domingo, dezembro 21, 2014

Strike a pose

Que é, hoje em dia, a relação de uma star com os seus admiradores? Já não, por certo, uma simples troca de imagens — antes a possibilidade de produção de novas imagens. Daí que valha a pena sublinhar dois factores desta colagem que Madonna publicou no seu Instagram, poucas horas depois de ter divulgado a capa do novo álbum, Rebel Heart. Em primeiro lugar, a transcendência do feminino, reinventando-se, maioritariamente, através de rostos de homens (sem faltar um  feliz representante da aristocracia canina); depois, o triunfo da pose (strike a pose) como um conceito em que teatralidade e revelação, artifício e transparência, se conjugam em metódica cumplicidade — express yourself não era, como se prova, uma mera frase retórica.

sábado, dezembro 20, 2014

Madonna, opus 13

Se não os podes vencer... Madonna encontrou a resposta mais básica, por certo também a mais sensata, para lidar com a recente divulgação de uma série de demos de canções para o seu 13º álbum de estúdio, ainda em fase de produção. Que é como quem diz: deu a conhecer o título desse novo registo — Rebel Heart —, disponibilizando seis das suas canções no iTunes e outras lojas digitais. Mais canções surgirão a 9 de Fevereiro, estando o lançamento de Rebel Heart previsto para a primeira semana de Março.
A fotografia da capa, assinada por Mert Alas & Marcus Piggott, entra directamente na galeria das imagens iconográficas de Madonna: talvez uma figura aprisionada, talvez uma pontuação humana numa rede virtual cuja dimensão nos escapa — em qualquer caso, ainda e sempre, um jogo calculado entre a exposição e a ocultação, a máscara e a revelação. E se é verdade que encontramos, aqui, mais uma derivação sobre a herança visual de Marilyn Monroe, não é menos verdade que, como sempre, Madonna refaz também o seu próprio património imagético. Ou seja: a sua pose revisita, com evidente desencanto, o look do teledisco de Live to Tell, dirigido por James Foley, há cerca de 29 anos — as fotos da respectiva sessão [como esta, em reprodução a preto e branco] têm assinatura de Herb Ritts.

Revelados os pré-nomeados ao Oscar
para Melhor Filme em Língua Estrangeira


Esta noite foi divulgada a lista dos nove filmes dos quais serão escolhidos os cinco que serão assim oficialmente nomeados para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. A lista é esta:

Argentina, "Wild Tales," de Damián Szifrón
Estónia, "Tangerines," de Zaza Urushadze
Georgia, "Corn Island," de George Ovashvili
Holanda, "Accused," de Paula van der Oest
Mauritânia, "Timbuktu," de Abderrahmane Sissako 
Poland, "Ida," de Paweł Pawlikowski
Russia, "Leviathan," de Andrey Zvyagintsev
Sweden, "Force Majeure," de Ruben Östlund
Venezuela, "The Liberator," de Alberto Arvelo

Na cerimónia deste ano sagrou-se vencedor A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, que representou a 14ª vez que a estatueta foi parar a uma mão italiana nesta categoria.

A submissão portuguesa a esta categoria foi feita com o filme E Agora?... Lembra-me, de Joaquim Pinto. Entre os títulos já exibidos entre nós (em festivais ou em estreia comercial) e que ficaram também fora da short list agora anunciada conta-se Três dias duas noites, dos irmãos Dardenne (Bélgica), Hoje eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro (Brasil), Mommy, de Xavier Dolan (Canadá), Saint Laurent, de Bertrand Bonello (França) e Sono de Inverno, de Nuri Bilge Ceylan (Turquia).

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Madonna (i)legal

O lugar-comum mais vicioso em torno de Madonna é o da sua (suposta) exposição total... A criadora de Like a Virgin já teria dito tudo, feito tudo, mostrado tudo... Semelhante via de discussão é, obviamente, um disparate — para ela ou para qualquer criador de formas e narrativas, entenda-se. Em todo o caso, acontecimentos recentes na Net geraram um efeito paradoxal e perverso. Primeiro, foi o aparecimento de imagens não aproveitadas (outtakes) de determinadas sessões fotográficas (como aquela que aqui se reproduz); depois, a divulgação de 13 temas daquele que será o seu próximo álbum de originais...

