ganhar o jogo...” Como? Ainda ninguém reparou que, muitas vezes, a palavra significa “esperança”, “expectativa”, “forte desejo”?

4. Um dias destes, algures na televisão, assistiremos a um debate muito sério sobre a dimensão histórica, social e cultural da língua portuguesa. E não tenhamos dúvidas: se alguém fizer notar que há protagonistas do futebol televisivo que estão a destruí-la, haverá sempre um moderador atento para lembrar que “não é isso que estamos a discutir”...

5. Na televisão inglesa, José Mourinho fala inglês. Na televisão espanhola, Cristiano Ronaldo fala espanhol. Na televisão portuguesa, Julen Lopetegui fala... espanhol. São factos que nada nos dizem sobre os méritos dos respectivos protagonistas. Em todo o caso, são bastante reveladores dos valores que (não) prevalecem no nosso espaço audiovisual.

Ver e ouvir segundo Pascal Niggenkemper

FOTO: Natasha Lébedeva
Poderá parecer uma desqualificação, mas é antes uma apaixonada valorização que está em jogo no primeiro registo a solo do contrabaixista germano-francês, sediado em Nova Iorque, Pascal Niggenkemper. Ou seja: quando escutamos os magníficos contrastes do seu contrabaixo, somos impelidos a redefinir o instrumento como um objecto que está muito para além da sua sonoridade "oficial", por assim dizer oscilando entre os mistérios do violino e a contundência da bateria, passando pelo magnanimidade do piano — 'Look with Thine Ears', edição com chancela Clean Feed, é uma apoteose de transfigurações que, em boa verdade, se podem escutar como compassos de uma longa frase de introspecção musical. Em direcção a quê? Pois bem, aproximando-se, e aproximando-nos, desse "ver com as orelhas" que está no título que Niggenkemper foi buscar ao Rei Lear:

GLOUCESTER
I do understand, by touch.

LEAR
What, are you crazy? You don’t need eyes to see how the world works. Look with your ears [texto original: Look with thine ears]. Look how the judge yells at a simple thief. Listen. But mix them up, have them switch places, and do you think you’d be able to tell which one is which? Have you seen a farmer’s dog bark at a beggar?

Na tradução portuguesa do Dr. Domingos Ramos (Lello & Irmão, Porto, 1988):

GLOUCESTER
Vejo-o, porque o sinto.

LEAR
Pois quê? estais doido? Um homem pode ver sem olhos como vai o mundo. Olhai com as vossas orelhas: vedes como aquele juiz se zanga com este ratoneiro? Prestai atenção: trocai os lugares e depois adivinhai qual é o juiz e qual é o ratoneiro. Tendes visto um cão de quinta ladrar a um mendigo?

Eis, justamente, a faixa 1 que dá o título ao álbum:


Nas magníficas notas de apresentação do disco, Stuart Broomer evoca a herança do Free Jazz (1961), de Ornette Coleman. E não é caso para menos: dir-se-ia que a duplicidade que Coleman colocou em cena, com dois quartetos, cada um para um dos canais do stereo — os contrabaixistas foram Scott LaFaro e Charlie Haden — se prolonga, aqui, através da múltipla "esquizofrenia" do contrabaixo, num labor tão radicalmente concreto que se revela capaz de tocar as fronteiras da mais fina abstracção. Um exemplo mais, para ver com as orelhas bem abertas: o apoteótico This Shall Not Be Revoked; logo a seguir, um registo de Niggenkemper, em 2009, em ambiente de trio, com Robin Verheyen (saxofone) e Tyshawn Sorey (bateria).



domingo, agosto 30, 2015

Elogio de T. S. Spivet (1/2)

Apesar de chegar às salas portuguesas quase dois anos passados sobre o seu lançamento em França, O Jovem Prodígio T. S. Spivet é um dos grandes acontecimentos do Verão cinematográfico — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Agosto), com o título 'Jean-Pierre Jeunet celebra os prodígios da imaginação infantil'.

