segunda-feira, maio 01, 2017

Haim por P. T. Anderson

Começámos a conhecer as Haim como uma das promessas de 2013, graças a uma chamada de atenção proveniente da BBC. E é um facto que, na hora dos balanços, as três irmãs de Los Angeles emergiam, graça ao álbum Days Are Gone, como uma das revelações do ano.
Quatro anos depois, anunciam, para Julho, um segundo álbum: Something to Tell You. E o cartão de visita não podia ser mais sugestivo: Right Now não só parece anunciar uma sonoridade pop ainda mais austera e sosfisticada, como nos chega através de um teledisco de elegante rarefacção narrativa, assinado por Paul Thomas Anderson. Aparentemente, o cineasta de Magnolia (1999), Haverá Sangue (2007) e Vício Intrínseco (2014) apostou em prolongar alguns exercícios de (des)continuidade temporal desenvolvidos com os Radiohead — na sua singeleza formal, o resultado tem qualquer coisa de encantatório.

domingo, abril 30, 2017

5 fotogramas de Jonathan Demme [3]

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Jonathan Demme encenou a personagem de Hannibal Lecter através de uma rigorosa geometria dramática. A sua estratégia encontra-se ramificada por todas as imagens de O Silêncio dos Inocentes. Como esta, por exemplo — para compreendermos a intensidade do olhar de Anthony Hopkins, é fundamental não esquecer que, no seu contracampo, está Clarice Starling, aliás, Jodie Foster. Assim, o campo/contracampo dos olhares surge sempre assombrado por uma visceral "indefinição": Hannibal fixa-se na comoção de Clarice ou os seus olhos procuram a câmara, quer dizer, o desamparado espectador? A suspensão desse movimento encerra a moral de O Silêncio dos Inocentes — olhamos o mundo à nossa volta tantas vezes esquecendo que somos também feitos do modo como o mundo nos olha, tornando-nos objectos de outras histórias.

Memória de Jonathan Demme

O falecimento de Jonathan Demme faz-nos rever e revalorizar a criatividade de um independente dentro de Hollywood — este texto foi publicado no Diário de Notícias (27 Abril), com o título 'Um autor de "série B"'.

Quando situamos Jonathan Demme nas convulsões do cinema americano depois da idade de ouro do classicismo, dir-se-ia que ele não pertence a nenhum espaço específico. Por um lado, surgiu depois da geração dos que, como Arthur Penn, Sidney Lumet ou John Frankenheimer, começaram a sua formação nas produções televisivas e, de facto, transfiguraram a paisagem estética de Hollywood; por outro lado, é verdade que a sua afirmação é paralela à de Francis Ford Coppola ou Martin Scorsese (cujas carreiras também estão ligadas ao produtor Roger Corman), mas a sua obra não está marcada pelo mesmo tipo de unidade temática ou experimental que distingue os autores de Apocalypse Now e O Touro Enraivecido. Podemos, talvez, resumir a sua singularidade considerando que o seu trabalho nunca alienou um espírito de “série B” obviamente devedor da aprendizagem (de escrita e realização) sob a égide de Corman.
Em 2008, Demme dirigiu um filme sublime que, a meu ver, pode condensar as suas qualidades. Tinha, curiosamente, argumento de Jenny Lumet, filha de Sidney Lumet. Chamava-se O Casamento de Rachel e nele se contava “apenas” a história de uma jovem que, na sequência de um difícil processo clínico de desintoxicação, regressava à família para assistir ao casamento da irmã. Centrado naquela que me parece (de muito longe) a melhor interpretação de Anne Hathaway, o filme distinguia-se pela perturbante intensidade das suas emoções, registadas com a “ligeireza” de um documentário familiar. Dito de outro modo: Demme possuía esse gosto do paradoxo, inerente à “série B”, em que as coisas mais banais podem envolver o destino do mundo. Será preciso lembrar que, nesta perspectiva, O Silêncio dos Inocentes, é também um guia essencial para a estranha familiaridade dos nossos pecados?