> FOTOS — Não cedamos à hipocrisia purista: é óbvio que há muitas outtakes que, além do seu fascínio iconográfico, podem constituir-se como matéria histórica essencial — afinal de contas, o admirável livro de Bert Stern sobre a sua derradeira sessão com Marilyn Monroe (The Last Sitting, 1982), o que é a não ser uma espantosa colecção de outtakes? Justamente, o que está em causa não são as imagens em si, mas a responsabilidade da sua difusão: há uma diferença decisiva, de discurso e também de legalidade, entre a divulgação selectiva feita pelos que estão implicados no processo criativo e a amostragem arbitrária dos que apenas pretendem sustentar um marketing mais ou menos voyeur. Não por acaso, Madonna considerou que faziam sentido apelar aos que respeitam o seu trabalho: "Peço aos meus verdadeiros fãs e apoiantes, que me respeitam como artista e ser humano, que não se envolvam com a compra, troca ou postagem de imagens e músicas não publicadas."

> CANÇÕES — Segundo Madonna, as "canções" divulgadas são demos de uma primeira fase de produção do novo álbum. Em todo o caso, a questão fulcral não é a da maior ou menor acuidade do material posto a circular na Net — trata-se, também aqui, de definir as fronteiras de uma privacidade a que qualquer criador tem direito, seja Madonna ou o mais remoto cantor do mais esotérico domínio da mais desconhecida "world music". Daí as palavras panfletárias por ela usadas no Instagram: "Obrigado por não escutarem! Obrigado pela vossa lealdade!"

Benfica - Braga em tempo real

Abençoada inocência... No mesmo país em que é chique proclamar-se que os filmes de Manoel de Oliveira são feitos de intermináveis planos de 10 minutos, mesmo nunca os tendo visto (por vezes, fazendo gala da recusa de os ver), há maneiras de fazer televisão em que nos surgem planos de 45 minutos como este: duas almas sofridas, encurraladas num pequenino e desconfortável rectângulo digital, narram (?) um jogo de futebol...
O exemplo é da Benfica TV, mas já vimos o mesmo acontecer na Sporting TV. Pouco importa a origem — só mesmo por cego fanatismo se poderá pensar que é uma questão clubista que está em jogo. Trata-se, isso sim, de observar o esvaziamento de práticas & ideias a que chegaram alguns espaços televisivos, reduzindo um maravilhoso instrumento de trabalho e comunicação a um jogo pueril, involuntariamente caricato, de exploração desse mito absurdo do tempo real... Se o tempo real é isto, façam um esforço, dêem-nos algum irrealismo.

As canções de 2014:
Angel Olsen, Hi-Five



Um dos grandes discos do ano, o álbum que, depois de algumas edições menos visíveis, nos apresentou Angel Olsen, é um marco na história de 2014. Esta canção foi uma das primeiras que apresentámos no Sound + Vision este ano. Quase doze meses depois ainda tem o sabor daquelas coisas que entusiasmam. É nome para continuar a acompanhar!

As imagens de 2014:
O regresso ao palco de Kate Bush


Dificilmente haveria competição à altura... Após longos anos de ausência, Kate Bush regressou ao palco com um espetáculo que, diz quem viu, é daquelas coisas que nunca se esquece. Before The Dawn, não corresponde ao modelo da digressão, mas a uma residência fixa numa mesma sala durante uma série de noites. E como num espetáculo de ópera, com principio, meio e fim (por esta ordem), a música e cenografia aliando-se assim a uma narrativa. Agora é esperar pelo registo do que ali aconteceu, para que os muitos que não passaram por Londres possam partilhar (mesmo à distância) a experiência.

Podem recordar aqui o que o João Moço nos contou depois de lá ter estado.

2014 segundo Vitor Belanciano

Em tempo de balanço do ano, estamos a apresentar algumas listas pessoais. E hoje apresentamos os discos e escolhidos pelo Vitor Belanciano, jornalista do Público. Ao Vítor um muito obrigado pela colaboração.

O meu 2014 à volta da música.

