sábado, Julho 26, 2014

O cinema visto de Tavira

Biblioteca Muncipal Álvaro de Campos — TAVIRA
Como se vê cinema para além de Lisboa e Porto? Por vezes, a pergunta surge formulada de forma cruel: como não se vê cinema em Portugal?
Ou seja: continuam a existir muitos desequilíbrios entre litoral e interior, entre algumas cidades (e vilas!) e entre quase todas as regiões. Ora, como é óbvio, felizmente, os cinéfilos estão em todo o lado e querem... ver filmes! É disso que nos dá conta José Couto, de Tavira, referindo a dificuldade de, por vezes, encontrar um filme "digno de ser visto" — agradeço as suas palavras e também o facto de ter acedido a que publicássemos a nossa troca de ideias.

Olá, caro João,

Há algum tempo, o João escreveu na «Metropolis»: "onde estão os espectadores que queiram ser... espectadores?".
Pois eu, que vivo em Tavira, respondo com outra pergunta: gostaria muito de ser "espectador", mas como posso sê-lo se se passam semanas sem que nas cinco salas de cinema do centro comercial da cidade surja um único filme que considere digno de ser visto?
Adoraria ver, entre muitos outros, Her, Debaixo da Pele, Grand Budapest Hotel, O Homem Duplicado, A Imagem que Falta ou O Acto de Matar, porém, não consigo, pois esses filmes não são exibidos no Algarve — para tal, teria que me deslocar 320 km (para Lisboa)...
Portanto, como vê, não é pelo preço dos bilhetes, nem pelos filmes estarem na Internet (abomino ver filmes num ecrã de computador), que não sou o "espectador" de que fala...
Um forte abraço,

J. C.

Caro José Couto,

Só posso concordar consigo: a decomposição da rede tradicional de distribuição/exibição do cinema é um facto que, em Portugal, tem arrastado muitas e dramáticas consequências.

O texto que refere não pretendia mascarar esse problema fulcral. Aliás, melhor ou pior, tenho tentado ao longo dos anos reflectir sobre ele. Permito-me recordar três dos mais recentes artigos que escrevi sobre a pluralidade de questões que o assunto envolve:


O que estava em causa no meu texto na "Metropolis" era algo de mais básico. A saber: num mercado que nem sempre atende à procura dos seus espectadores, será que ainda há espectadores que queiram (e exijam) outros comportamentos do próprio mercado? A sua resposta positiva, e pela positiva, leva-me a pensar que nem tudo está perdido.
Obrigado, volte sempre,

J. L.

Música para um homem do futuro


Esta semana os Pet Shop Boys apresentaram no Royal Albert Hall uma biografia musical de Alan Turing, integrada na programação dos Proms. Este texto é uma versão alargada de um artigo publicado na edição de 25 de julho do DN.

Uma biografia musical com a figura de Alan Turing como protagonista apresentada esta semana representou um dos momentos altos da programação dos Proms, série de concertos que anualmente ocupam uma etapa da programação de verão de concertos de música clássica Londres (tendo o Royal Albert Hall como o seu principal palco). Com o título A Man From The Future, o musical tem como autores os Pet Shop Boys e assinala mais um momento de cruzamento de experiências entre formas habitualmente mais habitadas pela música clássica com figuras com carreira sobretudo feita nos domínios da música popular, juntando-se assim a óperas recentes de nomes como os The Knife, Damon Albarn (a solo ou com Jamie Hewlett), Herbert ou Rufus Wainwright.

Célebre por ter decifrado códigos encriptados dos alemães durante a II Guerra Mundial, o matemático Alan Turing (1912-1954) ficou também na história como vítima de um tempo em que a homossexualidade era criminalizada no Reino Unido, tendo sido sujeito a castração química como alternativa à prisão na sequência de um processo judicial que o acusou de indecência em 1952. Gordon Brown concedeu-lhe um pedido póstumo de desculpa em 2009, ao que se seguiu, já em finais de 2013, um perdão assinado por Isabel II.

Os Pet Shop Boys, que ao longo da sua carreira criaram já dois musicais, uma banda sonora alternativa para o filme mudo Couraçado Potemkin de Sergei Eisenstein e assinaram a música de um bailado, tomaram consciência da história de Turing nos anos 80, através da peça de teatro Breaking the Code. O interesse foi reativado em 2011 por um documentário televisivo, que os levou à biografia Alan Turing: The Enigma, de Andrew Hodges.

The Man From The Future, que se apresenta como uma biografia musical em oito partes para orquestra, electrónicas, coro e narrador, nasceu de uma colaboração com este seu biógrafo, que contactaram e que colaborou na escrita do libreto. O perdão real para Turing levou-os a reescrever o final da obra, refletindo o final da peça (sob um aparato musical épico) que Turing foi uma exceção e que há ainda muitos outros condenados, alguns ainda vivos, à espera de igual pedido de desculpa.

A BBC (que programa e transmite os Proms) resolveu incluir este trabalho dos Pet Shop Boys como um dos Late Night Proms deste ano, sendo que não é a primeira vez que há músicos vindos de terrenos pop/rock a surgir no programa (essa estreia coube, em 1970, aos Soft Machine – estando documentada em álbum ao vivo editado em 1988). Além do musical sobre Turing, o ‘Prom’ dos Pet Shop Boys juntou ainda quatro canções suas (Vocal, Love is a Catastrophe, Later Tonight e Rent) em arranjos orquestrais de Angelo Badalamenti, na voz de Chrissie Hynde e a interpretação da abertura de Performance, o espetáculo que levaram em digressão em 1991.

