quarta-feira, Setembro 17, 2014

Os meus dez livros


É um dos desafios que neste momento corre entre entre "amigos" no Facebook: cada um conta quais foram os 10 livros que mais o/a marcaram, e passa ao outro e não ou mesmo, ou seja, lança depois o mesmo pedido a dez amigos... Recebi o meu hoje de manhã e respondi:

- 'O Admirável Mundo Novo', de Aldous Huxley
- 'O Resto É Ruído', de Alex Ross
- 'O Mistério da Grande Pirâmide', de Edgar P Jacobs
- 'A Derrocada da Baliverna', de Dino Buzzati
- 'Antes que Anoiteça', de Reinaldo Arenas
- 'As Horas', de Michael Cunningham
- 'Sou Todo Ouvidos', de Joseph Mitchell
- 'Crónicas Marcianas', de Ray Bradbury
- 'Adeus a Berlim', de Christopher Isherwood
- 'O Retorno', de Dulce Maria Cardoso

Mas reparei então que muitos ficaram de fora e por isso mesmo, e a partir de amanhã, vou apresentar aqui, aos poucos, os meus 100 livros. E como gosto destes projetos de grandes dimensões, juntarei os meus 100 discos. E os meus 100 filmes...

Ver + ouvir:
The Voyeurs, England Sings Rhubarb Rhubarb



Com o tempo em contagem descrescente para a edição do álbum Rhubarb Rhubarb, aqui fica aquele que é o mais recente teledisco apresentado pelos The Voyeurs. A realização é de Kenichi Iwasa.

Novas edições:
Future Sound of London

“Environment Five”
FSOL Digital
3 / 5

Quando surgiram, na alvorada dos anos 90, com o álbum Accelerator (1991) e o influente single Papua New Guinea, os Future Sound of London rapidamente conquistaram um lugar de relevo na linha da frente de uma nova geração de músicos que, munidos de ferramentas electrónicas, procuravam desbravar novos caminhos depois de assimiladas tanto as lições que a revolução house havia lançado no final da década anterior como as que a ressaca chill out entretanto tinha também colocado em cena. Experimentadores natos, tiveram o seu momento maior no belíssimo Lifeforms, álbum duplo que se fez referência maior do seu tempo. Seguiram-se novos discos e novas experiências – entre as quais uma digressão feita com atuações ao vivo usando linhas ISDN – e, mais tarde, uma multidão de aventuras apresentadas sobre vários heterónimos, em nenhum caso repetindo contudo a capacidade de marcar o tempo, nem mesmo repetindo os mesmos patamares de inspiração dos primeiros feitos assinados como FSOL (como muitas vezes o grupo era referido na imprensa da época). Confesso que a última vez que os tinha escutado foi quando em 2002 editaram The Isness, um álbum que apresentaram sob o nome Amorphous Androgynous. Desde então dividiram o tempo entre vários projetos (revelados sob muitos nomes), trabalhos de índole técnica e uma relativamente regular presença discográfica como FSOL numa série a que chamaram Environments e na qual foram apresentando material de arquivo. O novo Environment Five é assim o quinto volume desta série (lançado dois anos após o quarto), mas assinala uma mudança de fundo: é um disco de inéditos. Contando com contribuições do compositor Daniel Pemberton, Raven Bush (Syd Arthur) e Riz Maslen (Neotrpoic), este é na verdade o primeiro álbum “novo” dos FSOL desde Dead Cities (1996). Há marcas de identidade evidentes, sobretudo no design cenográfico digital que define os ambientes... A presença de outros instrumentos não se esgota contudo no que poderia ser um alargamento das qualidades tímbricas do som. Na verdade a sua presença segue caminhos que quase evocam soluções dos tempos do progressivo, o diálogo entre tempos e formas acabando por sem sempre resultar da melhor maneira. Ocasionalmente há contudo instantes que recuperam a visão de uma dupla que fez história. Talvez esteja agora longe da linha da frente onde outrora operava. Mas está de volta. E isso não é nada mau.

Em conversa: Ron Peck


Importante pioneiro na criação de uma cinematografia queer britânica, Ron Peck é um dos nomes em foco na edição deste ano do Queer Lisboa. A sua presença na programação desta edição do Queer Lisboa faz-se também através daquela que é a segunda exibição mundial (ou seja a estreia europeia continental) de Will You Dance With Me?, de Derek Jarman, filme que nasceu de uma fita em vídeo que o autor de Caravaggio e Sebastienne rodou no mítico Benjy's, de Londres (e que teve estreia mundial na edição deste ano do BFI Flare. Antes de um contacto pessoal com o realizador, que estará em Lisboa para apresentar alguns dos títulos desta retrospetiva, fica uma entrevista na qual percorre, entre memórias, os seis filmes que o festival vai exibir.

Nighthawks foi a primeira longa metragem inglesa com temática gay. Que impacte teve o filme na sociedade e cultura britânica da época?O filme foi notado e recebeu muita atenção da imprensa porque deu uma nova visibilidade ao tema. Também encontrou um grande público tanto a nível nacional como internacional e todo o tipo de controvérsias apareceram à sua volta, o que lhe deu até maior longevidade nas salas de cinema. Por exemplo, o filme dividiu o público gay por concentrar atenções na cena cruising, nos bares e clubes. Havia quem quisesse uma história de amor mais convencional com um final feliz. Outros queriam ver uma cena gay alternativa. Mas outro dos aspetos muito discutido na época foi o uso de atores não profissionais e a presença da improvisação. A melhor reação foi que o filme levou as pessoas a falar e a discutir, tanto defendendo-o como atacando-o. Abriu as temáticas gay um pouco a um público bem maior.

De que forma o quadro de Edward Hopper – Nighthawks (de 1942) – foi uma influência para o filme?
Descobri a pintura de Hopper na mesma altura em que regressava a Londres após alguns anos vividos fora, na universidade. Foi na altura em que fui para a London Film School. Foi também por essa altura que descobri a cena gay londrina – por acaso – e inicialmente achei difícil lidar com isso. Era um jovem tímido. As pinturas de Hopper, como expressões, correspondem muito de perto face ao que eu sentia sobre os ambientes em que vivia. Um bar gay pode estar apinhado como uma estação de metro em hora de ponta mas podemos sentirmo-nos tremendamente isolados lá dentro. O Nighthawks do Hopper captou para mim o clima, a essência da coisa.

Foi ao preparar a rodagem de Empire State que uma noite na discoteca Benjy’s acabou por ser filmada por Derek Jarman. Essas ideias por ele captadas foram de facto úteis para a rodagem do filme?
Teriam sido úteis na concepção inicial do filme. O trabalho do Derek mostra essencialmente o que um homem pode soltar com uma simples câmara. Está muito mais perto do espírito do Nighthawks e, claro, do trabalho do Derek em Super-8 muito particularmente. É cinema livre no maior sentido da palavra. O Empire State, com o seu financiamento mainstream, teve se ser feito em moldes bem diferentes.

Aquelas imagens captadas por Derek Jarman ficaram ali guardadas anos a fio. Como regressou a elas e como é que delas depois nasceu o filme Will You Dance With Me?
Nunca me tinha esquecido daquela cassete do Derek. Com toda a publicidade em volta dos acontecimentos e projeções deste ano, assinalando os 20 anos da morte do Derek, voltei a ver a cassete, mas na companhia de outros amigos realizadores e eles ficaram espantados. Por isso mostrei-a depois ao Brian Robinson no BFI e ele programou-o imediatamente para o auditório do BFI onde decorria tanto o festival de cinema London Flare como uma retrospetiva do trabalho do Derek. Foi um exercício, uma experiência, e naturalmente não tinha titulo. E porque a dada altura o Derek pergunta a alguém para dançar com ele no filme, e como toda a peça anda à volta dele a filmar a dança, o título Will You Dance With Me? pareceu-me apropriado.

Podem ler aqui a entrevista completa

O festival vai apresentar uma retrospetiva com seis dos seus filmes, entre os quais o histórico Nighthawks (1978), a primeira longa metragem de ficção britânica com temática gay. A retrospetiva junta a este filme as longas de ficção Empire State, (1987) Real Money (1996) e Cross Channel (2011) e os documentários Strip Jack Naked (1991) e Fighters(1996).

A abertura do ciclo faz-se sábado, dia 20, pelas 19.15, na sala 3 do Cinema São Jorge com uma exibição de Nighthawks que contará com a presença em sala do realizador.