"Visions of Paradise" [canções]

Mick Jagger
Visions of Paradise
Goddess in the Doorway (2001)


sábado, abril 29, 2017

Sakamoto em tom introspectivo

Chama-se async (com minúscula) e é, de facto, um exercício de vários assincronias: no novo álbum de Ryuichi Sakamoto coabitam o seu gosto pelo piano com a integração de sons do quotidiano, transfigurados em pontuações musicais. Isto sem esquecer a envolvente presença de algumas vozes como a de Paul Bowles, registada durante os trabalhos de composição para Um Chá no Deserto (Bernardo Bertolucci, 1990), e David Sylvian (recitando alguns versos de Arseny Tarkovsky). O resultado é uma delicada teia introspectiva, de alguma maneira induzida pelas memórias pessoais de luta contra o cancro [ler artigo do New York Times].
Eis o som do tema de abertura, andata (quase todas as faixas são também identificadas por nomes com minúsculas), e ainda um video de cerca de 15 minutos produzido pela Milan Records para apresentação do álbum.



sexta-feira, abril 28, 2017

"Wild Thing" [canções]

THE TROGGS
Wild Thing
Hit Single Anthology (1991)


5 fotogramas de Jonathan Demme [2]

[ 1 ]

Nada a ver com pitoresco. É bem verdade que os filmes de Jonathan Demme estão recheados de personagens estranhas, mais ou menos exuberantes na sua iconografia. O certo é que nunca se afastam de uma verdade essencial, essencialmente humana: a aparência mais ou menos exótica pode mesmo corresponder à maior intensidade trágica. Assim acontece nessa comédia virada do avesso (quer dizer, francamente perturbante) que é Selvagem e Perigosa (1986), com Jeff Daniels e Melanie Griffith (com adequada pontuação do clássico Wild Thing, pelos ingleses The Troggs). Mesmo dois pares de pés, frente a frente, transcendem a ironia que os opõe — como se a ficção fosse, não uma descrição, mas um pacto de sangue.

A IMAGEM: Diane Arbus, c. 1970-1971

DIANE ARBUS
Sem título
c. 1970-1971

quinta-feira, abril 27, 2017

O prólogo do novo "Alien"

Continuam a surgir imagens do novo Alien: Covenant, de Ridley Scott. Agora, são cerca de dois minutos e meio, identificados como um "prólogo" em que reencontramos as personagens de Michael Fassbender (a narrar a situação) e Noomi Rapace — a estreia portuguesa está marcada para 18 de Maio.

5 fotogramas de Jonathan Demme [1]

Talvez que aquilo que distingue um cineasta de um mero "gravador" de imagens seja o entendimento do ecrã, não como uma janela de amostragem, antes uma tela de escrita. A fusão do trabalho pictórico com a elaboração narrativa define, afinal, a sua condição clássica de artesão. E pensamos em Hitchcock, claro. Neste caso, em O Último Abraço (1979), as referências ao mestre (Psico & etc.) eram assumidas, muito em particular, na composição de alguns fulgurantes grandes planos — o oleado das capas dos visitantes das cataratas do Niagara desenha com o rosto humano um ícone de depurada inquietação.

Jonathan Demme (1944 - 2017)