Gosto das manhãs. Agrada-me acordar e ouvir de imediato uma canção. Por norma repetem-se durante muito tempo. Das que ouvi mais este ano nessas condições constam “Blue” de Beyoncé e “Saber amar” de Adanowsky – retirada do álbum “Amador” que me tem acompanhado muito nos últimos dois ou três anos. É o meu disco preferido para o chuveiro, embora este ano também me tenha acontecido pôr a rodar “Cavalo” de Rodrigo Amarante de fio a pavio.

Mas o álbum que mais ouvi este ano foi provavelmente “How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowledge” de Bruno Pernadas. Mal o João Paulo Feliciano mo deu a ouvir, ainda em 2013, fiquei de imediato rendido. Depois constatei o crescimento para o formato ao vivo, assistindo a um ensaio e a dois concertos – no Maria Matos e em Viseu – e confirmei que é realmente música preciosa.

Foi um bom ano para a música que se vai fazendo aqui. Embora ainda não se perceba se existe emancipação ou simples reacção defensiva a um contexto exterior que nos parece inatingível ou confuso. Até do ponto de vista do som isso se sente: somos melhor a exprimir desamparo, zanga ou catarse, mas temos dificuldade na construção generosa que não espera nada em troca. Não só por isso, mas também por isso, soube bem ver o êxito de Capícua ou a actividade da Príncipe e a forma como Marfox ou Nigga Fox foi conquistando o seu lugar.

No Verão, enquanto percorri o país de lés a lés, ouvi imenso a canção “Can’t do without you“ de Caribou, e durante o ano vi muitos concertos, claro. Depende de tanta coisa. Do lugar e das pessoas com que estamos, por exemplo. Vi Nils Frahm no Sónar de Barcelona e gostei. Mas na igreja de Viseu, durante os Jardins Efémeros, foi uma das experiencias mais gratificantes que vivi este ano.

No início do ano encontrei-me com General D em Londres. Uns meses depois ele estava em Lisboa a apresentar-se ao vivo, depois de muitos anos ausente. Foi emocionante.

Nas minhas deambulações de fim de semana para fora de Lisboa provavelmente o álbum que mais rodou foi “Atlas“ dos Real Estate, música descomprometida, solta e jovial, e onde me revejo mais, na forma como se conjugam o familiar e aquilo que ainda não tem nome, foi em FKA Twigs, Shabazz Palaces e Arca.

Em tempo de hostilidades vale a pena entrar num casulo silencioso chamado “Ruins” de Grouper e para enviar rosas aos falsos amigos – muito piores que os inimigos – vale a pena embrulhá-las em Iceage. Gostava de ter queimado energia num concerto rock, mas para pena minha foi raro. Valeu-me a pista de dança. Daniel Avery, por exemplo, no Lux, em Março. Ou Jon Hopkins em Barcelona.

Nos últimos anos, de ano para ano, lá vou ouvindo que a música está cada vez mais irrelevante, que já não tem a faculdade de mudar a vida de ninguém quanto mais do mundo, e lá vou constatando que ela lá me vai salvando a vida.

1. FKA Twigs – LP1
2. Bruno Pernadas – How Can We Be Joyful…
3. Grouper – Ruins
4. Shabazz Palaces – Lese Majesty
5. Perfume Genius – Too Bright
6. Flying Lotus – You’re Dead
7. Real Estates – Atlas
8. Arca – Xen
9. Adult Jazz – Gist Is
10. Todd Terje – It’s Album Time
11. Aphew Twin – Syro
12. Caribou – Our Love
13. Iceage – Plowing Into The Field Of Love
14. Wildbirds & Peacedrums – Rhythm
15. Rodrigo Amarante – Cavalo

Virna Lisi (1936 - 2014)

