segunda-feira, janeiro 22, 2018

Diane Kruger + Fatih Akin

* UMA MULHER NÃO CHORA, de Fatih Akin
[ DN, 18-01-2018 ]

Este é o filme que valeu a Diane Kruger o prémio de interpretação feminina no último Festival de Cannes. Ela é, de facto, o elemento mais forte de uma história centrada no drama de uma mulher, habitante de Hamburgo, que perde o marido e o filho num ataque terrorista — marcada pela brutalidade da sua perda, avalia a hipótese de fazer justiça pelas suas mãos...
Fatih Akin, também responsável pelo argumento, parece querer fazer uma grande parábola política que, em todo o caso, vai cedendo às rotinas de um policial mais ou menos agitado regido por efeitos dramáticos algo simplistas. Seja como for, registe-se que as previsões americanas dizem que Uma Mulher Não Chora está muito bem posicionado para surgir nas nomeações para o Oscar de melhor filme estrangeiro, porventura conseguindo mesmo essa distinção.

10 DISCOS DE 2017 [9]
— Sampha

SBTRKT, Jessie Ware, Kanye West e Solange são alguns dos artistas que já beneficiaram da colaboração de Sampha (nome completo: Sampha Lahai Sisay, nascido em Londres em 1988). Dir-se-á que a sua estreia a solo, com o álbum Process, reflecte as suas qualidades de produtor, especialmente aplicado na construção de uma sonoridade cristalina, tecnicamente impecável. Assim é, sem dúvida, mas seria precipitado reduzir a performance de Sampha a uma exibição de competências. Na verdade, através de caminhos enraizados no património do R&B, com calculadas contaminações electrónicas, Process é produto de uma voz singular, não apenas no sentido vocal (passe a redundância), mas também enquanto sofisticado instrumento narrativo e dramático. (No One Knows Me) Like The Piano ficou como tema emblemático desses poderes, mas o álbum está longe de ser uma mera acumulação de canções em torno de um hit seguro — veja-se e escute-se esta interpretação de Timmy's Prayer, numa edição das Piano Sessions na BBC Radio 1.

domingo, janeiro 21, 2018

A caminho dos OSCARS
— associação de produtores
consagra "A Forma da Água"


A Producers Guild of America distinguiu A Forma da Água, de Guillermo del Toro, com o Prémio Darryl F. Zanuck, correspondente a melhor filme do ano. A tradição leva a considerar que as escolhas da associação de produtores americanos podem ser um significativo sintoma das linhas de força para os Oscars — em qualquer caso, no conjunto dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, os produtores representam apenas 7,2% do actual total de 7258 membros. A lista completa de premiados, cinema e televisão, está disponível no site da PGA.

* Filme — A FORMA DA ÁGUA, de Guillermo del Toro
* Filme de animação — COCO, de Lee Unkrich e Adrian Molina
* Documentário — JANE, de Brett Morgen [trailer]


2001 & Stanley Kubrick
— SOUND + VISION Magazine, FNAC [hoje]

Este é o ano em que 2001: Odisseia no Espaço faz 50 anos — Nuno Galopim e João Lopes propõem uma revisitação desse clássico da ficção científica, ao mesmo tempo evocando a filmografia de Stanley Kubrick.

* FNAC: Chiado, hoje, 21 Janeiro (18h30)

Para descobrir "Mudbound"

Mudbound/Lamas do Mississipi é um belo filme que corre o risco de ser castigo pelo seu "esquecimento" na temporada de prémios — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Janeiro), com o título 'A herança dos clássicos'.

