terça-feira, agosto 30, 2016

"A Hard Rain's a-Gonna Fall" [canções]

LEON RUSSELL
A Hard Rain's a-Gonna Fall
Leon Russell and the Shelter People (1971)


Gene Wilder (1933 - 2016)

Sobretudo ao longo da década de 60, foi um símbolo popularíssimo de um humor capaz de combinar a ternura e o absurdo: o americano Gene Wilder faleceu no dia 28 de Agosto, na sua casa de Stamford, Connecticut, devido a complicações motivadas pela doença de Alzheimer — contava 83 anos.
Com uma carreira iniciada no teatro, Wilder teve a maior parte dos seus momentos de eleição em filmes dirigidos por Mel Brooks, com inevitável destaque para Frankenstein Júnior (1974), uma paródia desconcertante, elegante e poética, sobre as convenções dos clássicos filmes sobre o Dr. Frankenstein e o seu monstro de laboratório; Brooks dirigiu-o ainda em O Falhado Amoroso (1967) e Balbúrdia no Oeste (1974). Também seduzido pela realização, estreou-se com As Aventuras do Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes (1975), tendo conseguido o seu maior sucesso através da comédia romântica A Mulher de Vermelho (1984). Com uma fase final de carreira mais dedicada à televisão, o derradeiro título de cinema em que participou foi Outra Vez Tu? (1991), uma comédia de Maurice Phillips em que contracenava com Richard Pryor. É autor de vários contos e romances: em 2005, publicou o livro de memórias Kiss Me Like a Stranger: My Search for Love and Art.

>>> Trailers: Balbúrdia no Oeste + Frankenstein Júnior + A Mulher de Vermelho.






>>> Obituário no New York Times.

segunda-feira, agosto 29, 2016

Moses Sumney — corpo a corpo

FOTO: Shayan Asgharnia
Senhor de uma voz tão transparente quanto enigmática, Moses Sumney é uma revelação dos últimos meses (um EP, vários singles, nenhum álbum) que hesitamos em encerrar num rótulo — herança soul, reminiscências folk, inspirações tão diversas como Shania Twain e Karen O... O seu novo single, Worth It, pode ser um exemplar cartão de visita da sua misteriosa versatilidade, para mais servido por um teledisco, dirigido por Allie Avital, capaz de emprestar novos significados à palavra sensualidade — ou como a encenação de um corpo real envolve sempre o confronto com um corpo imaginário.

Quando os ecrãs eram mesmo grandes...

A CONQUISTA DO OESTE (1963)
Os formatos "largos" dos anos 50/60 contam-nos uma história empolgante que os valores televisivos nem sempre reconhecem — este texto foi publicado no Diário de Notícias (22 Agosto), com o título 'Memórias atribuladas da cinefilia'.

O público contemporâneo de cinema tem sido (des)educado para uma grandiosidade postiça. Mesmo não esquecendo as excepções, há muitos filmes fabricados para as novas salas IMAX que não sabem o que fazer com o gigantismo do ecrã, confundindo espectáculo com agitação física da câmara, utilizada como se fosse um telemóvel histérico (além do mais, não nos dando tempo para observar o que quer que seja).
Há dias, deparei com um interessante paradoxo: num canal televisivo do cabo (AMC), encontrei A Conquista do Oeste (1962), símbolo modelar da época áurea das “superproduções”, que podemos situar entre A Ponte do Rio Kwai (1957), de David Lean, e 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick.
O paradoxo provém da conjuntura industrial e comercial em que tais filmes nasceram. O seu principal objectivo era oferecer ao espectador uma dimensão (grandiosa) que contrariasse a baixa de frequência das salas escuras motivada pela generalização caseira do aparelho de televisão. O CinemaScope e o 70mm são formatos emblemáticos desse tempo, tal como o raríssimo CineramaA Conquista do Oeste é o mais lendário exemplo de tal formato, agora revisto na “pequenez” do ecrã televisivo.
O Cinerama tinha uma imagem resultante de uma filmagem com três câmaras “paralelas” de 35mm, sendo concebido para ser projectado por três projectores num ecrã imenso. As exigências técnicas e os custos envolvidos fizeram com que, na maior parte dos mercados (incluindo Portugal), o filme fosse distribuído em cópias de 70mm que resultavam da “colagem” das três imagens parcelares — na prática, viam-se duas linhas verticais a dividir o ecrã em três zonas mais ou menos quadradas.
A cópia agora mostrada em televisão é tanto mais fascinante quanto preserva a largura da imagem original, além de corrigir a “colagem” das três imagens parcelares. Infelizmente, o site do canal que exibe o filme está longe de valorizar tão notável produto. Há um texto banalíssimo que nem sequer sublinha o facto de se tratar de uma realização tripartida (John Ford, Henry Hathaway, George Marshall), limitando-se a fornecer links dos actores principais (Carroll Baker, Lee J. Cobb, Henry Fonda, etc.) para o IMDb. Mesmo a referência aos Óscares ganhos pelo filme tem imprecisões na caracterização das respectivas categorias: escreve-se “melhor argumento, história e guião”, traduzindo apenas uma parte do que está no IMDb (o essencial era “melhor argumento original”), e refere-se “melhor edição”, aplicando a gíria televisiva, ignorando-se que o termo cinematográfico é “montagem”. Há outra maneira de dizer isto: o lugar-comum televisivo desconhece o prazer cinéfilo.