A imagem que abre o post é do filme 'Cross Channel

Para ouvir: Gonzalez revisita Arthur Russell

Mais uma versão que integra o próximo volume da série de lançamentos da Red + Hor Organizattion, que terá Arthur Russell como homenageado. Esta é e versão que Jose Gonzalez gravou do tema This Is How We walk On The Moon.

Podem ouvir o tema aqui.

Para ler: 'Pride', ou quando os mineiros
lutaram ao lado de ativistas LGBT


Memórias políticas da Inglaterra dos anos 80 regressam ao cinema em Pride, filme de Mathew Warchus que recorda a célebre greve dos mineiros de 1984/85 e de como ativistas LGBT juntaram esforços numa luta comum.

Podem ler aqui a crítica na Sight + Sound

E aqui podem ver o trailer do filme

The Doors — documentário inédito

"É um documentário ficcionado. Não consigo dizer muito sobre o que é porque, na verdade, não estamos a fazê-lo. Digamos que se faz a si próprio" — são palavras de Jim Morrison para definir Feast of Friends, lendário registo da digressão de The Doors no Verão de 1968, com realização de Paul Ferrara.
Financiado pela própria banda, coisa francamente excepcional na época, o filme ficou suspenso depois de um episódio, num concerto de Miami, em que Morrison foi acusado de conduta imprópria em palco. Apesar da divulgação de uma versão bootleg, de deficiente qualidade técnica, Feast of Friends permaneceu oficialmente inédito — o seu lançamento, em DVD e Blu-ray [trailer], vai finalmente ocorrer no próximo dia 11 de Novembro [notícia: Billboard]. A edição apresenta uma cópia restaurada com diversos extras, incluindo o registo The Doors Are Open, sobre o derradeiro concerto do grupo na Roundhouse, de Londres, em 1968.


>>> Site oficial de The Doors.

terça-feira, Setembro 16, 2014

Bob Crewe (1930 - 2014)

Produtor, compositor e intérprete, referência lendária da música popular americana, em especial das décadas de 1960/70, o americano Bob Crewe faleceu no dia 11 de Setembro — contava 83 anos.
O nome de Crewe é indissociável das carreiras de artistas como The Rays, Bobby Darin ou Roberta Flack, além do seu próprio grupo The Bob Crewe Generation. De qualquer modo, a sua mais forte e mais prolongada ligação criativa foi com Frankie Valli and The Four Seasons. Em parceria com Bob Gaudio (n. 1942), assinou alguns dos títulos de maior sucesso da banda de New Jersey, incluindo o mítico Can't Take My Eyes Off You, de que existem versões de mais de duas centenas de artistas, incluindo Gloria Gaynor, Julio Iglesias, Shirley Bassey, Pet Shop Boys, Lauryn Hill, Muse e The Killers — em baixo: videos (ilustrativos) do original de The Four Seasons e da versão de Lauryn Hill, tema bónus de algumas edições do seu primeiro álbum a solo, The Miseducation of Lauryn Hill (1998).
Bob Crewe é uma das personagens do musical Jersey Boys, sobre The Four Seasons, estreado na Broadway em 2005 e, agora, refeito em cinema por Clint Eastwood — Peter Gregus foi Crewe no elenco original de palco; no filme de Eastwood, é interpretado por Mike Doyle.




>>> Obituário no New York Times.
>>> Bob Crewe no Songwriters Hall of Fame.
>>> Site oficial de The Bob Crewe Foundation.

Para onde vai a cinefilia?

Como defender o impulso cinéfilo? E, antes disso, onde está esse impulso? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (15 Setembro), com o título 'Para defender a cinefilia'.

O cinema não tem de estar sujeito à lógica mercantilista com que há várias décadas se (des)educam os espectadores mais jovens. De facto, a vida dos filmes não se reduz a uma histeria de ruidosos “super-heróis” e efeitos especiais para usar e deitar fora. Mais do que isso: um filme não é um produto descartável que se esgote no tempo de degustação de um balde de pipocas (por mais saborosas que sejam)...
Dois lançamentos recentes nas salas escuras mostram como a relação do cinema com a memória é uma componente essencial da sua existência (e estou a pensar, antes de tudo o mais, na sua existência comercial). São eles: o filme de João Botelho, Os Maias, mostrando que o trabalho com o património literário não tem de estar submetido ao decorativismo “telenovelesco” e, claro, a reposição da obra-prima A Desaparecida (1956), de John Ford.
E se é verdade que os modelos do marketing que triunfaram um pouco por todo o lado (a começar pela Europa) provêm de Hollywood, não é menos verdade que é também no cinema americano que encontramos uma das atitudes mais consistentes na defesa e promoção (comercial, insisto) de uma relação viva e inteligente com as memórias cinéfilas.
Um exemplo recente foi a sessão organizada pela Academia de Hollywood, celebrando o 40º aniversário do lançamento da comédia de Mel Brooks, Frankenstein Júnior. Brooks esteve presente numa conversa moderada pelo crítico Leonard Maltin, contando ainda com a participação do produtor Michael Gruskoff e das actrizes Cloris Leachman e Teri Garr. Para além do contagiante bom humor da sessão, há observações muito curiosas sobre a composição dos actores, nomeadamente o trabalho de Gene Wilder na elegância burlesca do Dr. Frankenstein e a “naturalidade” com que Peter Boyle definiu o seu monstro.
Quem viu o filme na altura do seu lançamento, em 1974 ou 1975, não pode deixar de recordar que Frankenstein Júnior corresponde ainda a um tempo de existência de uma genuína comunidade de espectadores, em que o gosto (de ver um filme) não era um banal efeito secundário de campanhas mais ou menos agressivas. Passar a palavra — o mais básico “boca-a-boca” — era algo que emanava de um tecido cultural em que o cinema não existia como uma bizarria tecnológica que podia (como pode agora) morrer no ecrã de um telemóvel.
O que está em causa, entenda-se, não é qualquer exaltação unilateral do que acontecia “naquele tempo”... Nem sequer se pretende, entenda-se também, demonizar as muitas maravilhas que as novas tecnologias introduziram na nossa relação com os filmes. O que está em causa é a importância de viver o cinema como uma arte genuína e um património irredutível. Não esquecendo que defender a cinefilia não é um programa cultural abstracto, mas sim um valor que pode (e deve) enraizar-se na dinâmica do próprio mercado.

Robert Plant, opus 10

Robert Plant, 66 anos, não pára: o seu décimo álbum de estúdio, lullaby and... The Ceaseless Roar (assim mesmo, com minúscula a abrir...) é uma impressionante demonstração de vitalidade, combinando uma velha sensibilidade folk com um rock tecido a partir das elegantes tensões das guitarras (sem esquecer a sabedoria do piano — ouça-se A Stolen Kiss). De tal modo que a sua magnífica banda, The Sensational Space Shifters, faz lembrar a herança dos... Led Zeppelin, hélas!
Em todo o caso, nada disso significa acomodação preguiçosa, antes um conhecimento efectivo das suas raízes e, mais do que isso, a aposta num permanente espírito de reinvenção. Exemplo eloquente: o tema Rainbow, primeiro em teledisco, depois ao vivo.




>>> Site oficial de Robert Plant.

Ver + ouvir:
Kasper Bjørke, TNR



O dinamarquês Kasper Bjorke tem um novo álbum de estúdio. Este tema, onde conta com a colaboração de Jaakko Eino Kalevi, é o single que serve as honras de apresentação do novo disco.

