segunda-feira, julho 25, 2016

Marni Nixon (1930 - 2016)

Soprano de grande talento, ficou célebre como "cantora-fantasma" de várias estrelas de Hollywood: a americana Marni Nixon faleceu no dia 24 de Julho, em Nova Iorque, vítima de cancro da mama — contava 86 anos.
Os seus estudos de canto e ópera permitiram-lhe manter uma carreira de muitas décadas, interpretando obras de autores tão diversos como Arnold Schoenberg, Igor Stravinsky, Anton Webern, Aaron Copland e George Gershwin. Chamada pelos estúdios de Hollywood, cedo começou a dar voz a diversos momentos musicais em que, de facto, não aparecia — desde o coro dos anjos em Joana D'Arc (1948), de Victor Fleming, com Ingrid Bergman, até às notas mais altas de Diamonds Are a Girl's Best Friend, canção interpretada por Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Louras (1953), de Howard Hawks.
O seu primeiro trabalho de fundo ocorreu em O Rei e Eu (1956), de Walter Lang, dobrando Deborah Kerr; foi ela também a voz de Natalie Wood em West Side Story (1961), de Jerome Robbins e Robert Wise, e Audrey Hepburn em My Fair Lady (1964), de George Cukor. Surgiu pela primeira vez no grande ecrã na personagem de uma das freiras de Música no Coração (1965), de Robert Wise. Uma das suas derradeiras interpretações foi a personagem da 'Avó Fa', na animação Mulan (1998), dos estúdios Disney.

>>> Duas interpretações de Marni Nixon: primeiro, a canção Getting to Know You, dobrando Deborah Kerr em O Rei e Eu (1956); depois, em 1984, no tema Vivaldi, do musical Taking My Turn, de Gary William Friedman.




>>> Obituário: New York Times + NPR + Playbill.

A IMAGEM: Eva Sereny, 1972

EVA SERENY
Romy Schneider
1972

Cinema, natureza & ecologia

Fenómeno de culto em França, Amanhã é um documentário apostado em discutir os modos de contrariar as alterações climatéricas — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 Julho), com o título 'As notícias da morte da Terra são francamente exageradas'.

Quem tenha acompanhado os filmes de “super-heróis” dos últimos anos (e convenhamos que é preciso alguma resistência para o fazer, de tal modo os seus lugares-comuns dramáticos e simbólicos se vão repetindo até à exaustão...), estará longe de encarar de forma ligeira o futuro do nosso planeta. Na verdade, a imaginação (?) dos respectivos argumentistas tem confluído num mesmo aviso: os seres humanos estão à beira da extinção.
Será por isso que o documentário francês Amanhã se tornou um quase fenómeno de culto no seu país de origem? É verdade que, também neste caso, somos informados de que o futuro da raça humana está ameaçado. O certo é que, ao mesmo tempo, ficamos a saber que as notícias da morte do planeta Terra são francamente exageradas...
Lembremos que Amanhã parte de elementos cuja gravidade e seriedade nos compelem, pelo menos, a escutar e reflectir. Assim, de acordo com um artigo da autoria de Elizabeth Hadly (bióloga da Universidade de Stanford) e Anthony Barnosky (palentólogo de Berkeley), publicado na revista Nature, o comportamento dos humanos face ao planeta que habitam já não se pode medir apenas pelos inquietantes índices de poluição e pelas evidentes e perturbantes alterações climatéricas. No limite, é a nossa sobrevivência que está em discussão — Barknovsky considera mesmo que, se não se tomarem medidas muito sérias ao longo dos próximos 20 anos, a decomposição do nosso sistema de vida será irreversível e, numa palavra, fatal.
Ao mesmo tempo, a realização de Cyril Dion e Mélanie Laurent (ele com uma carreira marcada pelo documentarismo televisivo, ela uma actriz que também já dirigiu alguns filmes, incluindo o belíssimo Respira, lançado em 2014) nunca se afasta de uma lógica narrativa que obedece, ponto por ponto, à mais vulgar rotina televisiva: colocar um microfone à frente de “especialistas” e ligar tudo com um comentário off, didáctico e pomposo, que nunca abdica de uma lógica de sermão “ideológico”.
Por várias vezes, a equipa de Dion e Laurent filma-se mesmo como um grupo de saltimbancos mais ou menos coloridos (com canções de “mensagem” na banda sonora). Por certo sem darem conta disso, parecem imitar os clichés iconográficos dos “hippies” da década de 60, sempre à escuta de uma revelação transcendental que ninguém parece saber definir.
Seja como for, em defesa do filme, importa sublinhar que Amanhã contraria o catastrofismo dominante, celebrando as experiências que, nos mais diversos domínios (agricultura, energia, gestão financeira, etc.) e também em contextos muito distintos (EUA, Dinamarca, Índia, etc.), mostram que é possível pensar — e, sobretudo, agir — para além dos padrões decorrentes dos interesses das mais poderosas forças económicas. É, pelo menos, uma maneira de contrariar o niilismo dos “super-heróis” que só garantem a nossa sobrevivência depois de, à custa de efeitos especiais cada vez mais vulgares, destruírem uma série de grandes metrópoles... Neste caso, prevalece o elogio das energias vitais.

