Quinta-feira, Maio 23, 2013

Cannes por telemóvel (10)


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Podia ser uma foto cujo tema central fosse a montra sempre hiper-cuidada da loja Chanel, frente ao Palácio dos Festivais — de manhã, cerca das oito horas (a primeira sessão de imprensa começa às 08h30), há sempre um empregado a limpar os vidros e o passeio. Mas não. Nem sequer se trata de dar conta da proliferação de cartazes do certame por toda a cidade. O tema da imagem são mesmo as cadeiras. E os escadotes! Estão ali desde o primeiro ao último do festival, cada uma delas, cada um deles com um proprietário claramente identificado. Servem para observar a chegada das vedetas, em especial para as sessões de gala das 19h30. Há quem passe horas à espera para desfrutar durante alguns segundos da proximidade de Leonardo DiCaprio ou Sharon Stone, eventualmente conseguindo um autógrafo... Subtítulo: a cinefilia não é uma doença mental.

Quarta-feira, Maio 22, 2013

Cannes 2013: perfil


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Já não há personagens assim... Não, não é nostalgia. Onde está o super-herói que se cole à pele de um actor, a ponto de entre personagem e intérprete mais não existir do que um ténue fio simbólico a separar a "vida" e o "cinema"? Agora, quando o Homem-Aranha muda da actor, o que se passa é pouco mais (ou pouco menos) que uma mudança de guarda-roupa. Cleópatra não: a rainha do Egipto era Elizabeth Taylor, não apenas pelo artifício de ser, mas porque, na idealização mitológica do cinema, Taylor tinha perfil, et pour cause..., para poder reinar sobre qualquer reino real ou imaginário. Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, perfaz este ano meio século de existência e a sua cópia restaurada é a pérola mais preciosa da edição de 'Cannes Classics'.

Regressam ela e ele

Foi a própria Zooey Deschanel quem dirigiu o teledisco que apresenta o Volume 3 do projeto She & Him, que a cantora e atriz divide com M, Ward. Aqui ficam as imagens que acompanham o novo I Could've Been Your Girl

Novas edições:
Vários Artistas,
Music From Baz Luhrman's Film
The Great Gatsby

Vários artistas 
“Music From Baz Luhrman's The Great Gatsby” 
Interscope / Universal 
3 / 5

O melhor do cinema de Baz Luhrman muitas vezes tem morado em torno da música e da forma como se relaciona com as imagens. A sua adaptação ao grande ecrã não é exceção, o disco com a banda sonora sendo inclusivamente uma experiência mais compensadora que o filme que, mesmo pontuado por alguns bons momentos e ideias (e por uma soberba interpretação de Leonardo diCaprio), acaba tantas vezes afogado nos excessos barrocos que não são novidade no realizador australiano. The Great Gatsby não é, como o foram Strictly Ballroom ou Moulin Rouge, filmes onde a música desempenha um papel central na própria narrativa. Aqui, tal como em Romeo + Juliet (a cuja adaptação o texto de Shakespeare sobrevive todavia melhor que o de Scott Fitzgerald), em The Great Gatsby a música poucas vezes tem uma presença motriz junto da narrativa, servindo mais como elemento algo “decorativo” que por vezes quase se perde entre o volume de formas, cores e ideias que vão cruzando o ecrã. Convenhamos que o disco permite assim uma experiência mais “focada”... E da sua audição rapidamente reconhecemos que estamos perante mais uma expressão de uma mesma forma de trabalhar a construção de uma banda sonora como as que encontrámos entre Strictly Ballroom, Romeo + Juliet e Moulin Rouge. Ou seja, uma reunião de peças inéditas e versões, procurando nos arranjos (sobretudo nas versões) vincar marcas de identidade do tempo ou dos ambientes em que decorre a acção. Com os anos 20 do século XX por cenário, os dias loucos do charlston e ecos das primeiras expressões do jazz habitam entre uma mão cheia de momentos, como aquele em que Bryan Ferry revisita Love Is The Drug sob marcas de época ou Emeli Sandé faz o mesmo em relação a Crazy In Love de Beyoncé, em ambos os casos com ajuda da Bryan Ferry Orchestra. Há pontes entre estes tempos e a pop do presente numa colaboração entre Fergie, Q-Tip e GoonRock, o vincar deste mesmo sentido de contemporaneidade habitando a contribuição de Wiil.i.am em Bang Bang (que serve de banda sonora a luxuriante cena de festa na mansão de Gatsby). O melhor da banda sonora está em novas canções de Lana del Rey e Sia, assim como na belíssima versão de Love Is Blindness (dos U2) por Jack White ou na assinatura de Jay Z produtor executivo do disco, na faixa que abre o alinhamento. Há momentos dispensáveis por parte dos sobrevalorizados The XX, da cansativa Florence & the Machine e do insosso Gotye. Apesar dos bons momentos, e mesmo melhor que o filme, a soma não entusiasma por aí além...