Novas edições: Simian Mobile Disco

“Whrol”
Epitaph
4 / 5

Surgiram como aventura em paralelo aos Simian quando James Ford e Jas Shaw, metade desse quarteto, se apresentava em DJ sets... Os Simian arrumaram as botas mas a dupla não se desmembrou, fazendo o upgrade da existência original por detrás dos discos à aventura de os criar, estreando-se com um primeiro álbum em 2007. Desde cedo mostraram uma filiação em terrenos electrónicos com vontade de dar ginástica às pernas e frequentemente chamando vários convidados aos seus discos onde temas instrumentais dividiam o alinhamento com canções, entre todas as faixas revelando-se contudo uma vontade evidente em criar música para dançar. Ao cabo de três álbuns, e dois anos após o mais recente Unpatterns, apresentam um quarto disco que os coloca num patamar diferente e que, em todos os sentidos, representa uma boa surpresa. Apesar de bons instantes aqui e ali – sobretudo no alinhamento de Temporary Pleasure (de 2009) – os Simian Mobile Disco tinham até aqui registado uma obra mais interessante em formato de máxi-single (seus e nas remisturas para terceiros que foram assinando), aos álbuns cabendo sempre o sabor de acontecimentos sem a mesma consistência de fio a pavio. Whorl marca a diferença. Não só no plano técnico e instrumental (uma vez que mudaram o mapa da maquinaria ao seu dispor) como na forma de criar música e com as novas composições sugerir um álbum que nos devolve o sentido de discos que, através de nomes como os Orbital ou Fluke, deram novos sentidos de obra maior à música electrónica com berço dançável nos anos 90. Contudo, e apesar dessas eventuais referencias, é entre sonoridades escutadas nos setentas e oitentas (chegando inclusivamente aos registos pioneiros da house) que os Simian Mobile Disco foram buscar os pólos de reflexão que os conduziram a este seu novo disco. Whrol é um percurso instrumental, de alma tranquila que se faz entre frequentes segmentos encantados por um gosto melodista e outros caminhos que valorizam noutros momentos as cenografias e texturas. Há sonoridades que evocam memórias de teclados analógicos, em alguns momentos revelando um gosto pelo detalhe na criação de uma música que gosta de criar paisagens antes de nela projetar acontecimentos. Não traduz o minimalismo nem revela acontecimentos no mesmo patamar gourmet em que Pantha du Prince desenhou o seu magistral This Bliss. Mas é um título a registar entre os acontecimentos electrónicos de pulsação marcada, mas com alma tranquila, do nosso tempo.

Spandau Ballet lançam documentário


O filme Soul Boys of The Western World, de George Henken, é um documentário sobre os Spandau Ballet que recorda o seu percurso desde o momento em que se revelaram como o primeiro fenómeno londrino de grande popularidade do movimento new romantic (na verdade a única etapa realmente interessante da sua obra) até à sua separação na alvorada dos noventas e recente reunião.

A estreia britânica do filme, no próximo dia 30, será acompanhada por um concerto no Royal Albert Hall (Londres) que terá transmissão em direto para várias salas de cinema no Reino Unido. Estreado no SXSW este ano, ainda não tem datas de possível exibição entre nós.

Podem ver aqui o trailer do filme.

Cinco filmes de Robert Wise (4)


'A Ameaça de Andrómeda'
(1971)

Depois do clássico The Day The Earth Stood Still e antes da primeira experiência do universo Star Trek no grande ecrã, a filmografia de Robert Wise passou pelos espaços da ficção científica com aquela que representou a primeira adaptação a um grande ecrã de um romance de Michael Crichtron.

Com o título original The Andromeda Strain, o filme (tal como o livro) relata um episódio de contaminação pelo que se crê ser uma "ameaça" biológica vinda do espaço e que se revela letal para a maioria dos seres vivos do nosso planeta. Parte da ação decorre num laboratório secreto subterrâneo, no qual estão definidos vários patamares de segurança e que, sob ameaça maior, se pode auto-destruir com uma detonação nuclear.

O filme convocou o trabalho nos efeitos visuais de Douglas Trumbull, que recentemente tinha colaborado com Stanley Kubrick em 2001: Odisseia no Espaço.

Podem recordar aqui o trailer do filme.

Para ouvir: novo álbum de estúdio
de Leonard Cohen em primeira escuta

A editar na próxima semana, Popular Problems é o novo álbum de estúdio de Leonard Cohen. O disco surge dois anos depois do magnífico Old Ideas e promete dividir opiniões (a seu tempo darei a minha). O jornal britânico The Guardian tem o disco para escuta por streming via Sound Cloud.

Podem escutar aqui.

Para ler: Perfume Genius na 'New Yorker'

A revista New Yorker acaba de publicar uma crítica a Too Bright, o terceiro disco do projeto Perfume Genius, que terá edição na próxima semana. Enquanto não falamos aqui do disco podem ir lendo esta opinião.

Podem ler aqui o texto da New Yorker.

segunda-feira, Setembro 15, 2014

WWF: o poder de síntese

A World Wide Fund for Nature (WWF) é uma organização não governamental que, desde 1961, desenvolve um meritório e importantíssimo trabalho de defesa, preservação e regeneração do meio ambiente. E que, além do mais, conhece o valor das campanhas inteligentes, apelando à inteligência dos cidadãos. Este é um dos mais recentes exemplos das suas estratégias de divulgação, num trabalho da agência Ogilvy & Mather (Gurgaon, India) — ou como o poder de síntese pode ser a mais poderosa das linguagens.

Eça por Botelho (2/2)

Grande acontecimento cinematográfico: João Botelho refaz Os Maias, de Eça de Queiroz, como um exercício operático em que o fascínio do passado ecoa na crueza do presente — este texto integrou um dossier sobre o filme, publicado no Diário de Notícias (11 Setembro).

[ 1 ]

Em alguns momentos de Os Maias — por exemplo, nas cenas de Santa Olávia, nas margens do Douro, com Afonso da Maia (João Perry) —, João Botelho combina as telas pintadas por João Queiroz com elementos reais dos locais de filmagens (um chafariz, o recanto de um jardim). Fascinante paradoxo: por um lado, sentimos a materialidade ancestral de pedras e flores; por outro lado, o declarado artifício do fundo pintado gera um clima de singular coexistência de contrários.
Bertolt Brecht
Apetece evocar a herança de Bertolt Brecht e a sua pedagogia da distanciação: a coabitação cenográfica do mundo “real” e do mundo “encenado” pode contribuir para uma relação com a história vivida (pelas personagens) que não mascare a sua condição de história representada (para o espectador). Resistimos, enfim, a ser submergidos pelo espectáculo.
Em todo o caso, não simplificando a lição “brechtiana”, vale a pena ir um pouco mais além, lembrando que Brecht foi também um intelectual do prazer. A esse propósito, Roland Barthes destacava a sua proposta de “imaginar uma estética baseada até ao fim no prazer do consumidor”. Mais do que isso: ao referir essa “estética do prazer”, Barthes acrescentava também que se trata da proposição de Brecht “que se esquece mais frequentemente” (in O Prazer do Texto, Edições 70, 1974).
Apetece dizer que Botelho não esqueceu. E que o seu cinema, confessando a manipulação que o sustenta, quer estar também ao serviço do prazer do espectador: vogando pelos imponderáveis da metafísica em Filme do Desassossego (2010), descendo à terra do romanesco, em Os Maias. Num tempo em que a televisão alimenta a ilusão da gratificação instantânea, encontramos aqui a duração, a espera e até o vazio que o prazer pode envolver. Há revoluções que começam por menos.

Ver + ouvir:
Cate Le Bon, Duke



Um regresso ao alinhamento do mais recente disco de Cate Le Bon para ver mais um teledisco criado a partir de um dos temas do seu alinhamento.

Em conversa: Daniel Ribeiro


Depois das curtas Café com Leite e Eu Não Quero Voltar Sozinho (premiado no Queer Lisboa 16 como Melhor Curta Metragem), o realizador brasileiro regressa com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, a sua primeira longa-metragem. O filme recupera as personagens e o essencial da narrativa de Eu Não Quero Voltar Sozinho, mas aprofunda uma série de elementos. Em entrevista, o realizador do filme de abertura do Queer Lisboa 18, que venceu o Teddy Award e o Prémio Fipresci na Berlinale este ano, conta-nos como curta e longa fazem parte de uma mesma história comum.

A ideia de fazer uma longa-metragem à volta das personagens e narrativa de Eu Não Quero Voltar Sozinho surgiu depois do impacte que a curta teve ou era já uma ideia antiga?
A ideia veio desde o começo e os dois filmes nasceram juntos. Quando pensei no personagem do garoto cego que descobria que era gay eu queria que essa fosse a minha primeira longa. Só que resolvi fazer a curta antes, como uma espécie de piloto. Era um personagem complexo, teria de trabalhar com um adolescente interpretando um cego e que topasse fazer um personagem gay... Então eu achava que ia ser difícil encontrar esse ator, por isso decidi experimentar tudo antes numa curta, ver o que funciona e não funciona e depois ir para a longa.

O filme tem um protagonista cego. E é raro vermos o cinema a abordar a cegueira, desta forma. Era fundamental para a narrativa ter um cego?
Cinematograficamente era essencial e podia jogar um pouco com o que vê e não vê para falar do que é, quando estamos apaixonados, o medir dos detalhes, das dicas que as outras pessoas dão... A personagem funcionava nesse caminho. Mas era importante também para falar da sexualidade. Esse personagem cego nasce para mim quando eu me questiono sobre como um garoto cego, que nunca viu um homem ou uma mulher, sabe que pode ser gay. Esse elemento é para mim essencial. A nossa sexualidade vem de dentro de nós, não tem só a ver com o que vemos.