Alan Turing
Se mediaticamente Alan Turing é lembrado por ter decifrar códigos durante a II Guerra Mundial – facto que parece estar no centro das atenções de The Imitation Game filme de Morton Tyldum e protagonizado por Benedict Cumberbatch que terá estreia em outubro no festival de Londres - o trabalho deste matemático britânico na verdade teve uma importância profunda na teoria da computação e inteligência artificial. O seu trabalho na descodificação de códigos dos alemães valeu de Churchill um elogio que nele apontou um dos mais importantes contributos individuais para a vitória aliada. Depois da guerra desenvolveu importante trabalho científico no National Physical Laboratory, tomando depois um lugar na Universidade de Manchester. Menos de dois anos depois do julgamento que o obrigou a uma castração química (sob acusação de homossexualidade), Turing morreu em 1954, com apenas 41 anos (por envenenamento com cianteto), não sendo unânime que se tenha tratado de um suicídio. Desde 1966 é anualmente entregue o Turing Prize para assinalar contribuições técnicas e teóricas na ciência da computação.


Quando a música lembra homens da ciência

A biografia musical de Alan Turing apresentada esta semana em Londres pelos Pet Shop Boys é mais um exemplo de atenção de peças musicais que tomam figuras da ciência e o seu trabalho como inspiração. Aqui ficam mais alguns exemplos:

Philip Glass. Einstein on The Beach é um dos exemplos de obras do compositor norte-americano que tomam uma figura da ciência por protagonista. Estreada em 1976 esta ópera é uma referencia na história da música do século XX. Mais recentemente Glass dedicou também óperas a figuras como Johannes Kepler e Galileu Galilei. Respetivamente ligadas a estes dois últimos, as óperas Kepler e Galileu Galilei foram já editadas em disco (Kepler tendo conhecido também lançamento em DVD).

John Adams. À exceção de A Flowering Tree, as óperas já apresentadas por John Adams têm focado factos e figuras reais do século XX, como a visita de Nixon à China em 1972 ou o assalto ao navio Achille Lauro na década de 80. Em Dr. Atomic (estreada em 2005) evocou a figura de Oppenheimer numa narrativa que tinha por cenário a base de El Alamo na véspera do primeiro teste nuclear.

The Knife. A dupla sueca The Knife iniciou a sua carreira na pop electrónica. No seu álbum mais recente apresentaram uma faceta ativista focada em questões como a identidade de género ou a divisão mais justa da riqueza. Em Tomorrow In a Year (2010) experimentaram o espaço da ópera tendo então focado a vida e o pensamento de Darwin.

Kraftwerk. A música pop já passou muitas vezes por figuras da ciência. Einstein, por exemplo, foi abordado pelos Landscape em Einstein a Go Go e os Big Audio Dinamyte em E=mc2. Em Radioactivity (1975), tema-título do álbum que sucedeu ao historicamente marcante Autobahn, os Kraftwerk citam as figuras de Pierre e Marie Curie.

15 anos da "Vogue" Japão

A arte da pose como exercício de transfiguração do corpo, seu desmembramento simbólico e paciente reinvenção iconográfica. Ou seja: Stephanie Seymour fotografada por Luigi & Iango. Mais precisamente: esta é uma das admiráveis imagens que integram um portfolio de comemoração dos 15 anos da edição japonesa da revista Vogue. Além de Seymour, estão também presentes outras figuras emblemáticas da história das supermodels: Claudia Schiffer, Linda Evangelista, Nadja Auermann e Naomi Campbell.

sexta-feira, Julho 25, 2014

"Hunger Games" — que futuro?

Os cartazes do novo capítulo da saga "Hunger Games" — The Hunger Games: Mockingjay - Part 1, a estrear entre nós como The Hunger Games: A Revolta - Parte 1 (27 Nov.) — apresentam uma espécie de pós-apocalipse punk que vale a pena descobrir. Dir-se-ia que a noção niilista, no future, adquiriu uma componente kitsch, porventura chique, que nos leva a consumir a possibilidade de deixarmos de existir como comunidade com a serenidade de quem volta a contemplar uma ambígua hipótese de sagrado. Perverso tempo, este em que vivemos, desfrutando os sabores da nossa própria perdição.

>>> Site oficial de The Hunger Games.

1921, Ellis Island (1/2)

A chegada dos emigrantes a Ellis Island, no porto de Nova Iorque, é revisitada por James Gray num filme que evoca a saga de uma mulher polaca que desembarca nos EUA, em 1921 — este texto integrou um dossier sobre A Emigrante, publicado no Diário de Notícias (24 Julho).

Por vezes, há filmes que têm de vencer uma espécie de maldição comercial. Por um lado, parecem reunir as componentes temáticas e artísticas susceptíveis de mobilizar públicos muito diversos; por outro lado, vão ficando “adiados” nos labirintos do mercado, como se ninguém soubesse como promovê-los junto dos potenciais espectadores. É o caso de A Emigrante, com assinatura de James Gray, para muitos um autor de culto da produção americana das últimas duas décadas.
Estamos perante um épico sobre a emigração para os EUA que teve o seu lançamento na prestigiada secção competitiva do Festival de Cannes de 2013. Além do mais, A Emigrante apresenta um elenco de luxo, liderado pela francesa Marion Cotillard, contracenando com Joaquin Phoenix e Jeremy Renner. O certo é que, nos meses a seguir ao certame, o filme (genericamente recebido em Cannes com admiração, mas sem grandes entusiasmos) apenas estreou na França, Bélgica e Luxemburgo, só começando a surgir noutros países a partir dos primeiros meses de 2014. Nos EUA, o distribuidor (The Weinstein Company) foi mesmo protelando o lançamento, concebeu uma campanha com novos cartazes e só o colocou nas salas no mês de Maio, precisamente um ano depois da passagem em Cannes. Portugal é um dos derradeiros países a lançar A Emigrante, antecedendo apenas o Brasil (em Setembro).
Será que podemos deduzir que o próprio tema do filme o tornou um insólito alien da actual produção americana? Provavelmente, a resposta é afirmativa. De facto, não se pode considerar que a evocação da chegada dos europeus a Ellis Island, em Nova Iorque, lendária porta de entrada nos EUA, seja um assunto corrente de um cinema que, para o melhor e para o pior, tem vivido marcado pelo domínio dos blockbusters, quer de super-heróis, quer de aventuras de animação.
Ewa (Cotillard), a personagem central do filme de Gray, não é uma super-heroína nem, muito menos, uma princesa dos desenhos animados. Quando chega a Ellis Island, em 1921, proveniente da Polónia, acompanhada pela irmã (Angela Sarafyan), Ewa só consegue ser aceite no país porque um protector “espontâneo”, Bruno (Phoenix), suborna um oficial da polícia. A partir daí, Ewa, Bruno e o seu primo Emil (Renner), que ganha a vida com espectáculos de ilusionismo, vão definir um triângulo amoroso, ou melhor, potencialmente trágico.
E se é verdade que A Emigrante se apresenta como um testemunho sobre as atribulações de uma época marcada por muitas formas de violência, não é menos verdade que Gray vai deslizando para a contemplação dos seus três protagonistas, aliás de acordo com uma lógica romanesca que já marcou alguns dos seus títulos anteriores — Duplo Amor (2008) poderá ser um significativo exemplo, curiosamente também com Joaquin Phoenix, contracenando com Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw. Em qualquer caso, foi o próprio Gray que afirmou que, até à data, A Emigrante é o seu filme “mais pessoal e autobiográfico”, inspirando-se na história dos seus avós, “chegados aos EUA em 1923”.

