domingo, fevereiro 26, 2017

O mundo de Stefan Zweig

Filme de Maria Schrader evoca exílio de Stefan Zweig — esta nota foi publicada no Diário de Notícias (23 Fevereiro).

Conhecemos os anos finais de Stefan Zweig (1881-1942) através desse admirável livro de memórias que é O Mundo de Ontem (Assírio & Alvim, 2014): um labirinto de evocações escritas por um homem angustiado pelo avanço do nazismo na Europa, tentando encontrar noutras paragens, em particular no Brasil, uma hipótese de futuro.
O filme Stefan Zweig - Adeus, Europa, de Maria Schrader, centra-se nesses anos, assumindo um registo que, infelizmente, raras vezes supera as convenções dramáticas e o determinismo psicológico do telefilme biográfico. Em qualquer caso, apesar do decorativismo caricatural de algumas personagens secundárias (sobretudo as brasileiras, interpretadas por actores portugueses), as figuras centrais, Zweig e a ex-mulher, contam com magníficas interpretações — respectivamente, o austríaco Josef Hader e a alemã Barbara Sukowa.

sábado, fevereiro 25, 2017

"Ela" vence Césars

O filme Ela, de Paul Verhoeven, arrebatou dois dos principais Césars do cinema francês: melhor filme e melhor actriz, Isabelle Huppert. Tão Só o Fim do Mundo valeu a Xavier Dolan o prémio de realização e a Gaspard Ulliel o de melhor actor — palmarés integral do site do Canal+.

sexta-feira, fevereiro 24, 2017

"Twin Peaks" — o passado e o presente

Chegará a 21 de Maio, com chancela do canal Showtime. O mais curioso é que a promoção de Twin Peaks — "Está a acontecer outra vez", proclama a sugestiva frase promocional — se faz através de imagens da série original (1990-91). Como se o presente fosse sempre uma assombrada repetição de um passado fixado por alguma pulsão obsessiva. Em boa verdade, tal reversibilidade é uma das imagens de marca de toda a obra de David Lynch — eis um cartaz e um spot. 

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

"Alien" — a última ceia

Com lançamento global agendado para 19 de Maio, Alien: Covenant prossegue a sua campanha. Depois do primeiro trailer, o filme de Ridley Scott, uma sequela de Prometheus (2012), surge agora através de uma cena classificada como 'A Última Ceia'. Trata-se de um prólogo, com os tripulantes da nave a celebrar, antes de serem colocados em sono criogénico — reconhecemos vários dos nomes do elenco, incluindo Michael Fassbender, Katherine Waterston e Billy Crudup; Callie Hernandez, que participa em La La Land, é a jovem que se engasga, evocando de imediato John Hurt em Alien (1979).

Com os pés

1. Esta foto do pé do jogador Herrera (ferido num lance do jogo F. C. Porto-Juventus, para a Liga dos Campeões) está hoje um pouco por todo o lado, nomeadamente em muitos sites informativos. A sua omnipresença é suficientemente perturbante para nos confrontar com algumas interrogações incómodas.

2. A primeira dessas interrogações tem a ver, precisamente, com o próprio incómodo que a imagem pode suscitar em algumas pessoas. O certo é que se trata de um interrogação equívoca, um pouco como os resultados "justos" e "injustos" do futebol — se não há tribunal mandatado para avaliar a "justiça" dos resultados, em nome de que lei persistem tais classificações?

3. Podemos também perguntar se o efeito subjectivo de uma imagem (individualizando a reacção de A, B, ou C) é suficiente para dar conta das suas significações? Se algumas pessoas ficam (legitimamente) perturbadas, será que isso basta para nos ajudar a compreender os mecanismos de circulação das imagens e, sobretudo, os valores dominantes nessa circulação?

4. Porque é isso que está em causa. A saber: porque é que um pé ferido de um jogador de futebol se torna jornalisticamente importante? Será que se relança, assim, todo um imaginário do sofrimento que tem os seus ícones mais ancestrais nas representações pictóricas de Cristo na Cruz?