domingo, julho 24, 2016

3 x "Dream Baby Dream" [Savages]

Com a morte de Alan Vega, que integrava o duo Suicide (com Martin Rev), desapareceu um nome vital da história do rock e, em particular, das convulsões que conduziram ao punk — Dream Baby Dream, single de 1979, é uma referência incontornável do seu património, tendo suscitado algumas brilhantes recriações.

[ Neneh Cherry ]

Por estes dias, punk no feminino dá pelo nome de Savages. São de Londres e estrearam-se com o magnífico Silence Yourself, seguindo-se Adore Life. Pelo meio, entre outras coisas, lançaram o single Fuckers, dois temas ao vivo, incluindo uma original abordagem de Dream Baby Dream. O resultado tinha tanto de performance sónica como de ritual teatral — eis um registo esclarecedor, no Hard Club do Porto (21-02-2014), com assinatura de Miguel Neves (Campainha Eléctrica).

Trump [citação]

>>> Eis como as coisas tendem a funcionar: Trump diz qualquer coisa de provocatório e factualmente dúbio; o mundo reage, por vezes recuando; Trump não pede desculpa — realmente não — mas lenta e esporadicamente altera as suas observações, desse modo deixando tudo numa espécie de nevoeiro. Numa campanha, este vício do caos é uma coisa; na Casa Branca, seria algo completamente diferente.

JON MEACHAM
in 'What a President needs to know'
Time, 25 Julho 2016

Fotografias do atentado de Nice

FOTO: Eric Gaillard/Reuters
A aceleração televisiva tornou-se presente e omnipresente, confrontando-nos com uma questão simultaneamente jornalística e ética (ou de ética jornalística): não é por vermos as coisas muito "depressa" que vemos melhor; por vezes, a "velocidade" é mesmo uma maneira de não vermos nada, experimentando um clímax tão efémero quanto pueril. Nice, por exemplo — importa olhar para as imagens do atentado de 14 de Julho com outro tempo, libertando a nossa visão da compulsão de passar à frente, essa compulsão que, no limite, anula a intensidade específica de cada imagem.
Daí o valor de um portfolio como aquele que foi organizado pelo blog fotográfico 'The Big Picture', do jornal The Boston Globe — são 39 fotografias reunidas sob o título 'Terror em Nice'.

FOTO: François Mori/AP
FOTO: Olivier Anrigo/EPA

Televisões em Nice — o vício da "análise"

Vendo as imagens televisivas de Nice, o mais importante parecia ser a "análise"... de coisa nenhuma — esta crónica de televisão foi publicada no Diário de Notícias (22 Julho), com o título 'As imagens de Nice'.