Nos 200 anos de Richard Wagner (2)

Passam hoje 200 anos sobre o dia em que, numa rua comercial de Leipzig, nascia Richard Wagner. Assinalamos a data esta semana no Sound + Vision. E depois de ontem aqui termos apresentado a edição em Blu-ray de uma nova tetralogia do Anel do Nibelungo com encenação de Robert Lepage. Hoje apresentamos uma primeira série de imagens que sublinham a relação do cinema com Wagner. Hoje em concreto recordando filmes (e uma série televisiva) de ficção em cujas narrativas surge a figura do compositor. A primeira imagem recorda Richard Wagner, um biopic assinado em 1913 por Carl Froehlich. A segunda mostra-nos Richard Burton, que vestiu a pele de Wagner na série televisiva com o nome do próprio compositor, apresentada em 1983. A terceira recorda o magistral Ludwig, de Visconti (1972), bipoic sobre o rei Luis II da Baviera no qual a presença de Wegner e da sua música são fulcrais.

Virgin Records celebra 40 anos de discos

Tudo começou em 1973 com a edição de Tubular Bells, o álbum de estreia de Mike Oldfield, que em poucas semanas se transformaria não apenas num fenómeno de vcndas em grande escala mas também numa sólida base de trabalho para a Virgin Records, a editora criada pelo milionário Richard Branson que ali tinha o seu primeiro lançamento. Os anos passaram e pelo catálogo da Virgin fomos encontrando nomes como os Sex Pistols, XTC, Human League, Culture Club, Scritti Politti, Massive Attack, Daft Punk, Air ou as Spice Girls...

Agora, a assinalar os 40 anos da editora anuncia-se a edição de um livro pelo antigo jornalista do NME Adrian Thrills, um documentário por Paul Tilzey e uma exposição de fotos numa galeria londrina ainda a anunciar. O Koko, também em Londres, irá acolher ao longo do verão concertos de artistas do catálogo atual e de outros de outros tempos. E haverá ainda um disco onde os nomes que hoje gravam para a Virgin interpretarão versões de temas históricos do catálogo da editora.

Terça-feira, Maio 21, 2013

Cannes por telemóvel (9)


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Fim de tarde do dia 21. Poucos minutos antes, a passadeira vermelha era o centro do mundo, com alguns milhares de mirones gritando pelas suas estrelas, várias dezenas de fotógrafos a registar o ritual das chegas para a sessão de gala e, neste caso concreto, a equipa do filme Behind the Candelabra (Michael Douglas, Matt Damon, Steven Soderbergh, etc.) a subir os lendários 24 degraus da escadaria que conduz à porta nobre do auditório Lumière; agora, tudo se aquietou e Cannes parece desfrutar de uns efémeros momentos de recolhimento. Lá ao fundo, a duas ou três dezenas de metros, estão as águas do Mediterrâneo.