DIEGO VELÁZQUEZ
Cristo Crucificado [pormenor]
1632
5. A pergunta justifica-se porque, muito para além de qualquer consideração "emocional" sobre esta imagem — ou, em boa verdade, qualquer outra imagem —, ela nos conduz a outra questão, vital, quase sempre omitida ou denegada no pensamento jornalístico. Mais concretamente: porque é que as imagens que provêm do universo futebolístico são tratadas como coisas naturais e obrigatórias, gozando de um privilégio de visibilidade que não é concedido a imagens de muitos outros domínios?

6. Porque é que a imagem do pé ferido de Herrera é um acontecimento iconográfico em muitas zonas do jornalismo português? Uma primeira resposta não poderá deixar de recordar que o futebol se tornou uma linguagem compulsiva do nosso quotidiano. Veja-se e, sobretudo, ouça-se a avalanche de lugares-comuns proferidos por treinadores e jogadores, repetidos e repetitivos, todos os dias a contaminar o espaço mediático — como é possível que não se reconheça que tal avalanche, além de destruir metodicamente a elegância da língua portuguesa, favorece um ambiente de permanente conflito?

7. Evitemos, por isso, a saga justiceira dos que, ciclicamente, nos avisam da abundância de "sexo e violência" nas imagens. Não se trata de sugerir, de modo algum, que a imagem do pé de Herrera deveria ser interdita. Já bastam os disparates que circulam sempre que se vulgariza a palavra "censura" em discussões anedóticas de coisa nenhuma. Trata-se apenas de reconhecer algo impossível de negar: os valores correntes do jornalismo reconhecem-na como uma imagem pertinente.

Nos bastidores de uma nova peça
de Anna Meredith



Anno é uma nova obra de Anna Meredith que combina as Quatro Estações de Vivaldi com música que ela mesma compôs para o Scottish Ensemble juntando uma orquestra de cordas, cravo e eletrónicas, e que é apresentada com imagens criadas por Eleanor Meredith.

David Bowie vence prémios nos Brits Awards


Tal como sucedera há alguns dias atrás nos Grammys, o álbum Blackstar valeu a David Bowie distinções, agora nos Brits Awards. Bowie venceu em duas categorias numa premiação que nunca antes tinha atribuído troféus póstumos. Foi, de resto, quem mais prémios arracadou numa noite que dividiu as vitórias entre muitos artistas e bandas.

Está aqui a lista dos vencedores:

Artista a Solo Britânico - David Bowie
Artista a Solo Britânica - Emeli Sandé
Grupo Britânico - The 1975
Revelação Britânica - Rag’n’Bone Man
Sucesso Global - Adele
Melhor Single - Little Mix, Shout Out To My Ex
Melhor Álbum Britânico - David Bowie, Blackstar
Melhor Vídeo Britânico - One Direction, History
Artista a Solo Internacional (m) - Drake
Artista a Solo Internacional (f) - Beyoncé
Grupo Internacional - A Tribe Called Quest

Novos lançamentos:
Teen Daze, Themes For a Dying Earth


A diluição entre a noção de fronteiras tem caracterizado algumas das melhores surpresas discográficas dos últimos anos. E em Themes For a Dying Earth o canadiano Jamison Isaak mostra-nos como, a partir de um caldeirão primordial desenhado em regime “ambient” e sob piscares de olho aos terrenos da dream pop, pode nascer um disco que tanto aceita a canção como a deambulação instrumental como parte de um corpo comum que procura definir ao longo do alinhamento uma ideia. Em tempo usava-se mais o termo “concetual”...

 O título abre pistas e, de facto, entre os temas que fazem o alinhamento deste seu sexto álbum, o projeto Teen Daze assina uma série de olhares sobre um planeta que, mesmo não estando moribundo como à partida se sugere, na verdade vive momentos de algo assombradas nuvens ameaçadoras sob uma política ambiental que transcende as fronteiras dos estados. Porque é coisa da esfera global. Apesar do trabalho de arranjos que convoca as guitarras e um cuidado desenho das arquiteturas rítmicas (que não desejam nunca roubar protagonismos) é nos momentos em que aflora a alma “ambient” (essencialmente talhada a eletrónicas) que o álbum traduz o sentido de busca cénica que Jamison Isaak aqui procura desenhar.