Na noite de 14 para 15 de Julho, tomei conhecimento do ataque terrorista em Nice através da televisão. Fixei-me na France 24 (na sua vertente em língua francesa), fazendo um “zapping” mais ou menos regular para a BBC e a CNN. Com o passar dos minutos e a evidência do horror, fui-me apercebendo da lógica de um padrão que, ao longo dos anos, foi sendo “formatado” por canais informativos como estes, exemplos óbvios e incontornáveis da “globalização” em que vivemos (ou dizemos viver).
Que padrão é esse? Pois bem, aquele que privilegia a “análise” para além dos factos — no limite mais bizarro, contra os próprios factos. Falo de quê? Da ânsia pueril de colocar em emissão, em estúdio ou por telefone, alguém que, em nome de uma qualquer “especialização” (política, policial, etc.), emitisse uma opinião tão acelerada quanto possível. Na prática, isto fez com que, logo perante alguns breves e angustiantes fragmentos de imagens de telemóveis, já surgissem pessoas a “comentar” este mundo e o outro.
Repare-se: não estou a levantar qualquer dúvida sobre a seriedade e competências de tais pessoas. O que, creio, importa discutir é esta dicotomia perversa: por um lado, um qualquer sinal de perturbação é automaticamente invadido por uma avalanche de “opiniões” que nem sequer concede à televisão (logo, aos espectadores) a hipótese de apreender um pouco da estranheza dos factos; por outro lado, a informação “satisfaz-se” com o sonambulismo de imagens incessantemente repetidas em que o circunstancialismo individual (a começar pelo telemóvel) ganha estatuto de instrumento mágico de jornalismo.
Na prática, a singularidade de qualquer facto tende a diluir-se num delírio cognitivo que remete a própria realidade noticiada para um plano puramente imaginário — como se não soubéssemos o que estamos a ver, mas acreditássemos na redenção pela “análise”.

sábado, julho 23, 2016

Greatful Dead em 4m 40s

É um dos mais recentes "retratos anotados" propostos pelo site Pitchfork: uma história condensada (são apenas 4m 40s...), mas muito directa e sugestiva, dos Grateful Dead, a lendária banda de Jerry Garcia (1942-1995).


* * * * *

Entretanto, aqui fica um registo épico (neste caso, com uma duração de 3 horas...) de um concerto dos Grateful Dead há 40 anos — foi no Capitol Theatre (Passaic, New Jersey), no dia 19 de Junho de 1976.

À esquerda de Trump

* "Cem dias para o parar" — escreve o jornal Libération na sua edição de fim de semana.

* Claro que, em última análise, o que está em causa não é uma missão jornalística mas, obviamente, a tarefa da candidatura do Partido Democrático: "Agora, só Hillary Clinton pode pará-lo na sua corrida à Casa Branca."

* De qualquer modo, este alarmismo securitário é muito típico de uma certa informação conotada com o imaginário da chamada esquerda — e que, evitemos o simplismo maniqueísta, contamina também muitos discursos ligados a sensibilidades que se definem à direita.

* Durante meses e meses, tal informação tratou Donald Trump como uma figura caricata e risível, susceptível de ser reduzida a manchetes mais ou menos divertidas. Agora, ficamos a saber que é preciso "pará-lo".

* Na prática, isto significa que predomina uma atitude irónica e pueril face à simples possibilidade de travar qualquer debate genuinamente ideológico — mesmo quando, desde o primeiro instante, estavam lá as componentes demagógicas e a lógica populista do discurso de Trump (em boa verdade, desde 1988, quando Trump, questionado por Oprah Winfrey, admitiu a possibilidade de se candidatar à Presidência dos EUA).

* Triunfa, assim, um jornalismo do niilismo permanente, promovendo a angústia da impotência contra o simples gosto de pensar — com as gratificações próprias da boa consciência de esquerda.

A IMAGEM: Julia Noni, 2016

JULIA NONI
'Get your beach body fast'
Harper's Bazaar, Maio 2016

sexta-feira, julho 22, 2016

Cinema, futebol e populismo

Eis um filme sobre Pelé que, desgraçadamente, nem sequer construir uma perspectiva formalmente consistente sobre o próprio futebol — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Julho), com o título 'Futebol e populismo'.