Ver + ouvir:
Spoon, Do You



Em poucos dias os Spoon lançaram dois telediscos para temas do seu novo disco. Este integra uma série da Urban Oufitters e foi realizado por Hiro Murai.

Três meses, três discos (singles)


Muitos singles ganharam vida no segundo trimestre de 2014. A escolher três as opções apontam assim ao magnífico Song For Five & Six, de Owen Pallett, que se apresentou há algumas semanas como cartão de visita para a chegada do álbum In Conflict. As escolhas do que de melhor ouvimos em formato de single neste trimestre passam ainda por Flaws, também um aperitivo, mas para o novo álbum dos Fujyia & Myiagi. E ainda por Cristina, a canção que anunciou a 45 rotações a chegada do álbum de estreia dos Teleman.

Além de muitos outros singles de muitos outros álbuns, vale a pena assinalar ainda, entre a produção extra-álbum deste trimestre a chegada de um EP cantado em italiano por Rósin Murphy, o flirt retro de Herbert em Part 6 e ainda um EP de remisturas dos suecos The Knife.

Reedições:
Frank Sinatra

“Frank Sinatra Sings For Only The Lonely”
Black Coffee
5 / 5

Na sequência de álbuns orquestrais como In The Wee Small Hours (1955) e Where Are You? (1957), Frank Sinatra projetou a criação de um novo disco de baladas, opção mais que certa num momento de absoluta forma vocal (nascendo entre estes discos e alguns que gravaria nos anos 60 algumas das obras mais marcantes da sua discografia). Sinatra procurava aqui trabalhar com Gordon Jenkins (com quem gravara o disco de 57 e com quem trabalharia, pouco depois, no sublime September of My Years), mas da impossibilidade de disponibilidade na agenda deste arranjador e maestro, acabou por voltar a Nelson Riddle, com quem assinara vários outros momentos, entre os quais o álbum de 1955 que representa o primeiro dos discos orquestrais desta etapa da sua carreira. Claramente marcado pela perda recente da mãe e uma filha, Riddle projetou entre os arranjos e direção de orquestra das canções de Frank Sinatra Sings For Only The Lonely um sentido de assombrada melancolia que se fez perfeito cenário para a voz de Sinatra gerando aquele que muitas vezes é apontado como o melhor dos seus (muitos) discos. Esta nova edição, que chega numa altura em que o acervo que gravou para a Capitol ganha novos lançamentos, surge acompanhada por um booklet de 12 páginas com um texto que contextualiza o álbum na história artística de Frank Sinatra.

Os primeiros passos de Elvis Presley
na edição deste mês da 'Blitz'

Blitz
Chega hoje às bancas a edição de agosto de 2014 da revista Blitz, que inclui um disco inédito dos Rádio Macau. Pelas páginas há uma entrevista com Jack White, textos sobre Morrissey, Pink Floyd, Chet Faker, Soundgarden e um foco sobre algumas vozes femininas como Patti Smith, Lorde, Lana del Rey ou La Roux.

Nesta edição assino um artigo sobre o início da carreira de Elvis Presley. É um trabalho extenso (de 13 páginas) onde se recordam as suas primeiras visitas aos estúdios da Sun Records e de como esses episódios seriam fulcrais não apenas para a sua carreira como para a própria história da música popular. Tudo isto num tempo em que a luta pela igualdade dos direitos civis nos EUA se preparava para entrar numa etapa que culminaria, anos depois, com marchas e discursos que fizeram história e, depois, a mudança.

Para ler (e ver): Mark Hamill fala da rodagem
do 'Episódio VII' de 'Star Wars'

Por ocasião da estreia de Guardians of The Galaxy a BBC falou com o ator Mark Hammil, que retoma o papel de Luke Skywalker no novo filme Star Wars que tem estreia marcada para 2015. Hamill dá a entender que o filme estará mais focado nas novas personagens que nas que com ele viveram a trilogia original há três décadas. Ao que parece Luke terá uma barba...

Podem ler aqui a notícia, com a entrevista em vídeo.

Contar uma história de amor
na Palestina do nosso tempo


O mundo não é apenas o que vemos nos noticiários. E ao cinema começa a caber um importante papel na exploração da complexidade do mundo de relacionamentos entre israelitas e palestinianos. A juntar a filmes como Belem (do israelita Yuval Adler, que terá estreia em salas portuguesas em agosto) ou Out In The Dark (do também israelita Michael Mayer, que encerrou a edição 2013 do Queer Lisboa), Omar (do palestiniano Hany Abu-Assad) é um espantoso olhar não maniqueísta sobre a dimensão humana (e portanto mais focada em personagens) de um espaço do qual nos chegam sobretudo ecos de conflitos maiores.