Foi um dos símbolos femininos do cinema italiano das décadas de 1950/60: Virna Lisi faleceu em Roma, a 18 de Dezembro, vítima de cancro — contava 78 anos.
Títulos como A Mulher de Quem se Fala (1957), de Francesco Maselli, ou Gigantes de Roma (1961), de Sergio Corbucci, popularizaram a sua figura, abrindo-lhe caminho para outros contextos de produção. Em língua inglesa, fez, por exemplo, Eva (1962), sob a direcção de Joseph Losey, começando depois a surgir em produções americanas, como Como Matar a Sua Mulher (1965), de Richard Quine, e Assalto ao Queen Mary (1966), de Jack Donohue, contracenando, respectivamente, com Jack Lemmon e Frank Sinatra. Algum descontentamento com uma certa tipificação de "loura fatal" levou-a a regressar à produção europeia, acabando por consolidar a sua carreira como uma das mais populares actrizes italianas. Recebeu um primeiro prémio David Di Donatello, de melhor actriz, com Duas Mulheres, o Mesmo Destino (1980), de Alberto Lattuada; viria ainda a ser distinguida, na categoria de actriz secundária, com Febre Louca dos Anos 60 (1983), de Carlo Vanzina. Em 1984, o papel de Catarina de Médicis em A Rainha Margot, de Patrice Chéreau, valeu-lhe o prémio de interpretação feminina no Festival de Cannes [trailer]. Latin Lover, uma realização de Cristina Comencini ainda por estrear, foi o seu derradeiro filme.


>>> Obituário no Variety.

Redescobrindo Manoel de Oliveira (1/3)

Douro, Faina Fluvial
A estreia de O Velho do Restelo, de Manoel de Oliveira, surgiu acompanhada de três outras curtas-metragens emblemáticas da evolução do seu autor: um programa notável para redescobrir Oliveira comemorando os seus 106 anos — este texto integrava um dossier sobre os quatro filmes, publicado no Diário de Notícias (9 Dezembro).

* DOURO, FAINA FLUVIAL (1931) – Nascido em 1908, no Porto, Manoel de Oliveira chegou a ambicionar seguir uma carreira de actor. O certo é que, com este documentário sobre a vida ribeirinha do Douro, fortemente influenciado por Berlim – A Sinfonia de uma Capital (Walter Ruttman, 1927), afirmou-se como um realizador de espírito inovador e experimental, sensível às potencialidades da montagem cinematográfica. A cópia a exibir será a versão refeita por Oliveira em 1994, com música de Emmanuel Nunes.

* O PINTOR E A CIDADE (1956) – Sempre interessado nas técnicas do cinema e, em particular, na evolução das películas a cores, Oliveira foi à Alemanha, em 1955, para tirar um curso na Agfa. Com uma câmara própria, assumindo ele próprio as funções de director de fotografia, filmou e montou esta deambulação pelos cenários do Porto, tendo como ponto de partida o trabalho do aguarelista António Cruz (1907-1983). Foi o primeiro título do realizador presente num grande festival internacional (Veneza).

Painéis de São Vicente de Fora - Visão Poética
* PAINÉIS DE SÃO VICENTE DE FORA – VISÃO POÉTICA (2010) – Obra-prima da pintura portuguesa do séc. XV, conservada no Museu Nacional de Arte Antiga, os painéis atribuídos a Nuno Gonçalves são filmados por Oliveira numa espécie de encarnação surreal, com Ricardo Trêpa e Diogo Dória a assumirem, respectivamente, as figuras de São Vicente e do Infante D. Henrique — tudo se passa como se o cinema fosse uma via de comunicação, não apenas com os factos históricos, mas também com os seus fantasmas.

* O VELHO DO RESTELO (2014) – Luís de Camões, Camilo Castelo Branco, Teixeira de Pascoaes e Dom Quixote dialogam no espaço acolhedor de um jardim dos nossos dias — ouvimos mesmo, à sua volta, os ruídos característicos da cidade, como se participássemos numa prodigiosa viagem no tempo de que o cinema é, de uma só vez, a causa e o efeito, a razão e o delírio. Oliveira relança, assim, o mais visceral drama português: somos senhores da nossa vontade ou peões de um destino que não controlamos?

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Simão Costa, piano & etc.