Por certo motivada pelas recentes convulsões do Euro de futebol, a estreia do filme Pelé: o Nascimento de uma Lenda, realizado por Jeff e Michael Zimbalist (irmãos americanos com uma carreira sobretudo na área do documentarismo televisivo) traz à memória um outro filme — Fuga para a Vitória (1981), de John Huston — em que o próprio Pelé participou como actor, contracenando com Michael Caine e Sylvester Stallone; nele se narrava a odisseia de um grupo de prisioneiros num campo alemão, durante a Segunda Guerra Mundial, que utilizavam um jogo de futebol (contra os próprios alemães) para montar uma fuga espectacular.
Há uma estranha componente a unir os dois filmes: ambos encenam de forma superficial, involuntariamente anedótica, os lances do futebol. No primeiro caso, por certo um dos momentos menos felizes da notável filmografia de Huston, o jogo reduz-se a uma acumulação de piruetas físicas que, na melhor das hipóteses, podem fazer lembrar alguns movimentos do futebol americano; agora, o futebol surge como uma curiosidade mais ou menos pitoresca, afogada no miserabilismo populista com que é encenada a juventude do protagonista.
Eis um paradoxo que dá que pensar: por um lado, somos todos os dias visados por uma informação televisiva que transformou o futebol em instrumento de medida da actividade humana (“a equipa trabalhou muito bem”), celebrando-o como padrão único e asfixiante do conceito de patriotismo; por outro lado, o cinema revela uma patética incapacidade para lidar com a especificidade do jogo, como se só o pudéssemos apreciar através da mitificação simplista dos seus intérpretes. No final de Pelé: o Nascimento de uma Lenda, as imagens de arquivo têm mais intensidade e transportam mais emoção que qualquer momento do próprio filme.

SOUND + VISION Magazine / FNAC
— hoje, especial SPIELBERG

Rodagem de E.T., o Extraterrestre (1982)
— com Drew Barrymore
Das aventuras épicas de Tubarão (1975) às aventuras mágicas de O Amigo Gigante (2016), Steven Spielberg está na linha da frente da história artística, técnica e industrial do cinema das últimas quatro décadas. A sua obra será o tema central da próxima edição do nosso magazine — hoje, dia 22, às 18h30, na FNAC/Chiado.

O movimento segundo Sollers

Tempos difíceis. Tempos de angustiado humor. Philippe Sollers continua a escrever livros magníficos sobre a sua/nossa sociedade submetida ao "império dos simulacros" (é assim que ele designa a televisão), feita de muitas relações de indivíduos que já não vêem o movimento — e que, desse modo, perderam a singularidade que, justamente, os individualizava.

>>> Pascal, matemático místico, escreveu coisas deste género:
"Quero mostrar-vos uma coisa infinita e indivisível: é um ponto que se move por todo o lado a uma velocidade infinita, porque está em todos os lugares e está, por inteiro, em cada lugar."
Será que o leitor vê este movimento? Não? tanto pior.
[pág. 41]

Mouvement (ed. Gallimard, 2016) é esse romance construído sob o signo de Hegel (La vérité est le mouvement d'elle-même en elle-même — eis a citação de abertura) em que a observação mais íntima convive com aqueles que arriscaram pensar os limites, todos os limites. Tudo assombrado (o assombramento é, aqui, uma coisa feliz) pela presença imensa, incansável e sem cansaço, silenciosa e convulsiva, desses objectos de todos os futuros que são os livros.

>>> (...) os verdadeiros livros, radicalmente acordados, dormem de punhos cerrados, é a sua força. Estes blocos de sono são de uma lucidez incrível. Sei onde encontrá-los e como lhes falar.
[pág. 59]

Os livros de Sollers dos últimos anos (no limite, talvez toda a sua obra) podem ser percorridos como capítulos abertos, mas formalmente delimitados, de uma intransigência de viver e escrever que envolve sempre a defesa da irredutibilidade da própria escrita. Ele vive, afinal, essa memória magoada de um tempo em que escrever era uma arte de viver, não uma mensagem cifrada de telemóvel — vale a pena referir que, na gíria adoptada na língua francesa, um SMS é um texto [têxtô]. Em causa está a administração literária da solidão, esse admirável mecanismo de reconhecimento do outro.