Emma Watson depois de Harry Potter

Na bocejante confusão dos filmes de Harry Potter, Emma Watson era, muitas vezes, a única presença que fazia acontecer alguma coisa no ecrã: um olhar suspenso, um brilho de hesitação, um sinal de ansiedade... Dito de outro modo: para quem completou 23 anos (a 15 de Abril), era urgente superar a herança da personagem de Hermione e dos rituais mais ou menos ridículos do mágico de Hogwarts.
Ao que parece, já está a acontecer nos filmes — exemplo: The Bling Ring, de Sofia Coppola (título de abertura da secção "Un Certain Regard", em Cannes). E também no plano da iconografia pessoal — eis a eloquente demonstração através das fotografias assinadas por Michael Thompson, ilustrando entrevista dada a Lynn Hirschberg, na revista W.

Cannes 2013: entertainment


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That's entertainment! Ou como se escreve na sinopse de Behind the Candelabra, de Steven Soderbergh: "Antes de Elvis, Elton John e Madonna, houve Liberace." O filme evoca os anos finais de Liberace (1919-1987) a partir da sua relação amorosa, e também muito conflituosa, com Scott Thorson (autor do livro que empresta o título ao filme). Por um lado, trata-se de um radical exercício de introspecção, necessariamente contrariando o facto de, até final, Liberace ter negado a sua homossexualidade (inclusive em processos de tribunal); por outro lado, sempre atento às nuances do factor humano, Soderbergh conta-nos uma singularíssima história de solidão. No papel de Liberace, Michael Douglas é genial — e vai ganhar o prémio de melhor interpretação masculina!

Cannes por telemóvel (8)


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Infinitas actualizações da memória... Apesar de tudo, na sua globalidade, a televisão francesa tem uma atitude construtiva em relação à memória do cinema. Assim, em tempo de festival, as programações de filmes multiplicam reencontros e evocações: neste caso, por exemplo, já de madrugada, reaparece no canal Arte um desses exemplos de fusão policial/melodrama que Claude Sautet explorou com tanto gosto e elegância — Romy Schneider em O Estranho Caso do Inspector Max/Max et les Ferraileurs (1971), também com Michel Piccoli.

Para escutar a trigonometria

O nome pode lembrar-nos os tempos das aulas de matemática. Sin Cos Tan. Ou seja, seno, coseno e tangente (e cotangente fica de fora?)... Na verdade este é um projeto que junta Jori Hulkkonen e Juho Paalosmaa, vocalista dos Villa Nah. Aqui fica o tema History, num, teledisco assinado por Juho Risto Aukusti Lähdesmäki.