O título, convenhamos, envolve um misto de sedução e resistência. Ora tomem nota, por favor: π_ANO PRE.CAU.TION PER.CU.SSION ON SHORT CIRCUIT.
Entramos num país de língua desconhecida. Ou melhor, em que sentimos a língua em processo de laboriosa e íntima fabricação: Simão Costa trata o piano como um objecto não necessariamente "pianístico", vogando numa paisagem que John Cage, et pour cause, ajudou a povoar — ou a despovoar, o que vem a dar no mesmo. O resultado faz-nos sentir as mãos do músico, tanto quanto as entranhas de computadores cúmplices da criação de harmonias agrestes e, se a palavra não ofender, paradoxalmente líricas. Aqui ficam cerca de oito minutos de um álbum fascinante, monumental, metafísico e visceral, não necessariamente por esta ordem.

As canções de 2014:
Museum of Love, The Who's Who of Who Cares



O projeto Museum of Love, que junta em duo Pat Mahoney (antigo baterista dos LCD Soundsystem) e Dennis McNany (que podemos associar ao coletivo que se apresenta sob o nome The Juan McLean) apresenta um álbum que traduz em pleno toda a alma (e já uma herança) da DFA Records e ao mesmo tempo levou os dois músicos a encontrar de um caminho num vasto terreno em que partilham gostos e entusiasmos. Aqui fica um dos temas do seu álbum editado este ano.

As imagens de 2014:
O último "regresso" dos Monty Python


Uma residência no início do verão o espaço da O2 Arena (em Londres), depois de uma conferência de imprensa muito mediatizada ainda em 2013, devolveu os Monty Python aos palcos por uma última vez. Até nós Monty Python Live (mostly) chegou através de transmissão em direto para salas de cinema e, agora, é a vez do DVD deixar a história fixada. Fica contudo a memória de um fim belo fim de vida para um dos mais importantes nomes (e escola) da história do humor.

Podem ler aqui o que escrevemos por alturas do último espetáculo desta série.

2014 segundo Carlos Conceição

Em tempo de balanço do ano, estamos a apresentar algumas listas pessoais. E hoje apresentamos os discos e escolhidos pelo Carlos Conceição, realizador de cinema cuja obra é exibida esta sábado na Cinemathéque Française, em Paris. Ao Carlos um muito obrigado pela colaboração.

1. Mercuriales (Virgil Vernier) 
2. As Maravilhas (Alice Rohrwacher) 
3. Jauja (Lisandro Alonso) 
4. The Tribe (Miroslav Slaboshpitsky) 
5. Les Fleuves M'ont Laisée Descendrte où je Voulais (Laurie Lassalle) 
6. Maps To The Stars (David Cronenberg) 
7. Stop the Pounding Heart (Roberto Menervini) 
8. Maïdan (Sergei Loznitsa)

Recomendados: 
-La Princesa de Francia (Matías Piñero) 
-Ford Buchanan (Benjamin Crotty)

Ansioso por ver: 
-Un Jeune Poète (Damien Manivel)

LIVROS, entre muitos, mas numa nota mais cinemográfica: 
- Brainquake: The Lost Novel - Samuel Fuller

MÚSICA:

1. THE SILVER GLOBE - Jane Weavere 
2. SUE (or IN A SEASON OF CRIME)/'TIS A PITY SHE WAS A WHORE - David Bowie 
3. SPRING - Teho Teardo, Blixa Bargeld 
4. SOUSED - Scott Walker, Sun O))) 
5. ONLY LOVERS LEFT ALIVE ost - Vários 
6. TRUE LOVE KILLS THE FAIRYTALE - The Casket Girls 
7. MORNING PHASE - Beck

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Pedro Costa redescobre Jacob Riis (3/3)

O novo e prodigioso filme de Pedro Costa, Cavalo Dinheiro, abre com uma fascinante pontuação, visual e simbólica, através de algumas fotografias de Jacob Riis — este texto foi publicado no Diário de Notícias (5 Dezembro), com o título 'Fotos de Jacob Riis redescobertas no novo filme de Pedro Costa'.

[ 1 ]  [ 2 ]

Portugal. Um momento da rodagem de Cavalo Dinheiro [foto: Marta Mateus] — no cenário assombrado de um elevador, Ventura confronta-se e confronta-nos com factos e fantasmas da nossa história: o cinema de Pedro Costa começa no bairro das Fontainhas e projecta-se num universo imenso, quase surreal.

