quinta-feira, maio 26, 2016

SOUND + VISION Magazine
— hoje, especial CANNES

Ken Loach distinguido com a Palma de Ouro, por I, Daniel Blake, é a primeira e incontornável memória de Cannes/2016. Hoje, em mais uma edição do nosso Magazine, na Fnac, falamos da 69ª edição do festival, propondo ainda algumas memórias da sua história — a partir das 18h30, na Fnac do Chiado.

quarta-feira, maio 25, 2016

Facebook [citação]

>>> Desde o Facebook e os feeds do Twitter que aplicamos, até aos logaritmos que determinam os resultados das nossas pesquisas na Web a partir da nossa história de procura e localização, as nossas principais fontes de informação são cada vez mais organizadas no sentido de nos devolver o mundo como já o vemos — dão-nos o conforto das nossas opiniões sem o desconforto do pensamento.

22 Maio 2016

Vem aí novo álbum de The Kills

Já tínhamos escutado (e visto) duas canções do novo álbum de The Kills. Assim, depois de Doing It to Death e Heart of a Dog, aí está o teledisco de Siberian Nights, dirigido pelo actor Giovanni Ribisi, apelando a uma sensação primitiva da natureza e da sua relação agreste com o mundo dos humanos. Com lançamento para 3 de Junho, o novo registo de Alison Mosshart e Jamie Hince chama-se Ash & Ice.

I could whip you up like cream
I could drink your seven seas
Is that too close for comfort?

I could make you come in threes
I’m half way to my knees
Am I too close for comfort?

For the tyrants in a rut, I got a love
For the gutless dogs, I got a love
For the doomed youth, I got a love

Won’t you tell me please
Why they got no love for me
Won’t you tell me please
Why they show no love for me

I’ll be charging through your dreams
Riding bare chest silver steed
Am I too close to the bone?

Shake a little hup two three
I’m Jesus, rip my jeans
Am I too close for comfort?

For the millionth time, I got a love
For the blue eyed boys, I got a love
For the cruel youth, I got a love

Won’t you tell me please
Why they got no love for me
Won’t you tell me please
Why they show no love for me

Won’t you help me get through these Siberian nights?
Won’t you help me get through these Siberian nights?
You know it’s hard for me to be alone
Tomorrow we’ll go back to our sides
But tonight I need some warmth

terça-feira, maio 24, 2016

Breve memória de Cannes

Entre grandes e pequenos acontecimentos, vale a pena (re)lembrar que o essencial do Festival de Cannes não acontece na passadeira vermelha... Este texto foi publicado no Diário de Notícias (23 Maio), com o título 'Olhar à nossa volta'.

Na sessão em que foi apresentada uma das mais belas revelações desta edição de Cannes — o filme argentino La Larga Noche de Francisco Sanctis, de Francisco Márquez e Andrea Testa (secção “Un Certain Regard”) —, Thierry Frémaux, delegado geral do certame, fez questão em sublinhar um dado curioso: a vitalidade da produção da Argentina existe em paralelo com uma velha tradição de crítica e jornalismo cinematográfico.
Escusado será dizer que não se trata de estabelecer qualquer hierarquia corporativa entre cinema “filmado” e cinema “escrito”. Em todo o caso, importa não ceder ao simplismo dos tempos: muitas conjunturas marcantes da história do cinema (a começar, claro, pela Nova Vaga francesa) integram a reflexão escrita e o pensamento teórico como elementos fundamentais da sua dinâmica.
No contexto tão específico de um certame como o Festival de Cannes, este tipo de perspectiva tem tanto mais valor quanto sabemos que as visões mais ligeiras, dominadas pelo fascínio dos momentos efémeros da passadeira vermelha, tendem a reduzir a pluralidade dos filmes às ilusões da espuma mediática. Obras como La Larga Noche de Francisco Sanctis (sobre as memórias dramáticas da ditadura militar) convocam o espectador para uma compreensão dos factos individuais e da história colectiva capaz de recusar, ponto por ponto, a aceleração e os valores deterministas da ideologia televisiva dominante.
Mais do que nunca, num contexto de reconversão tecnológica (digital) dos filmes e da própria ideia de cinema, é isso que está em jogo. A saber: a defesa do cinema como um acontecimento capaz de, literal ou simbolicamente, nos ajudar a olhar à nossa volta. Do meu ponto de vista, La Fille Inconnue, dos irmãos Dardenne, foi o exemplo modelar de tal atitude.