O filme, que foi um dos cinco nomeados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, toma como protagonista um padeiro que frequentemente salta o muro para visitar a jovem Nadia, com quem vive um discreto e casto romance às escondidas, esperando os dois o dia em que Omar torne o segredo uma verdade oficial junto da família. Com o irmão de Nadia, Omar e mais um amigo atacam uma noite um posto de vigilância israelita e, depois de detido, torturado e sob ameaça, Omar torna-se involuntário informador. Estar com um dos lados pode por ali ser em alguns casos traição para o outro (como em breve veremos em Belém). Mas estar – mesmo que forçado - com os dois é um fardo destrutivo sob o qual o presente de Omar se passa a desenhar.

Com o quotidiano dos territórios ocupados por cenário que se mostra filtro, sem poupar inclusivamente um olhar crítico sobre o autoritarismo e abusos de poder de quem o exerce, Omar opta contudo por, tal como se viu em Out in The Dark, não perder nunca a dimensão da história pessoal. É assim, e na essência, e sem nunca voltar as costas aos episódios de medo e violência que habitam o cenário e as vidas dos que ali acompanhamos, um filme sobre o amor.

Para ouvir:
Moby assina versão de 'Rio' dos Duran Duran



Esta é a contribuição de Moby para Making Patterns Rhyme, novo tributo aos Duran Duran a editar ainda este mês e cujos fundos recolhidos reverterão a favor da Amnistia Internacional.

"O Mascarilha" em Blu-ray

É um dos mais brilhantes, sofisticados e inteligentes "blockbusters" dos últimos anos. Penalizado por uma má carreira nos EUA (e também, há que dizê-lo, por alguma imprensa que só reage aos números de bilheteiras...), The Lone Ranger/O Mascarilha (2013), de Gore Verbinski, aí está numa magnífica edição em Blu-ray, integrando alguns extras bem sugestivos sobre as atribulações físicas de regressar ao deserto para, num misto de paixão e ironia, recriar as velhas glórias do Oeste.
Armie Hammer compõe um elegante Mascarilha, enquanto Johnny Depp, no papel do fiel índio Tonto, se excede na capacidade de transfiguração burlesca — em resumo, um filme realmente fiel ao património popular de Hollywood, marginalizado por um contexto em que a visão tecnocrática e simplista dos "efeitos especiais" é mais forte que a inteligência narrativa.

quinta-feira, Julho 24, 2014

Thomas Berger (1924 - 2014)

Romancista e dramaturgo, o americano Thomas Berger faleceu em Nyack, Nova Iorque, no dia 13 de Julho, uma semana antes da data em que completaria 90 anos de idade.
De uma versatilidade invulgar, Berger experimentou os mais variados géneros, desde a aventura à ficção científica, passando pelas histórias de detectives. Um dos seus livros mais famosos, O Pequeno Grande Homem (1964), revisão crítica das memórias do velho Oeste, deu origem a um dos mais notáveis westerns da era "revisionista", com o mesmo título, dirigido por Arthur Penn em 1970 e protagonizado por Dustin Hoffman [clip extraído do TCM].


Entre os seus livros mais importantes incluem-se ainda Arthur Rex: A Legendary Novel (1978), Neighbors (1980) — versão cinematográfica: Mas que Vizinhos (1981), de John G. Avildsen, com John Belushi e Dan Aykroyd — e The Feud (1983), com a qual foi finalista (vencido) do Pulitzer de 1984.

>>> Obituário no New York Times.

Ver + ouvir:
Lykke Li, Gunshot



Mais um teledisco para um tema do álbum editado este ano. A realização tem assinatura Fleur & Manu.

Novas edições:
La Roux

"Trouble in Paradise"
Universal
2 / 5

No começo eram um duo. E depois de um promissor single de estreia em 2008, o álbum La Roux foi mesmo uma das mais apetitosas revelações pop de 2009. Mas o tempo passou e um segundo episódio tardava a aparecer. Até que surgiram notícias de problemas de ansiedade e inclusivamente de um desentendimento entre a cantautora Elly Jackson e o produtor Ben Langmaid que terá ditado a sua saída. Agora La Roux é só mesmo Elly Jacskon. E o seu segundo álbum deixa claro que, mesmo com muito ainda em comum, a música procura agora juntar outras demandas. Entre canções como Bulletproof, Quicksand ou I’m Not Your Toy, três dos quatro singles extraídos do alinhamento do álbum de estreia, revelava-se uma escrita sobretudo influenciada pela pop electrónica da alvorada dos anos 80, nas marcas bem características do registo vocal (usando por vezes o falsete) afirmando-se a sonoridade que a fez notar entre os que naquela mesma altura também emergiam como novos talentos sob atenções generalizadas. Ainda com forte presença de Ben Langmaid na escrita, Trouble in Paradise deu-se a conhecer a partir de finais de maio com um primeiro single que cruzava memórias white funk com uma pop ainda visivelmente vitaminada por referências dos oitentas. O resto do alinhamento mostra que é ainda por esses tempos que Elly procura referências, mas desta vez mais perto de uma Grace Jones, umas Bananarama e o apelo do verão e não tanto a synth pop mais tensa de uns OMD ou Eurythmics de que o álbum de estreia estava mais próximo. O sabor fresco da novidade arrefeceu após um silêncio de cinco anos. E até mesmo os muitos prémios (entre eles um Grammy – para Melhor Álbum de Dança - em 2011) e nomeações são já memória distante, cabendo por isso às canções o músculo para tentar levar Elly Jackson de volta ao patamar de aclamação que já conheceu. O novo lote de canções, contudo, não é do mesmo calibre.