domingo, agosto 28, 2016

"Drive All Night" [canções]

BRUCE SPRINGSTEEN
Drive All Night
The River (1980)


"Cartas da Guerra" em português (2/3)

Acontecimento maior na história recente do cinema português, Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira, baseado em D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto/Cartas da Guerra, de António Lobo Antunes, tem estreia marcada para 1 de Setembro.

[ 1 ]

Não podemos (sobretudo, não devemos) favorecer o miserabilismo niilista segundo o qual "nada" sabemos sobre a Guerra Colonial — incluindo o cinema, são muitos os domínios de expressão e investigação em que, nestes últimos 40 anos, se evocou/mostrou/analisou um trauma central na história moderna portuguesa. O certo é que o seu efeito traumático, precisamente, persiste: e se tudo o que fazemos ou dizemos for pouco e escasso para conter tamanha dor?
Cartas da Guerra é também um filme para lidar com esse trauma, antes do mais recusando a ilusória transparência dos testemunhos mais ou menos televisivos que confundem a evocação de "factos" com a densidade pulsional da história — aqui, a perturbação dos desejos que não cabem em palavras (e este é um filme de palavras) dá a ver, paradoxalmente, um caminho factual. Nesta perspectiva, este é também um objecto para nos ajudar a pensar o que é, ou pode ser, um realismo cinematográfico português. Tarefa imensa, filme admirável.

Futebol + árbitros + televisão

MARC CHAGALL
O Passeio
1917
Basta que um "grande" do futebol não ganhe para que o espaço televisivo entre em delírio... — este texto foi publicado no Diário de Notícias (26 Agosto), com o título 'Futebol e fogo'.

Questão comunicacional: porque é que assim que um dos clubes “grandes” (Benfica, Sporting ou F.C. Porto) não ganha um jogo, a arbitragem reentra na grelha obsessiva das televisões? Competentes? Incompetentes? Honestos? Corruptos? Por uma espécie de maldição sazonal, os árbitros de futebol reaparecem na linha da frente, sob uma luz perversa: a discussão não seria motivada pelos seus dotes (ou falta deles), antes nasceria do facto de algum clube “pequeno” ter contrariado as previsões dominantes...
O assunto dá que pensar. Não pela sua especificidade desportiva. Antes porque, muito para além da candura dos treinadores que nunca se irritam com os árbitros quando ganham os jogos, o dispositivo televisivo parece necessitar (?) de algum conflito, potencial ou explícito, para manter aquilo que seria a sua “actualidade”.
O futebol é apenas uma das áreas em que tal acontece, por certo das mais benignas. Entre as mais dramáticas, podemos citar os fogos de Verão. Há vozes indignadas (e não estou, de modo algum, a duvidar das suas muito legítimas razões), verberando a falta de meios dos bombeiros e, sobretudo, a ausência crónica de políticas de prevenção. O certo é que, no sistema simbólico gerado pelas linguagens audiovisuais, a evidência do mal atrai um masoquismo sem rosto cujo único efeito mensurável é o de excluir qualquer hipótese nacional de auto-estima — talvez mesmo de auto-respeito.
Seria simplista e demagógico tentar compreender este estado de coisas desenhando uma fronteira entre “culpados” e “inocentes” — e não estou a excluir de tal cálculo o que se escreve (e como se escreve) sobre televisão. O certo é que, nem que seja por indiferença, somos levados a consumir diariamente doses gigantescas de niilismo. Um primeiro passo para transformar a questão? Talvez deixarem os árbitros de futebol em paz.