segunda-feira, maio 23, 2016

Futebol, cultura & sociedade (1/2)

No futebol televisivo, o prazer do jogo está a ser frequentemente substituído por discursos mais ou menos insultuosos em que o gosto de ver já não conta — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Maio), com o título 'A cultura do futebol'.

1. Vejo o comentador de futebol Rui Santos (SIC Notícias) a chamar a atenção para aquilo que está a “estragar o futebol”. Refere, em particular, as “lógicas de comunicação” dos chamados clubes grandes que confundem “rivalidade” com “boçalidade”, alimentando um clima de permanente agitação mediática (que, a meu ver, corresponde a uma violenta infantilização dos espectadores). Não quero favorecer o maniqueísmo de considerar Rui Santos uma voz isolada. Não se trata de criar “heróis” ou “anti-heróis” — já basta o que basta. Em todo o caso, a saudável contundência das suas palavras tornou-se coisa rara no território televisivo. Creio mesmo que passou a haver formas discursivas, provenientes de todos os quadrantes do futebol, que estão a favorecer um esvaziamento moral do simples gosto de admirar um clube (seja ele qual for). Por vezes, algumas discussões em torno de um penalty são de tal modo primárias e infelizes que o espectador não pode deixar de pensar: para simpatizar com um determinado clube, é preciso aceitar este tipo de discurso?

2. Na prática, assiste-se a um trágico esvaziamento cultural do futebol. E não devemos ter medo de usar a palavra cultura a propósito de futebol. Porque a cultura não é “ópera & bailado”, como proclamam os cínicos que menosprezam o valor de qualquer labor artístico. A cultura é o imenso caldeirão de valores (ou da falta deles) que marcam todos os meandros de qualquer tecido social.

3. Ora, no futebol, parece ter triunfado uma cultura de “guerra civil” em que já nada mais conta a não ser a possibilidade de difamar o adversário, reduzindo-o a vítima simbólica de uma noção pueril de triunfo e celebração. Tudo isto acontece num contexto (português e internacional) em que a arte de dar a ver o futebol através das transmissões televisivas evoluiu de forma fascinante. Mas quem é que ainda está, realmente, a olhar para a beleza do jogo?

Ken Loach vence em Cannes

Ken Loach e Dave Johns — rodagem de I, Daniel Blake
Ken Loach fez um drama social recorrendo a Dave Johns, um conhecido actor cómico: I, Daniel Blake é, no fundo, um objecto que retoma as raízes realistas do trabalho de Loach, insistindo em expor os desequilíbrios sociais do nosso presente. Foi o filme que lhe valeu uma segunda Palma de Ouro no Festival de Cannes (dez anos depois de Brisa de Mudança). O realismo esteve, aliás, também presente nos prémios de interpretação para a filipina Jaclyn José, em Ma' Rosa, de Brillante Mendoza, e o iraniano Shahab Hosseini, em Le Client, de Asghar Farhadi — palmarés integral no site do festival.

sexta-feira, maio 20, 2016

CANNES 2016 — Léaud

Léaud. Jean-Pierre Léaud. O eterno Antoine Doinel dos filmes de François Truffaut (Os 400 Golpes foi a revelação de Cannes/1959) surge agora em pose de Luís XIV, sob a direcção do espanhol Albert Serra. O filme, La Mort de Louis XIV, é um exercício de desconcertante contenção cenográfica, no essencial dando-nos a ver a agonia do Rei como uma acumulação de gestos teatrais ou protocolares, reafirmando o poder como fantasma de si próprio — estranho, estranhamente sensual, subtilmente político.