PS. Este texto é uma versão editada de um outro publicado na edição de 23 de julho do DN

Quando os símios se revelam afinal...
tão iguais aos seres humanos


A coisa agora chama-se reboot... Que é como quem diz, desligar e começar de novo. E convenhamos que, nos dois exemplos mais significativos em que o “reboot” operou sobre velhos franchises, os resultados foram cinematografica e comercialmente bem sucedidos. Um desses exemplos surgiu no universo Star Trek, do qual os dois mais recentes filmes de J.J. Abrams (que correspondem ao reboot) representam alguns dos melhores episódios da vida da saga no grande ecrã. Em 2011 o mesmo aconteceu com O Planeta dos Macacos (espaço que dez anos antes tinha sido visitado por um dos piores títulos da filmografia de Tim Burton). A ideia foi a de encontrar um início possível para a história. Uma narrativa que ligasse o mundo que conhecemos a um outro, dominado por símios inteligentes. Um começo que, sublinhe-se, rompe com algumas das ideias nas quais assentam tanto o livro de 1963 de Pierre Boulle como o filme de Franklin J. Schaffner, já que no primeiro estamos, na verdade (e basta ler o twist final) num mundo distante perto da estrela Betelgeuse e, no segundo, viajámos a um futuro longínquo.

Em Planeta dos Macacos: A Origem, encontrávamos um mundo presente, no qual é de um projeto científico que procura a cura do Alzheimer que surge um vírus que acaba por gerar o caos (e potenciar a conquista da inteligência, inclusivamente da fala, pelos símios). Guardados em laboratórios e jaulas de jardins zoológicos, alguns deles guardam ressentimentos contra a humanidade. As sementes do ódio, afinal, não são apenas coisa humana.

É nesse ponto que o novo filme apanha a narrativa, acrescentando uma mão-cheia de acontecimentos que não fogem a essa mesma maneira tão humana de pensar a relação com os outros. Planeta dos Macacos: A Revolta regressa a São Francisco, dez anos depois. A humanidade foi praticamente dizimada pelo vírus e a cidade californiana é uma pequena comunidade de sobreviventes com imunidade ao vírus. Com vitaminas de cinema de aventuras, o filme (realizado por Matt Reeves) tem como gancho narrativo a tentativa de reativação de uma barragem que está do outro lado da Golden Gate, em território controlado pelos símios. As suspeitas de parte a parte, os preconceitos (sobretudo os de uma antiga cobaia de laboratório) não ajudam o jogo de pesos entre a guerra e a diplomacia. Quem ganha?

Ao contrário das sequelas que se seguiram ao belíssimo filme de 1968, e longe dos caminhos explorados por Tim Burton em 2001, este segundo título da nova série volta a assentar sobre uma preocupação de uma certa verosimilhança científica. A exploração das afinidades de comportamentos entre humanos e símios são, contudo, a alma que corre pelo tutano de um filme que nos deixa a pensar sobre quem somos.

Para ouvir:
'A Man From The Future' dos Pet Shop Boys
nos Proms, em emissão da BBC

Uma das estreias do ano, sem dúvida: A Man From The Future, uma biografia musical de Alan Turing pelos Pet Shop Boys, estreada no quadro da programação de 2014 dos Proms. É um musical para orquestra, eletrónicas, coro e narração. O programa, apresentado na noite passada no Royal Albert Hall, incluiu ainda a interpretação, pela orquestra, da abertura de Performance, e quatro canções dos Pet Shop Boys, com novos arranjos orquestrais de Angelo Badalamenti, na voz de Chrissie Hynde (sendo que a ela se juntou Neil Tennant em Rent).

Podem ouvir aqui a gravação deste Prom 8, tal e qual a BBC Radio 3 a transmitiu ontem, em direto.

Para ler: Duran Duran processam empresa
que gere o clube de fãs

Nada como fazer jornalismo contado os factos como eles são e não usando títulos para efeito de choque e, depois, a ler, a coisa afinal não é bem assim. Os Duran Duran processaram a companhia que gere o seu clube de fãs. Não o clube de fãs exatamente (que não é mais como os que, nos oitentas, eram mesmo feitos por fãs), mas quem o geria empresarialmente. A notícia dá que pensar sobretudo no que são hoje os clubes de fãs. Não mais um espaço de reunião de gente com uma paixão partilhada, pelos vistos...

Podem ler aqui a notícia, na Spin.

Novo filme de Manoel de Oliveira
passa fora de competição em Veneza


A curta-metragem O Velho do Restelo, de Manoel de Oliveira, seleccionada para passar fora de competição a 71ª edição do Festival de Cinema Veneza, que decorre os dias 27 de agosto e 6 de Setembro de 2014. O elenco inclui os atores Luís Miguel Cintra (Camões), Ricardo Trepa (Dom Quixote), Diogo Dória (Teixeira de Pascoaes) e Mário Barroso (Camilo Castelo Branco). Na equipa técnica surgem Renato Berta na fotografia, Henri Maïkoff no som, Christian Marti na decoração, Adelaide Trêpa no guarda-roupa e Valérie Loiseleux na montagem. O filme é uma produção da O Som e a Fúria em co-produção com a Distribuidora Francesa Epicentre Films.

Segundo nota da produtora, a sinopse fala de "um mergulho livre e sem esperança na História tal qual como a conhecemos, como um sedimento fértil, na memória de Manoel de Oliveira. Oliveira reúne num banco do século XXI Dom Quixote, o poeta Luís Vaz de Camões e os escritores Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco. Juntos, levados pelos movimentos telúricos do pensamento, eles deambulam entre o passado e o presente, derrotas e glórias, vacuidade e alienação, em busca da inacessível estrela".


O filme de Manoel de Oliveira integra a programação da edição 2014 do festival, cuja programação foi anunciada esta manhã. Birdman, o novo filme de Alejandro G. Iñárritu, terá honras de abertura do festival. Thelma Schoonmaker e Frederick Wiseman receberão o Leão de Ouro honorífico pelo trabalho da sua obra.

Vejam aqui a lista dos 21 filmes restaurados que o festival vai apresentar.
Aqui podem ler sobre o filme de Iñárritu.
E aqui sobre os prémios carreira.


Locke, Violette, Omar e Ida

Agata Trzebuchowska, IDA
Quando é que uma personagem fala na primeira pessoa? Ou melhor: num filme, o que significa falar na primeira pessoa? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (21 Julho), com o título 'Histórias na primeira pessoa'.