É um dos nomes maiores da história moderna do cinema americano: o realizador Jonathan Demme faleceu no dia 26 de Abril, em Nova Iorque, vitimado por um cancro no esófago — contava 73 anos.
Tal como Francis Ford Coppola ou Martin Scorsese, Demme começou a trabalhar sob a égide do produtor Roger Corman. Alguns títulos de pequena produção, como Crazy Mama (1975), versão paródica dos tradicionais filmes de gangsters, permitiram-lhe adquirir um know how que seria decisivo para a sua futura inserção máquina de produção de Hollywood. Tal inserção consolidou-se através de duas comédias mais ou menos negras que, além do mais, ilustram a sua capacidade de construir invulgares personagens femininas: Selvagem e Perigosa (1986) e Viúva... Mas Não Muito (1988), com Melanie Griffith e Michelle Pfeiffer, respectivamente.
A sua consagração ocorreria através de dois títulos que já pertencem ao mais universal imaginário cinéfilo: O Silêncio dos Inocentes: (1991), adaptação do romance de Thomas Harris com os prodigiosos Anthony Hopkins e e Jodie Foster, e Filadélfia (1993), obra pioneira na abordagem dos temas sociais e morais relacionados com a sida, centrada numa fabulosa composição de Tom Hanks.
Sempre ligado ao universo musical, tendo colaborado várias vezes com Neil Young, por exemplo em Heart of Gold (2006), é dele uma das referências nucleares na história dos "filmes-concertos": chama-se Stop Meaking Sense (1984) e evoca de modo exuberante três noites dos Talking Heads no Pantages Theater, em Nova Iorque.
Nas últimas duas décadas, o impacto comercial dos seus filmes foi diminuindo, mas não a sua criatividade e arrojo. Na fase final da sua filmografia encontramos, por exemplo, O Candidato da Verdade (2008), um extraordinário thriller político que adapta e actualiza a história de O Enviado da Manchúria (John Frankenheimer, 1962), ou O Casamento de Rachel (2008), brilhantíssima reinvenção das matrizes clássicas da comédia/drama familiar, com Anne Hathaway no melhor papel da sua carreira.
Ricki e os Flash (2015), com Meryl Streep, retrato terno e cruel de uma veterana cantora rock, ficaria como o derradeiro título de ficção de uma filmografia que nunca se fixou em qualquer género ou temática, afinal mantendo-se disponível para uma diversidade típica, justamente, da "série B" em que Demme se formou. Se a palavra artesão ainda pode ajudar a definir tal agilidade criativa, ele foi, nas últimas décadas da produção made in USA, um dos mais genuínos.

>>> Obituário no New York Times.

quarta-feira, abril 26, 2017

Jessica Chastain no Zoo (2/2)

Jessica Chastain protagoniza um drama da Segunda Guerra Mundial cujo cenário principal é o Jardim Zoológico de Varsóvia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (20 Abril), com o título 'Crianças e animais'.

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Numa entrevista a propósito do seu trabalho com animais em O Jardim da Esperança, Jessica Chastain arriscava um paralelismo artístico, dando conta do seu gosto em trabalhar com outros seres “difíceis” como são as crianças. Não era uma curiosidade mais ou menos pitoresca. Nem significava, muito menos, qualquer menosprezo pela exigência profissional de uma carreira, sendo ela, além do mais, uma das mais admiráveis actrizes reveladas nos últimos anos (desde que a descobrimos, em 2011, em Coriolano, uma ousada versão de Shakespeare, protagonizada e dirigida por Ralph Fiennes). Acontece que contracenar com crianças pode envolver a revelação de um desconcertante desprendimento face aos poderes de fixação da câmara.
Não falo, como é óbvio, dos mecanismos de tipificação que encontramos em linguagens muito poderosas (e estereotipadas) como são as telenovelas ou, de um modo geral, a publicidade — muitas vezes, temos mesmo a sensação que, em tais universos, as crianças só têm direito a ser figuradas como inevitavelmente patetas, desagradáveis e destruidoras ou, então, exibindo a complexidade de argumentação de uma tese universitária.
Falo antes de uma espécie de desprendimento físico e emocional que se pode manifestar face à câmara de filmar — aliás, em boa verdade, como se a câmara não estivesse lá. Não é um tema específico do cinema que está em jogo. No limite, trata-se mesmo de uma questão com fundas raízes sociais que envolve, em particular, a capacidade (ou a impotência) para figurar o mundo infantil e juvenil. Aquilo que Chastain evoca não é o carácter “ligeiro” das personagens de crianças, antes o facto de a sua identidade instável envolver um desafio radical à compreensão do próprio factor humano — lidar com isso, dentro ou fora dos filmes, nunca é simples.