Ao escutar o belíssimo Anew (no qual Jon Anderson, que produziu o disco, toca pedal steel ou Water in Heaven (na linha de algumas das criações mais paisagístcas da dupla Jon & Vangelis) sente-se que, depois de uma inflexão indie pop no anterior Morning World (2015), e de arrumadas as buscas mais “saltaricas” de outrora Jamison encontrou nas pistas de Glacier (2013) um caminho que aqui depura e leva mais adiante naquele que é o seu melhor disco até aqui.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

Leah Adler (1920 - 2017)

[FOTO: The Telegraph]
Pianista e pintora, foi a fama do seu filho, Steven Spielberg, que a tornou mundialmente conhecida: Leah Adler faleceu non dia 21 de Fevereiro, em Los Angeles — contava 97 anos.
Em acontecimentos públicos, Spielberg sempre exaltou a importância da mãe no seu crescimento e, muito em particular, no apoio à sua vontade precoce de fazer cinema — Leah Adler foi sendo conhecida do público enquanto acompanhante do filho em ante-estreias dos seus filmes ou em cerimónias de entrega de prémios. Era proprietária de um restaurante, 'The Milky Way', lugar de culto nos circuitos gastronómicos e cinéfilos de Los Angeles. A 21 de Março de 1994, ao receber o Oscar de melhor realização por A Lista de Schindler, Spielberg chamou-lhe o seu "amuleto da sorte" — video da cerimónia da Academia de Hollywood.


>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

Amadeo por Paulo Rocha

O filme de Paulo Rocha sobre Amadeo de Souza-Cardoso voltou às salas (cinema Ideal) e está editado em DVD — este texto foi publicado no Diário de Notícias (19 Fevereiro), com o título 'Amadeo e o “seu” cinema'.

Em paralelo com a exposição dedicada a Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918), patente no Museu do Chiado (até dia 26), a Midas Filmes repôs o documentário que Paulo Rocha dedicou ao pintor modernista português, Máscara de Aço contra Abismo Azul (1988), também já disponível em DVD (em cópia restaurada pela Cinemateca Portuguesa). O acontecimento é tanto mais motivador quanto somos compelidos a questionar a própria classificação “documental” do projecto.
Uma frase emblemática de Paulo Rocha tem sido evocada: “Tentei filmar esse período da sua pintura com um estilo diferente, como se a câmara fosse um pincel na mão do próprio Amadeo, com as suas cores e as suas formas.” Assim é. Mesmo nas componentes mais tipicamente documentais — registando a exposição que, há 30 anos, na Fundação Gulbenkian, assinalou o centenário do nascimento do pintor —, o filme distingue-se por uma singularidade visual em que os visitantes (incluindo o então Presidente da República, Mário Soares) surgem como silhuetas fantasmáticas secundarizadas pela vibração de cores e formas dos objectos expostos.
Paulo Rocha [DN]
O título alude a duas personagens de banda desenhada criadas pelo próprio Amadeo, abrindo uma hipótese de artifício e transfiguração que o filme trabalha através da presença saborosamente teatralizada dos actores: Inês de Medeiros, Fernando Heitor, Miguel Guilherme, Vítor Norte, Henrique Viana e José Viana. Paulo Rocha descobre nas imagens de Amadeo, não apenas a visão de um criador que não se deixou fixar em qualquer movimento ou escola, mas também uma arte de contraponto e montagem que, em última instância, envolve um desejo de cinema.
Na trajectória de Paulo Rocha, a lógica de “biografia teatral” de Máscara de Aço contra Abismo Azul seria prolongada através dos retratos de dois cineastas: Oliveira, o Arquitecto (1993) e Shohei Imamura, le Libre Penseur (1995), ambos realizados para a série “Cinéastes de notre temps”. Há em todos eles um método de colagem, algures entre o didactismo informativo e a ironia estética, que surge consolidado no seu filme final, o autobiográfico Se Eu Fosse Ladrão... Roubava (2012).
A obra de Paulo Rocha envolve, assim, um contributo exemplar para a reavaliação da dicotomia documentário/ficção, tão marcante no período do Cinema Novo (e das “novas vagas” dos anos 60) a cuja dinâmica o seu nome está visceralmente ligado. Em particular a sua primeira longa-metragem, Os Verdes Anos (1963), continua a tocar-nos pelo modo como “documenta” o impossível romantismo da cidade de Lisboa.