Vale a pena referir que, no espaço de poucas semanas, foram lançados nas salas portuguesas quatro filmes interessantíssimos, de origens bem diversas, que, para além das suas diferenças temáticas e estéticas, partilham um princípio de identificação: os seus títulos fazem-se com o nome da personagem central.
Assim, Locke (Steven Knight, Grã-Bretanha) desenha o retrato, “em directo”, de um homem que vê desmoronar-se a sua vida conjugal e profissional; Violette (Martin Provost, França) evoca as atribulações emocionais e literárias da escritora Violette Leduc; Omar (Hany Abu-Assad, Palestina) encena a aliança trágica de um jovem palestiniano e um elemento dos serviços secretos israelitas; enfim, Ida (Pawel Pawlikowski) revisita, a partir dos anos 60, as memórias cruéis de uma família de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
Dir-se-ia que o cinema resiste, assim, a qualquer efeito normativo de tratamento das personagens, impedindo-as de se dissiparem em “símbolos” mais ou menos universais que, não poucas vezes, tendem a escamotear as singularidades das histórias individuais. O que, assim, se joga é algo que o imaginário televisivo tende a recalcar, mascarando o labor específico de qualquer linguagem narrativa enquanto linguagem de (e para) uma determinada visão do mundo.
Curiosamente, outro filme recente — Na Terceira Pessoa, de Paul Haggis — desenvolve-se a partir do próprio jogo de espelhos, ambíguo, potencialmente infinito, entre a criação de uma personagem e o modo como nela, e através dela, se exprime a vontade (ou a resistência) do seu criador. O título alude, justamente, ao facto de um escritor, ao escrever histórias “na terceira pessoa”, estar sempre a relançar a presença mais ou menos detectável, mais ou menos consciente, do seu “eu”.
O caso do filme Ida envolve uma perturbação muito particular. Através da sua personagem, interpretada pela magnífica Agata Trzebuchowska, o realizador expõe a memória da aniquilação dos judeus pela máquina de guerra nazi a partir de uma história tão minimalista que, em boa verdade, nem a sua protagonista sabe situar. Em sentido literal: Ida é aquela que quer saber como é que os seus pais foram mortos e, mais do que isso, onde estão as respectivas sepulturas.
O filme de Pawlikowski ilustra uma tendência transversal a várias cinematografias: trata-se de continuar a contar histórias da Segunda Guerra Mundial, mas à margem das matrizes do tradicional “filme de guerra” (outro exemplo será Lore, também um título/personagem, produção de 2012 dirigida pela australiana Cate Shortland). Que tal aconteça através de imagens a preto e branco, eis o que talvez possa ser interpretado como uma dupla prova de resistência: por um lado, importa recusar as facilidades do “naturalismo” mediático do nosso presente; por outro lado, procura-se um realismo seco e primitivo, fiel a uma sensibilidade clássica.

quarta-feira, Julho 23, 2014

James Garner (1928 - 2014)

Figura muito popular do cinema e da televisão americana, o actor James Garner faleceu de causas naturais em sua casa, em Los Angeles, no dia 19 de Julho — contava 86 anos.
A série televisiva Maverick (1957-62), uma variação bem humorada dos clássicos westerns, terá sido a referência mais popular na carreira de Garner, emprestando-lhe a imagem de marca de cowboy elegante, mais ou menos irónico — viria, aliás, a protagonizar a respectiva versão cinematográfica, em 1994, contracenando com Mel Gibson e Jodie Foster, sob a direcção de Richard Donner.


A comédia dramática O Romance de Murphy (1985), de Martin Ritt, valeu-lhe uma nomeação para o Oscar de melhor actor. Num registo ligeiro, aparentemente sem esforço, Garner foi uma encarnação exemplar do herói pragmático ou, em termos de simbologia social, do cidadão médio. Vimo-lo, por exemplo, em sucessos como A Grande Evasão (1963), de John Sturges, Grande Prémio (1966), de John Frankenheimer, Detective em Acção (1969), de Paul Bogart, Victor/Victoria (1982), de Blake Edwards, ou Space Cowboys (2000), de Clint Eastwood. Publicou a autobiografia The Garner Files: A Memoir em 2011.

>>> Obituário no New York Times.

Brody Dalle, para além do cliché

É um cliché do punk: o intérprete vai sendo alvo dos mais diversos detritos, tintas, poeiras e seus derivados... e nasce uma personagem de teledisco. No caso de Brody Dalle, é tudo tão descarnado e genuíno, tão puro e visceral, dir-se-ia que o cliché só surgiu depois dela — começámos por descobrir a versão ao vivo, aqui está Don't Mess With Me em teledisco.

Ver + ouvir:
Spoon, Inside Out



Uma das canções do novo disco. O teledisco junta uma série de imagens de Todd Baxter, montadas e manipuladas por Mau Morgó.

Novas edições:
Herbert

“Part 6”
Accidental
4 / 5

Talvez não viva no centro mediático das atenções, mas Herbert é um nome que a história um dia recordará como uma figura marcante do nosso tempo. O seu trabalho tem procurado transcender fronteiras de género, desafiar formas e linguagens e pela sua discografia (editada sob vários nomes e impossível de dissociar também dos muitos em cujos discos já colaborou) encontramos títulos tão aclamados como o histórico Bodily Functions ou tão (ainda) quase desconhecidos, como sucedeu com a sua intrigante abordagem a Mahler no volume que assinou para a série Re-Composed da Deutsche Grammophon. Em 2013 uma extensa caixa antológica arrumava episódios anteriores da sua obra. Já este ano estreou em Londres a sua primeira ópera – The Crackle, baseada na lenda de Fausto. Agora apresenta um breve mergulho entre heranças do seu próprio passado, ao compor um EP de quatro temas que serve de sequela a uma série que originalmente apresentou nos anos 90. Sob o título Part 6, o novo EP é um pequeno monumento de travo retro, recuperando um relacionamento com ecos da house e de uma construção musical assente numa arquitetura ritmicamente bem estruturada, encontrando as composições espaço para a afirmação não apenas de cenografias que se desenham com colagens de acontecimentos sonoros ou até mesmo revisitando o território da canção, como escutamos em One Two Three, que abre o alinhamento. O disco, que passa ainda por heranças do acid house no tema que encerra o lado B, apresenta ainda dois novos exemplos de um trabalho de construção de estruturas através da utilização de elementos vocais que as electrónicas tomam como peças de jogos a que a composição dá bom destino. Desta vez Herbert não procura inventar nada de novo. Apenas dá quatro passos em terreno que já conhece. Mas aqui mostra como sabe do que fala...