Novas edições:
Daft Punk, Random Acess Memories

Daft Punk 
“Random AcCess Memories” 
Columbia / Sony Music 
4 / 5

Se o álbum que este ano nos devolveu a presença de David Bowie cativou atenções pela surpresa, o disco que agora assinala o regresso dos Daft Punk conseguiu também gerar um ambiente de expectativa invulgarmente elevado. E agora, que está editado (e escutado) é, ao contrário da quase unanimidade que acolheu The Next Day, de Bowie, um daqueles discos que gera a divisão entre prós e contras. Sem entrar num patamar de rendição total ou de expressão de uma qualquer devoção, deixem que me coloque desde já num dos lados da “barreira”. Sou dos a favor... Mas vamos por partes. Nos anos 90, quando ninguém perdia muito tempo a escutar o que vinha de França (e convenhamos que houve ali farta colheita no departamento hip hop na primeira metade dos noventas), os Daft Punk foram os primeiros a dar o sinal de “alto e pára o baile”. E, um depois do promissor Boulevard do projeto St. Germain de Ludovic Navarre, o álbum de estreia dos Daft Punk mostrava que havia novamente em solo europeu uma entusiasmante expressão de uma ideia feita com eletrónicas e, ao mesmo tempo, capaz de traduzir heranças escutadas entre tradições da música de dança made in USA (do disco à cultura house, sem esquecer o funk e outras paragens). Pouco depois entrariam em cena os Air, od Cassius, Smadj, Bang Bang, Dimitri From Paris, Etienne de Crécy... A nova França eletrónica estava no mapa e nos Daft Punk (e nos Air) encontrava novos paradigmas. Seguiram-se outros discos entre os quais Discovery, de 2001, onde assimilam memórias da pop eletrónica dos oitentas, o menos marcante Human After All (de 2005 onde, todavia, incluíam o irresistível Technologic) e a banda sonora da sequela de Tron (filme que tinha na música o seu melhor ingrediente).
Agora, depois de terem ajudado a imaginar um presente com sabor a coisa do futuro, apresentam, em Random Access Memories um verdadeiro passeio entre memórias e referências que assimilam e integram na sua linguagem. A presença de convidados como Nile Rodgers, Paul Williams ou Giorgio Moroder sublinha o gosto em assinalar um respeito pela memória que, assim sendo, conduz todo o alinhamento. Já nomes como os de Julian Casablancas, Panda Bear ou Pharrell Williams vincam laços de entendimento entre pares seus contemporâneos. E entre frisos orquestrais, evocações de memórias escutadas nas escolas do disco, do funk ou do electro, e um interesse na construção de acontecimentos musicais longos e elaborados (que se fossem cinema seriam complexos planos sequência) nasce um disco que, sem repetir as visões de Homework ou Discovery mostra como pode uma banda na área da eletrónica e da música de dança dar novos e consequentes passos talhados entre as referências que a motivam e a definitiva constatação de uma linguagem já firmada. Com fôlego de álbum (apesar da força de alguns momentos, nomeadamente Doin' It Right, com Panda Bear), Random Access Memories não será nunca a obra-prima dos Daft Punk. Mas é importante peça numa carreira que soube não ficar em modo "repeat". E isso já satisfaz. E muito. Ou queremos revoluções a cada novo disco?

Nos 200 anos de Richard Wagner (1)

Assinalam-se esta semana (mais concretamente amanhã), os 200 anos do nascimento de Richard Wagner, um dos maiores compositores de todos os tempos e absoluto paradigma da ópera alemã. Recordamos assim, esta semana, algumas expressões recentes (ou nem por isso) da sua obra. E começamos por aquela que me pareceu uma das mais espantosas (entre as que vi, claro) recriações da tetralogia d' O Anel do Nibelungo. Sob a visão de Robert Lepage, as quatro óperas que constituem este 'ciclo' surgiram no palco do Met, em Nova Iorque, entre 2010 e 2012 chegando, em transmissões HD ao grande auditório da Gulbenkian. Agora estão reunidas em DVD e Blu-Ray, que juntam ainda um documentário que nos dá conta dos bastidores desta produção. Este texto foi originalmente publicado no DN em março de 2013.

São ao todo cerca de 16 horas de música, num dos feitos mais impressionantes da história da arte, perdendo-se de conta a quantidade (e variedade) de produções levadas aos palcos de todo o mundo desde que, entre 1869 e 1876, foram estreadas as quatro óperas que, em conjunto, fazem a chamada tetralogia do Anel do Nibelungo. Uma das mais recentes contribuições para a história de palco do ‘Anel’ composto por Richard Wagner ganhou forma no palco da Metropolitan Opera, em Nova Ioque, entre 2010 e 2012 (tendo a Gulbenkian assegurado a exibição em Lisboa de cada uma das quatro óperas). Uma produção moderna, tecnologicamente desafiante e artisticamente inovadora, criada sob a encenação do canadiano Robert Lepage que vê este conjunto como “o filme que Wagner quis fazer mesmo antes de haver cinema”.