>>> Ela não dorme se não recebeu o seu texto. Bruscamente, inventa um encontro profissional importante: texto. Dir-se-ia que é o seu ADN que a convoca, está pronta a sacrificar tudo por um virtuoso do texto. Já não lê mais nada a não ser as suas mensagens, os livros são demasiado longos e demasiado difíceis, baralham-se perante os seus olhos. A televisão, a rádio, o telefone vocal são desertos de aborrecimento. Tão convincente como a cocaína: o texto flash.
[pág. 138]  

quinta-feira, julho 21, 2016

Kirsten Dunst adapta Sylvia Plath

SYLVIA PLATH
(1932-1963)
Digamos que a actriz Kirsten Dunst não hesita perante as dificuldades: a sua estreia na realização será, nada mais nada menos, com a adaptação de The Belle Jar, romance semi-autobiográfico de Sylvia Plath, publicado em 1963: Dakota Fanning assumirá o papel central, estando o arranque das filmagens previsto para o primeiro trimestre de 2017 — a notícia foi divulgada em primeira mão pelo site Deadline.

quarta-feira, julho 20, 2016

Garry Marshall (1934 - 2016)

Veterano da comédia televisiva e cinematográfica, o americano Garry Marshall faleceu no dia 19 de Julho, em Burbank, California, vítima de pneumonia — contava 81 anos.
O nome de Marshall ficou definitivamente consagrado graças a Pretty Woman (1990), comédia romântica de enorme sucesso, com Julia Roberts e Richard Gere — é também um dos melhores exemplos das suas qualidades como director de actores. Em qualquer caso, na altura, ele era já um reconhecido realizador, sobretudo através das séries televisivas The Odd Couple (1970-1975) e Happy Days (1974-1984), esta de sua autoria, em 2009 transformada em espectáculo musical. The Odd Couple foi também decisiva para a afirmação de sua irmã, Penny Marshall (n. 1943), mais tarde também realizadora.
Entre os seus trabalhos em cinema, destacam-se ainda Frankie e Johnny (1991), com Michelle Pfeiffer e Al Pacino, Noiva em Fuga (1999), de novo com o par de Pretty Woman, e O Diário da Princesa (2001), com Julie Andrews e Anne Hathaway; a sua derradeira realização foi Um Dia de Mãe, estreado entre nós no passado mês de Abril. Publicou os livros de memórias Wake Me When It's Funny: How to Break into Show Business and Stay There (1995) e My Happy Days in Hollywood (2012).
Este é um registo do programa televisivo Today (NBC), assinalando os 25 anos de Pretty Woman, com Marshall e os principais nomes do elenco.


>>> Obituário no New York Times.

A IMAGEM: Cindy Sherman, 1977

CINDY SHERMAN
Untitled Film Still # 7
1977

Redescobrindo Steve Zaillian

Digamos, para simplificar, que a série The Night of (TVCine) — com um elenco que inclui, entre outros, John Turturro [cartaz], Riz Ahmed e Bill Camp — é um dos grandes acontecimentos televisivos da actualidade. Além do mais, através dela reencontramos um nome fundamental da história recente do cinema americano: Steve Zaillian — este texto está publicado na edição nº 40 da revista Metropolis, com o título 'Zaillian: argumentista/realizador'.

A série televisiva The Night of envolve vários nomes de grande prestígio na história das últimas décadas do cinema americano, incluindo Richard Price e Steve Zaillian. O caso de Zaillian justifica um breve sublinhado, quanto mais não seja porque ele pode ser considerado como uma das brilhantes encarnações modernas de um estatuto que, no período clássico, adquiriu configurações muito especiais (lembremos o exemplo emblemático de Joseph L. Mankiewicz) — dito de outro modo: Zaillian é um brilhante argumentista/realizador.
Steve Zaillian
Na história de Hollywood, Zaillian ocupa um lugar de honra, decorrente do Oscar ganho com o seu trabalho de argumento (adaptado) para A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg. Foi a sua segunda nomeação, três anos depois de Despertares, de Penny Marshall, com Robert De Niro, filme baseado nos escritos de Oliver Sacks. Depois disso, foi nomeado mais duas vezes, por argumentos partilhados com outros autores: primeiro, por Gangs de Nova Iorque (2002), de Martin Scorsese; depois, com Moneyball (2012), de Bennett Miller.
A estreia de Zaillain ocorreu em 1985, como argumentista de O Jogo do Falcão, de John Schlesinger, inspirada num caso verídico de espionagem. Em 1993, escreveu e dirigiu um filme belíssimo, daqueles que nunca estrearam nas salas portuguesas (embora tenha sido editado em cassete): chama-se Searching for Bobby Fischer (título português: Jogada Inocente) e segue a odisseia de uma criança, pequeno génio do xadrez, que acredita poder vir a assumir um estatuto idêntico ao campeão Bobby Fischer.
Zaillian realizou mais dois filmes: A Qualquer Custo (1998), um drama de tribunal, e O Caminho do Poder (2006), sobre os bastidores políticos de uma comunidade do Sul dos EUA. Como argumentista, a sua assinatura surgiu ligada a títulos tão significativos como Missão Impossível (1996), de Brian De Palma, Hannibal (2001), de Ridley Scott, e Millenium 1: Os Homens que Odeiam as Mulheres (2011), de David Fincher. Ultimamente, o seu nome tem sido associado a um possível projecto de Spielberg, Montezuma, concebido a partir de um argumento escrito, e nunca filmado, por Dalton Trumbo.