sábado, agosto 27, 2016

Rudy Van Gelder (1924 - 2016)

Engenheiro de som ligado a muitos clássicos da história do jazz, em especial do catálogo Blue Note, o americano Rudy Van Gelder faleceu no dia 25 de Agosto, em sua casa, que era também o seu estúdio de gravação, em Englewood Cliffs, New Jersey — contava 91 anos.
Saxophone Colossus (Sonny Rollins, 1956), Walkin’ (Miles Davis, 1957), A Love Supreme (John Coltrane, 1965), Maiden Voyage (Herbie Hancock, 1965) ou Song for My Father (Horace Silver, 1965) são apenas alguns títulos entre as centenas de álbuns a que o seu nome ficou ligado, a maior parte registados no seu estúdio. Estudioso de todas as evoluções técnicas, era reconhecido como alguém capaz de devolver ao ouvinte a dimensão mais íntima da performance do jazz — certamente não por acaso, era célebre o seu empenho em dispor os microfones tão perto quanto possível dos músicos, procurando, como ele gostava de dizer, uma sensação peculiar do "espaço".

>>> Três registos a que ficou ligado o nome de Rudy Van Gelder:
Walkin', Miles Davis (Walkin', 1957)
I Love You, John Coltrane (Lush Life, 1961)
Litha, Stan Getz (Sweet Rain, 1967)




>>> Obituário: New York Times + Downbeat.

sexta-feira, agosto 26, 2016

Steven Hill (1922 - 2016)

Intérprete da personagem de Daniel Briggs na versão original da série televisiva Missão Impossível, o actor americano Steven Hill faleceu no dia 23 de Agosto, em Nova Iorque — contava 94 anos.
Integrava a elite de figuras "anónimas", mas invulgarmente talentosas, que sempre pontuaram a história do cinema americano em papéis secundários, mesmo se é verdade que as duas referências mais universais da sua filmografia são as séries Missão Impossível (1966-67) e Lei & Ordem (1990-2010). Trabalhou, entre outros, sob a direcção de John Cassavetes (Uma Criança à Espera, 1963), George Cukor (Célebres e Ricas, 1981), Sidney Lumet (Fuga sem Fim, 1988), Robert Benton (Billy Bathgate, 1991) e Sydney Pollack (A Firma, 1993). Em 1998 e 1999, foi nomeado para um Emmy de actor secundário pela sua participação em Lei & Ordem.

>>> Obituário na Variety.

Sonia Rykiel (1930 - 2016)

Personalidade incontornável na história da moda do último meio século, a francesa Sonia Rykiel faleceu no dia 25 de Agosto, em Paris, na sequência de complicações motivadas pela doença de Parkinson — contava 86 anos.
Foi ela própria que, em 2012, no livro N'oubliez pas que Je Joue, escrito com a jornalista Judith Perrignon, revelou que sofria de Parkinson. A sua marca na moda francesa e internacional começou a ser construída em 1968, quando abriu a sua primeira loja em Paris. Símbolo de um espírito rebelde e sofisticado, rive gauche, gostava de dizer que concebia as suas peças para uma mulher compelida a "enfrentar a vida", combinando os factores essenciais da "felicidade", da "ternura" e do "humor". Mantendo uma relação criativa com o mundo literário, publicou vários volumes sobre moda, contos para crianças e desenhou as ilustrações para um livro de Colette. Rykiel surgia de modo breve em Pronto a Vestir (1994), filme de Robert Altman em que a personagem interpretada por Anouk Aimée se inspirava na sua carreira.

>>> Derradeira colecção de Outono/Inverno de Sonia Rykiel (7 Março 2016).


2013 — campanha fotografada por Mert Alas e Marcus Piggott
>>> Obituário no jornal Le Monde.