CANNES 2016 — Jarmusch (2)

Iggy Pop revendo, comentando e ironizando a história de The Stooges — Jim Jarmusch faz um documentário, Gimme Danger, num registo tão tradicional quanto eficaz, sublinhando o facto de a banda ter sido uma das mais influentes na definição de décadas de rock'n'roll. Ou como Cannes continua a celebrar a pluralidade do género documental.

CANNES 2016 — Jarmusch (1)

Adam Driver em motorista de autocarro, filmado por Jim Jarmusch: Paterson é a história de um homem chamado Paterson que vive na cidade de Paterson, escrevendo poesia e tendo como referência o livro Paterson, de William Carlos Williams. Jarmusch continua a experimentar as variações do seu realismo mágico, seduzido pela insólita transparência do quotidiano e pelas promessas de outros mundos que por ele circulam. Simples e directo. Complexo e metafórico.

quinta-feira, maio 19, 2016

Cannes 2016 — humanismo

Quando chega La Fille Inconnue, dos irmãos Dardenne, sentimos que mudamos de universo. Não porque eles nos falem de mundos mais ou menos galácticos, antes porque partem da "neutralidade" do quotidiano para, pacientemente, metodicamente, nos exporem o que nele é simulacro, equívoco ou apenas desgaste de percepção imposto pelo labor das ideologias dominantes. A história da médica (espantosa Adèle Haenel!) que tenta desvendar o enigma da "rapariga desconhecida" a que o título se refere transfigura-se, assim, num exercício crítico de realismo humanista, muito à frente de quase tudo o que tem sido possível ver neste festival — olhar o mundo é também discutir os pressupostos, valores e expressões da sua (des)ordem.

Cannes 2016 — utopia

Há quem já comece a arriscar dizer que o papel de Viggo Mortensen em Captain Fantastic lhe vai trazer uma nomeação para o Oscar de melhor actor (já teve uma, em 2008, com Promessas Perigosas, de David Cronenberg). Não deixa de ser uma ironia saborosa: com ou sem nomeação, a personagem de Mortensen talvez se possa definir como uma espécie de anti-super-herói, enredado no labirinto utópico que construiu. Ele é um pai de seis filhos (da infância à beira da entrada para a universidade) que, por uma série de circunstâncias sociais e conjugais, os educou num mundo "alternativo", ligado a conceitos radicais de sobrevivência — o filme é a história desse projecto e do seu inevitável preço a pagar face aos desvios que a realidade impõe. Escrito e dirigido por Matt Ross, eis um exemplo de um filme inclassificável, contra a corrente e, ao mesmo tempo, vibrante e caloroso.

quarta-feira, maio 18, 2016

CANNES 2016 - Brasil

Há oito anos que o Brasil não surgia na secção competitiva de Cannes. Regressa agora com Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, filme que consegue três proezas enredadas umas nas outras:
1 - dar conta de uma situação de crise social a partir de um sugestivo microcosmos (uma mulher que quer conservar o seu andar, num prédio de nome 'Aquarius', resistindo às investidas de uma poderosa empresa de construção);
2 - definir uma curiosa galeria de personagens capazes de reflectir as mais diversas posições sociais, sem se esgotar em "simbolismos" mais ou menos deterministas;
3 - relançar Sónia Braga, não numa qualquer variação "juvenil", antes oferecendo-lhe um papel que faz jus à sua idade, ao mesmo tempo valorizando a sua capacidade de composição.
Se é verdade que os efeitos mais ou menos consensuais se podem reflectir no palmarés, então não será arriscado prever que Aquarius sairá de Cannes com algum prémio.