As canções de 2014:
Perfume Genius, Queen



O single que nos apresentou o álbum Too Bright deixava logo claro que algo tinha mudado. A memória do cantor tímido, de olho esmurrado (nas fotos promocionais, claro) de há alguns anos - não muitos - dava lugar a um olhar desafiante. E com uma canção a sublinhar a mudança. Queen não só é uma das canções do ano como abriu a porta à confirmação de que em Mike Hadreas temos um dos grandes escritores de canções do nosso tempo.

As imagens de 2014:
'Uivo', ou a memória de António Sérgio


Cinco anos depois de nos ter deixado, António Sérgio (a figura, a obra e o legado que deixou) teve retrato em Uivo, filme de Edu Matracas que juntou imagens e depoimentos de muitos que com ele trabalharam ou com ele muito aprenderam para contar a história de uma das figuras de referência da rádio e da história da divulgação musical em Portugal.

Em sessões itinerantes o filme tem andado pelo país. Ao mesmo tempo foi lançado um livro, que fixa essas e outras memórias, trazendo o DVD com o filme como extra. Coisas para não esquecer. E lembrar "em alto e bom som", como ele mesmo nos dizia nos tempos do Som da Frente.

2014 segundo Jorge Lopes

Em tempo de balanço do ano, estamos a apresentar algumas listas pessoais. E hoje apresentamos os discos e escolhidos pelo Jorge Lopes, jornalista da Time Out. Ao Jorge um muito obrigado pela colaboração.

2014 teve bastantes álbuns afáveis mas deu uma certa razão ao crescente coro grego que questiona o predomínio narrativo do objecto-conjunto-de-canções quando as narrativas parecem tão forçadas e a ideia de objecto musical é apresentada como uma coisa tão obsoleta que nem parece que ainda se vendem aos (razoáveis) milhões. (E quase nem tinha valido a pena falar do vinil: nunca tão poucas rodelas de plástico comercializadas a preços das Arábias foram tão festejadas pela elite saudosista.) Em todo o caso, e globalmente, o coro grego tem razão. Foi fácil chegar a este top 10, mesmo que, no momento em que se escrevem estas linhas, falte conhecer Pink Print de Nicki Minaj, a sair em Dezembro (sim, a produção Dezembro também conta para os balanços de 2014). Tal como em 2013, um top 10 liderado por um registo country de uma mulher (Miranda Lambert). Os restantes nove estão ordenados alfabeticamente. Country, electrónica dançável (de preferência com house à vista), pop fora do sufoco anglo-americano, r&b, soul, hip-hop. A música conversa melhor, e conversa-se melhor com a música, quando ela fala para fora e não para dentro.

Platinum - Miranda Lambert
11 11 - 11 11
Loco de Amor - Juanes
Anybody Wanna Buy a Heart? - K. Michelle
The Way I'm Livin' - Lee Ann Womack
Me, I Am Mariah... The Elusive Chanteuse - Mariah Carey
1989 - Taylor Swift
Aquarius - Tinashe
Love, Marriage & Divorce - Toni Braxton & Babyface
My Krazy Life - YG

Phil Stern (1919 - 2014)

FOTO: Patch.com (a partir do YouTube)
Celebrizado pelos seus retratos de John F. Kennedy e de algumas grandes estrelas de Hollywood, o fotógrafo americano Phil Stern faleceu no dia 13 de Dezembro, em Los Angeles — contava 95 anos.
Mesmo as imagens mais icónicas de Stern — incluindo James Dean com o rosto tapado por uma camisola ou Marilyn Monroe, com ar desamparado, numa festa de caridade — conservam um sentimento de proximidade e espontaneidade que talvez não possa ser desligado da sua experiência como fotógrafo da Segunda Guerra Mundial. Ele foi, afinal, um "repórter" do glamour, de alguma maneira reflectindo o espírito de uma América ao mesmo de transformações liberais e perenidade mitológica, tão exemplarmente fixada na sua visão de Kennedy, em particular do dia da tomada de posse como Presidente dos EUA (20 Jan. 1961). Foi também fotógrafo de cena em filmes como Eles e Elas (Joseph L. Mankiewicz, 1955) e Encontros Imediatos do Terceiro Grau (Steven Spielberg, 1977), tendo assinado muitos portfolios para as revistas Life, Look e Vanity Fair. Publicou a autobiografia Phil Stern: A Life’s Work em 2003.
>>> Obituário no New York Times.