A curta foi parar à Internet por vontade sua? O que aconteceu?
Foi meio um acidente. E foi um acidente muito bom. O filme estava no Festival do Rio e participava numa competição que era para ser votada na Internet e eles colocaram o filme online. Durante uma semana no site ficou lá. O filme já tinha sido muito falado no Brasil porque tinha entrado noutros festivais e ganho prémios. E quando foi parar à Internet muita gente viu o filme, descarregou-o e meteu-o no YouTube. Tiravam do site da competição e metiam no YouTube. Eles colocavam e a gente apagava. Várias vezes... E chegou uma hora em que achamos que não dava mais para ficar a perder tempo a apagar. Então decidimos colocar nós mesmos e com qualidade boa. E aí foi o sucesso que foi. Acho que tudo o que aconteceu depois, até a força que a longa teve, com tanta gente que viu o filme, veio por causa disso. Hoje agradecemos às pessoas que fizeram isso.

Podem ler aqui a versão completa desta entrevista.

O filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho passa - integrado na programação do Queer Lisboa 18 - na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge no dia 19 pelas 22.00 (na sessão de abertura do festival) e repete, na mesma sala, dia 20, pelas 15.00 horas.

Para ouvir: o álbum dos Tweedy

O site da NPR - a rádio pública norte-americana - oferece em streaming a hipótese de escutar em primeira mão Sukierae, o álbum que apresenta o projeto Tweedy, dupla constituída por Jeff Tweedy (dos Wilco) e pelo seu filho Spencer.

Podem ouvir aqui.

50 anos dos Kinks em antologia
com texto de David Bowie

David Bowie assina um texto a publicar no booklet de The Essential Kinks, uma antologia em formato de duplo CD que será editada a 14 de outubro. Esta nova antologia surge numa altura em que se assinalam os 50 anos sobre o lançamento dos primeiros singles do grupo britânico.

Aqui fica o alinhamento desta nova antologia:

CD1:
1. You Really Got Me
2. Stop Your Sobbing
3. All Day and All of the Night
4. Tired of Waiting For You
5. Nothin' In This World Can Stop Me Worryin' 'Bout That Girl
6. Ev'rybody's Gonna Be Happy
7. A Well Respected Man
8. Dedicated Follower of Fashion
9. Who'll Be The Next In Line
10. Set Me Free
11. See My Friends
12. Sunny Afternoon
13. Dead End Street
14. Death of a Clown
15. Autumn Almanac
16. David Watts
17. Waterloo Sunset
18. Days
19. The Village Green Preservation Society
20. Do You Remember Walter?
21. Picture Book
22. Victoria
23. Apeman
24. Strangers
25. 20th Century Man
26. Supersonic Rocket Ship
27. Celluloid Heroes

CD2:
1. Here Comes Yet Another Day
2. You Don't Know My Name
3. Till the End of the Day (Live)
4. One of the Survivors
5. Sweet Lady Genevieve
6. Everybody's a Star (Starmaker)
7. Life on the Road
8. Sleepwalker
9. Life Goes On
10. A Rock 'N' Roll Fantasy
11. Father Christmas
12. (Wish I Could Fly Like) Superman
13. Lola (Live)
14. Where Have All The Good Times Gone (Live)
15. Better Things
16. Destroyer
17. Come Dancing
18. Don't Forget to Dance
19. Do It Again
20. Living On A Thin Line
21. Scattered

Para ler: 'The Imitation Game' vence em Toronto


O filme The Imitation Game, de Morten Tyldum, com Benedict Cumberbatch no papel protagonista, foi o grande vencedor da edição deste ano do Festival de Toronto. O filme é um biopic sobre Alan Turing, sobre quem os Pet Shop Boys apresentaram este ano uma biografia musical, integrada na programação dos Proms.

Podem ler aqui sobre a vitória de The Imitation Game em Toronto.
E aqui a crítica que o Guardian publicou sobre o filme.
E ainda aqui a crítica publicada pela Variety.

domingo, Setembro 14, 2014

Stravinsky revisitado por Les Siècles

Les Siècles é uma orquestra criada em 2003 pelo maestro francês François-Xavier Roth. Seu objectivo principal: recuperar as performances originais de obras do séc. XVII ao séc. XXI, nomeadamente através da utilização de instrumentos da época da composição dessas obras.
O recente álbum Stravinsky [ler crítica da BBC Music] constitui um exemplo absolutamente prodigioso do trabalho de memória e recriação desenvolvido por Les Siècles, integrando a música dos bailados PetrouchkaA Sagração da Primavera, estreados, respectivamente, em 1911 e 1913. No caso de A Sagração da Primavera, o álbum recupera a estrutura da obra tal como foi interpretada na sua primeira performance pública, com coreografia de Vaclav Nijinsky, ocorrida a 29 de Maio de 1913, em Paris, no Théâtre des Champs-Élysées — é um evento lendário na história da modernidade musical, com as sonoridades de Stravinsky a serem violentamente rejeitadas pela maioria do público. Um século depois, a liberdade estrutural de A Sagração da Primavera, dispensando as exigências "sinfónicas" da época, conferem-lhe uma energia, tecida de agressividade e sedução, que o tempo apenas intensificou.

>>> Apresentação do álbum, por François-Xavier Roth.


>>> A Sagração da Primavera, por Les Siècles, num concerto da BBC Proms (Royal Albert Hall, 14 Julho 2013).

Eça por Botelho (1/2)

EÇA DE QUEIROZ
Caricatura de Rafael Bordallo Pinheiro,
Álbum das Glórias, Julho 1880
Grande acontecimento cinematográfico: João Botelho refaz Os Maias, de Eça de Queiroz como um exercício operático em que o fascínio do passado ecoa na crueza do presente — este texto integrou um dossier sobre o filme, publicado no Diário de Notícias (11 Setembro).

O que significa ler Os Maias, de Eça de Queiroz, em pleno séc. XXI? Mais do que isso: como é que, nos nossos dias, uma leitura de Os Maias pode dar origem a um objecto de cinema? O novo filme de João Botelho (estreia hoje, em vinte salas de todo o país) pretende ser uma resposta exuberante a tais interrogações, começando por propor uma variação no subtítulo do próprio Eça: “Episódios da vida romântica” converteu-se em “Cenas da vida romântica”.
Tal como em trabalhos anteriores da sua filmografia — incluindo Quem És Tu? (2001), A Corte do Norte (2008) e Filme do Desassossego (2010), inspirados em Almeida Garrett, Agustina Bessa-Luís e Fernando Pessoa, respectivamente —, Botelho segue uma via que, embora mostrando um evidente fascínio pelas marcas específicas da época retratada, trata o texto como matéria principal de todo o trabalho de encenação. Daí que também em Os Maias perpasse a sugestão de uma certa universalidade portuguesa: os temas da hipocrisia social, do culto das aparências e da corrupção no interior da cena política são tratados de modo a encontrarem ressonâncias simbólicas no olhar, na sensibilidade e nas ideias do espectador de 2014.
JOÃO BOTELHO
Foto: Miguel A. Lopes
Afinal, convém não esquecer que no centro do romance e do filme está o amor “impossível” de Carlos da Maia (Graciano Dias) e Maria Eduarda (Maria Flor). A sua aproximação amorosa, os ecos mais ou menos escandalosos da sua relação e, por fim, o assombramento que recobre a sua paixão vêm abalar a imagem social dos Maias e, antes disso, a suposta placidez da sua casa de Lisboa, o Ramalhete — como Eça escreve no seu parágrafo de abertura: “(...) Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I.”
Mais uma vez, essa ambivalência das referências históricas leva o cineasta a explorar uma certa dimensão teatral cuja inspiração principal está, como ele gosta de dizer, no assumido artifício da ópera. Aliás, em 2011, no Teatro de São Carlos, Botelho encenou a ópera Banksters, de Nuno Côrte-Real, com libreto de Vasco Graça Moura.
No caso de Os Maias, a chamada reconstituição de época (a acção inicia-se em 1875) faz-se, não a partir de cenários tradicionais ao ar livre, mas sim de telas gigantes da autoria do artista plástico João Queiroz, em particular para figurar a zona do Chiado, em Lisboa. Para os interiores, foram utilizados palacetes de Lisboa, Ponte de Lima e Cabeceiras de Basto. Os Maias foi produzido por Alexandre Oliveira, da Ar de Filmes, com o Brasil como país coprodutor. O orçamento de 1,5 milhões de euros contou com apoios do Instituto do Cinema e do Audiovisual (por concurso) a Câmara Municipal de Lisboa e o Montepio.