Estas palavras de Lepage surgem em Wagner’s Dream, um completo documentário realizado por Susan Froemke que integra, como complemento a O Ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses, as caixas de Blu-ray e DVD que agora reúnem a integral desta tetralogia monumental.
A nova proposta cénica de Lepage corresponde a uma das mais bem sucedidas entre as abordagens recentes ao ‘Anel’ (entre as quais se conta ainda a que Graham Vick apresentou no São Carlos e que aguarda uma eventual edição em suporte audiovisual). Mas, tal e qual o documentário dá conta, a notícia de uma abordagem ousada à obra maior de Wagner deixou alguns espíritos reticentes, o próprio Lepage tendo comparado o seu esforço de motivar toda uma equipa como sendo algo semelhante ao de um Colombo, ciente de que tinha de garantir à sua tripulação que não iam cair do bordo do mundo... Assente no trabalho de uma grandiosa e pesada, mas muito versátil, máquina que gere a constante moldagem do espaço cénico mediante o jogo entre um conjunto de placas sobre as quais são projetadas imagens, a encenação de Lepage é minimalista, sem contudo atingir o grau de nudez cénica de um ‘anel’ essencialmente desenhado a laser apresentado em Bayreuth em inícios dos anos 90 sob produção de Harry Kupfer e direção de Daniel Barenboim.

Neste seu ‘anel’, Lepage procurou tornar possíveis (e visíveis) algumas das visões de Wagner que à época não se podiam materializar em cena, das figuras que cantam na água à caminhada sobre um arco-íris no final de O Ouro do Reno. “Wagner desafiou as possibilidades da ópera”, diz Lepage em Wagner’s Dream, onde nos é mostrado o making of deste feito e se revela como houve até o recurso a duplos precisamente na escalada que fecha a primeira das quatro óperas, que no seu todo reúnem vozes como as de Bryn Terfel, Stephanie Blythe, Deborah Voigt ou Jonas Kaufman no elenco. Dirigem James Levine e Fabio Luisi. Neste mesmo filme, um dos responsáveis do Met confessa que a ópera não sobrevive se se jogar pelo seguro. O ‘Anel’ de Lepage responde-lhe, com uma vibrante declaração de vitalidade.

Escutar mais a Leste...

Ninguém com um pingo de bom senso parte para uma nova edição do Festival da Eurovisão à espera de encontrar a canção, a voz ou a banda que irão marcar o panorama da música pop(ular) nos 12 meses seguintes (até ao festival do ano seguinte, entenda-se). Contudo, e apesar da bitola habitualmente nivelada por baixo, ocasionalmente há que registar inesperados momentos de surpresa (musical, que no plano dos trapinhos e da encenação não costuma faltar quem resvale para o plano do disparate). Do Verão com ligeiro tempero aos sinais dos tempos pop que Carlos Mendes apresentou em 1968 ao glam pop garrido de Waterloo dos Abba (que lhes deu a vitória em 1974) ou à presença eletro pop dos belgas Telex com Eurovision (em 1980) houve sempre ocasionais momentos em que as linhas que faziam o presente da cultura pop se entenderam com a vontade de participar num concurso na verdade sempre mais conotado com um espaço musicalmente “ligeiro” (ligeiro como coisa pouco incómoda para fácil digestão mainstream).

O tempo afastou o gume do interesse do consumidor médio de música do Eurofestival que entretanto ganhou novo alento com a abertura a Leste que se seguiu à queda de velhos muros que outrora dividiam a Europa ao meio.

Verdade seja dita que, apesar de algumas interessantes contribuições nos anos 90, as contribuições de Leste cedo desembocaram numa lógica semelhante à dos clichés chegados da Europa ocidental, isto para não falar das frequentes tentativas de mimetismos de modelos e formas pop, que soam quase sempre a coisa postiça.