terça-feira, dezembro 16, 2014

As canções de 2014:
Owen Pallett, Song for Five and Six



Entrados na reta final do ano começamos hoje a revisitar alguns dos momentos que fizeram a história destes doze meses. Entre as grandes canções que ajudaram a escrever a banda sonora de 2014 conta-se este Song For Five and Six, de Owen Pallett, tema incluído no álbum que lançou este ano. Fica aqui a canção. E as imagens do teledisco que a acompanhou.

As imagens de 2014:
O trailer de 'Star Wars VII'


Oitenta segundos que acabam por integrar a história do que o cinema nos deu a ver em 2014. É certo que o filme só chega daqui a um ano, mas o (muito aguardado) primeiro trailer - na verdade é um teaser - do filme que reativará a saga Star Wars não só teve o impacte esperado, como gerou uma série de reflexões (e deduções) sobre o que em 2015 poderemos ver no grande ecrã. Sendo certo que um trailer não é um filme e uma dedução não é mais que isso, dos segundos de imagens que vimos podemos esperar que o filme realizado por J.J. Abrams esteja não só mais próximo da economia de elementos cénicos da trilogia original (não confundir com as versões afogadas em efeitos que infelizmente ganharam peso de cânone e são as que têm vida em suporte Blu-ray), como recupera elementos da mitologia Star Wars (do Millenium Falcon ao que parece ser a aparente presença do planeta-casa de Luke Skywaker, sem esquecer os X-Wing e TIE fighters da praxe). Além disso, o (muito discutido) light sabre (ok, sabre de luz) em forma de cruz deixa claro que J.J. Abrams não trata a memória Star Wars como santos de altar, pelo que podemos estar preparados para esta e outras novidades... Parece que vai valer a pena esperar pelo que aí possa vir.

PS. Podemos lembrar que em Super 8 J.J. Abrams apresentou um dos mais interessantes filmes de aventuras dos últimos anos e que, nos dois episódios de Star Trek que assinou mostrou como sabe dar nova vida a um velho frachise. "Preconceito" favorável por aqui, confesso.

2014 segundo Mário Rui Vieira

É já uma "tradição" do Sound + Vision este gosto em escutar as opiniões dos outros. E em tempo de balanço do ano, vamos apresentar algumas listas pessoais. Começamos hoje com os discos e filmes escolhidos pelo Mário Rui Vieira, jornalista da revista Blitz. Ao Mário um muito obrigado pela colaboração.

2014 foi, quanto a mim, um ano de revelações e de confirmação de certezas. FKA Twigs, Glass Animals e Future Islands - estes últimos apesar de já por aí andarem há uns anos só agora rebentaram nos meus ouvidos - do lado das revelações; Perfume Genius a surpreender sempre, Wild Beasts a assinar novamente um disco imaculado e Owen Pallett a conseguir finalmente conquistar-me sem reservas, do lado das confirmações. Em termos nacionais, o ano foi da Capicua (excelente álbum, concertos em todos os festivais e capelinhas) e dos Capitão Fausto, com os Dead Combo, os PAUS e os You Can’t Win, Charlie Brown a voltarem com ótimos discos também. Esperei bem até ao final do ano para assistir àquele que me deixava com maiores expectativas e não só não fiquei desiludido como conseguiu suplantá-las: Perfume Genius tem o meu álbum do ano e protagonizou o meu concerto do ano, no Vodafone Mexefest. No palco do Rock in Rio-Lisboa, Lorde apanhou-me completamente desprevenido (a banda sonora do filme de uma saga que nunca acompanhei, curada por ela, é, também, uma das surpresas deste final de ano); os Wild Beasts no palco secundário da Bela Vista provaram que se sentem em casa seja onde for, tenham quantas pessoas tiverem à frente. Beyoncé na Meo Arena, Foals no Super Bock Super Rock e Sam Smith e Interpol no Nos Alive foram outras das atuações que me encheram as medidas. Uma última referência para Chandelier, de Sia, que é, quanto a mim, a canção de 2014 (e tem também o melhor vídeo de 2014).