Um clássico do século XX

Novo conjunto de lançamentos da série 20C da Decca Classics – dedicada a grandes interpretações de obras da música do século XX – recupera uma das melhores gravações da histórica Sinfonia Nº 3 de Górecki.

Através da série 20C a Decca tem vindo a criar uma “coleção” de gravações de obras de referência da música do século XX, tomando naturalmente os registos disponíveis nos seus catálogos como matéria prima. Com um grafismo comum, e apresentados em formato digipack, os discos têm cruzado épocas e geografias distintas, representando mais um exemplo de como a boa gestão de um arquivo é capaz de gerar lançamentos consequentes. Há poucas semanas a série 20C apresentou um série de novos títulos, entre os quais encontramos gravações para obras como a Sinfonia Nº 4 – Heroes, de Philip Glass, November Steps de Toru Takemitsu, Salomé de Richard Strauss, West Side Story de Leonard Bernstein, Carmina Burana de Carl Orff, Jagden und Formen de Wolfgang Rihm, a Sinfonia Nº 2 de Karol Szymanovski, um Peter Grimes de Benjamin Britten ou a Sinfonia Nº 3 de Henryk Górecki. Centremos algumas atenções neste último título.

Feita uma das peças mais populares da história discográfica da música orquestral da segunda metade do século XX através do sucesso monumental obtido por uma gravação lançada nos anos 90 pela Nonesuch, com a London Sinfonietta, dirigida por David Zinman, com a soprano Dawn Upshaw como “estrela” maior desse lançamento, a Sinfonia Nº 3 de Górecki é, merecidamente, uma obra de referencia do seu tempo e, juntamente com obras como o War Requiem de Britten ou A Survivor From Warsaw de Schonberg, representa uma das obras mais pungentes criadas (depois de 1945) sob memórias da II Guerra Mundial.

Este volume da série 20C recupera uma gravação pela Orquestra Filarmónica de Varsóvia, dirigida por Kazimierz Kord e com a soprano Joanna Kozlowska. A “força” da presença polaca – numa obra maior de um dos maiores compositores do país – percorre a interpretação desta que é uma das melhores gravações desta obra, merecendo figurar entre as editadas pela Nonesuch e Naxos como sendo de referência. 

Sobre a história desta obra podem ler aqui um post do Sound + Vision integrado na série Clássicos do Século XX.

Cinema e cultura queer em livro


Foi ontem apresentado no jardim do Museu do Chiado, em Lisboa, o livro bilingue Cinema e Cultura Queer, um volume de textos críticos e ensaios da responsabilidade do Festival Queer Lisboa, numa edição da Associação Cultural Janela Indiscreta. 

Lançado no dia que assinalava o 18º aniversário daquele que é o mais antigo festival de cinema da cidade de Lisboa, o livro junta textos de alguns colaboradores e programadores do festival, entre os quais os autores deste blogue.

Podem ler aqui sobre o livro e consultar o índice completo.

Cinco filmes de Robert Wise (3)


'Star Trek - The Motion Picture'
(1979)

Quando, em meados dos anos 70, o sucesso das repetições dos episódios da série original Star Trek começaram a desenhar a existência de um fenómeno de culto em evidente crescimento a Paramount resolveu reativar esse mundo criado por Gene Roddenberry (que hoje conhecemos como uma das grandes expressões da cultura popular com berço na TV). A ideia original era a de criar uma nova série televisiva, que teve como título de trabalho Star Trek – Phase II e chegou a ver um episódio-piloto a entrar em produção.

Mas a dada altura – e certamente dado o impacte de A Guerra das Estrelas – a reativação de Star Trek deixou de estar focada no pequeno ecrã e apontou a mira ao cinema. E para dirigir a estreia deste universo de ficção científica no grande ecrã foi chamado Robert Wise.

Com o título Star Trek: The Motion Picture, o filme que encetou o franchise (que recentemente conheceu viçoso “reboot” em dois filmes assinados por por J.J. Abrams) recuperou a tripulação original, deu um lifting à Enterprise e uniformes, mas aceitou o cânone da série como contexto sobre o qual fez crescer uma narrativa que confrontava gentes do futuro com uma invenção da curiosidade humana do passado: a Voyager. 

Podem recordar aqui o trailer do filme

Karajan: um homem de discos (4)


Hoje falamos sobre o que era, afinal, o "som" Karajan e recordamos o seu método de trabalho em estúdio, durante gravações. Este texto é parte de um artigo sobre uma série de reedições e antologias que revisitam a obra de Herbert von Karajan registada pela Deutsche Grammophon que foi recentemente publicado no suplemento Q. do DN com o título: 'Foram os discos que deram a Karajan a sua fama global'.

O ciclo de Beethoven cujas gravações começaram em 1962, definiu “uma estética sonora que se fez mítica”, defende Thierry Soveaux em Deutsche Grammophon: State of the Art. Gravados na Jesus Christus-Kirche em Berlim-Dahlem, estes discos representam a primeira integral sinfónica de Beethoven em estéreo. Soveaux defende contudo que “o esplendor do som Karajan/Berlim” ganhou com a chegada da nova tecnologia digital.

Para Michel Glotz, produtor executivo das gravações do maestro, o “som” de Karajan era “rico, cheio e sensual”, revelando que “contrariamente ao que muitas vezes foi escrito o som foi relativamente pouco retrabalhado tecnologicamente salvo algumas ocasiões – para fazer sobressair as cordas, por vezes os metais – de acordo com os desejos de Karajan” (13). O produtor garante que nunca manipularam o som “para enaltecer um legato ou alterar o volume”.

Tendo seguido Karajan durante mais de 30 anos, Glotz diz-se “bem colocado para comentar o facto de esta ideia do ‘som Karajan’ ser excessiva, como se se estivesse a falar de uma receita fixa”. Porque, defende, “o som evoluiu, não apenas por conta da sua própria demanda estética, mas também pelos desenvolvimentos tecnológicos na gravação sonora e meios onde, como por vezes se esquece, se determina a reprodução final do som”. O produtor sublinha ainda que não só Karajan se “adaptava perfeitamente às mudanças tecnológicas para fazer delas o melhor uso estético, como buscava constantemente novos desenvolvimentos”. Essa é a razão pela qual explica porque regravaram os principais trabalhos do seu repertório, como as sinfonias de Beethoven e Brahms. (14)

Do ponto de vista meramente estético Glotz aponta os maestros Wilhelm Furtwangler, Bruno Walter e Arturo Toscanini como os modelos de Karajan. “Era uma síntese da disciplina germânica e a criatividade mediterrânica”, acrescenta. Muitas vezes dizia que era um austríaco com raízes gregas, comenta o produtor. Karajan “admirava Giulini, e da sua geração gostava de Maazel. Tinha uma boa relação com Bernstein, que convidava para almoçar sempre que vinha à Europa”. Glotz diz que Karajan teve mais que respeito por Bernstein, que terá levado Karajan a aderir a Mahler, o que aconteceu na etapa final da sua carreira.

Ao contrário do mítico Karl Böhm, que abria os braços para o público no final das suas atuações, ou da pose quase dançante com que Bernstein muitas vezes acompanhava certas obras, Karajan optava por um registo discreto e sóbrio frente às plateias. Era um homem reservado. A historiadora Annemarie Kleinert defende que essa atitude, que alguns apontam como timidez, talvez tenha ajudado a construir a sua própria fama. “Ele ganhou uma imagem de arrogante e altivo nos media, graças a anos de cooperação (ou melhor, de não cooperação), mas tinha um bom relacionamento” com a sua equipa técnica em estúdio, recorda o produtor Ewald Markl (15)

Em estúdio “gravava takes longos, raramente interrompidos, e só tinha a partitura na mão quando fazia correções ou estava ao telefone”. As gravações decorriam “numa atmosfera de concentração calma e nunca uma palavra era proferida em alto volume. Ele só ficava visivelmente irritado se fosse interrompido durante o seu trabalho”, recorda Ewald Markl, produtor e editor na Deutsche Grammophon. (16) Seguia as gravações com auscultadores e tinha consigo um cronómetro para anotar eventuais correções. Muitas vezes passou noites frente à mesa de mistura com os técnicos. E frequentemente elogiava perante os músicos o trabalho das equipas de estúdio. A sua fácil adesão às novas tecnologias talvez seja expressão de uma paixão antiga, já que, antes de mudar para música, passou três semestres na Technische Hochschule da Universidade de Viena.