É muito provável que Lamas do Mississipi, o magnífico filme de Dee Rees inspirado no romance Mudbound, de Hillary Jordan, venha a ser um dos títulos mais castigados pela agitação da chamada temporada de prémios. Porquê? Porque as expectativas de prémios não se estão a concretizar, augurando uma presença discreta nas nomeações para os Oscars.
A situação é tanto mais insólita quanto estamos perante um filme que reflecte de modo directo e incisivo um dos temas emblemáticos da actual conjuntura mediática. A saber: o racismo na história social dos EUA (neste caso, a partir das experiências de dois jovens do Mississipi, um branco, outro negro, combatentes da Segunda Guerra Mundial). Em boa verdade, uma das obras máximas da produção americana de 2017 — Detroit, de Kathryn Bigelow, sobre os motins que abalaram aquela cidade em 1967 — teve a mesma sorte: a sua subtileza temática e excelência narrativa foram esquecidas por todas as entidades responsáveis pelos prémios que têm estado a ser atribuídos.
Este apagamento dá que pensar. Fica-se com a sensação de, neste contexto, o cinema constituir uma peça secundária, meramente instrumental. Acima de tudo, celebram-se “temas”, esquecem-se os filmes. Na prática, as primeiras vítimas são objectos tão inteligentes e subtis como Lamas do Mississipi. O filme de Dee Rees consegue essa proeza rara de não tratar nenhuma personagem como porta-voz do que quer que seja, antes mostrando as profundas clivagens de uma sociedade em que a discriminação dos afro-americanos se detecta nos mais discretos gestos e rituais do quotidiano. Reencontramos, assim, a abrangência da visão social de clássicos como Elia Kazan ou Otto Preminger. Tempos difíceis: é mais fácil ser “panfletário” do que abraçar a herança de Kazan e Preminger.

sábado, janeiro 20, 2018

Dorothy Malone (1924 - 2018)

Foi um símbolo do glamour de Hollywood na década de 1950: a actriz americana Dorothy Malone faleceu no dia 19 de Janeiro, em Dallas, na casa de repouso onde viveu na última década — contava 93 anos.
De seu nome verdadeiro Dorothy Maloney, começou por se destacar em filmes de série B da RKO, depois conseguindo um contrato com a Warner. Surgiu num pequeno papel no clássico À Beira do Abismo (1946), de Howard Hawks. Golpe de Misericórdia (1949), de Raoul Walsh, Tentação Loira (1954), de Richard Quine, e Pintores e Raparigas (1955), de Frank Tashlin, foram alguns dos títulos que ajudaram a consolidar a sua imagem de sedução e romantismo, por vezes em registo irónico (como acontece no filme de Tashlin, com a dupla Jerry Lewis/Dean Martin).
Sob a direcção de Douglas Sirk interpretou dois dos seus papéis mais importantes, em Escrito no Vento (1956) e O Meu Maior Pecado (1957) — o primeiro valeu-lhe o Oscar de actriz secundária. Os westerns O Homem das Pistolas de Ouro (1959), de Edward Dmytryk, e Duelo ao Pôr do Sol (1961), de Robert Aldrich, encerram simbolicamente a sua carreira cinematográfica, dedicando-se depois quase exclusivamente a trabalhos televisivos — a série Peyton Place (1964-1968) trouxe-lhe grande popularidade, porventura superior à que desfrutou enquanto actriz de cinema. O seu derradeiro papel cinematográfico seria em Instinto Fatal (1992), de Paul Verhoeven, contracenando com Sharon Stone.

>>> Trailer de Escrito no Vento + Oscar de melhor actriz secundária (27 Março 1957).




>>> Obituário no New York Times.

De Visconti a Guadagnino

* CHAMA-ME PELO TEU NOME, de Luca Gudagnino
[ DN, 18-01-2018 ]

Na actual produção italiana, Luca Guadagnino é, por certo, o mais legítimo herdeiro de Luchino Visconti (1906-1976). A sua encenação da pulsão amorosa envolve corpos e paisagens, palavras e música, num turbilhão de sinais que parecem inventar um mundo alternativo. Assim acontece neste maravilhoso Call Me By Your Name, situado na Itália da década de 1980, centrado na relação de Elio, um jovem de 17 anos, e Oliver, chegado da América para participar nos estudos arqueológicos do pai de Elio.
Sem ceder a qualquer formatação dramática ou moral, Guadagnino encena o esplendor e a fragilidade do amor, numa narrativa em que a dimensão física dos gestos parece diluir-se na metafísica dos desejos. Timothée Chalamet tem sido justamente reconhecido pela composição de Elio, mas Armie Hammer, como Oliver, é igualmente brilhante.

sexta-feira, janeiro 19, 2018

"Estátua de Fernando Pessoa
acusada de assédio sexual" [citação]

>>> Notícia do dia: a estátua de Fernando Pessoa, no Chiado, foi acusada de assédio sexual. Segundo relatos de várias turistas, quando estas se sentaram ao colo do poeta para tirarem a fotografia da praxe ele apalpou-as — voltaremos a este tema quando tivermos mais novidades.