Os discos

1. Perfume Genius – Too Bright
2. Wild Beasts – Present Tense
3. Owen Pallett – In Conflict
4. FKA Twigs - LP15. Future Islands – Singles
6. Capicua – Sereia Louca
7. Glass Animals – Zaba
8. Sia – 1000 Forms of Fear
9. The Antlers - Familiars
10. Neneh Cherry – Blank Project


Os filmes 

1. Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson
2. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro
3. Boyhood, de Richard Linklater
4. Em Parte Incerta, de David Fincher
5. Um Coração Normal, de Ryan Murphy
6. Só os Amantes Sobrevivem, de Jim Jarmusch
7. O Filme Lego, de Phil Lord e Christopher Miller
8. Interstellar, de Christopher Nolan

segunda-feira, dezembro 15, 2014

Ver + ouvir:
Panda Bear, Boys Latin



Um segundo teledisco para um tema do novo álbum de Panda Bear, que será editado, em inícios de 2015. Ficam aqui as imagens. E mais um aperitivo para um belíssimo álbum. O teledisco é realizado por Isaiah Saxon e Sean Hellfritsch da equipa Encyclopedia Pictura.

Novas edições:
The Dø

“Shake Shook Shaken”
Get Down
( 4 / 5 )

Entre a Finlândia e a França, depois de um encontro há alguns anos por ocasião de um trabalho de gravação de música para cinema, assim se tem feito a carreira da dupla The dø. Desde então Olivia Merilahti e Dan Levy têm mantido um espaço de trabalho conjunto, tendo pelo caminho assinado uma discografia que acolhe agora um terceiro álbum de estúdio. Trabalhado, como é o método habitual entre os dois, com pontos de partida encontrados em ideias talhadas e registadas em separado, mais tarde cada um confrontando o outro com as respetivas sugestões e, daí em frente, caminhando em par até ao disco final, Shake Shook Shaken traz de novo, sobretudo, não apenas uma maior arrumação das ideias, como uma focagem de rumos no sentido de procurar um caminho próprio no muito fértil terreno da pop electrónica. Houve já quem tecesse comparações a soluções que evocam os primeiros álbuns dos (suecos) The Knife, assim como a La Roux (e eu aqui acrescentaria um afinar do ângulo ao que ouvimos no seu disco de estreia). Convenhamos que são azimutes que em tudo fazem sentido perante a cativante coleção de 12 canções que fazem do terceiro álbum dos The Dø um disco com potencial para os colocar num patamar de maior visibilidade, sem que para tal tenham tido de comprometer a personalidade da identidade que os trouxera até aqui. Há um evidente investimento na composição de melodias simples, assim como um cuidado claro numa clara disposição dos elementos cénicos em jogo. Explorando em alguns momentos uma relação com linguagens herdadas e assimiladas de ensinamentos colhidos na música de dança, o disco vinca contudo uma vontade em afirmar a procura de um lugar no mapa pop atual, evidenciando canções A Mess Like This ou Lick My Wounds um desencanto que é tempero que molda sob alguma melancolia o clima dominante, mesmo em instantes eventualmente mais efusivos. E é nesse caminho, entre almas doridas e as cores de electrónicas aparentemente luminosas, que Shake Shook Shaken se revela como uma das boas surpresas que a pop electrónica deu a 2014.

Amanhã há Sound + Vision Magazine
pelas 18.30 na Fnac Chiado


Amanhã a Fnac Chiado recebe mais uma edição do Sound + Vision Magazine. Desta vez vamos passar em revista alguns momentos que fizeram a história de 2014, alguns deles tendo estado sob o foco das atenções, outros tendo passado mais longe desses patamares de mais intenso mediatismo.

Além do ano em revista, esta edição vai contar com a presença de Leonor Losa, autora do livro 'Machinas Fallantes: A Música Gravada em Portugal no Início do Século XX' (ed. Tinta da China), que conversará com os autores deste blogue sobre o livro e estas memórias mais antigas da história da música gravada entre nós.