Apesar de ter passado por etapas distintas na maneira de dirigir, dos pungentes movimentos de pulso que recorda quem os viu nos anos 30 aos modos mais subtis com que os vemos nas gravações em vídeo captadas na década de 80. Ao longo dos tempos o que não mudou foi o seu hábito de dirigir sem a partitura à sua frente. Tanto que, nos próprios ensaios, citava por vezes Hans von Bülow, que afirmara que “um músico não deve ter a sua cabeça na partitura, mas a partitura na cabeça”. O facto de se apresentar frente à orquestra sem partitura, muitas vezes dirigindo de olhos fechados, chegou a gerar alguns episódios, um deles tendo enervado Adolf Hitler durante uns Mestres Cantores de Nuremberga, na Berlin Staatsoper em junho de 1939 quando, depois de um dos cantores se ter sentido indisposto e saltado uma passagem, a confusão se instalou por momentos.

(13) in Deutsche Grammophon: State of the Art (Rizzoli, 2009), pág. 160.
(14) ibidem.
(15) idem, págs. 163-64.
(16) ibidem.

Laura Mvula + Metropole Orkest

Inglesa, natural de Birmingham, discípula da nobre tradição soul, Laura Mvula foi uma das melhores revelações de 2013; a Metropole Orkest, sediada na Holanda, é detentora de uma versatilidade muito especial, oscilando entre a tradição das "big bands" do jazz e a sensibilidade pop. Da colaboração da cantora com o ensemble surgiu um magnífico álbum que é, no essencial, uma revisitação dos temas do primeiro registo de Mvula, Sing to the Moon, agora em paisagens sonoras de admirável depuração "sinfónica". Mérito particular de Jules Buckley, maestro responsável pelos novos arranjos — eis um video sobre o conceito do projecto e respectiva gravação, nos estúdios de Abbey Road.

sábado, Setembro 13, 2014

Seguro + Costa: que televisão?

GERHARD RICHTER
Paisagem com nuvem
1969
Os debates entre António José Seguro e António Costa nascem das rotinas dominantes da ideologia televisiva, ao mesmo tempo que reflectem a ausência de pensamento político (nomeadamente na esquerda) sobre a própria televisão — esta crónica de televisão foi publicada na revista "Notícias TV", do Diário de Notícias (12 Setembro), com o título 'A cultura do PS'.

Há qualquer coisa de surreal no empolamento televisivo do combate de António José Seguro e António Costa pela liderança do Partido Socialista. E até mesmo a hipótese de um deles vir a ser primeiro-ministro de Portugal não passa de uma especulação que, por mais fundamentada, não justifica que, a partir dela, seja formatada toda a actualidade política.
Aliás, do ponto de vista estritamente político, temos estado a assistir a um deprimente processo de autoflagelação pública do PS (na TVI24, Henrique Monteiro falou mesmo, com toda a propriedade, de um hara-kiri do partido). No jogo que assim se encena, parece óbvio que o vencedor destas performances permanece, silencioso e casto, noutro cenário (chama-se Pedro Passos Coelho, como Fernando Esteves bem referiu na RTP Informação).
Que o imaginário televisivo viva desta agitação de coisa nenhuma, eis o que, infelizmente, parece ter-se tornado uma regra que poucos arriscam desafiar. Podemos mesmo perguntar: onde está alguém que ouse pensar as matrizes dominantes da informação e o seu efeito simbólico?
Onde está? Não está, sequer, naquela que seria a entidade de quem esperaríamos provas de alguma agilidade filosófica. A saber: o próprio PS. Que faz António José Seguro? Qual incauta personagem da reality TV, vai proclamando a sua comovente condição de vítima de todos os desmandos dos outros... E António Costa? Reúne os anciãos do partido para uma exposição televisiva que, por certo contra as suas melhores intenções, redobra os lugares-comuns de uma maneira esclerosada de encenar o trabalho político.
Em última instância, tudo isto significa que o PS, esquecendo que um genuíno pensamento cultural não pode ignorar as formas de fazer televisão, se acomodou ao pântano de ideias do statu quo televisivo. Não que a direita seja uma planície de conforto intelectual. Em todo o caso, ter as suas duas principais personagens a brincar aos debates sobre o futuro deste mundo e do outro, apenas confirma que a ideia de esquerda encalhou no conceito de talk show.

Talisca = "milhões"

No futebol, já não há gosto clubista. Ou melhor, mesmo esse gosto está mercantilizado, sendo friamente quantificável em cifrões — neste mundo do avesso, até já vimos (e ouvimos!) comentadores televisivos a protagonizar heróicos confrontos, proclamando que "o meu clube gastou (ou ganhou) mais do que o teu"...
Na sua candura filosófica, Jorge Jesus vai conseguindo dizer tudo isso com a crueza infantil da inocência. Em notícia do jornal A Bola, ficamos mesmo a saber que um dos seus mais recentes talentos, Talisca, já não é exactamente um jogador, mas tão só um investimento descartável do seu clube: "Daqui a uns aninhos, vai dar mais uns milhões".
Agradecemos a transparência. Fica apenas por entender de que estão a falar treinadores, jogadores e comentadores quando celebram o "amor à camisola"... Aguardamos, expectantes, alguma forma de esclarecimento.

Duran Duran no Fashion Rocks 2014



Podem ver aqui a atuação dos Duran Duran na edição deste ano do Fashion Rocks. Em sequência apresentam aqui os temas The Reflex, Girl Panic (do seu mais recente álbum) e Hungry Like The Wolf.

Cinco filmes de Robert Wise (2)


West Side Story - Amor sem Barreiras 
(1961)

Um dos maiores musicais de todos os tempos, nasceu originalmente para o palco da Broadway (apesar de ter estreado em Washington DC) em finais dos anos 50, juntando a música de Leonard Bernstein, as letras de Stephen Sondheim, as coreografias de Jerome Robbins e o texto de Arthur Laurents. Um quinto elemento entraria em cena pouco depois quando Robert Wise foi chamado para levar esta expressão urbana atual e nova-iorquina do Romeu e Julieta de Shakespeare para o grande ecrã.

Se a música e as danças não eram mais a surpresa - apesar de ter sido o filme a dar-lhes uma definitiva projeção global - a versão cinematográfica de Robert Wise junta interessantes pontos de vista, nomeadamente num trabalho de fotografia notável, uma montagem que valoriza a ligação à música e na forma como sugere uma certa teatralidade cénica nos espaços de exteriores nos quais decorre grande parte da ação. A direção artística é, de resto, um dos valores acrescentados da versão no grande ecrã, valendo a pena sublinhar a excelência da banda sonora registada com novo elenco para uma edição em disco que acompanhou a estreia do filme.

Podem rever aqui o trailer.

Pintura de David Lynch
em grande exposição em Filadélfia


Através do cinema descobrimos David Lynch e, com os seus filmes, uma voz absolutamente ímpar, que se projetou em títulos marcantes como o foram, por exemplo, Veludo Azul, Mulholland Drive ou Coração Selvagem, sem esquecer a série televisiva Twin Peaks, um dos momentos maiores do seu trabalho ou o muitas vezes injustamente secundarizado Dune, instante atípico na sua obra, mas um dos grandes exemplos da melhor ficção científica dos oitentas. Mas depois de Inland Empire o foco das suas atenções mudou de rumo, destacando sobretudo um interesse pela música e uma redescoberta de uma paixão antiga: a pintura.

E a assinalar esse reencontro fundador da sua personalidade artística, a Pennsylvania Academy of The Fine Arts, em Filadélfia, inaugura hoje ‘David Lynch: The Unified Field’, aquela que é a primeira grande exposição da obra de Lynch enquanto artista plástico.

Interessado na pintura desde cedo, um muito jovem David Lynch (então com 18 anos) inscreveu-se na School of The Museum of Fine Arts, em Boston com um futuro em vista nessa área. O lugar não o inspirou e saiu ao fim de um ano. Projetou com um amigo uma viagem de três anos pela Europa, com o sonho de estudar com o pintor austríaco Oskar Kokoshka. Com o sonho não concretizado regressou aos EUA, acabando por fazer a sua formação na Pennsylvania Academy of The Fine Arts, à qual se juntou em 1967. Seria ali que, em 1967, faria Six Men Getting Sick (Six Times), uma curta-metragem que se tornaria assim o primeiro passo da sua filmografia.