Antena 1
19-01-2018

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Sorkin & Chastain (2/2)

Aaron Sorkin escreveu e realizou, Jessica Chastain interpreta: Jogo da Alta Roda é, entre nós, uma das primeiras grandes estreias de 2018 — este texto foi publicado no Diário de Notícias (4 Janeiro), com o título 'Aaron & Jessica'.

[ 1 ]

Alfred Hitchcock e Grace Kelly. John Ford e John Wayne. Jean-Luc Godard e Anna Karina. Sydney Pollack e Robert Redford. André Téchiné e Catherine Deneuve. A história do cinema apresenta-nos muitas relações de trabalho entre realizadores e intérpretes que distinguimos pela singularidade dos seus resultados. Sentimos mesmo que há actores e actrizes que, independentemente do brilhantismo de outras composições, exibem um suplemento (de alma, talvez) quando dirigidos por determinados cineastas.
Molly's Game
É cedo para dizer se Aaron Sorkin e Jessica Chastain têm, ou vão ter, uma relação desse teor — Jogo da Alta Roda é, afinal, a primeira realização de Sorkin. Em qualquer caso, a sua maneira de contar a história de Molly Bloom, promotora de jogos de poker, é tanto mais fascinante quanto o filme vai escapando, ponto por ponto, às soluções mais fáceis e, sobretudo, mais moralistas que tal história podia atrair.
Especialmente interessante (porventura frustrante para alguns espectadores) é a frieza erótica que contamina todos os aspectos do filme. Sedução do dinheiro? Transfiguração de Molly em objecto de desejo por causa do dinheiro que manipula? Atracção feérica da “alta roda” que, com algum simplismo, está no título português? Nada disso. Este é, de facto, um filme sobre o jogo de Molly (recorde-se o título original: Molly’s Game) e o seu enigma primordial cujo assombramento ela parece querer superar através da própria vertigem de milhões de dólares em que se envolve. Daí a beleza radical da cena com que Sorkin decide encerrar o seu filme. Explicando o enigma de Molly? Sim, até certo ponto, mas sobretudo mostrando que a identidade de um ser humano não cabe em nenhum cliché dramático — chama-se a isso ser um grande narrador.

quarta-feira, janeiro 17, 2018

A caminho dos OSCARS
— NAACP escolhe "Girls Trip"
como filme do ano



A National Association for the Advancement of Colored People, organização fundada em 1909 para defesa dos interesses dos cidadãos afro-americanos, atribuiu, a 15 de Janeiro, os seus prémios, abrangendo as áreas de cinema, televisão, música e literatura. Ava DuVernay que, em 2014, dirigiu Selma: A Marcha da Liberdade, foi consagrada como "entertainer do ano". A comédia Girls Trip, de Malcolm D. Lee, recebeu o prémio de filme do ano — lista integral dos prémios no site da NAACP.

* Filme — GIRLS TRIP, de Malcolm D. Lee [trailer]
* Actor — Daniel Kaluuya, FOGE
* Actriz — Octavia Spencer, GIFTED
* Filme independente — DETROIT, de Kathryn Bigelow


Para ouvir antes e depois de ver

É um dos filmes de que mais se fala. E com razão... Chama-me Pelo Teu Nome (no original Call Me By Your Name) foi o melhor que vi em 2017 (na Berlinale), tem colhido entusiasmo por onde tem estreado. E esta semana chega aos ecrãs portugueses. Antes de aqui falarmos do filme, fica hoje uma breve nota sobre a banda sonora. Porque é um objeto igualmente precioso, tendo resultado de um trabalho de seleção de gravações e de novas “encomendas” feito pelo próprio Luca Guadagnino e ajudam a definir o espaço, o contexto, as próprias personagens e, acima de tudo, a alma (ou como se poderia dizer em inglês o “feel”) do filme.