À procura da comédia perdida

Refrigerantes e Canções de Amor relança uma velha ânsia de algum cinema português: reencontrar um passado (dito) radioso da comédia — este texto foi publicado no Diário de Notícias (24 Agosto).

No cinema português persiste uma ferida nostálgica que se exprime através de uma miragem que uns definem como “artística”, outros tratam como “comercial”. A saber: seria preciso reencontrar a magia das comédias mais célebres dos anos 30/40 para redescobrir uma lendária pureza original. Podemos discutir a pertinência de tal nostalgia (alguns desses filmes são francamente rudimentares) e até as suas ilusões históricas (encontramos, nesse domínio, vários aparatosos insucessos de bilheteira). Seja como for, poderá dizer-se que Refrigerantes e Canções de Amor, realizado por Luís Galvão Teles a partir de um argumento de Nuno Markl, nasce dessa nostalgia.
Apesar de tudo, há uma diferença em relação à recente trilogia formada por O Pátio das Cantigas, O Leão da Estrela e A Canção de Lisboa (autoproclamada de “novos clássicos”). Aí, colavam-se lugares-comuns do mais rotinado humor televisivo, dispensando mesmo a construção de qualquer relação pertinente com as lógicas narrativas dos originais. Agora, em Refrigerantes e Canções de Amor, procura-se um tom burlesco que integre a caricatura social e um assumido anacronismo romântico.
Fica-se com a sensação de que os resultados correspondem menos a um projecto coerente e mais a uma colagem de “números” que não foram sujeitos a um verdadeiro labor de unificação narrativa. O retrato do protagonista Lucas (Ivo Canelas), autor de músicas para anúncios de refrigerantes, vai mesmo oscilando entre uma simples colecção de anedotas e um saltitar entre “géneros” (comédia, melodrama, farsa mais ou menos surreal...) que começa por tornar inglórios os esforços de alguns actores, acabando por comprometer a consistência final do projecto.
Parece haver uma tentativa de compensar tudo isso através da integração de algumas personalidades do domínio musical que, ironicamente ou não, estão mais próximas do estatuto de “estrela” que qualquer dos actores do elenco. Também aí, as inadequações prevalecem: Jorge Palma representa-se a si próprio em registo “onírico” cuja pertinência narrativa fica por esclarecer; Sérgio Godinho não chega a ter personagem minimamente definida; enfim, o brevíssimo aparecimento de David Carreira não chega sequer para ser auto-paródico.
Provavelmente, na origem, Refrigerantes e Canções de Amor visava o cruzamento de duas grandes matrizes clássicas da comédia: por um lado, o contundente retrato social em que, mesmo os sinais mais ligeiros, nos remetem para um conjuntura de vida em que nos reconhecemos; por outro lado, um delírio enraizado nas componentes realistas desse retrato, mas abrindo para domínios mais ou menos feéricos ou absurdos. Infelizmente, a fragilidade dos resultados deixa a sensação de que faltou tempo ou imaginação para atingir tais patamares criativos.

Sinatra, opus 1

Numa paisagem de tantas efemérides, há algumas que ecoam, não tanto pela eventual pompa histórico, mas mais pelo modo como nos põem em contacto com qualquer coisa que, de facto, estava a começar. Assim acontece com o primeiro álbum de estúdio de Frank Sinatra (1915-1998) — The Voice of Frank Sinatra foi editado em 1946, quer dizer, há 70 anos.
Canções como You Go to My Head, Someone to Watch Over Me [som aqui em baixo] ou I Don't Stand a Ghost of a Chance with You remetem-nos para um tempo em que, por assim dizer, na rádio e no cinema, Sinatra já tinha consolidado um estatuto que os discos só iriam ampliar — por exemplo, o trailer do filme musical Anchors Aweigh/Paixão de Marinheiro (1945) já o identifica como 'The Voice' [também aqui inserido]. A sublinhar: os arranjos são de Axel Stordahl, personalidade essencial nesta fase em que Sinatra gravava para a Columbia.