Num ensaio sobre a obra de David Lynch na pintura, que podemos ler no catálogo desta exposição, o seu curador, Roberto Cozzolino defende que estamos ali perante um artista que usou o cinema como parte da sua expressão. E por isso mesmo vê assim a sua obra cinematográfica como um corpo que se torna inseparável deste trabalho como artista plástico que agora ali está patente. Cozzolino fala mesmo dos filmes e pinturas como sendo obras que decorrem de uma sensibilidade comum e muito pessoal "sobre noções de composição, textura, relações formais" e nota no modo como os temas são amplificados a expressão de um estilo específico.

Lynch em foto recente no seu atelier
A pintura foi, todavia, a paixão original de David Lynch. Uma paixão que nunca abandonou, apesar de ter levado muito tempo a torna-la pública. A sua primeira exposição individual teve lugar em Nova Iorque em 1989, na galeria de Leo Caselli, que tomou contacto com esta faceta da obra de Lynch através do entusiasmo com que Isabella Rosellini (que vimos em Veludo Azul) falara desses trabalhos a um amigo comum. Mesmo assim o cinema e, mais tarde, a música, prevaleceram como as suas expressões artísticas mais mediatizadas.

Num artigo recentemente publicado pelo New York Times o diretor do Drawing Centre (Nova Iorque) – que em 2013 organizou uma pequena mostra de desenhos e fotografias de Lynch em Los Angeles – reconhece que, através dos seus filmes, o autor de Mulholland Drive e Twin Peaks mudou a forma de pensar a cultura visual nos EUA, acrescentando que a sua obra como artista plástico “merece ser vista”. No mesmo artigo David Lynch referiu que vive neste momento um período de transição, deixando claro que o que era velho “morreu”. E explicou depois que é no experimentar de novas ideias que poderá vir a encontrar o que será novo para si.

sexta-feira, Setembro 12, 2014

O cinema português está aí

Luís Miguel Cintra em O VELHO DO RESTELO
O cinema português está a ter um momento de grande exposição pública: depois das estreias de E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto, e Os Maias, de João Botelho, nas próximas semanas surgirão Alentejo, Alentejo, de Sérgio Tréfaut, e Os Gatos Não Têm Vertigens, de António-Pedro Vasconcelos. E há mais uma série de títulos a aparecer até ao final do ano — este comentário surgiu inserido num dossier sobre essas estreias, publicado no Diário de Notícias (9 Setembro), com o título 'O passado e o presente'.

Manoel de Oliveira comemora o seu 106º aniversário a 11 de Dezembro. Nesse mesmo dia, o seu mais recente filme, O Velho do Restelo, produzido por O Som e a Fúria, será estreado pela Midas Filmes, no cinema Ideal (e noutras salas do país), num programa que vai reunir mais três curtas-metragens de Oliveira: Douro, Faina Fluvial (1931), O Pintor e a Cidade (1956), e Painéis de São Vicente de Fora – Visão Poética (2010).
O facto envolve um simbolismo exemplar. E não apenas porque O Velho do Restelo é uma pequena pérola de inteligência, recheada da ironia de um cineasta que se “atreve” a colocar em cena Luís de Camões, Teixeira de Pascoaes, Camilo Castelo Branco e... Dom Quixote para relançar um tema visceral: a questão da identidade portuguesa e suas dramáticas atribulações, entre a crueza descarnada da história e os apelos da utopia. Importa acrescentar que não há nenhuma forma de existência do cinema português que possa prescindir de ziguezagues deste género, num jogo de sobreposições e rupturas que aproximem passado e presente — será preciso lembrar que um dos mais subtis exercícios de cinema de Oliveira, lançado em 1972, dá pelo nome de O Passado e o Presente?
O panorama de estreias portuguesas dos próximos meses é, no mínimo, invulgar. A sua pluralidade deixa a antecipada certeza de que há uma energia criativa que não pode ser menosprezada. Os filmes, claro, serão “melhores ou “piores”... Mas qual é o problema? A selecção de Paulo Bento é o desastre que se sabe e há quem continue alegremente a proclamar que temos o melhor futebol do mundo... Não precisamos de unanimidades, mas sim do básico reconhecimento de que o cinema pode existir para além do marasmo das telenovelas. Os filmes andam por aí — convidam-nos a sentir e pensar com eles.

Jack White: fantasmas azuis

Lazaretto, segundo álbum de estúdio de Jack White, tem mais um teledisco: com realização de Robert Hales, White apresenta-se num ambiente de agreste romantismo, em que tudo é fantasmático e... azul — aqui está Would You Fight For My Love?.

Maio 68 por Godard (3/3)

Uma nova edição em DVD permite-nos reencontrar quatro títulos fundamentais da filmografia de Jean-Luc Godard: são obras marcadas pelas convulsões de Maio 68 e também pela procura de outras linguagens cinematográficas e ideias inovadoras para a política — este texto foi publicado no suplemento 'Qi', do Diário de Notícias (30 Agosto), com o título 'A arte de filmar a partir do zero'.

[ 1 ]  [ 2 ]

Os Ventos de Este e Vladimir e Rosa são dois dos títulos do Grupo Dziga Vertov, normalmente integrados (e esquecidos) naquilo que se convencionou chamar a “fase militante” de Godard. Sendo objectos saturados das retóricas ideológicas da época — incluindo a discussão das heranças do marxismo-leninismo e das suas derivações maoístas —, tais filmes funcionam também como delirantes jogos de espelhos sobre a energia e os limites de tais retóricas. Em boa verdade, Godard tomava à letra a interrogação de Lenine — “Que fazer?” —, para problematizar a urgência de um cinema capaz de repensar a história colectiva e, no seu interior, as histórias pessoais.
Convém, por isso, não esquecer que estes filmes conjugam o maior desespero face aos impasses sociais com a emergência de um ziguezague conceptual e irónico, genuinamente enraizado nas lições de Bertolt Brecht (4), quer dizer, na necessidade de criar uma distanciação crítica capaz de transfigurar o discurso político e, no limite, a própria fruição da obra. Integrando o actor Gian Maria Volonté, na altura emblema de um certo “cinema político” que vinha de Itália, Os Ventos de Este funciona como uma performance satírica em que o “sermão” político coexiste com a sua decomposição em forma de farsa, convocando até alguns códigos clássicos do western.
É neste filme que surge a célebre máxima sobre a “justeza” e a “justiça” das imagens, brincando com a ambivalência da palavra francesa “juste” — Ce n’est pas une image juste, c’est juste une image —, lembrando que uma imagem não é “justa”, mas que é “apenas” uma imagem. O sentido paródico é ainda mais acentuado em Vladimir e Rosa, desde logo pelos nomes das personagens assumidas pelos próprios Godard e Gorin — respectivamente “Vladimir” (Lenine) e “Karl Rosa” (Luxemburgo). Mais do que isso, abrindo e fechando o filme com a apresentação das tarefas de maquilhagem dos actores, a narrativa apresenta-se como uma procura de outras entidades para dizer/protagonizar as dúvidas e perplexidades das novas conjunturas sociais.
Nesta série de pequenas produções “militantes”, a que também pertencem, por exemplo, Pravda e Lotte in Italia (ambos de 1969), está implícita uma vontade política de diversificação das formas de produção e difusão. Em boa verdade, são projectos que antecipam muitos modelos hoje em dia correntes, já que foram todos eles produzidos por diferentes cadeias de televisão da Europa: o Grupo Dziga Vertov procurava, assim, territórios alternativos à própria indústria cinematográfica. O que conduziu a outro paradoxo: obviamente não satisfazendo as convenções televisivas correntes, os filmes tiveram uma difusão ultra-discreta (a RAI recusou mesmo exibir Lotte in Italia).
Daí um novo gesto, ainda paradoxal, de admirável ousadia artística e simbólica. Face às dificuldades de dar a ver os próprios filmes (durante décadas, foram mesmo conhecidos como o “cinema invisível” de Godard), o Grupo Dziga Vertov decide regressar ao coração da grande indústria, mais precisamente à poderosa Gaumont. Tudo Vai Bem é o resultado concreto de tal opção, para mais convocando duas estrelas do cinema dos dois lados do Atlântico, bem conhecidas pelas suas militâncias políticas: Yves Montand, uma das primeiras personalidades da esquerda francesa (ainda que sem filiação partidária) a denunciar os crimes estalinistas, e Jane Fonda, na altura envolvida em acções de protesto contra o envolvimento militar dos EUA no Vietname.
Se há filmes visceralmente “brechtianos” na história do cinema, Tudo Vai Bem é, por certo, o mais genuíno de todos eles. Desde logo, porque começa com a apresentação muito cândida da sua própria gestação financeira: numa série de planos de cheques a serem assinados, é-nos dado conhecimento das verbas investidas nas mais diversas tarefas de produção. Depois, porque a acção das personagens — Montand é um cineasta francês que faz publicidade para sobreviver, Fonda é uma jornalista americana sediada em Paris — é tratada, não a partir de uma mera identificação profissional, mas sim como um turbilhão de objectos materiais, valores morais, significados e significações em que tudo se cruza e contamina, desde a situação nuclear do filme (uma fábrica paralisada pelos operários em que o patrão foi feito refém) até à mais pura intimidade (há um espantoso diálogo entre os protagonistas sobre o lugar do sexo na organização da sua vida comum).
Insolitamente, na sua genial dialéctica narrativa, Tudo Vai Bem seria também o princípio do fim da colaboração Godard/Gorin. No interior do universo “godardiano”, ficava sinalizado o desejo de novas linguagens para lidar com os impasses das lutas sociais e do pensamento político. Retomando sugestões já dispersas nos filmes deste período no sentido de integrar as emergentes técnicas de vídeo (há mesmo uma cena deliciosamente burlesca em Vladimir e Rosa, com câmaras e imagens de vários ecrãs de televisão), Godard iria abrir o frondoso capítulo da sua “videografia”, cuja lógica desembocará nesse objecto monumental que se chama História(s) do Cinema (1994-98). O primeiro momento do novo período surgiu em 1975, com o filme intitulado Número Dois. Porquê tal designação? Porque, como disse Godard, era o seu “segundo primeiro filme”.
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(4) BERTOLT BRECHT (1898-1956): escritor, dramaturgo, encenador, fundador do Berliner Ensemble, Brecht é uma personalidade central na história das ideias do séc. XX e, em particular, na discussão do valor político das artes. Mãe Coragem e os Seus Filhos (1939) ou O Círculo de Giz Caucasiano (1944) são referências lendárias do seu trabalho.