O grosso da banda sonora resulta de um processo de seleção de peças de discos já existentes. E aí coexistem as marcas que vincam o lugar e o período em que ação decorre (ou seja, a Itália na primeira metade da década de 80) e o facto de Elio (uma das personagens centrais) tocar piano. Entre a pop e peças clássicas para piano surge assim o corpo maior de um conjunto de temas que ora assinalam o reencontros e descobertas. John Adams, cuja música foi peça determinante na construção quase operática de Eu Sou o Amor, regressa com um excerto de Hallelujah Junction. Peças de Satie, Ravel ou Bach sublinham a presença do piano, que tem aqui em Ryuichi Sakamoto outro nome de referência, com o facto curioso de uma das composições, Germination, ser uma transcrição para piano de um momento da banda sonora de Feliz Natal Mr. Lawrence, de Nagisa Oshima.

A maioria das canções que povoam a banda sonora servem o B.I. de tempo e lugar do filme, com marcas da memória da pop mainstream de então, desde os terrenos europop de Paris Latino (Bandolero) ou da própria música italiana (recuperando nomes como os de Franco Battiato, Lordeana Bertè e Marco Armani) a “êxitos” que fizeram história por aqueles dias como Words de FR David ou Lady Lady Lady, de Giorgio Moroder e Joe Esposito (que surgiu originalmente na banda sonora de Flashdance). Há uma presença indie para vincar uma certa mudança de registo que traduz talvez ecos do percurso da narrativa (e não vou fazer spolier) ao som dos Psychedelic Furs. E, depois, a cereja sobre o bolo com a presença de três temas de Sufjan Stevens. Um deles é uma remistura de Futile Devices (do álbum The Age of Adz). Os outros na verdade são o resultado do desafio que o realizador lançou ao músico. Pediu-lhe um tema... E Sufjan fez dois... Assim nascem Mistery of Love e o belíssimo Visions of Gideon, que juntam não só elementos artística e emocionalmente marcantes ao filme como assinalam novos episódios na obra de um dos grandes músicos do nosso tempo.

terça-feira, janeiro 16, 2018

Quem é John Carpenter?

Afinal, quem é John Carpenter?... O explorador da herança da métrica de Howard Hawks e das emoções de Alfred Hitchccok, criando uma nova música para o suspense através de Assalto à 13.ª Esquadra (1976)? Ou, justamente, um compositor de músicas, para esse e outros dos seus filmes, indissociáveis de todo um elaborado conceito do tempo narrativo? Um pioneiro dos mais modernos efeitos visuais de transfiguração dos corpos, criando essa ópera do género de terror que é The Thing/Veio do Outro Mundo (1982)? Ou, explorando as ambivalências dos heróis em As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim (1986), um crítico sarcástico das modernas variações do género de aventura?
Digamos que Carpenter é tudo isso... e algo mais. Há nele um gosto elaborado da narrativa, seus tempos, convulsões e silêncios, que, mesmo quando aplica as mais sofisticadas técnicas, o demarca da turma irresponsável dos efeitos especiais. Além do mais, nasceu no dia 16 de Janeiro de 1948, o que quer dizer que celebra hoje 70 anos — congratulations!

>>> Trailer de Halloween (1978) + teledisco de Distant Dream (2016).




>>> Site oficial de John Carpenter.