Maria Eugénia (1927 - 2016)

Personalidade efémera, mas muito popular, da história do cinema português, Maria Eugénia (nome completo: Maria Eugénia Rodrigues Branco Pinto do Amaral) faleceu no dia 25 de Agosto, em Lisboa — contava 89 anos.
Embora tenha uma filmografia que não chega à dezena de títulos (alguns deles rodados em Espanha), Maria Eugénia é, no contexto português, um caso raro de alguém que construiu uma verdadeira persona cinematográfica, capaz de transcender épocas e gerações. Para tal bastou um filme: A Menina da Rádio (1944), de Arthur Duarte — a personagem de 'Geninha', com a sua voz a experimentar as maravilhas do novo modo de difusão dos sons, valeu-lhe o epíteto de 'Menina da Rádio'. Ainda surgiu em O Leão da Estrela, de novo sob a direcção de Arthur Duarte, mas decidiu retirar-se no final dos anos 40, depois de se casar com o médio António Pinto do Amaral.

>>> Canção Sonho de Amor, no filme A Menina da Rádio.


>>> Obituário no Diário de Notícias.

quinta-feira, agosto 25, 2016

"Na Cama com Madonna", 25 anos

Madonna esteve numa projecção especial de Na Cama com Madonna (título original: Truth or Dare), no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMa), assinalando o 25º aniversário do filme — realizado por Alek Keshishian, trata-se de um documentário histórico, historicamente inovador, sobre a 'Blond Ambition Tour' (1990). No seu Instagram, Madonna lembrou que "há tantas liberdades que damos por adquiridas e que não tínhamos nessa altura"; agradecendo a Keshishian, remata dizendo: "Mudámos a história com este filme."
A frase não tem nada de pomposo ou exagerado. Na Cama com Madonna é um exercício sobre o espectáculo e os bastidores, o ser personagem pública e viver uma vida privada, em última instância problematizando a ética e a estética do cinema no interior de tais dialécticas. Nada a ver com qualquer "antecipação" da reality TV, uma forma específica, moralmente viciada e viciosa, de manipulação e encenação — é o próprio Keshishian que faz questão em sublinhar tais diferenças, numa excelente entrevista dada a Louis Virtel, da revista Paper.
Estamos, afinal, perante uma experiência indissociável de todo um sistema de reconversão iconográfica e superação simbólica do(s) sexo(s) que Madonna protagonizou como ninguém. Num belo texto publicado no site do MoMa, Izzy Lee lembra tudo isso, chamando-lhe, não 'Rainha da Pop', mas 'Mãe da Pop'.

quarta-feira, agosto 24, 2016

DJ Shadow — parábola política

The Mountain Will Fall, quinto álbum de DJ Shadow, tem um novo e desconcertante teledisco, dirigido por Sam Pilling. O tema Nobody Speak, feito em colaboração com Run the Jewels, é encenado como uma parábola política sobre um (des)entendimento de líderes, num cenário que podemos associar a um certo visual das Nações Unidas, mas também, perversamente, à dantesca sala de reuniões do clássico Dr. Strangelove (1964), de Stanley Kubrick — é um belo exemplo de como as palavras do rap podem associar-se a imagens que desafiam a representação automática, automaticamente televisiva, da paisagem política.

Picture this
I'm a bag of dicks
Put me to your lips
I am sick
I will punch a baby bear in his shit
Give me lip
I'ma send you to the yard, get a stick, make a switch
I can end a conversation real quick

I am crack
I ain't lying kick a lion in his crack
I'm the shit, I will fall off in your crib, take a shit
Pinch your momma on the booty, kick your dog, fuck your bitch
Fat boy dressed up like he's Santa and took pictures with your kids

We the best
We will cut a frowny face in your chest, little wench
I'm unmentionably fresh, I'm a mensch, get correct
I will walk into a court while erect, screaming "Yes!
I am guilty motherfuckers, I am death."

Hey, you wanna hear a good joke?

Nobody speak, nobody get choked

Get running
Start pumping your bunions, I'm coming
I'm the dumbest, who flamethrow your function to Funyons
Flame your crew quicker than Trump fucks his youngest
Now face the flame fuckers your fame and fate's done with

I rob Charlie Brown, Peppermint Patty, Linus and Lucy
Put coke in the doobie roll woolies to smoke with Snoopy
I still remain that dick grabbing slacker that spit a loogie
Cause the tolda of the toolie'll murder you friggin' Moolies
Fuck outta here, yeah

Nobody speak, nobody get choked, hey! [x2]
Nobody speak
Nobody speak

Only facts I will shoot a
Baby duck if it quacks, with a Ruger
Top billin', come cops and villainous shots is blocked, shipped out, and bought, and you're feeling it
El-P killing it, Killer Mike killing shit