Doença social [citação]

>>> Ninguém sabe o que eu sei e aquilo que vi. Só eu posso contar a minha história. Quem quer que o tente é um charlatão e um louco — procurando gratificação instantânea sem fazer o seu trabalho. Isto é uma doença da nossa sociedade.

MADONNA
[comentando o facto de existir
um projecto para um filme sobre a sua vida]

CANNES — o júri oficial

O Festival de Cannes anunciou a constituição do júri oficial que terá como missão principal atribuir a Palma de Ouro da sua edição nº 70 (17-28 Maio). Assim, o presidente Pedro Almodóvar (cujo nome já era conhecido) terá a companhia de quatro homens e quatro mulheres de várias áreas criativas e geográficas. Eis os nove magníficos:

Pedro ALMODÓVAR – presidente
(realizador, argumentista, produtor – Espanha)

Maren ADE (realizadora, argumentista, produtora – Alemanha)
Jessica CHASTAIN (actriz, produtora – EUA)
FAN Bingbing (actriz, produtora – China)
Agnès JAOUI (actriz, argumentista, realizadora – França)
PARK Chan-wook (realizador, argumentista, produtor – Coreia do Sul)
Will SMITH (actor, produtor, músico – EUA)
Paolo SORRENTINO (realizadora, argumentista – Itália)
Gabriel YARED (compositor – França)

terça-feira, abril 25, 2017

"So Sad" [canções]

GEORGE HARRISON
So Sad
Dark Horse (1974)


"Just Like a Woman" [canções]

BOB DYLAN / THE BAND
Just Like a Woman
Before the Flood (1974)


"Will You Love me Tomorrow?" [canções]

LINDA RONSTADT
Will You Love me Tomorrow?
Different Drum (1974)


Ella 100


Não faltam cognomes e grandes expressões para a referir sem ter sequer de mencionar o seu nome... First Lady of Song (ou seja, Primeira Dama da Canção) e Rainha do Jazz são dois dos mais comuns. Ella Fizgerald foi, de facto, uma das figuras maiores da história da música do século XX e é voz de absoluta referência no jazz.

Nascida em Newport News, na Virginia, a 25 de abril de 1917 e conhecendo depois um conturbado início de juventude, começou a viver bem cedo uma relação com a música ao cantar na igreja da sua congregação, numa altura em que os seus gostos começavam já a apontar para as figuras emergentes do jazz. Depois da morte da mãe a família mudou-se para Nova Iorque e aí começou por cantar na rua, estreando-se em palco em novembro de 1934 numa noite para cantores amadores no mítico Apollo Theatre. Na verdade ia apresentar-se com um número de dança (já que a ideia de ser bailarina estava entre os seus desejos), mas ao reparar noutras artistas que ali se iam mostrar optou antes por cantar. E ganhou o primeiro prémio: 25 dólares. E com ele ganhou também primeiros contratos, antes de começar a viver quilómetros de estradas, por várias cidades norte-americanas, acompanhando primeiro a Orquestra de Chick Webb e, ganhando maior visibilidade ainda ao atuar na mítica sala Savoy Ballroom (no Harlem, em Nova Iorque).

Depois de ter gravado cerca de 150 canções com a banda que fora rebatizada em 1939 como Ella and Her Famous Orchestra após a morte de Chick Webb, iniciou em 1942 uma carreira a solo que a começou por ligar à Decca, onde já antes gravara pela sua banda. Norman Granz, que produzia os espetáculos Jazz at The Philharmonic, tornou-se pouco depois o seu manager, acompanhando-a num tempo em que a mudança de rumos que a música tomava, perante o fim da era das big bands, caminhos que permitiram a Ella Fitzgerald ousar novos desafios e desenvolver a sua forma de cantar. E do esforço continuado dessa demanda surgiu a plena confirmação de um talento que, quando Granz fundou a editora Verve Records, a tomou como figura de proa do catálogo. E convenhamos que Ella respondeu a rigor, criando depois de 1955 alguns dos títulos maiores não só da sua discografia como da história do jazz vocal. Depois de 1963, após a venda da Verve à MGM e de problemas na renegociação do seu contrato, a obra de Ella Fitzgerald progrediu entre várias editoras como a Atlantic, Capitol e Reprise, até que em 1972 se reencontrou com Granz na Pablo Records, que ele então criou. Durante este percurso cantou ao lado de grandes nomes como os de Louis Armstrong, Oscar Peterson, Count Basie ou Duke Ellington.