É bem verdade que, para o melhor ou para o pior, o Verão cinematográfico continua a ser dominado pelo lançamento das grandes máquinas de Hollywood. Ao mesmo tempo, o panorama das novidades surge sempre marcado por contrastes mais ou menos desconcertantes. Assim acontece, agora, com O Jovem Prodígio T. S. Spivet [estreia: 27 Agosto], dirigido por Jean-Pierre Jeunet a partir do “best-seller” de Reif Larsen, entre nós publicado com o título As Obras-Primas de T. S. Spivet (ed. Presença).
Uma aventura épica de uma criança de 10 anos, uma produção sofisticada aplicando os mais modernos recursos digitais, enfim, um objecto pensado para a dimensão espectacular dos ecrãs das grandes salas — dir-se-ia, precisamente, uma produção de um estúdio americano visando o período de férias. Mas não: para além de ser assinado por um cineasta francês, O Jovem Prodígio T. S. Spivet resulta de uma aliança de entidades da França, Canadá e Austrália.
A história da sua difusão daria, por certo, para fazer um outro filme, igualmente épico, porventura não tão radioso. Isto porque se passaram quase dois anos desde a primeira apresentação pública do filme no Festival de San Sebastián. O Jovem Prodígio T. S. Spivet teria a sua estreia francesa em Outubro de 2013, aparentemente antecipando um lançamento americano antes do final desse ano, de modo a poder concorrer às nomeações para os Oscars.
Nada disso aconteceu. O filme foi sendo estreado em diversos países, na Europa e na Ásia, mas o distribuidor americano, a Weinstein Company, dos irmãos Harvey e Bob Weinstein, quis alterar a montagem. Jeunet não abdicou das suas opções, tanto mais que, por contrato, garantira o controle da montagem final (final cut). Na prática, abriu-se um conflito cujo desenlace ocorreu há poucas semanas, a 31 de Julho, quando O Jovem Prodígio T. S. Spivet surgiu, finalmente, nas salas dos EUA (Portugal é, assim, um dos derradeiros países a poder descobri-lo).
Em entrevistas recentes, Jeunet reafirmou que nunca abdicaria da sua montagem, ao mesmo tempo não poupando os Weinsteins — segundo ele, o filme só foi mesmo lançado nos EUA para cumprir a cláusula contratual que obriga a uma passagem por um determinado número de salas para depois ser integrado nas listas de programação da Netflix.
Conflitos à parte, seria uma pena que o trabalho de Jeunet fosse reduzido às peripécias dos bastidores industriais. De facto, estamos perante um dos poucos projectos recentes que procura recuperar uma certa dimensão encantada e encantatória do cinema, sem passar pelas sagas “obrigatórias” de super-heróis ou personagens mais ou menos excêntricas de galáxias distantes.
T. S. Spivet (Kyle Catlett, brilhante) é o nome do mais heterodoxo dos aventureiros. Porque é uma criança, mas sobretudo porque o seu génio científico o leva a “entrar” no mundo dos adultos de forma bizarra. Os trabalhos científicos que envia para diversas instituições e competições (sem esclarecer a sua idade) acabam por lhe valer uma chamada do Instituto Smithsonian: a sua prodigiosa invenção, uma “máquina de movimento perpétuo”, foi distinguida com um prémio altamente prestigiado, sendo convocado para discursar na respectiva cerimónia de entrega... Daí a sua odisseia: como viajar das paisagens rurais do estado de Montana, onde vive com os pais, até Washington?
Jeunet celebra a prodigiosa imaginação do seu pequeno herói, não apenas no plano científico, mas na sua aplicação a todas as circunstâncias da vida. Esta é, de facto, uma fábula sobre a arte de viver através daquilo que apetece chamar imaginação científica: por um lado, aplicando o conhecimento racional para compreender o mundo; por outro lado, mostrando a máxima disponibilidade para adequar esse conhecimento aos detalhes mais enigmáticos, sem dúvida mais poéticos, dos destinos individuais.
Para além das peculiaridades de cada um dos seus filmes, Jeunet sempre foi um apaixonado por estas histórias que envolvem os limites, físicos ou espirituais, da experiência humana. Bastará lembrar os títulos que dirigiu em associação com Marc Caro — Delicatessen (1991) e A Cidade das Crianças Perdidas (1995) —, sem esquecer, já a solo, essa enorme sucesso internacional que foi O Fabuloso Destino de Amélie (2001). Para ele, o cinema está colado às emoções vividas por cada um, mas é sempre maior que a vida.

A herança viva do 11 de Setembro

A 9/11 Day é uma organização de solidariedade inspirada no espírito de comunhão e partilha gerado em reacção aos atentados do 11 de Setembro. Recentemente, divulgou um notável video centrado naqueles que nasceram no dia 11 de Setembro de 2001 — eis um exemplo admirável de uma estratégia enraizada no universo publicitário (com chancela da agência Grey), recusando a facilidade dos clichés ou das efemérides, celebrando antes a herança viva das pessoas e das suas ideias.

sábado, agosto 29, 2015

David Bowie + Mick Jagger
30 anos depois...



A ideia inicial era a de fazerem um dueto no Live Aid. Bowie em Londres. Jagger em Filadélfia. Mas a ligação por satélite obrigava a um segundo de delay. E para não obrigar nenhum deles a fazer um playback, optaram por um plano B. Bowie estava então a gravar em Abbey Road as canções para a banda sonora de Absolute Beginners e, numa tarde, Mick Jagger voou e ali passou para que gravassem uma versão de Dancing in The Streets, original de 1964 de Martha and The Vandellas. Na mesma noite, com David Mallett, foram para a rua e, nas Docklands, numa série de takes, nascia o teledisco. Em meio dia um single e um teledisco nasceram assim. As imagens foram exibidas no Live Aid. Semanas depois era o single que estava na rua. Faz agora 30 anos.