Ver + ouvir:
Wild Beasts, Mecca



Os Wild Beasts passaram pelo Pitchfork Music - que decorreu em julho no Union Park, em Chicago, onde apresentaram um alinhamento pelo qual passou este Mecca. Aqui ficam as imagens desse momento.

Novas edições:
God Help The Girl


“God Help The Girl 
(Original Motion Picture Soutrack)”
Milan Records
3 / 5

Havia um filme em mente, mas sem a certeza de que seria viável a sua concretização, um disco com as canções que o serviriam (e que concetualmente relatariam a mesma narrativa) surgiu em primeiro lugar. Podia começar assim a história de God Help The Girl, o projeto de Stuart Murdock criado em paralelo aos Belle & Sebastian e do qual há cinco anos que conhecemos canções que, diga-se a bem da verdade, representam até o melhor da obra do seu autor desde aquilo que nos apresentou em Dear Catastrophe Waitress (2003). Passaram cinco anos e o sonho de fazer o filme – afinal de contas era a raiz do projeto – ganhou materialidade, assinalando a estreia na realização de Stuart Murdoch (e logo com entusiasmo registado entre o júri em Sundance, onde estreou). Agora chega a banda sonora que, sem fugir muito das sugestões do álbum editado há cinco anos, acaba por nele colher apenas uma mão-cheia de canções – sem esquecer a maravilhosa Perfection as a Hipster, com a colaboração de Neil Hannon -, pelo alinhamento surgindo uma série de outros temas e vinhetas (algumas com excertos de diálogos do filme). Estamos todavia num terreno comum, e as ligações à personalidade folk, embebida em sabores pop retro (com alma achada em memórias dos sessentas), são comuns não apenas à linha que definira o disco de 2009 como à própria essência da obra dos Belle & Sebastian. A opção por um alinhamento mais “cinematográfico” – que juntam às canções elementos do score e diálogos que contextualizam uma história com música nas entrelinhas – dilui o concentrado de canções que faziam do álbum de 2009 um irresistível docinho pop (o rap escocês em I’m Not Rich pode até ter piada no film, mas aqui é tiro ao lado). À versão banda sonora não faltam belas canções... Mas os compassos de espera fazem perder fôlego ao alinhamento. Há coisas que ficam melhor com imagens que sem elas...

Revistas: O 'music issue' da Believer

O 'music issue' de 2014 da revista Believer é daquelas coisas que vale a pena ter. Inclui uma bela reportagem sobre uma atuação dos Arcade Fire no Haiti (que mostra como a música pode ser ponto de partida para se falar de mais que apenas as canções e instrumentistas que passam por cima de um palco), um historial da Motown, um olhar sobre as memórias assinadas por ex-amantes e, entre outros, entrevistas com Glenn Branca, Meredith Monk e Nancy Sinatra. E vem com um single em vinil...

Espetáculos de Kate Bush
filmados para futuro lançamento em DVD

A imprensa britânica revelou que alguns detentores de bilhetes para concertos de Kate Bush no Hammersmith Apollo terão os seus lugares alterados dada a necessidade de ali instalar equipas de filmagem. O facto foi naturalmente entendido como sinal de que serão filmados para posterior edição em DVD. É, no mínimo, uma muito boa notícia para quem ali não conseguiu ir.

Um reencontro com 'West Side Story' (3)


O maestro Michael Tilson Thomas apresenta, com a San Francisco Symphony, a primeira gravação da totalidade da música de ‘West Side Story’ feita num palco fora de uma produção teatral. Tal como o fizera Bernstein por ocasião da sua estreia em 1957, procurou nas vozes de atores cantores parte da alma que faz desta obra um caso ímpar de relacionamento entre várias referências. Este texto é parte de um artigo publicado na edição de 30 de agosto do suplemento Q. do DN com o título Um novo episódio na vida de ‘West Side Story’. 

A estreia em palco faz de algumas das canções de West Side Story clássicos quase instantâneos. Maria, America e Somewhere, por exemplo, ganham quase o estatuto de standards, surgindo desde então em gravações por uma multidão de vozes e pelas mais diversas abordagens, algumas mesmo algo inesperadas (como a citação a America que surge nos primeiros compassos de Don’t Tread on Me dos Metallica ou a leitura eletrónica que os Pet Shop Boys fizeram de Somewhere, que editaram inclusivamente como single em 1997). O álbum com a gravação do elenco da peça original chegaria ao fim dos anos 50 como o 48.º mais vendido de toda a década nos EUA. Editado quatro anos depois, o disco com a banda sonora da adaptação ao cinema iria ainda mais longe, tendo sido o 25.º com maiores vendas dos anos 60 também nos EUA. 

Esta adaptação ao cinema, da qual resultou um dos maiores filmes musicais de todos os tempos, contou uma vez mais com o trabalho exigente do coreógrafo Jerome Robbins, que inclusivamente coassinou a realização com Robert Wise. Talvez mais ainda que o impacte da produção original nos palcos, a adaptação ao cinema estreada em 1961 (e que a nós chegou com o título Amor sem Barreiras) inscreveu definitivamente West Side Story entre os momentos maiores da história da música do século XX. A suite sinfónica criada a partir das danças que escutamos numa das primeiras sequências de West Side Story transportou também esta música para o cânone orquestral, com vários episódios de sucesso (como, por exemplo, em Fiesta!, o álbum de referência na discografia de Gustavo Dudamel com a Orquestra Sinfónica Juvenil Simon Bolívar).

As várias edições discográficas existentes da totalidade da obra traduziram até aqui ora a expressão direta do que Robert Wise levou ao grande ecrã ou uma sucessão de produções em palco, a mais recente datando de 2009, numa versão apresentada na Broadway e que venceu o Grammy para Melhor Musical.

Ao trabalhar com atores cantores Tilson Thomas recuperou nesta sua abordagem o encantamento por uma abordagem vocal única que o próprio Bernstein sentiu quando preparara em 1957 a estreia de West Side Story. Depois de uma vida em palco, a versão de concerto de West Side Story, dirigida por Tilson Thomas, é um marco na história desta obra. À San Francisco Symphony, juntamente com as vozes de Cheyenne Jackson (que passou pelas séries Glee e 30 Rock), Alexandra Silber (com experiência nos palcos do West End londrino) ou Jessica Vosk (que cantou em Kristina, um dos musicais dos ex-Abba Benny Andersson e Björn Ulvaeus), juntam-se a Michael Tilson Thomas naquele que é o mais importante episódio na vida de West Side Story desde a experiência em estúdio que o próprio Bernstein gravou para a Deutsche Grammophon em 1984.