terça-feira, julho 19, 2016

No coração de Elton John

Lançado no passado mês de Fevereiro, o álbum Wonderful Crazy Night permitiu-nos reencontrar um Elton John fiel ao seu rock em tom intimista, piano q.b.; agora, podemos revê-lo também como personagem de um dos seus telediscos (o que já não acontecia há cerca de uma década) — com direcção de Daniel Kragh-Jacobsen, A Good Heart é mesmo feito com o coração.

Sokurov filma o Louvre

Nem documentário, nem ficção: Francofonia é mais uma proposta admirável de Aleksandr Sokurov — este texto foi publicado no Diário de Notícias (16 Julho), com o título 'O museu do mundo todo'.

Decididamente, para Aleksandr Sokurov, um museu não é um armazém. Nem uma colecção de cromos. Em A Arca Russa (2002), a sua câmara percorria o Hermitage, em São Petersburgo, numa vertigem de continuidade (era um filme feito num único plano, convém recordar) que se ia tornando paradoxalmente descontínua, expondo as memórias, deslumbradas e magoadas, de uma Rússia ainda desconhecedora das convulsões do comunismo. Agora, em Francofonia, Sokurov vem-nos dizer o que já sabíamos — o Louvre como imensa galáxia de história e histórias —, embora levando-nos a discutir muitas certezas correntes sobre a conservação do património artístico.
Aleksandr Sokurov
Será, por isso, irrelevante encaixar Francofonia em qualquer modelo de “documentário” ou “ficção”. Este é o filme em que o próprio Sokurov se coloca em cena, perante o ecrã do seu computador, inquirindo sobre as inusitadas atribulações a que os humanos sujeitam os objectos artísticos. Mais do que isso: a frieza jornalística dos factos evocados não impede que Napoleão “saia” das telas, vagueando pelas salas do Louvre, apontando os quadros e proclamando, com compreensível orgulho, “sou eu”.
Em qualquer caso, o cerne da questão está na relação que, durante a ocupação alemã, se estabeleceu entre o director do museu e o oficial nazi encarregado de administrar a “cultura” (interpretados, respectivamente, por Louis-Do de Lencquesaing e Benjamin Utzerath). Nessa relação, Sokurov descortina uma cumplicidade tão discreta quanto tácita que, por abençoada perversidade, conseguiu conter o desejo de “exportação” de muitas obras-primas do Louvre, alimentado, em Berlim, por Hitler e Goebbels. São memórias multifacetadas da Segunda Guerra Mundial que, além do mais, conduzem o cineasta a evocar as feridas da sua pátria e, em particular, a resistência trágica de Leninegrado (aliás, São Petersburgo).
Daí a luminosa moral de Francofonia: um museu não é exactamente um lugar para contemplar a arte do mundo, mas mais uma paisagem viva que, no limite, nos permite ver o mundo todo.

Os Jogos Olímpicos por Katy Perry

Katy Perry também está ligada à promoção dos Jogos Olímpicos [Rio 2016], com a canção Rise. Com a eficácia mais ou menos previsível, mas obviamente competente, de um "hino", o tema apresenta-se num teledisco de notável elegância visual, com assinatura de Joseph Lee — é mesmo um daqueles casos em que a linguagem mais ou menos codificada (pensada, sobretudo, para o contexto televisivo) consegue superar com brilhantismo as suas próprias convenções.