Ao trabalho nos discos (e nos palcos) a obra de Ella Fitzgerald junta ainda incursões pelo cinema e pela televisão. Entre os papéis que desempenhou conta-se o de uma cantora de jazz em Pete Kelly’s Blues, de Jack Webb (1955) no qual contracenava com Janet Leigh e Peggy Lee. Sofrendo de diabetes há muitos anos, Ella Fitzgerald morreu em sua casa, em Beverly Hills, em 1996, com 79 anos. Os seus arquivos estão hoje integrados no National Museum of American History (da Smithsonian, em Washington, DC) e os originais dos arranjos das suas canções estão depositados na Biblioteca do Congresso. Os livros de culinária que tinham em casa (e parece que eram mesmo muitos) foram doados a uma das bibliotecas da Universidade de Harvard.

25 ABRIL — como nós éramos...

I. Poucas semanas antes do dia 25 de Abril de 1974, estreava-se em Lisboa, no cinema Mundial, o filme The Way We Were (1973), de Sydney Pollack, com Barbra Streisand e Robert Redford a viverem uma história de amor nos tempos do maccartismo.

II. A sessão da estreia (o hábito das ante-estreias não existia) foi atravessada por uma perturbação muito particular. A certa altura, na cena decisiva em que Streisand e Redford, sozinhos no cenário do refeitório da universidade, discutem o contexto político que estão a viver, as legendas começaram a faltar... Na prática, a comissão de censura tinha cortado a cena (por certo, por nela se falar de "vermelhos" e "conservadores"), mas alguém se esquecera de a suprimir na cópia para exibição: a cena não tinha sido legendada, mas as suas imagens (e sons!) continuavam . Durante a projecção e, depois, no final, a sala foi invadida por uma sensação de ambíguo silêncio, sensação de algum modo intensificada pelo facto de um dos convidados da sessão ser Ramiro Valadão, então presidente da RTP.

III. Lembro-me muitas vezes desta situação como sintomática de algumas vivências pré-25 de Abril. Talvez porque há nela qualquer coisa de anedótico que contraria a visão maniqueísta do "antes" e do "depois" com que, ainda hoje, tantas vezes, parecemos contentar-nos — e que, distraidamente ou não, passamos aos mais novos.

IV. Claro que há uma diferença essencial entre um tempo de censura instituída e um outro em que essa censura desaparece. Não é isso que está em causa. Como não está em causa que vivíamos uma época dilacerada, antes de tudo o mais, por uma Guerra Colonial que afectava tudo e todos, a começar pelos mais jovens que iam (ou podiam ser enviados) para os combates em África.

V. O que se regista é tão só o facto de uma simples projecção de um filme envolver uma dimensão social que, hoje em dia, a redução dessa mesma instância a fenómenos em "rede" parece ignorar. É errado descrever o Estado Novo — e, em particular, a chamada "primavera marcelista" em que ocorreu o episódio evocado — como uma paisagem de total negrume em que nada acontecia, a não ser um confronto entre o "poder" e o "povo"... Afinal, o tecido social era uma encruzilhada de muitos acontecimentos microscópicos que importa conhecer para além (ou aquém) de qualquer simplificação "ideológica" — a sessão do cinema Mundial, apesar dessa sua dimensão microscópica, constitui matéria reveladora de tal encruzilhada. Ou ainda: a ditadura em que vivíamos não pode ser reduzida a meia dúzia de clichés mediáticos, de "direita" e de "esquerda", com que hoje, por indiferença ou estúpido liberalismo, nos contentamos — como se diz no filme, é tudo mais complicado do que parece ou do que queremos acreditar.