Três meses, três discos (clássica)


Continuando a revisitar o que de melhor surgiu no segundo trimestre de 2014, passamos hoje pelos espaços da música clássica. Na verdade o que temos aqui são até obras do século XXI e um olhar por um nome do século XX que vale a pena conhecer melhor. Do nosso presente chega-nos Retrospective, uma caixa que junta em quatro discos a obra editada de Max Richter entre a sua estreia em Memoryhouse (2001) e a mais recente criação para a série Re-Composed da Deutsche Grammophon. Também bem recente é La Commedia, a mais recente ópera do compositor holandês Louis Andriessen, que resulta de uma colaboração com o cineasta Hal Hartley. Do século XX devemos assinalar um disco onde Gidon Kremer recupera uma série de peças de música de câmara e uma das sinfonias do compositor russo (de berço polaco) Mieczyslaw Weinebrg.

Das edições deste trimestre assinalem-se ainda novas gravações de City Noir, de John Adams e de The Sinking of The Titanic, de Gavin Bryars, assim como a estreia em disco de Richard Reed Parry, músico que muitos conhecerão mais do seu trabalho nos Arcade Fire.

Para ouvir: mais um tema dos Tweedy



Dupla de pai e filho, os Tweedy, apresentam mais um tema do seu álbum de estreia (que chega em setembro). A coisa promete mesmo...

Para ler: I Guerra Mundial
num documentário interativo

A edição online do Guardian apresenta hoje um documentário interativo que nos permite conhecer o que foi o grande conflito militar que ecoldiu há 100 anos.

Podem ler e ver aqui.

'House of Cards':
nos bastidores da política (3)

Esta é a segunda parte de um artigo que publiquei recentemente nas páginas do suplemento Q., do DN, sobre a edição em DVD da série House of Cards. 

Beau Willimon conseguiu transportar a essência de uma ideia de jogos de bastidores do Parlamento Britânico para os espaços do Congresso em Washington D.C. E é aí que centra uma narrativa que tem por centro de gravidade a figura de Frank Underwood (Kevin Spacey) e a ele junta, entre outros, a presença da sua mulher, Claire Underwood (interpretada por Robin Wright, que veste a pele da chefe de uma ONG e que navega nos meandros do poder com a mesma ginástica e saber do marido), uma jornalista (interpretada por Kate Mara e cujo papel revela uma figura-peão manipulada por Frank, que assim tem uma voz garantida nos media), um congressista com um problema de consumo de drogas (Corey Stall) e que acaba também como peão do protagonista ou um lobista (Mahershala Ali) que se comporta em função dos interesses daqueles que representa no momento... Frank é quem joga. Os que o rodeiam são as peças que move num tabuleiro que procura controlar, mesmo sabendo que aqui ou ali poderá perder uma peça ou mesmo batalha... Porque há eventualmente ganhos adiante. O jogo, esse, é quase sempre sujo. Mas apresentado com educação e cortesia. E uma dose valente de sarcasmo, sobretudo nos frequentes momentos em que a personagem interpretada por Kevin Spacey rompe a quarta parede, enfrenta a câmara e, olhos nos olhos com o espectador, comenta para quem está em casa o que sabe que não pode dizer às personagens que tem a seu lado ali mesmo, onde decorre a ação.

Apesar de algumas comparações que foram já traçadas entre a série e memórias de algumas das mais elaboradas tramas de Shakespeare, House of Cards é todavia um produto do presente e um fruto de um tempo em que a cultura televisiva fez dos espaços e dos protagonistas da política figuras e lugares que entram no nosso dia a dia ao premir de um botão.

Numa crítica publicada pela New Yorker em fevereiro de 2013 (quando o Netflix lançou toda a primeira série), Emily Nussbaum comentava que House of Cards era, na essência, “uma meditação sobre a amoralidade que nos diz acima de tudo o que já sabíamos”. As palavras de Barack Obama suavizam contudo o cenário ao estabelecer uma fronteira entre a ficção e a realidade quando nota que a “eficiência” de Underwood não corresponderá eventualmente ao que sucede nos bastidores da política. O sentido de realismo procurado pela série tenta todavia esbater essa linha de fronteira, que chega num tempo de desencanto generalizado dos cidadãos com os políticos (que teve curioso fenómeno de exceção no modo como os americanos aderiram, sobretudo em 2008, à mensagem de “mudança” proclamada pela primeira campanha de Obama). O gosto de cada um pelas teorias de conspiração que defina, agora, como nos podemos relacionar com a Washington D.C. de Frank Underwood. É mesmo assim?...

Herbie Hancock x 3

Greetings, Mr. H.
Os três prodigiosos álbuns que Herbie Hancock gravou para a Warner voltam a estar disponíveis, agora numa compilação intitulada The Warner Bros. Years (1969-1972).
São eles:
FAT ALBERTA ROTUNDA (1969)
Mwandishi (1971)
Crossings (1972)
Era uma época balizada, por assim dizer, pelas experiências do próprio Hancock, atraídas pelos domínios da electrónica — ouça-se a banda sonora que compôs para o filme Blow Up (1966), de Michelangelo Antonioni [trailer] — e a referência tutelar de Bitches Brew (1970), de Miles Davis. Mwandishi, justamente, inauguraria uma trilogia de álbuns intensamente electrónicos, prolongada por Crossings (1972) e encerrada com Sextant (1973), este já com a etiqueta Columbia.