Mas ocasionalmente há momentos que podem fazer a diferença. Não que sugiram que temos pela frente nomes com um potencial de carreiras globais (onde andam, por exemplo, os letões Brainstorm que chegaram a dar que falar com My Star no ano 2000). Este ano, perante a mais anorética de sempre das colheitas eurovisivas (e acho que digo o mesmo todos os anos, expressão de algo que vai de mal a pior), apesar do entusiasmo de quem votou perante uma canção dinamarquesa que vive do piscar de olhos a lugares comuns de um qualquer sucedâneo de coisa irlandesa, mas em tom de festa “moderna”, o que verdadeiramente interessante ali se mostrou, além de uma participação sóbria (e pouco convencional) da holandesa Anouk, foi uma canção chegada da Hungria.

Assinada por ByeAlex, um húngaro de 28 anos, a canção Kedvesen (cantada na sua língua materna), acompanhada em palco por um guitarrista e uma corista deu ao concurso os seus três minutos de suspiro de alívio. Afinal nem tudo era assim tão mau... É uma simples canção pop acústica, que não vai inventar nada nem certamente deverá mudar a vida de ninguém (além, eventualmente, das dos músicos envolvidos). Mas que, perante tamanha montra de nulidades, se destacou ao ser tranquilamente coisa contra-corrente. Nem tambores, nem pastiche de Britney, nem baile de máscaras, nem balada desinspirada para garganta forçada. Nada disso. Apenas uma simples canção pop acústica. Vem de Leste. Vem da Hungria... Resolvi escutar o que dele mais havia disponível nas plataformas online. Não parece mau. Reafirmo que não é coisa para levantar entusiasmos. Mas que mostra que, mesmo entre perto de 40 participações afogadas em falta de inspiração e clichés quanto-baste, ali há (ocasionalmente, é certo) quem ainda nos possa surpreender.



PS. Para ouvir sem preconceito.

Cannes por telemóvel (7)


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Entre este televisor e o acontecimento que nele se reproduz há uma distância de menos de 50 metros. É mesmo só descer as escadas da zona da imprensa para a rua, virar à direita e encontrar a escadaria do Palácio dos Festivais, a caminho do auditório Lumière, com a sua lendária passadeira vermelha... Em todo o caso, tal movimento não se pode fazer dessa maneira automática, já que a entrada nas sessões de gala, além do indispensável convite, pressupõe trajo especial. Na prática, o festival vive desta contiguidade dos seus espaços, conjugada com os protocolos e interditos que os aproximam e isolam. O glamour transformou-se, assim, numa questão de plasma.

Ray Manzarek (1939 - 2013)

Teclista e produtor musical, ocasionalmente vocalista, foi um dos fundadores da banda The Doors: Ray Manzarek faleceu no dia 20 de Maio, vítima de cancro, em Rosenheim, na Alemanha — contava 74 anos.
Nascido em Chicago, Illinois, foi em Los Angeles, em 1965, que Manzarek participou no nascimento de The Doors, juntamente com Jim Morrison (voz), Robby Krieger (guitarra) e John Densmore (bateria). Em poucos anos, através de álbuns como The Doors (1967), Morrison Hotel (1970) e L. A. Woman (1971), o grupo viria a adquirir um estatuto lendário que a morte prematura de Morrison, em 1971, de algum modo reforçou. Em particular no órgão, Manzarek introduziu uma sonoridade particular em muitas canções de The Doors, incluindo Light My Fire, People Are Strange ou Hello, I Love You [video: The Hollywood Bowl, 1968]. Desmantelados em 1973, The Doors tiveram vários reencontros ao longo das décadas, tendo Manzarek criado alguma discografia a solo ou como elemento dos Nite City. Publicou a autobiografia Light My Fire: My Life With the Doors, em 1998.


>>> Obituário na Rolling Stone.
>>> Site oficial de Ray Manzarek.
>>> Site oficial de The Doors.