terça-feira, fevereiro 21, 2017

'Satan Your Kingdom Must Come Down'
[canções]

ROBERT PLANT
Satan Your Kingdom Must Come Down
Band of Joy (2010)





Gerald Hirschfeld (1921 - 2017)

[ Hollywood.com ]
Foi um talento tão brilhante quanto discreto da direcção fotográfica: o americano Gerald Hirschfeld faleceu no dia 13 de Fevereiro, em Ashland, Oregon — contava 95 anos.
Com uma carreira iniciada na televisão, em finais da década de 40, alguns dos seus trabalhos mais importantes surgem associados a um certo romantismo desencantado dos anos 60/70 e, em particular, à obra de Frank Perry (1930-1995) — especialmente significativos são Last Summer/O Verão Passado (1969), Diary of a Mad Housewife/O Diário Íntimo de Uma Mulher (1970) e T. R. Baskin/Encontro com uma Mulher Só (1971). Entre os seus títulos mais importantes, incluem-se ainda Fail Safe/Missão Suicida (1964), de Sidney Lumet, Young Frankenstein/Frankenstein Junior (1971), de Mel Brooks, Neighbors/Mas Que Vizinhos (1981), de John G. Avildsen, e The Car/O Carro (1977), de Elliott Silverstein. Em 2007, foi homenageado com um prémio honorário da American Society of Cinematographers — nunca obteve qualquer nomeação para os Oscars.

>>> Dois trailers de filmes fotografados por Gerald Hirschfeld: Young Frankenstein e The Car.




>>> Obituário no site Deadline.

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Na Lua com Lana Del Rey

Dois dias depois da revelação de Love, Lana Del Rey divulgou o respectivo teledisco: uma viagem romântica, surreal e lunar, com realização de Rich Lee — a canção fará parte de um quinto álbum de estúdio, com data ainda por divulgar.

Matt Damon & Zhang Yimou (2/2)

A Grande Muralha é o filme de uma nova encruzilhada do cinema: Hollywood e a China aliam-se para o mercado global — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Fevereiro), com o título 'A herança de Méliès'.

[ 1 ]

Em 1967, num tempo marcado pelas tensões ideológicas que explodiriam no turbilhão de Maio 68, o italiano Marco Bellocchio realizou um célebre filme em que os conflitos geracionais se cruzavam com as clivagens políticas. Atento à contaminação de tais conflitos por palavras de ordem provenientes da linguagem maoísta, o filme tinha um sugestivo título: La Cina È Vicina (A China Está Próxima). Meio século mais tarde, o misto de inquietação e sedução que tais palavras arrastavam transfigurou-se num espectacular drama económico.
O filme A Grande Muralha aí está, como expressão muito directa das suas componentes: trata-se de encontrar modos de convivência entre Hollywood e a sofisticada máquina de produção da China (que sempre existiu muito para além dos clichés dos filmes de “kung fu” provenientes de Hong Kong).
Retomando a lógica criativa dos seus filmes visualmente mais exuberantes — com inevitável destaque para o assombroso O Segredo dos Punhais Voadores (2004) —, Zhang Yimou assina um objecto de desconcertante fascínio. Não se trata, de facto, de reproduzir a lógica de muitas aventuras de super-heróis em que a confusão narrativa serve apenas de pretexto para experimentar as últimas novidades do departamento de efeitos especiais. Ao narrar a saga de Matt Damon nos cenários da Grande Muralha, Zhang Yimou procura uma espécie de simplicidade primordial, em muitos aspectos próxima da linguagem do cinema mudo (mesmo se estamos perante um notável trabalho de montagem sonora). Dir-se-ia que ele se assume como herdeiro directo do primitivismo de Georges Méliès (1861-1938) e dos poderes encantatórios da imagem cinematográfica. É uma opção tão arriscada quanto sedutora, impossível de reduzir à linguagem tecnocrática de qualquer acordo de produção.