Vale a pena referir que, em 1974, de novo sistematizando um novo paradigma, Miles lançaria o genial Get Up with It, coligindo gravações de 1970-74, e definitivamente afastando-se dos que o acusavam de infidelidade às raízes mais "sérias" do jazz. Eis um tema desse álbum, Red China Blues, num video criado David Duchow, disponível no YouTube.


Os músicos que vieram a partilhar esta aventura de Hancock — Buster Williams (contrabaixo), Billy Hart (bateria), Eddie Henderson (trompete), Julian Priester (trombone) e Bennie Maupin (saxofone) — ficaram mesmo conhecidos como o sexteto Mwandishi, depois um septeto, com a integração de Patrick Gleeson nos sintetizadores, incluindo a respectiva programação. São momentos singulares e fascinantes da história do jazz, desde já no top das antologias lançadas em 2014.
Eis o sexteto Mwandishi num registo da televisão francesa, de 1972, interpretando Sleeping Giant, tema de abertura de Crossings, aqui numa versão de 12 minutos, cerca de metade da duração da faixa original.


>>> Site oficial de Herbie Hancock.

terça-feira, Julho 22, 2014

Stallone & Cª.

Digamos, para simplificar, que a próxima estreia de Os Mercenários 3 (título original: The Expendables 3), marcada para 14 de Agosto, não será um dos acontecimentos mais aguardados do Verão cinematográfico... Os dois primeiros títulos desta saga com que Sylvester Stallone insiste em reciclar os restos de "Rambo & Cª." deixaram as nossas expectativas francamente abaixo de zero (tornando claro que a energia dramática dos tempos do primeiro Rocky, em 1976, já só existe no plano da mais ténue nostalgia). O certo é que os elencos reunidos continuam a surpreender, como se, num misto de desespero e ironia, assistíssemos ao envolvimento solidário de actores que foram perdendo o seu lugar na lista "A" de Hollywood — desta vez, além de Stallone, encontramos Antonio Banderas, Mel Gibson, Harrison Ford e Arnold Schwarzenegger.
Daí que valha a pena registar a curiosa exuberância com que tais figuras se expõem nos cartazes do filme. Dir-se-ia que estamos perante uma colecção de cromos. No duplo sentido que a palavra tende a suscitar: por um lado, apresentando-se como elementos de uma colecção cuja valor de troca o tempo esvaziou; por outro lado, aceitando que a pose "natural" que tentam manter se confunde com a mais cruel das caricaturas.

O apocalipse segundo Terry Gilliam

Terry Gilliam continua a falar de mundos futuros, habitados pelos fantasmas da tecnologia... Ou será apenas o nosso presente? — este texto foi publicado no Diário de Notícias (18 Julho), com o título 'O museu do apocalipse'.

Qohen Leth, figura central de O Teorema Zero, é um especialista em computadores a viver num mundo construído à imagem do “Big Brother” (não o horror televisivo do nosso presente, entenda-se, mas o futuro que George Orwell consagrou como padrão dos fantasmas de todas as evoluções tecnológicas). E se é verdade que os seus dotes lhe permitem enfrentar as mais delirantes configurações informáticas, não é menos verdade que há nele uma angústia radical: cada vez que o telefone toca, Leth espera que alguém, finalmente, o esclareça sobre... o sentido da vida!
Terry Gilliam
A simpatia que nutrimos pelo realizador de O Teorema Zero talvez nos leve a dizer que estamos perante mais um típico delírio cinematográfico com assinatura de Terry Gilliam (já agora, a meu ver, francamente mais interessante que os seus títulos mais famosos como Brazil ou 12 Macacos, respectivamente de 1985 e 1995). Assim será, mas com uma diferença que importa sublinhar. É uma diferença conceptual: a proliferação de ecrãs, a vida comandada pelos gadgets da tecnologia ou as relações humanas substituídas pelos links virtuais, tudo isso, sendo bizarramente futurista, não deixa de pertencer ao nosso presente.
O modo como o notável Christoph Waltz [foto em cima] compõe a personagem de Leth é revelador: descobrimo-lo como um anti-herói de um mundo cada vez mais desumanizado, ao mesmo tempo exibindo o anacronismo simbólico de um monge medieval obrigado a evoluir numa paisagem em que Deus teima em remeter-se a um pesado silêncio. Aliás, por alguma razão, Gilliam coloca-o a viver num espaço que tem tanto de igreja abandonada pelos fiéis como de museu fundido com a própria ideia de apocalipse. Dito de outro modo: o fulgor visionário de O Teorema Zero nasce da discussão das imagens e dos seus peculiares poderes.

Ver + ouvir:
Royksopp + Robyn, Do it Again



Depois do lyric video, finalmente um teledisco para o tema central do disco criado em colaboração entre os Royksopp e Robyn.

Três meses, três filmes


Continuando a fazer um balanço do segundo trimestre de 2014, hoje passamos pelos ecrãs de cinema. Entre os filmes que vi em sala merecem claro destaque Only Lovers Left Alive, espantoso olhar sobre um casal de outsiders (que escapa em tudo aos clichés dos "filmes de vampiros") por Jim Jarmusch (e belíssimo curto elenco onde se destaca Tilda Swinton) e para Tom na Quinta, filme que mostra como, depois do monumental Lawrence Anyways, Xavier Dolan usou pouco para fazer muito naquela que é a sua melhor longa-metragem já mostrada entre nós. Entre os festivais de cinema merece clara chamada de atenção o espantoso Stand Clear of The Closing Doors, de Sam Fleischner, a história de um rapaz autista perdido no metro de Nova Iorque que foi exibida na edição deste ano do IndieLisboa.

Entre o melhor cinema visto em sala entre abril e junho de 2014 vale a pena apontar ainda títulos como Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson, O Acto de Matar de Joshua Oppenheimer e Mistaken For Strangers, de Tom Beringer. Da colheita do IndieLisboa há que não esquecer ainda Mouton, de Gilles Deroo e Marianne Pistone.