Madalena Iglésias (1939 - 2018)

Celebrizada pela sua vitória no Festival da Canção de 1966, a cantora Madalena Iglésias faleceu numa clínica de Barcelona, cidade onde vivia — contava 78 anos.
Figura emblemática do chamado "nacional-cançonetismo", a par, por exemplo, de António Calvário, a sua época de maior sucesso ficou também registada em cinema, através de filmes como Uma Hora de Amor (1964), de Augusto Fraga, e Sarilhos de Fraldas (1967), de Constantino Esteves — em ambos contracenava com Calvário. De qualquer modo, foi a interpretação de Ele e Ela, tema vencedor do Festival da Canção de 1966, que ficou como símbolo mais forte da sua carreira; com letra e música de Carlos Canelhas, Ele e Ela ilustra uma certa pop dançante dos anos 60, neste caso valorizada pela orquestração de Jorge Costa Pinto — na edição desse ano do Festival da Eurovisão, realizada no Luxemburgo, obteve 6 pontos, ficando em 13º lugar (num total de 18 países concorrentes).
Silêncio Entre Nós, Poema de Nós Dois ou Canção Que Alguém Me Cantou foram outros momentos marcantes na sua trajectória artística, também com algum impacto noutros países, em particular no mercado de língua espanhola. Em 1972, abandonou os palcos e as gravações. A fotobiografia O Meu Nome é Madalena Iglésias, da autoria de Maria de Lurdes Carvalho, foi lançada em 2009.

>>> Ele e Ela no final do Festival da Canção de 1966, com apresentação de Henrique Mendes.


>>> Obituário no Diário de Notícias.

O "Big Brother" contra Antonioni

David Hemmings em Blow-up (1966) 
Chegámos ao ponto em que o fundamentalismo sexual se atreve a difamar Michelangelo Antonioni — este texto foi publicado no Diário de Notícias (14 Janeiro), com o título 'É preciso defender Antonioni'.

Desde o ano 2000, o Big Brother e as suas derivações são uma presença regular no espaço televisivo português. Aí assistimos a um metódico programa de achincalhamento humano, envolvendo três componentes principais: encenação “voyeurista” da sexualidade, redução dessa sexualidade a tabelas de performances genitais e transformação das mulheres em objectos instrumentais de qualquer relação sexual.
A maioria dos discursos políticos, do esvaziamento intelectual das direitas à vocação moralista das esquerdas, mantém-se indiferente a tudo isso. É fácil, por exemplo, um dia depois da morte de Manoel de Oliveira, rasurar décadas de insultos e difamações, consagrando-o como um “mestre”; é francamente mais difícil dizer alguma coisa de consistente sobre o sistema de imagens que habitamos.
Michelangelo Antonioni
Não se trata de uma questão especificamente portuguesa, como é óbvio. Veja-se, na imprensa francesa, os protestos suscitados pelo notável texto de uma centena de mulheres sobre a vaga de acusações de assédio sexual (Le Monde, 9 Janeiro). Tais protestos seguem uma lógica pueril: empolam uma palavra ou uma expressão, omitem o seu contexto (o longo texto surgiu quase sempre reduzido a equívocos fragmentos) e apelam à queima dos infiéis na fogueira “social”. Há mesmo quem argumente que as signatárias — as actrizes Ingrid Caven e Catherine Deneuve, a escritora Catherine Millet, a editora Joëlle Losfeld, etc. — estão a branquear a gravidade dos crimes de que é acusado, por exemplo, Harvey Weinstein. Aliás, nos EUA, aconteceu algo semelhante a Matt Damon: veio apenas solicitar que se use a inteligência — não fazendo equivaler a violência de uma violação à gravidade de um gesto obsceno num cenário de emprego — e tanto bastou para que fosse rotulado de monstro machista. A actriz Minnie Driver colocou-se mesmo do outro lado da sua (imaginária) barreira, dizendo que “os homens não podem compreender”.
Está, assim, transformado numa arena de muitos ruídos e nenhuma ideia aquilo que seria um bom contexto de reflexão sobre o masculino/feminino e, em particular, os dispositivos mediáticos que, em nome da “sensualidade”, reduzem as mulheres a objectos sexuais (e, não poucas vezes, também os homens). Como lembra o texto das mulheres francesas, há até fundamentalismos apostados em desqualificar a obra-prima de Michelangelo Antonioni, Blow-up (1966), por causa da sua “misoginia”... Como? Será crime ter descoberto o cinema através das Novas Vagas europeias dos anos 60/70? Era o que mais faltava.