Cannes 2013: comboios


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Claude Lanzmann mostra-nos os comboios de hoje. Mas fala-nos daqueles que, durante a Segunda Guerra Mundial, transportavam os judeus a caminho dos campos de concentração concebidos pelos nazis. Autor de Shoah (1985), porventura o filme mais exaustivo e mais elaborado que se fez sobre a Solução Final, Lanzmann é um cineasta dessa desumanização do outro que a ideologia nazi conduziu ao horror extremo de um gigantesco sistema de morte: Le Dernier des Injustes (extra-competição) é o novo título do seu admirável trabalho, desta vez lidando com as memórias do campo de Theresienstadt, lugar de sofrimento e morte como os outros, mas que os nazis quiseram manter mais "acolhedor", tentando fazer passar para a comunidade internacional uma imagem "sóbria" do tratamento dos judeus — um impressionante objecto de cinema, lidando com a questão sempre actual da preservação da memória.

Segunda-feira, Maio 20, 2013

Cannes por telemóvel (6)


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Vivemos num tempo que tudo pode ser ecrã. Em Cannes, tudo é potencial painel publicitário. Velha vocação das coisas urbanas, sem dúvida, mas que neste contexto adquire o tom de artifício de paradoxal naturalidade, inerente à condição mítica do festival e da sua cidade. Assim, numa parede de uma das transversais da Croisette, um cartaz de The Lone Ranger, com Johnny Depp, consagra a vocação espectacular da paisagem — devemos, talvez, reconverter os conceitos aprendidos e falar de hiper-irrealismo.

Cannes 2013: folk


[ solidões ]  [ sexo ]  [ China ]  [ Ophüls ]  [ crianças ]

Que é preciso para fazer um grande filme sobre a música folk? Digamos que o mais básico: alguém que saiba cantá-la — e Oscar Isaac, podem crer, é brilhante (além de ser um notável actor, o que, convenhamos, não é indiferente). Mas há mais: é preciso uma grande personagem de um... gato! Não dá para explicar. Em todo o caso, evocando o estado da música em 1961 — tendo por cenário privilegiado o desencantado romantismo de Greenwich Village —, os irmãos Coen conseguem um filme prodigioso sobre os enigmas da construção/desconstrução de uma identidade. Chama-se Inside Llewyn Davis e, venha o que vier, fica como um dos momentos de excelência de Cannes 2013. Quanto à melhor interpretação felina, posso garantir de fonte segura, o júri já tomou a sua decisão.

Patty Griffin: memórias e catarse

O nome de Patty Griffin é uma referência nobre de uma música popular americana que nunca alienou as suas raízes folk. Acaba de lançar um álbum (o seu sétimo de estúdio) cuja génese está ligada ao período final da vida do seu pai — daí que os temas de American Kid possuam uma misto de desencanto e valor catártico, desembocando numa depurada melancolia. Robert Plant ajudou-a em algumas das canções, incluindo este belíssimo dueto, Ohio.

Domingo, Maio 19, 2013

Cannes 2013: crianças


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Não há muitos cineastas capazes de filmar crianças como o japonês Hirokazu Kore-eda (lembremos O Meu Maior Desejo, estreado em 2012 nas salas portugueas). Agora, com Tal Pai, Tal Filho, o realizador parte de uma história perturbante: duas crianças foram trocadas no hospital, à nascença, sendo o engano descoberto sete anos depois... O resultado nada tem a ver com o pitoresco ofensivo das ficções "telenovelescas", sempre apostadas em reduzir a infância a um viciado teatro de marionetas. Vemos essa coisa rara que é a solidão das crianças e também a atribulada construção de uma ordem entre adultos e crianças. Não se pode ser mais político.

Cannes por telemóvel (5)


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A luz de Cannes não é uma luz típica de um lugar à beira-mar (há uma luz "típica" de determinados lugares?). Não é, pelo menos, uma luz estável, oscilando entre o brilho incerto do Mediterrâneo e o negrume das nuvens sempre prometidas (este ano trazendo mesmo muita chuva). No cruzamento do Boulevard Carnot com o caminho para Antibes, o cair da noite combina o azul que ainda persiste no céu com o ziguezague permanente dos faróis dos automóveis, desenhando uma paisagem de austera ficção científica. Como num filme, claro.