What more can I say? We top dealing it
Valiant without villiany
Viciously file victory
Burn towns and villages
Burning looting and pillaging

Murderers try to hurt us we curse them and all their children
I just want the bread and bologna bundles to tuck away
I don't work for free, I am barely giving a fuck away

So tell baby Johnny and Mommy to get the fuck away
Heyyo here's a gun son now run get it to gutterway
Live to shoot another day

Nobody speak, nobody get choked, hey! [x2]
Nobody speak
Nobody speak
Nobody speak, nobody get choked


DR. STRANGELOVE (1964)

"A vingança da vagina" [L'Obs]

Vale a pena ler o dossier proposto pela revista francesa L'Obs (herdeira de Le Nouvel Observateur), na sua edição de 11/17 Agosto, sobre as representações do sexo feminino: é a "história de um tabu", como se diz na capa, alimentado por discursos prisioneiros de lógicas masculinas; e é também "a vingança da vagina", de acordo com o título do artigo principal, assinado por Cécile Deffontaines. A abordagem é especialmente sugestiva, sobretudo porque não se apresenta prisioneira das pulsões imagéticas — o sexo (feminino ou não) é também o modo como o dizemos e escrevemos; esta é também, é mesmo sobretudo, uma história de palavras.
Em qualquer caso, sublinhe-se a singularidade da capa da revista, mostrando (literalmente) que a história que se conta não pode ser reduzida aos seus efeitos contemporâneos: nela encontramos uma reprodução do célebre quadro A Origem do Mundo, produzido por Gustave Courbet há exactamente 150 anos e exposto em Paris, no Museu d'Orsay.
Para além da saudável ironia que contamina esta abordagem das questões muito sérias que envolvem o ver & dizer das imagens do(s) sexo(s), há também em tudo isto um humor amargo, amargamente involuntário. Assim, num divertido artigo intitulado '"Pussy" rap', Fabrice Pliskin propõe uma sugestiva antologia do modo como, entre outras, Rihanna, Missy Elliott ou Azealia Banks, integram a sua vagina naquilo que dizem e cantam... Assim é. Mas talvez valha também a pena lembrar que, há mais de um quarto de século, quando uma tal Madonna (nomeadamente fotografada pelo grande Herb Ritts) punha a mão "onde não devia", meio mundo protestava contra os gestos gratuitos de uma estrela mimada... Encore un effort... 

A ORIGEM DO MUNDO (1866), de Gustave Courbet
Museu d'Orsay
Interview (Junho 1990)
FOTO: Herb Ritts

"I Can't See Why" [canções]

BAXTER
I Can't See Why
Baxter (1998)


"Cartas da Guerra" em português (1/3)

Acontecimento maior na história recente do cinema português, Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira, baseado em D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto/Cartas da Guerra, de António Lobo Antunes, tem estreia marcada para 1 de Setembro.

Subitamente, somos confrontados com uma questão esquecida: como é que se fala o português nos filmes portugueses?
A questão não é teórica, muito menos abstracta, mas eminentemente social. Afinal de contas, em Love on Top e, de um modo geral, nos espaços da "reality TV", somos todos os dias agredidos pela metódica decomposição do falar português, e até da simples arte de falar — importa reagir a essa violência normalizada.
As cartas escritas pelo autor são terreno de uma intimidade em filigrana, como lembram Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes no prefácio do livro: "As cartas deste livro foram escritas por um homem de 28 anos na privacidade da sua relação com a mulher, isolado de tudo e todos durante dois anos de guerra colonial em Angola, sem pensar que algum dia viriam a ser lidas por mais alguém. Não vamos aqui descrever o que são essas cartas: cada pessoa irá lê-las de forma diferente, seguramente distinta da nossa. Mas qualquer que seja a abordagem, literária, biográfica, documento de guerra ou história de amor, sabemos que é extraordinária em todos esses aspectos." O cinema é, por isso, aquilo que chega no futuro do livro, refazendo-o, pela sua magia narrativa, para o nosso presente — este é, afinal, um filme que nos faz sentir que as palavras que alguém legou acontecem também como matéria viva daquele que lê ou vê.